terça-feira, 11 de dezembro de 2012

Um HIV para se gostar

Poucas doenças condenaram seus possuidores ao estigma social na amplitude em que a AIDS fez. Nos anos 80 e boa parte dos 90, o “positivo” no teste para sorologia do HIV era não apenas uma sentença de morte, mas a certeza de uma execração pública. Pesava sobre o/a infectado (a) uma condenação moral além de uma bomba-relógio viral.

Para os gays, então, isso foi gravíssimo. Os anos 70 representaram uma época de liberação sexual, de luta contra os preconceitos, momentos no qual começaram a se criar as condições sociais para uma imagem pública positiva dos indivíduos que amavam e/ ou fodiam com outros do mesmo sexo. Os primeiros casos de AIDS reavivaram toda a onda moralista que parecia dar seus primeiros sinais de arrefecimento. Na boca e na escrita de muitos, a doença representava o acerto de contas de deus, da biologia contra os usos anti-naturais e, por isso, sacrílegos dos corpos.

É bem verdade que o advento da epidemia forçou uma série de debates e popularizou a discussão sobre práticas sexuais que antes permaneciam escondidas, marginais, trazendo-as dos guetos e camas “dos pederastas” para as principais arenas da opinião pública e fóruns governamentais.

Já faz alguns anos que, apesar de condição crônica de saúde, ser soropositivo deixou de ser uma sentença de morte. Com a dissolução lenta da ideia de “grupos de risco” para a infecção, pela democrática tragédia da contaminação sem preferências, também já não se associa a AIDS como alguma espécie de “peste gay”. Mas nada tinha surgido até agora que inocentasse o HIV.

No meio da dor de tantas vidas injustamente ceifadas por “ele”, talentos podados no auge, ânsias corajosas de vida e tesão esmagados sobre um vírus odioso travestido de moral divina, o HIV ainda era o símbolo, unidos a tantos outros, do absurdo da existência. Absurda existência que se dobra e finda ante uma partícula mínima e irracional que, no entanto, impacta e deforma as tramas do poder intelectual, das histórias de amor interrompidas, a explosão de sensibilidades para sempre não realizadas.

E, como diante de todo imponderável na vida, a gente se cala e espera, numa fé cega, suspensa no vácuo de todo sentido, que algo nasça dali. Muitos viram alguma luz, compreenderam a contingência, a finitude, a morte como um grito à vida, ao momento, ao instante que é precioso e se esvai.

Isso, no entanto é a redenção dos que pensam e sentem, dos vivos e mortos que tem “alma”, essa resiliente persistência no sentido das coisas. Não era, no entanto, a redenção do vírus. Para o HIV não havia salvação. Até hoje, quando, de manhã, li a notícia. Pacientes desenganados de leucemia que vem respondendo de maneira excelente ao tratamento pela introdução de HIV desativado, o que faz com que o sistema imunológico produza um tipo específico de células competentes para o combate ao câncer.

Emoção. Fiquei pensando, no quanto a gente, homens e mulheres, desde sempre, inventamos o mundo, reinventamos tudo, desafiando a natureza, todos os deuses para continuar vivos e transmitir aos que chegarão uma vida melhor, com mais recursos. O quanto na breve saga humana sobre esta terra, apesar de todas as misérias e abominações, há também tanto de beleza, persistência e criatividade. Somos humanos, na fragilidade de nossas condições e na grandeza de nosso desejo.

Finalmente um HIV para se gostar.

quarta-feira, 8 de agosto de 2012

O Eterno e o Fátuo

Carregou sua melhor arma. Tirou o cigarro da boca, mirou, meio de lado, e jogando aquele olharzinho de desprezo, deixou a fumaça sair em grandes círculos. Tinha visto num filme, Marlene Dietrich ou Rita Hayworth, coisa assim.

Mas a vítima, ao invés de cair fulminada no chão, àquela hora, grudento da boate, sorriu e deu de ombros. Não pôde deixar de sorrir também. E assim foram vencidas distâncias, trocados nomes, profissões, bandas preferidas. Júlio bebia cerveja, Carlos só vodka e pura. Júlio nunca tinha experimentado, uma ou outra caipvodka, mas não pura e achou intenso e forte o gosto nos lábios de Carlos.

A vodka quente em seus lábios, os braços em torno aos seus, um cheiro de suor e perfume que não se sabia mais de quem. Até que as luzes se acenderam, o carrossel mágico parou de girar e Carlos sabia, então, que o amor expirara. Etiqueta velha, prazo de validade marcado para as primeiras horas do novo dia, o primeiro pé pra fora nas calçadas do cotidiano.

E, no entanto, Júlio ligou, uma e outra vez. Até que Carlos respondeu, o fez só por lembrar o arco das sobrancelhas do outro levantando enquanto seu sorriso em covinhas surgia diante do olhar blasé, até então matador, de Carlos.

Cinema, show, praia, pizza. E nada de sexo. Uma espécie de sinal dos céus, porque nas raras vezes em que houve algum segundo e terceiro encontro, era sexo e nada de cinema, show, praia e pizza. E então, numa quinta-feira, 15h42, assim que Carlos chegou com o DVD prometido a Júlio, o beijo levou-os ao pescoço, este ao ouvido, se estendendo numa linha úmida até o mamilo esquerdo e desde lá, tudo se fez.

Foi quando os últimos raios de luz daquela quinta entraram míopes pela veneziana quase fechada, encontrando-os nus e sujos, de amor e porra, que Carlos soube: Era ele. Então toda a prudência sólida, a esperteza adquirida, as palavras quase naturais porque ditas à exaustão, as regras de sobrevivência no mundo cão dos amores cotidianos e fátuos se romperam e o que se julgava domesticado, desaparecido ou extinto emergiu, com a força que só a repressão insistente pode dar a um estímulo.

No breu do quarto, virou-se para dizer, mas as palavras de tão gastas se rasgaram antes que pudesse costurá-las em linda frase. Ali, bem próximo a si, aninhado a seu corpo, Júlio, no entanto, pareceu ter compreendido. Carlos não pode ver se sorria em covinhas, preencheu-lhe a boca em beijo urgente e demorado.

No outro dia, Carlos ligou. De novo.

No outro, também.

E no seguinte.

Fim

P.S. Blog ainda em férias!
P.S. 2: Essa postagem se deve única e exclusivamente: 1. À súbita inspiração. 2. À promessa do Sr. Fred de, se eu voltasse a postar, publicar uma foto sua de cueca. Promessa é dívida, estou esperando.

sexta-feira, 13 de julho de 2012

O Blog e o Blogayro


ATENÇAO! Este blog está de férias por tempo indeterminado

porque

O blogGAYro está ocupado pra caramba!

Cuidem-se e, à medida do possível, visito vocês...


Inté mais

quarta-feira, 27 de junho de 2012

Alguma coisa acontece... ou Sampa

Há muito que não ponho os meus pés cariocas em São Paulo. Para além de qualquer rixa provinciana, adoro nossa grande cidade brasileira. É engraçado vê-la por aí tratada como a megalópole cruel disposta a sugar a alma de qualquer um recém-chegado, reino de cimento e fumaça, capital do business. Porque, para mim, Sampa sempre foi uma experiência profundamente afetiva.

Ainda moleque, minha madrinha lá morava. Aquela tia das aparições mágicas: dos milhares de coelhinhos de chocolate na Páscoa, das idas à praia quando no Rio e de me levar pra qualquer lugar que eu quisesse nas raras vezes em que ia visitá-la em Sampa. E ainda ia de trem! Ficar acordado muito além da hora permitida, tomar uma coca-cola e um misto-quente no vagão-restaurante e quando cruzando a Serra do Mar, ver o céu mais estrelado de toda a minha vida até hoje.

Depois, um ano namorando um paulista apaixonado pela própria cidade. Tempos de padoca, Rua Augusta, Pedaço da Pizza e intensa programação de SESC. Sampa que despontava não só na lembrança dos meus afetos infantis, mas a louca São Paulo com suas nights incríveis e tardes mornas, onde ela própria parece descansar do zumzum de ser a maior do país e se deixa encantar em suas praças, museus e cafés.

Acho que no fundo, São Paulo é a hipóstase máxima do que é ser gente, pessoa, num tempo louco, corrido e grandioso como o nosso. Só chegará a sorrir pra Sampa quem gosta de gente, quem não tem medo da mistura louca de suas ruas, quem se sente também, em alguma medida, velho e novo, ultrapassado e “in”, o que sabe da meta mas não perdeu a sensibilidade do humano que perfaz a tudo na grande megalópole.

