terça-feira, 11 de dezembro de 2012

Um HIV para se gostar

Poucas doenças condenaram seus possuidores ao estigma social na amplitude em que a AIDS fez. Nos anos 80 e boa parte dos 90, o “positivo” no teste para sorologia do HIV era não apenas uma sentença de morte, mas a certeza de uma execração pública. Pesava sobre o/a infectado (a) uma condenação moral além de uma bomba-relógio viral.

Para os gays, então, isso foi gravíssimo. Os anos 70 representaram uma época de liberação sexual, de luta contra os preconceitos, momentos no qual começaram a se criar as condições sociais para uma imagem pública positiva dos indivíduos que amavam e/ ou fodiam com outros do mesmo sexo. Os primeiros casos de AIDS reavivaram toda a onda moralista que parecia dar seus primeiros sinais de arrefecimento. Na boca e na escrita de muitos, a doença representava o acerto de contas de deus, da biologia contra os usos anti-naturais e, por isso, sacrílegos dos corpos.

É bem verdade que o advento da epidemia forçou uma série de debates e popularizou a discussão sobre práticas sexuais que antes permaneciam escondidas, marginais, trazendo-as dos guetos