Fora que finalmente vou encontrar os queridos de Blogsville - sucursal São Paulo. E, então, matar a minha inveja dos encontrinhos deliciosos onde nunca pude estar. Aiai... definitivamente alguma coisa acontece no meu coração...

terça-feira, 19 de junho de 2012

Ser-ia

Sabe o que eu queria mesmo? Não precisar existir. Isso demanda cuidado, ações, pensar-se, planejar um futuro que nunca existe porque, sorrateiramente, se faz presente quando estamos ainda de calças na mão, de ferramenta em punho, sem mudar nada, só possíveis amanhãs.

Pensar-se, entender quem se é, o que se quer ser, traçar planos, eleger métodos, arranjar uma cara, um corte de cabelo, escolher uma vestimenta que combine com o seu plano infalível do dia. Existir como homem, branco, classe média, viado, pessoa bem-intencionada, metendo os pés pelas mãos. Responsável por tudo nessa coisa de existir até que a morte gratuita e imbecil me livre em algum ponto, espero eu longínquo, dessa mesma existência tão feita, tão trabalhada em incontáveis dimensões.

Se eu pudesse eu só ser-ia. Ser é o mudo oco do que já está, o crescido, o feito, o dado, todo particípio passado que fica por aí, se banhando ao sol, lagartixando à brisa da tarde, encostado em algum canto enquanto nós nos esforçamos sempre para descobrir os passos, ensaiando coreografias improvisadas, tentando advinhar o próximo movimento nessa coisa de última hora chamada vida .

Se eu pudesse, eu só ser-ia.

terça-feira, 12 de junho de 2012

Eu não gosto do Dia dos namorados

Acho uma bobagem só.

Um dia pra quem está namorando se lembrar de ser romântico, fazer coisas a dois que deixa em segundo ou terceiro plano no dia-a-dia da relação ou simplesmente poder se sentir um pouco melhor porque, apesar de tudo,não está sozinho, como tantos outros.

Um dia pra quem está solteiro, angustiar-se, entristecer-se e perguntar onde, quando, como, porque não deu certo ou, ao contrário, esbravejar aos quatro cantos o direito á solteirice, mostrar as inúmeras vantagens dessa e lutar contra a solteiricefobia de um mundo a dois onde parece que só se é alguém completo caso se estiver em par.

O meu amor eu celebro todo o dia e não preciso de data estipulada no calendário pra saber o quanto é bom acordar e dormir ao lado dele.

E acho uma bobagem essa idéia de que a gente precisa necessariamente de alguém romanticamente ligado a nós pra ser feliz. Paixão é ótimo, mas a vida vai além disso. Quando alguém pensa que se completará no outro, encontrará alívio e plenitude para tudo o que lhe falta na figura de um namorado(a) isso não se chama amor, baby, mas carência profunda.

Celebremos a vida.. a dois, a muitos, a sós... cada dia.

quarta-feira, 30 de maio de 2012

Cenas de um casamento

Cena 1

Terça, 21h44. Cozinha e área de serviço.

Eu: Môo, hoje não tem janta. Bora comer pizza?

Marido: Claro, Morzão.

Eu (já abrindo o congelador onde há 3 sabores de pizza): Cê quer de que?

Marido: Qualquer coisa. Escolhe aí.

(Tiro a opção 1 "Quatro queijos")

Marido: Ah não...

(Primeiro olhar - Aquele de canto de olho)

(Tiro a opção 2 - Frango com catupiry)

Marido: Ah, essa não...

(Olhar fulminante e bufada)

Eu: Tá me fazendo de palhaço é?!

Cena 2

Terça, meia-hora depois da cena 1. Sala de jantar

Marido: Vou comprar o óculos amanhã.

Eu: Humm... Escolhe um beeemmm bonito, Môo.

Marido: Pode deixar, eu tenho bom-gosto, afinal, casei com você.

Ôwnn...

quarta-feira, 23 de maio de 2012

Sentido

Eu fico fazendo uso dessas substâncias. Eu preciso delas. Então, o café forte e sem açúcar a toda hora, a cerveja gelada pra descontrair, o vinho bom, toque de poesia e aconchego em noites nem tão frias. Insisto em chocolate quando o desânimo se faz, no suor da corrida escorrendo pelas costas como antítodo anti-stress. Sentir, provar, cheirar, o amargo e o doce me laçam ao instante, ao mundo, sem que me abandone à bruma inodora, insípida, incolor que ronda, dentro e fora e que se chama acaso, cansaço e vida.

Eu beijo só porque é bom, me esmero em temperos e condimentos, invento combinações, uso perfumes. Olho fachadas, folhas de árvores, pessoas. Pra mentir sobre a solidão que sei comigo e é bem-vinda, pra descobrir no mundo cores que contrastem com o cinza da morte que se insinua em quase tudo, pra guardar na memória laranjas de sol poente em fins de tarde perfeitos. Antítodo, reserva, a vida só: sem pensamento, decisão, projeto.

O gáudio instante do quente da pele sob o sol, do redemoinho do cabelo ao vento, de um som qualquer que de longe vem. A memória sensorial e cheia de afeto por cheiros, cores, sons. Uma espécie de salvação pelos sentidos.

segunda-feira, 21 de maio de 2012

Os céus se abriram e eu entendi!

Eu achei que fosse fraqueza ou uma espécie idiota de ingenuidade. Lutei contra isso em mim como pude, reputando-o à causas ancestrais: carências profundas, ausências de pai, alguma fixação paranóica de uma psiché não suficientemente desenvolvida. Tudo inútil e, então, me aceitei: Sou um otimista.

Sempre achei muito mais justificativas no pessimismo. As coisas não tem porque dar certo. Se pararmos pra pensar em qualquer situação, são tantas as variáveis que permeiam a realização de um simples ato que a nossa vontade ou nosso esforço é apenas o motor de arranque de qualquer coisa que, ao longo de sua trajetória, se colidirá com mil outras possibilidades e interferências. Tentei praticar esse pessimismo “científico”, sem resultados. Adotei então um pessimismo mais light, quase um pseudo-vai-dar-merda que eu chamaria de pessimismo metodológico. Você, lá no fundo, acha que vai dar certo, mas se prepara para o pior sempre, quando esse acontece, você já sabe e senão acontece, se alegra com o milagre inesperado.

Além de tudo, o otimismo é brega. Frases da Xuxa, o Segredo narrado por Ana Maria Braga e títulos como “Você pode mudar sua vida e perder 40kg” não são um convite a aderir à visão cor-se-rosa do mundo. para alguém minimamente inteligente. Nada como o pessimismo dos existencialistas franceses, esmagados sobre o peso de dar um sentido à vida, em cafés parisienses cheios de fumaça e álcool. Ou a cena não é mais atraente do que o apogeu do otimismo com serelepes cantoras de axé rebolando em cima de trios elétricos? Ai! Como eu gostaria de ser pessimista... Quer dizer, isso até ontem às 17h45.

Por que ontem, andando na rua, pensando em alguma coisa urgente e inútil, uma espécie de revelação me ocorreu. O otimista é, na verdade, um forte. Quantas vezes o otimista não quebra a cara? Quantas vezes suas expectativas não foram frustradas, seus sonhos espizinhados, seus desejos feitos motivos de escárnio pela vadia escrota que é a vida? E, no entanto, o otimista se refaz, levanta-se e segue crendo. E isso... é de uma força! O frágil acredita só um pouco, só uma vez e, aí, se cerca de todos os cuidados, os mais necessários e também os mais absurdos, para não ser tocado de novo pela vida. Seu pessimismo é uma inútil proteção. O que chora, esperneia, mas levanta e segue acreditando é o forte. Viva o otimismo! Isso é claro, apesar da Xuxa e da Ana Maria Braga, obviamente.

sexta-feira, 18 de maio de 2012

Espartanos, por Foxx


Todos nós que temos um blog, sabemos das palavras. De uma forma ou outra, com paixão mais evidente por elas, ou num romance discreto, as amamos. A primeira razão porque mantemos um blog é a crença de que palavras são capazes de nos revelar, podem construir mundos onde a realidade é estreita, podem criar laços.

Um livro é, no entanto, a expressão máxima da adoração às palavras. E escrever um é... não sei. Me escapa completamente o que seja. Pressinto a importância de, em palavras, desenhar imagens, mover músculos, prender a atenção, deliciar alguém num virar de página. "Autor" carrega pra mim um que de bruxo, de malabarista de circo e de avó gorda e de óculos, claro, sempre numa cadeira de balanço.

Por isso quando soube que Foxx escreveu um livro, foi uma espécie de choque. Conheço seu talento em brandir palavras como se espada fosse: cortar a realidade, fazer sangrar o dia, expor as vísceras ocultas das opiniões comuns. Leio seu blog há tempos. Mas um livro é outra coisa. Vi a capa, li as primeiras páginas no site que o comercializa. Ainda preciso pegá-lo, tê-lo nas mãos, cheirar a capa. E claro, comê-lo.


O muito pouco que li até agora me diz de um evento longínquo que se faz cotidiano, de personagens que sou eu, você, o Foxx, e tantos outros mais. As incipientes emoções que começo a advinhar na vida desses espartanos são as que me movem, as que me marcam, me dão prazer e causam dor. Enfim, uma dádiva, uma fina iguaria a ser sorvida com calma e encantamento.

Gostou? Então vai lá e compra

quarta-feira, 16 de maio de 2012

Addicted

Deixou cair de suas mãos. Respirou fundo, espreguiçou-se como pôde largado ao sofá e parecia então que o bem-estar ia lhe tomando o corpo todo à medida em que o esticava. Ondas sucessivas de satisfação emanavam-se do peito à barriga, insinuavam um quase sorriso no rosto e coloriam o fim da tarde cinzenta de forma cálida e sutil.

Precisava daquilo. Experimentou num dia à toa, despreocupado e indiferente, por sugestão de amigos. Os mais interessantes faziam uso, alguns há tempos e estavam todos lá:lindos e felizes.

Pouco, muito pouco no início. Começou com o que havia em casa mesmo, depois o frisson da compra se tornou um plus delicioso, o início do barato. Daí, a necessidade de mais, vez por outra aquela espécie de êxtase. Uma vez mesmo no metrô. Parecia-lhe então que via para além das pessoas, por sobre as caras cansadas e as vidas óbvias, espaços infinitos, alturas impensáveis.

Se a vida era pouca, o dia ruim, o trabalho indigesto ou o amor só uma promessa vaga, fazia uso. Às vezes durante horas e tudo soava tão igual a princípio, porém melhor de uma forma difícil de explicar; como ali naquela tarde de feriado: cidade vazia, amigos em viagem e, no entanto, a mente cheia, fervilhante: graças ao uso, graças a ele: o livro.

quinta-feira, 10 de maio de 2012

do Indicativo

Presente. Quem diria que na resposta habitual à professora, estaria a chave do enigma?

Presente. Na rua, a folha se desprende num doce bailado e pousa no chão de minhas adoráveis pedras portuguesas.

Presente. O espreguiçar gostoso de um dia todo ainda por fazer, a ânsia imediata por café quente e forte e, ao meu lado, você, ainda entregue, sempre entregue: ao sono, à vida, à coragem necessária pra ser.

Presente. Na ausência dos que me são próximos. Na voz, escrita, num sinal que vem de longe, na lembrança de quanto os amo.

Presente. O trabalho feito, o corpo cansado, a ausência de foco.

Presente. Na tarde que cai quase incógnita entre os grandes prédios, furtada por insulfilmes mil, quieta em meio aos gritos das buzinas.

Presente a mim, a ti, e a este mundo louco e belo.

Presente, que seja, eu seja, que sejamos

segunda-feira, 7 de maio de 2012

Vivo e bem , na maior parte do tempo

Queridos e Queridas de Blogsville, Só pra dizer que tô bem, mesmo. Minha inspiração pra escrever aqui, muitas vezes, é o fino de um sentimento, algo que só se insinua e escapa. Mas eu agarro aquela sombra do quase-sentir e finjo que é o todo de mim. Palavras são uma hipérbole da verdade aqui nesse cantinho e eu sou um mentiroso, metido a poeta. P.S. Peguei um freela enorme... mas tô acabando. Já volto aos blogs queridos.

domingo, 6 de maio de 2012

...

A raspa, os restos de cristianismo em putrefação pendentes das arestas de mim, insistem em dizer que é aprendizado, ensaio pro que virá. Em meios às névoas e clarões sobressaltados de vida e morte cotidiana, insinua um sentido, o sentido. Mas eu não ouço. Calo-me bebendo. E na minha taça, o vinho espesso é também amargo. Finjo que só os fortes podem sorvê-lo, mas não. Sou frágil, quebradiço, natimorto nesse mundo de luzes infindáveis e pessoas que tudo sabem. Não adoço mais o viscoso líquido que desce agarrando-se à minha garganta, quase num sufocamento, mão rubra e densa enfiando-se por minha goela abaixo. Falta-me o ar, meus olhos enchem-se, um aperto lá, onde uma vez pulsou qualquer coisa de nome besta como "coração". E, no entanto, continuo. Vivo; só o novo morreu. A possibilidade de uma redenção qualquer, a fé em alguma forma de começo. Em minha mão, a taça. Outro gole.

quinta-feira, 26 de abril de 2012

Mel-ancolia

Névoa quase imperceptível enquanto se faz a vida no dia-a-dia. Apenas um sintoma bobo aqui e ali: certo pesar entre coisas tão cotidianas, um amargo no canto da boca, um "E se" quando o pensamento escapa da sua obrigação de dar conta das tarefas de sempre. Quando se é metido a pensador, a saber-se, logo escrutinamos todas as possibilidades para este sentimentozinho tão fino porém insistente. E com facilidade se acham razões muito boas. Explica-se a melancolia e então ela some... por um minuto ou dois. Espécie de sentido interno aflorado. Você se comporta como de costume, interage bem com as pessoas, mas tudo isto é experimentado como exterior, como camadas epidérmicas deste núcleo morno e pastoso que de fato se é. Uma dimensão para além do que se pode comunicar, que não se entrega ao pensamento lógico coerente, à solução mágica da causa-efeito. é o danado do sentir.

segunda-feira, 23 de abril de 2012

Curte aí

Goffman iria adorar o Facebook. Fico imaginando os 15 volumaços sobre o tema que iria escrever. A obra que, de fato, ele chegou a escrever, A representação do eu na vida cotidiana, versa sobre a interação social a partir de papéis simbólicos desempenhados pelas pessoas que interagem e que, em linhas gerais são determinados em suas possibilidades pela sociedade. Na relação cliente-empregado, marido-mulher as possibilidades de interação são dadas pelo estatuto da sociedade, do grupo social, da época em que tais papéis são desempenhados, cabendo aos indivíduos interpretá-los, mais ou menos conscientemente, a partir deste repertório disponível. No FB a gente só pode ser feliz. Esta semana duas queridas amigas postaram coisas que mereceriam um comentário animador e depois, um telefonema e um bom abraço real o quanto antes. Mas qual não foi minha surpresa ao ver que um monte de gente havia "curtido" aquele status?! "Estou mal", "A vida não vale a pena", se eu postar isto, as pessoas vão curtir?! O fato de só haver, pelo menos "oficialmente", um botão que não seja o "comentar/compartilhar" e que a função deste seja justamente "curtir" me parece uma mensagem bastante clara. Aqui é o reino das Happiest faces ever, por isto, esconda sua tristeza, vá cuidar de seus problemas sozinho, não incomode as pessoas com sua dor. Ficar triste, vez por outra, não é de bom tom, não é educado, as pessoas não precisam saber, mesmo que, graças a outro recurso do site, eu possa determinar quem lerá aquela minha publicação. O FB é o retrato fiel da nossa sociedade: Além de ser magro, lindo e loiro, há de se ser feliz, sempre. Tristeza é brega, uma coisa assim tão 1998. Vá dançar um pouco de axé, fazer uma comprinha ou ler um bom livro que te dê o segredo do universo e o sentido da vida por R$ 42,99. E viva o Fakebook! Curtiu?

sexta-feira, 20 de abril de 2012

Que delícia!

Descobrindo agora e A-DO-RAN-DO!! PoUvo querido de Blogsville excelente feriadão...

quinta-feira, 19 de abril de 2012

Numa esquina da Av. Rio Branco

Eu tinha a mais plácida certeza que mudei muito. As fotos antigas me mostram um garoto que se encontrou aí pela vida, de algumas das muitas formas nas quais é possível fazê-lo, mesmo em meio aos tropeções e trapalhadas do caminho e é claro, continua perdido de outras tantas formas, ainda que diferentes daquelas de antes.

Achei que este itinerário longo, conflituoso, mas também libertador, estivesse impresso na forma do meu maxilar, no contorno dos músculos, na distância entre meus olhos. De tal maneira que entre aquele garoto perdido e eu, restava apenas uma memória social, uma identidade exterior que me assegurava sermos, eu e ele, de fato, um só.

Ontem, porém, numa das avenidas mais insuportavelmente cheias de pedestres, na hora do almoço, me chamam. E o rosto me traz 20 anos num instante. Aquele papinho rápido de como está, o que faz, quem sabe um chope; e a pergunta pula: Como você me reconheceu? Acho que nem eu me reconheceria...
Ela achou graça e me disse que continuo o mesmo, sem óculos, de barba, mas o mesmo.
Eu olhei em seus olhos e sorri.
Ao retomar meu caminho, uma espécie de alegria estranha: a vida passando.

terça-feira, 17 de abril de 2012

Retrô

Relendo o blog me assusto: como se pode mudar tanto e não mudar nada. Há textos que ainda sou, outros uma encarnação qualquer que se desfez pelos dias, meses, anos até o "hoje". E há aqueles, meus ou não, que são palavra de salvação. Amén.

“E tem o seguinte, meus senhores: não vamos enlouquecer, nem nos matar, nem desistir. Pelo contrario: vamos ficar ótimos e incomodar bastante ainda"

"Não se preocupe, não vou tomar nenhuma medida drástica, a não ser continuar, tem coisa mais auto destrutiva do que insistir sem fé nenhuma? Ah, passa devagar a tua mão na minha cabeça, toca meu coração com teus dedos frios, eu tive tanto amor um dia."["Os sobreviventes" in Morangos mofados]

"E para que não doesse demais quando não era capaz de, apenas esperando, evitar o insuportável, fazia a si próprio perguntas como: se a vida é um circo, serei eu o palhaço?"

"Num deserto de almas também desertas, uma alma especial reconhece de imediato a outra." (Cartas)

quinta-feira, 12 de abril de 2012

Gênesis

Combinamos então que é agora?
Pronto. O dia um, a hora primeira e boa parte deste peso aqui no peito fica na pré-história, no caos primordial sem registro, nem memória. Decidimos que tudo está fresco, tinindo de novo, o mundo estreia e nós com ele.
O cansaço não existe porque ainda não é possível. Ele é o fruto de longos itinerários e nós aqui no primeiro passo, agora o segundo.
Arrependimentos, dúvidas, traços da nossa história agregados à pele, marcados em carne-viva por aí, sumiram.
Novo, o mundo te espera, se estreia tudo diante dos olhos maravilhados da primeira vez e a brisa da tarde se inaugura constante em seus cabelos.
"Bereshit" proclama a vida em seu frescor crepitante e nada é ainda amargo, velho nem triste. No horizonte infinito de possibilidades, "inventar-se" é a palavra, nesse nosso faz-de-conta tão sério.

sexta-feira, 6 de abril de 2012

O que está por trás (ui!) do Império Homossexual?

Os ataques dos políticos contrários ao PLC 122 são perigosos e risíveis. Fico me perguntando se alguém, de fato, concorda que há orquestrado um plano para a criação de um Império homossexual no Brasil. E para além do desgosto com estes tais políticos, na minha humilde posição de quase-sociólogo e gay, tento entender a lógica simbólica que sustenta tais devaneios.

A polêmica em torno da homossexualidade, todos os ódios e mobilizações que suscita me instiga; por que alguém se dá ao trabalho de agredir pessoas que nada tem a ver consigo em plena rua, por estarem de mãos dadas com outra? Pegar um carro, uma arma e no meio de uma madrugada escura e fria atirar numa travesti que nem se conhece, perdida num local ermo de uma rodovia brutal em qualquer saída de grande cidade do país?

Apesar de ridícula, a expressão usada pelo senador em questão nos dá uma pista. "Império" é um símbolo de poder; que para além da dimensão política pertence, ainda hoje, ao homem branco, de classe média, heterossexual. O poder simbólico de um mundo construído para ele, o poder de acessar como naturais e simplesmente dadas, todas as lógicas que governam as relações, todos os mecanismos que localizam um ser humano na cultura, na história, na sociedade. É para conservar o homem branco heterossexual de classe média no topo dos tipos sociais que existe a homofobia, o racismo e o machismo. Já chega o que se perdeu com a liberação feminina e a nova consciência negra. Além disto agora, não se poderá mais afirmar o privilégio da própria identidade a partir do viado desviante? Sobre o que se afirmar superior senão em relação ao mais fraco?

E aqui reside a astúcia atual na lógica discursiva heterocêntrica: negar o desnível social, o privilégio heterossexual. Todas as atitudes ridículas do "Dia do orgulho hétero", da denúncia do "império homossexual" partem da falácia de que as identidades hétero e homo se dão nas mesmas condições de igualdade. Se assim fosse, reconhecer legislações específicas para os gays, seria, de fato, privilégio, um plus em relação à identidade hetero. Mas o fato é que legislações se fazem necessárias justamente porque há um desnível social entre gays e héteros, uma redução absurda no acesso a recursos próprios da cidadania para os primeiros. Desenvolve-se políticas específicas para grupos no sentido de possibilitar a estes iguais condições em relação ao restante dos cidadãos, isto é próprio da democracia já que a igualdade de todos perante a lei não é algo de fato dado, mas um objetivo a ser conquistado, também pela política.

A mesma falsa ideologia da igualdade de condições como pressuposto é usada, por exemplo, para explicar porque certos setores da sociedade avançam e outros nãos, ou porque países se desenvolvem e outros permanecem miseráveis. Negar as posições específicas dos atores sociais em relação à possibilidade de acessar os recursos democráticos é criar a base para se enxergar em qualquer tentativa de inclusão gay na cidadania plena um privilégio e não uma reparação devida. Estejamos atentos.

quinta-feira, 29 de março de 2012

Das pequenas rebeliões

A vida anda tão corrida como quase sempre. Compromissos de trabalho e estudo se estendendo desaforadamente pelas sagradas horas de ócio; sábado já numa versão light de qualquer dia-feira. Mas eu tenho minhas pequenas rebeliões: no meio de tudo paro e leio um livro por puro gosto. Preparando uma aula sobre a ética em Aristóteles, vejo dois episódios de Smash. Aos sábados, troco o café por tequila, afinal não hei de me submeter assim tão fácil.

Foi por isso que ontem inventei uma tradição de séculos: O cinema das Quartas. Toda semana agora, desde há muito tempo, irei dar a escapadinha. A idéia passou por minha cabeça em meio ao nada que fiz no trabalho. E imediatamente um frisson começou a me percorrer. Quase a delícia de uma coisa poibida, ilícita. Não falei a ninguém, nenhuma palavra aos colegas de trabalho. Olhava-os e num sorrisinho quase indisfarçável:"Eu não sou quem voçês pensam, tá? Vou no cinema, há séculos, em plena quarta-feira".

Vi "Shame". O filme não é exatamente sobre compulsão sexual. É sobre a incapacidade de se comunicar, de estabelecer laços com os outros. Se o sexo é um sintoma, uma válvula de escape da situação, esta poderia se dar sob qualquer outra forma onde haja interação: o jogo ou a bebida, por exemplo. Há o perigo de se interpretar o filme de uma maneira moralista. Como se toda a pessoa com uma intensa vida sexual de múltiplos (as) parceiros (as) tivesse um sério problema psicológico. Como se a sanidade mental tivesse como corolário a vida monogâmiga e fiel. Eu acho que a pessoa pode dar mais que "chuchu na serra" (alguém me explica esta expressão?), não querer viver algo nem próximo de um "casamento" e, nem por isso, representar um caso patológico.

Gostei do filme. As cenas são fortes mas nada que não se tenha visto antes no cinema. Destaque para a trilha sonora que eleva os momentos de tensão e lança outra compreensão para as cenas de sexo, muito interessante. Ah... e o comentário de George Clooney no Oscar é real: Michael Fassbender pode jogar golfe, pelado, sem usar as mãos...

quarta-feira, 28 de março de 2012

Isto náo é um post

Hoje é um dos raros dias que eu não tenho absolutamente nada para fazer no trabalho, mas só devo sair daqui, pontualmente, às seis horas. Já li todos os blogs possíveis, passei pelos sites minimamente aceitáveis em horário de trabalho e ...ainda tenho três horas.

Por que não escrever? Já fiz muitos posts corridos, por inspiração súbita e compromissos mil agendados. Hoje que eu estou calmamente de frente para o computador...nada.

Pensei em escrever um pequeno conto, partilhar alguma experiência estética, uma mensagem profunda sobre a brevidade da vida, mas nada me vem.

Livros, filmes, a velha tática de encher com boa música um post vazio? Nem isso.
Então fica aqui registrado: Um Não-post

domingo, 25 de março de 2012

Volúpia

Meus olhos passam pela vitrine e brilham, através delas, um mundo inteiro. Aguça-se meu sentido de expert e logo percebo que para variar, o mais bem contruído mostruário é o que menos importa, holofotes e glitter sobre merdas fáceis de se digerir para sentir-se um pouco menos culpado pela banalidade da vida, afinal, ainda que o título, o tema e a escrita seja pavorosa, é ainda, assim um livro. Há status.

Basta reparar no metrô lotado enquanto duas mocinhas riem imbecis, o senhor com olhar vago amarga o passado e uma multidão está em sua própria festa particular com seus mp3's. Sentado, comprimida entre tipos quaisquer de usuários, está não mais do que um rapaz, de óculos e barbicha que é quase apenas um prenúncio do homem que será, lê um livro. Ou uma senhorinha com roupas de eficiente secretária, ar cansado de hirearquias e corporações, mas que, no entanto, ali em pé, com bolsa e sacolas sobre os braços, segura desajeitadamente um livro. Há status.

O que me levou ali naquela manhã foi uma necessidade absoluta, uma obra sobre a formação identitária do Brasil para um trabalho da faculdade. Mas basta entrar em um lugar de livros para se perder. Deve-se passar, como dito, direto pelos grandes mostruários e bizarrices de best-sellers, e esmiuçar com sofreguidão e de maneira discreta, para não chamar a atenção de outros experts, as estantes laterais, as prateleiras mais inacessíveis, onde se encontram os verdadeiros tesouros. Folhear, ler a primeira página, cheirar um pouquinho o livro.

Outra delícia das livrarias é traçar os perfis psicológicos a partir do que as pessoas lêem, que livros seguram, a partir de que orelhas se interessam. Nesse sentido é importante nunca se aproximar da estante de auto-ajuda, dê a volta, faça salto com vara, vai que alguém te flagra perto da edição comemorativa dos 25 anos do "Diário de um mago", ou do best-seller "Como influenciar pessoas e fazer amigos". Aff...Não há outra saída então, corte os pulsos.

Afinal, não tinha o livro de que precisava. Saí com outros dois de que não tinha a menor necessidade. Mas o amor é assim: gratuito e livre.

sexta-feira, 23 de março de 2012

Fazer a hora ou esperá-la?

Hoje entra no ar o site www.casamentociviligualitario.com.br. A iniciativa visa angariar apoio da opinião pública para o projeto de emenda constitucional apresentada pelo deputado federal Jean Wyllys que almeja garantir por lei a casais gays a instituição do casamento civil, com os mesmos direitos e deveres dos casais héteros.

Acho admirável qualquer iniciativa que vise retirar-nos da situação de sub-cidadania em que, ainda, vivemos. O termo “casamento” ou “matrimônio” sempre gera bastante polêmica, como se tais palavras fossem de uso exclusivamente religioso, o que é uma bobagem. O “casamento civil” está aí, justamente, para secularizar a sagrada instituição do matrimônio.

Agora não sei se, estrategicamente, é a hora para insistirmos nesta nomenclatura. Pode parecer um detalhe insignificante a princípio, mas “união civil gay” e “casamento civil gay” repercutem de modo bastante diferente na sociedade brasileira.

Se não me engano, na maioria dos lugares em que as uniões gays ganharam a nomenclatura de “casamento” foi em um momento subsequente ao do estatuto da união civil, que me parece um primeiro passo para a sociedade perceber que reconhecer, pelo direito, as uniões de fato entre pessoas do mesmo sexo não representa nenhuma ameaça real à sociedade. A não ser é claro que a heterossexualidade seja um mito e, imediatamente depois de reconhecida legalmente a união gay, todos os maridos larguem suas esposas e arranjem um bofe prometendo casa, comida e ingressos para o próximo show da Madonna.

*****

E... Ótimo Fim de Semana!

quarta-feira, 21 de março de 2012

Oi??

Domingo passado foi dia de? Tirar férias de fogão. Cantei para “Maria” sair deste corpitcho e resolvi fazer a rica com o marido e almoçar fora. O plano era depois ir à uma exposição do Modigliani no Museu Nacional de Belas Artes e concluir com um bom café no nosso local favorito num centro cultural ali na Cinelândia.

Mas amigo solitário com marido viajando ligou carente, convidando-nos para um risoto. Fomos. Batemos um papinho, tomamos um vinho, comemos o risoto e fomos atacados pelo cão do amigo. O dente do bichano mal tocou em nós, mas tirou sangue de mim e do marido.

Ontem fomos tomar a primeira dose da vacina anti-rábica, marido de manhã e eu à tarde. Marido comenta: “- Você viu o epidemologista? Super gentil, todo sarado me deu uma aula sobre os perigos de se contrair raiva”. Eu lembrei na hora da enfermeira suarenta e com ar de cansada há dez anos, loira à força e de buço que me fez meia dúzia de perguntas de praxe. Na hora de preencher a ficha:
-Profissão?
-Professor
-Ihhh... cachorro adora morder professor. É carteiro e professor, nunca vi.
Oi?
Então é isto Brasil: Salário baixo, turmas lotadas e vítima preferencial dos cachorros.
Todo mundo tem seus dias de Lobo, né não?
Aff....

terça-feira, 20 de março de 2012

A grande questão

Crescer é auto-aceitar-se. É libertação do que se deve ser, fazer, parecer, de como agir. È matar todas as instâncias “pai” e provar a doçura e o amargor de ser quem se é e/ou empreender a longa jornada noite adentro para se tornar quem se quer ser.
Nisso tudo tem algo de que, volta e meia, me ressinto.

Escolhas. Aquele primeiro substrato de quem se é, mais determinado por outros, pela época, por tantos contextos nos quais se vem a este mundo não passa por nós mesmos. As escolhas que se dão a partir disto, como uma “reação à”, ainda não são totalmente nossas. Chega uma hora, no entanto, que ou a gente veste o manto maltrapilho da mágoa que mal nos cobre e passamos a vida numa cantilena monótona a lamentar o que fizeram de nós, ou, assumimos que agora é conosco. E o que se faz, quem a gente se torna, passa a ser responsabilidade nossa.

Eu preciso tomar uma decisão. Não exatamente agora. Daqui a cerca de um ano, termino a graduação e tenho a chance de regulamentar esta minha estranha vida profissional. Eu sei bem o que quero fazer, o ideal a ser alcançado. O real, porém, me diz: Não agora. Há ainda, quase insuspeita, uma porta, à esquerda, no fim do corredor, pela qual posso, talvez, passar.

A grande questão é achar o ponto de equilíbrio, a justa medida entre a realização do meu desejo e as possibilidades reais do momento. Eu não tenho mais quinze anos, os sonhos tem a medida necessária da comida no prato; também não fui vencido ainda, atropelado pelo rolo compressor da vida para achar que só o pão de cada dia nos daí hoje.

O que eu queria era acreditar que o tempo sempre nos dá sabedoria e discernimento, mas não é verdade. A gente pode morrer velho e tão estúpido quanto sempre foi. Na minha vida profissional o tempo de responder demandas sempre urgentes, de recuperar o perdido está chegando ao fim. Eu só preciso agora saber que passo dar.

segunda-feira, 12 de março de 2012

Reflexões entupidas

E eu estou aqui, apenas uma narina entupida quase todo final de semana. É estranho sentir tão diversamente dois lados do que sou. O meio-nariz entupido faz doer uma parte apenas da cabeça e eu me surpreendo que, só porque as pessoas são diferentes corpos no espaço, elas possam apreender o mundo de mil maneiras. Não é só a formação que se teve, os livros que se leu, o tipo de pais que te criaram. É essa coisa de que seu nariz é diferente do meu: puxa o ar e devolve o CO2 em outro ritmo, de outra forma. E este oxigênio circula por tuas veias em trajetos pessoais, distribuindo de forma desigual as proteínas e sais minerais.

Fica mais fácil para mim entender assim tantas coisas. Se uma narina entupida acaba com a ilusão de uma unidade orgânica, quer do indivíduo quer da conclamada e inexistente humanidade, serve ainda para me pensar como fenômeno absolutamente único nesta fração do tempo que chamamos hoje. Eu fui o menino deslocado e só, da minha infância, o religioso certeiro e de convicções absolutas e hoje sou a metamorfose de tudo o que eu fui.

Alimento-me das sobras do que um dia reservei de melhor para o sacrifício em solenes altares, percorro o terreno baldio do meu passado catando as pérolas do que perdi em todas vezes que pude, com coragem, e isto nunca me faltou, destruir tudo o que já não mais me cabia. E entre mosaicos preciosos e alimentos que devoro esquecendo-me dos deuses sou “agora”. O que é melhor do que “antes” e, espero, ainda não tão bom quanto o indizível amanhã.

No fim os trinta anos te presenteiam mesmo um mimo. Você continua sendo tão ansioso, inseguro, ou o que seja, mas sabe se distanciar disto. Vai ali numa esquina imaginária, se olha e percebe que você é aquilo, mas há mais. Assim você dá a mão para seus defeitos e os circunscreve de maneira a só permitir que falem quem é você até um certo ponto e muito de vez em quando. E, aqui e ali, é até mesmo capaz de rir um pouquinho da situação.

sexta-feira, 9 de março de 2012

Dica para o fim-de-semana

Se joga, bunnniiiitaa!!!




Ótimo finde, povo querido de Blogsville.

quinta-feira, 8 de março de 2012

O amargo e o doce

Ouvi uma vez que, de certo modo, todos nós sobrevivemos à infância. E acredito nisto. Grande parta da minha vida até os vinte e oito foi sentindo-me um outsider, alguém que, simplesmente não se encaixava. E isso era amargo e triste. Hoje acho ótimo, celebro certa estranheza e acho o tal do “não se encaixar” uma das coisas mais saudáveis na vida de um ser humano.

Há medo, mágoa e fragilidades em mim que foram terminantemente negadas, exorcizadas, maquiadas de todas as formas durante anos. E agora, eu as abraço. Dizendo a mim mesmo que ficará tudo bem, que sou forte, que os eventuais dias ruins não são os primeiros e nem serão os últimos. Eu agora posso fazer isto. Antes não, antes de uma certa maturidade adquirida, ninguém pode. Devem ser outros a nos envolver e acalentar em seus braços. E isso eu não tive.

Não cobro, não baseio minha relação com ninguém a partir disto. Simplesmente os tenho próximos, mas na teia mais íntima das minhas relações devo reconhecer que eles não estão. Sei que me amam à sua maneira. Sei para que e de que forma posso contar com eles, mas há uma gap afetivo que dá o tom na forma como convivemos.

Para mim há duas compreensões esclarecedoras: Não há culpados, o que significa que eu não sou responsável pela situação, idéia que me acompanhou boa parte da infância e adolescência; e eu posso, agora cuidar de mim e contar com o afeto daqueles que me amam, porque a gente cresce e passa a ter vida própria e não apenas o reflexo da forma como se é ou não amado no início de tudo.

Mas ainda é perturbador ouvir que, na infância, foi recomendado que me levassem a um psicólogo num momento bastante delicado da vida e que após algumas visitas, o tratamento foi interrompido porque era caro. Na hora, eu disse um “deixa para lá, faz tanto tempo”. Mas a pergunta que ficou na minha cabeça foi “E quantas vezes vocês trocaram de carro neste mesmo período?”.

segunda-feira, 5 de março de 2012

Aiai...

AVISO: CÍNICOS E DIABÉTICOS NÃO LEIAM O POST ABAIXO - ELE É DOCE E MELADO :)


A verdade é que eu estou morrendo de saudades.
Sinto falta de coisas que eu nem sabia que conhecia de você: a maneira como você me olha concentrado quando fala algo importante, esta preguiça matinal que nunca te deixa levantar na hora do despertador, a forma como sinto teus braços ao meu redor quando, distraído, estou na cozinha preparando nosso jantar.
Eu quero que você volte para nunca acordarmos cedo nos finais de semana, permanecer na cama horas e horas depois que despertarmos, variando o peso de um sobre o do outro, agarrados num aconchego que nunca se finda.
Eu quero ouvir sua chave na porta e te ver lindo, de roupa social chegando do trabalho de novo. Suas múltiplas reclamações sobre o calor infernal que faz nesta cidade. Ter a geladeira sempre cheia da cerveja que você nunca deixa faltar.
Quero ficar meio brabo com sua mania de pôr pimenta em qualquer prato e quero que celebremos, com abraços e beijos, seus bolos cada vez mais gostosos.
Quero nossas noites animadas pelo shuffle de incrível bom gosto do Ipod mágico, e me zangar quando você sempre pula Antony and the johnsons
Quero afundar minha cabeça em seu peito quando tudo vai mal e sorver a cura de dias péssimos da sua língua quente e doce. Ir dormir feliz porque tenho, ao meu lado, o amor.
Eu quero você. Volta logo, porra! (rsrs...)

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

Palavras são só palavras

Escrever é um embuste. Porque se procura a palavra como se buscasse a partícula imaterial que desse sentido a tudo. Como se a palavra dissesse o querer, o penar, fosse o cristal perfeito onde brilha a alegria e a nota última, pendente no fim de toda a melodia amarga que é a tristeza.

Procuramos as palavras como se houvesse vida nelas mesmas, palavras que nos curem, arrebatem, transformem a nossa existência. Como se o escritor fosse um bruxo, sacerdote mágico de infinitos poderes e não um colecionador de tatis-bitatis.

A palavra é uma mentira, sua composição é fácil, onomatopéias primitivas sobre as quais se constroem sentidos. E, no entanto, se não há palavras, não vejo, não ouço, não sou.

Ainda procuro a palavra, aquela que me diga, me mostre ao outro e no qual eu possa, finalmente, saber o mundo como entregue e óbvio. Talvez esta não exista. Mas há: comichão, arenito, dendê, quiçá. E elas salvam o meu dia. Se monótono com horas se arrastando em rotinas de trabalho que ameaçam dissolver-me em tédio, eu ponho no meio de uma frase qualquer: quiçá. E sinto, de imediato, uma alegriazinha ordinária serpentear aqui dentro. É quase tão boa quanto o meu amor de criança: ornitorrinco. Tem coisa mais divertida do que or-ni-tor-rinco?

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

O amor é uma coisa assim... ridícula

Eu me considero um pós-moderno. Entendo a gênese capitalista da obsessão pela monogamia no Ocidente, compreendo que quanto menos se importar modelos prontos, melhor será a relação. Cada casal deve, com tato e verdade, ir plasmando o que são junto um ao outro. Por isto sou contra a dissolução do ¨eu" em qualquer tipo de "nós". Há de ser "eu" "tu-outro eu" e então o que somos unidos.

Foi por isto que encarei tranquilamente a viagem de férias do marido. Ele lá 15 dias na Europa e eu aqui trabalhando e estudando, como de costume. Pensei ser bom para o cultivo das individualidades, para arejar a relação, achei maduro e chique.

Hoje é o dia da viagem e no último telefonema, ele já a caminho do aeroporto e eu da faculdade, houve um clarão que passou direto pelas minhas convicções, um estrondo lá no fundo desta coisa amorfa e quente que chamamos afeto: 15 dias sem ele.

Na sala a colega me pergunta se eu li o texto sobre a crise da cultura contemporânea. Eu viro para trás. os olhos cheios, e respondo:
-Sim. A Pós-modernidade é uma merda!

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

Quer saber?

Eu não me calo mais.

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Pela Espada e pela Palavra

Estamos vivendo no Brasil o despertar político da luta pela cidadania gay. A questão do reconhecimento dos direitos sexuais que se inscreve no hall de direitos humanos em qualquer nação que se queira democrática e minimamente herdeira dos ideais da Revolução Francesa - liberdade, igualdade e fratarenidade – suscita paixões arrebatadoras, contra e a favor.

Conseguimos importantes vitórias no Judiciário, no âmbito estadual, aqui no Rio, temos leis para coibir a homofobia, mas nos falta ainda uma legislação nacional que mostre que o país está cumprindo de fato seu papel para com seus cidadãos homossexuais: garantir, mesmo que por leis específicas para grupos discriminados, a igualdade de oportunidades para todos.

Temos a nosso favor o fato de que, cada vez mais, a sociedade entende que a homossexualidade não é uma questão moral, que, de per si, a orientação sexual não define caráter ou sanidade mental. E contra nós os conservadores, dentre os quais os mais aguerridos são os religiosos porque entendem que a homossexualidade vai de encontro à própria criação. E se nós contamos com a crescente aprovação social para que cada um viva a sua vida amando quem se queira, os religiosos homofóbicos tem uma coesão política-ideológica nem sonhada por nós gays, e o neo-pentecostalismo cresce cada vez mais no Brasil.

Os dois parágrafos anteriores foram estruturados em termos de “Eles x Nós”. Esta polarização rompe qualquer possibilidade de procurar um terreno comum a partir do qual se possa dialogar; nos predispõe para a batalha, vendo no “outro” apenas o inimigo a ser subjugado.

Sem dúvida alguma este enfrentamento político, ideológico se faz necessário muitas vezes, e quiçá tivéssemos mais pessoas preparadas e dispostas a realizá-lo. No entanto, é igualmente necessário gente capaz de construir pontes, ainda que frágeis, temerárias, num trabalho insistente e delicado. Conheço religiosos, católicos e evangélicos assim. São como que o fermento que não pressiona “de fora”, mas faz crescer a partir do interior.
Eu não tenho mais paciência, saco, vontade para esta missão, mas peço na minha quase-ainda-fé: Que deus abençoe estes corajosos!

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

Eu sou a filha da Chiquita Bacana

Resiliência – Capacidade de o indivíduo lidar com problemas, superar obstáculos ou resistir à pressão de situações adversas (Wikipédia)

È isto de que boa parte das minorias são feitas. Para existir, o que por si só já é resistir, num mundo com padrões rígidos de ser aos quais você não satisfaz, por um motivo ou outro, ou por quase todos, é preciso resiliência.

E isto fica absolutamente claro através da celebração das “filhas da chiquita”. A festa surgiu em 1975 no bojo da maior manifestação religiosa do norte do Brasil, o Círio de Nazaré que atrai cerca de 2.000.000 de pessoas em Outubro.

Este contexto é interessantíssimo. O mais importante evento gay de Belém do Pará nasce em simbiose total com a festa católica mais tradicional da região. Espera-se a imagem da santa ser transladada até a Igreja da Sé e depois no meio deste percurso acontece a festa. Há shows de drag, música e muito, muito fervo.

Eu conhecia esta história por alto, mas ontem vi o ótimo documentário “As filhas da Chiquita” (Direção: Priscilla Brasil. 2006). O filme retrata muito bem esta interseção entra as duas festas e a maneira como cada um dos respectivos organizadores lida com esta confluência de motivos, pessoas e rituais tão díspares.

O discurso da Igreja é o óbvio lulante e não poderia ser outro a partir dos personagens escolhidos para representá-la: um padre com cara de infeliz que repete todos os bordões de uma teologia rasa contra a homossexualidade e uma senhorinha fofa de cabelos quase azuis que diz que um assassino merece mais perdão do que um homossexual.

A fala das “chiquitas” é bem mais interessante. Mostra como cada um, e muitos se afirmavam devotos, ressignificou a pertença religiosa para além da questão da culpa pela homossexualidade. Mais do que isso, desde que esta é entendida como algo intrínseco, vivê-la é de algum modo respeitar a sua natureza e, assim sendo, ser autêntico, verdadeiro, valores morais positivos diante de Deus.

O documentário, rapidamente, conversa com gente simples sentado num bar. Um diz que a homossexualidade é algo estranho à cultura cabocla, indígena da região, uma espécie de contágio que viria do “sul”, das novelas a que os companheiros de mesa logo desdizem; um senhor faz mesmo um discurso bastante libertário sobre o que, nós “do sul”, chamamos de “direitos individuais”. O que mais me chamou atenção nesta sequência, no entanto foi o uso tranqüilo, plenamente incorporado ao discurso, do termo “gay”. Não deixou de me causar certo fascínio pensar que tal termo foi incorporado à homossexualidade nos E.U.A. como uma forma de positivar a experiência de ser homossexual e foi se propagando por meio da militância e setores mais engajados com esta mesma finalidade, chegando até uma mesa de bar bem simples em Belém do Pará.

É o “mestre de cerimônias” da festa das filhas da Chuiquita, no entanto, que nos dá a forma mais feliz de entender a relação entre estas duas festas. Uma imagem que sai cheia de flores, com um manto todo trabalhado na pedraria tinha mesmo que inspirar uma festa gay. E eu acrescentaria: que é conduzida num carro puxado por um bando de homens se roçando uns aos outros para segurar a corda. Ok, talvez a melhor frase mesmo seja a da Miss “Chiquita 2006”, uma drag pobre e descabelada que no seu agradecimento disse cinco frases incompreensíveis, no meio das quais soltou esta: “Nasci feia. Porque quando eu nasci, a beleza tava de férias”.

Fiquei pensando também se apesar de ser um grande fervo a festa das chiquitas não é por si só a manifestação gay política mais significativa do Norte. Existir e se mostrar em praça pública, no evento sagrado e sério do Círio, talvez seja maior do que qualquer manifestação sisuda e cheia de cartazes.

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Na tela da TV, no meio deste povo, a gente vai se ver...#NOT

Há uns anos atrás, recém-saído da vida religiosa, o que eu mais queria era folia, confete e serpentina e, claro, bocas, muitas. Carnaval era época de complexas estratégias para realizar meus planos de sair de um bloco e imediatamente cair em outro. Começava cedinho no, então, bucólico “Céu na terra”, em Santa Tereza no qual os músicos tocavam no bondinho e terminava o dia, ou começava a madruga, em alguma coisa mega populosa como a Banda de Ipanema.

Com o passar do tempo fui restringindo o meu carnaval à interesses exclusivamente acadêmicos, digamos assim, pesquisa antropológica. Meu programa de então era o mal-falado, com toda a razão, baile de carnaval gay de Gafieira centenária chamada “Elite”, no centro do Rio. Local super tradicional durante o ano todo que resolve descolar algum money em cima das bibas no carnaval. É um salão velho, sem ar condicionado, com mil e quinhentos cafuçus se espremendo sem camisa, e tantos mais admiradores do tipo, embalados por marchinhas carnavalescas de priscas eras. O chão de madeira treme como se um terremoto estivesse prestes a começar, a sorte é que a gafieira funciona no segundo andar de um casarão e, no térreo do mesmo, há uma funerária, o que me dava uma espécie de paz sempre que eu lembrava disto. Pensando bem, quem liga? Com samba, suor e cafuçus que o mundo se exploda.

Pois bem, neste carnaval tudo o que eu quero é a trilha sonora, a tranqüilidade e o não ziriguidum do conforto do meu lar. Que sejam alegres bem longe de mim. Deixem-me com meus livros, filmes e amigos anti-foliões como eu. Marido disse que gosta de um bloco ou outro, pois que vá com seus amigos fervidos, né não?

O problema é que o carnaval é algo de que, muitas vezes, não se pode escapar. De alguma forma, numa força coerciva absurdamente penetrante ele acaba na sua sala, nos seus ouvidos, rasgando seu descanso anti-folia. São amigos bêbados que te telefonam de blocos barulhentos, sua mão que te liga para dizer como a Portela está linda este ano, jatos de serpentina que te pegam desprevenido enquanto se vai comprar dois pães franceses e um croissant.

Domingo passado, por exemplo, que nem carnaval era, saímos eu e marido para ir ao cinema Odeon, há dez minutos de casa pensando em tomar um café e ver “Millenium: O homem que não amava as mulheres” e no meio do caminho havia o bloco da Preta Gil. Chegamos atrasados no cinema, não tomamos o café – tudo fechado – e eu, cheiroso e limpinho, passei maus-bocados no meio de um povo xexelento, mal-lavado e bêbado...

Aff.. “O carnaval é um verdadeiro matadouro para uma pessoa phynnah”

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Cena carioca

6h15. Você bota o pé fora de casa já no ritmo da música que pulsa no seu ipod. Os primeiros metros são vencidos desviando-se de pedestres, gente parada no ponto de ônibus, trabalhadores com pesados carrinhos de mão. Finalmente diante de você, só o calçadão quase livre que se estende pra lá dos arcos da Lapa. Uma única mesa do bar "Só kana" ainda resiste aos primeiros raios da manhã. Três senhoras. Quase desisto da corrida, ao passar por elas e ouvir a mais velha, cabelo acajú, lá pelos sessenta, gritar pro garçom sonolento: - Meu filho, traz a saideira!

Há! Essa é das minhas...

Excelente final-de-semana em Blogsville!

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

Brasilidades

Esses dias li coisas que detesto. Elitismos de classe, de gente que se acha in, bem acima da média dos demais pobres, da “nova classe C”. E se tais privilegiados tem Facebook, e todos tem, lançam logo status com o mote infalível da “orkutização do FB”. Este antes era reduto de gente diferenciada, quase uma Higienópolis ou um Leblon virtual. E é claro, afirma outro, são todos brasileiros os responsáveis. Um terceiro reclama em inglês do calor que faz no Rio, inveja das nevascas européias, onde se pode usar casacos e botas e não quase andar de tanga nestes trópicos do inferno.

Gente que fala mal do Brasil e de sua gente, não como resultado de real capacidade crítica que enxerga as mil deficiências do nosso país, mas fruto de um complexo de vira-lata que olha sempre para além-mar como se o Éden, o jardim paradisíaco, há tanto tempo perdido fosse lá. Pessoas que não saem de seus grandes centros urbanos e os enxergam como o negativo da metrópole idealizada: Nova York, Paris, Londres.

Eu quero um país onde a coisa pública seja tratada com imparcialidade, sem personalismos, uma burocracia estatal eficiente, as condições básicas para que a vida dos cidadãos transcorra em paz, saúde e segurança garantidas de verdade pelo Estado, afinal é sua obrigação.

Mas gosto da malemolência de nossas terras, deste sorriso frouxo da nossa gente, essa coisa de chegar fácil e iniciar uma conversa, os nossos sotaques encantados, nossa cultura solar. Gosto do meu Rio de mares e montanhas em paisagens de tirar o fôlego, de saber que São Paulo está aqui ao lado. Gosto da gente do Nordeste, de conversas em tardes de brisa depois da praia de águas mornas.

Ouço música estrangeira, detesto futebol e não sei sambar. Mas daí a pensar que o Brasil é só um poço de problemas, gente deselegante num forno a mil graus Celsius é muito colonialismo introjetado desses “caboclos querendo ser ingleses”, como diz o bom e velho Cazuza.

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

De tudo o que tenho e do que me falta

Tem frase mais verdadeira na música brasileira do que “Cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é”? Eu por exemplo. Acho um delícia aos 28 anos ter mandado tudo pro alto – tudo mesmo – e reinventado a vida.

Seis anos depois estou muito mais feliz, mais bonito, mais leve. Delícia!
Agora nem de longe, profissionalmente, estou onde desejo. E aí, nos piores dias, olho com invejinha para aqueles que encontraram o que fazer da vida lá pelos vinte e poucos. Aos trinta e quatro devem estar colhendo frutos bons de sua já longa trajetória, ou talvez, estejam mortalmente entediados.

O fato é que os freela que eu sempre reputei como provisórios, aquela coisa que você nem gosta tanto, mas que te garante o camembert de cada dia, acabaram se tornando toda minha vida profissional ao longo deste tempo.

O que eu quero mesmo é fazer doutorado, dar aula e fazer pesquisa. Mas o que vai acontecer é que me formarei ano que vem e vou arranjar um emprego no ensino médio, para ter um mínimo de estabilidade financeira - saber daqui a 3 meses o quanto vou receber de $ é um sonho para este freelancer que vos escreve – e aprender francês suficiente para a prova do doutorado.

Tenho muita coisa que amo. Mas, às vezes, o que não tenho fica aqui pesando no peito.
E aí é aquela coisa: Levanta, bate-o-cabelo e dá a volta por cima

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

Quinta. Entre 5 e 6 da tarde

-Por que a gente tem que perder tudo o que ama?

E o olho luziu numa provável lágrima. Eu ali, parado, absorto no instante deste quase choro. Mas o olho se fechou e a boca aberta procurou a minha. Por uma espécie de piedade chinfrim eu correspondi. A língua quente, aquele sabor de gente passando por poros e cantos, a língua com a língua. Sobre nós nenhum deus, nenhum céu, só as pás do ventilador numa sinfonia zumbida, sem vento. O suor empapando o lençol, meu corpo sobre, o dele em mim. Teso, a barba por fazer, seu cabelo negro nublando meus olhos irritados de suor. O corpo magro, a vida pouca, a idade em flor.

Então os derradeiros raios horizontais mal venciam a persiana torta, entravam, a custo no quarto, jogando-se sobre a parede num lento suicídio. O garoto me abraçava como a garantir qualquer coisa, a cabeça incômoda no meu peito, seu pau murcho a roçar minhas pernas vez em quando.

Afasto-o e começo a me vestir. Sem quase ter se mexido, meio submerso na bagunça de lençóis úmidos, seus grandes olhos me perscrutam:
- Me responde.

Camisa posta, olho-o imóvel na cama. A bunda boa e branca, as costas quase infantis, lisas de músculos e trabalhos. Só seu olhar.

- Por que a gente tem que perder tudo o que ama. E isso, é só o começo, garoto.

A porta bate. Detenho-me um instante, nenhum som, só o monótono zumbido de um ventilador inútil.

A lágrima cai em silêncio.

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

O retrato do artista quando...velho (?)


Vi a pouco a prévia do clipe de “Give me all your lovin’”.Eu sempre gostei muito da Madonna. No universo efêmero da pop music, as letras mais inteligentes, os clipes poderosos e as provocações mais interssantes eram da loira em questão. Fui aos dois shows aqui no Rio, em 1993 e ano retrasado (?) e até hoje muitas das suas músicas fazem parte da minha playlist de corrida.

De uns anos pra cá, no entanto, eu me pergunto: É o pop um universo exclusivamente menor de idade? Devem seus ídolos, divas bafônicas lá pelos 40-45 cantar sobre amores maduros, aprender um instrumento e parar de rebolar com shorts minúsculos em meio a canhões de luzes nos palcos pelo mundo? A outra saída digna para os ídolos pop seria a morte jovem e trágica?

Uma parte de mim diz que não a ambas possibilidades, puro preconceito meu. Que as mulheres, inclusive as da rara categoria “divas pop”, podem comportar-se da forma que for em qualquer idade. No entanto, será que perseguir a todo custo uma pele de 25 anos, trejeitos de adolescente (que capa é essa do novo single, Madge??) e namorados mancebos, é uma atitude libertária ou uma forma de escravidão aos deus pop da jovialidade?

Não sei não, por melhor que esteje aos 53 anos, ver Madonna num clima de cheerleader, cantando coisas apropriadas à faixa etária das fãs de Miley Cyrus não me parece nada provocante. Um passo em falso da loira e se cruzará a linha do ridículo.

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

The night is young, and the show has just began

O pilar básico do pensamento ocidental, incrustado no mais antigo substrato da filosofia grega, a famosa frase de Parmênides: “O ser é”, caducou. Seu longuíssimo prazo de validade, parece enfim, ter expirado. O ser não é; inventa-se, faz-se.
E não em algum lugar abscôndito da alma, um centro nervoso pessoal e invisível aos olhos de terceiros, na mais profunda interioridade. Não, senhores e senhoras! O ser é performance. Constrói-se em gestos, frases de efeitos suspensas no ar por algo entre a fina ironia no que acaba de ser posto de forma tão calculada e a antecipação do gozo que este movimento provoca em quem a disse. E para isto, meus amigos, é preciso uma platéia.
Quer na imensidão de um grande teatro ou no têt à têt numa esquina, numa mesa de jantar com poucos convivas ou no horário nobre da televisão. Repete-se tanto o papel, aprimora-se mais e mais os trejeitos, se trabalha de forma tão exaustiva as marcas de entonação e a forma de olhar que julgamos ser natural quem somos e fruto de uma espontaneidade que se alimenta, sem filtros, de algo como “a mais pura essência, o ‘eu’”.
De bom grado ou por obrigação, com quase espontaneidade ou real esforço, representamos sempre aos outros, não para enganá-los ou convencê-los, mas para realizar ambas atitudes, no fundo, em relação a nós mesmos.

And the show must go on.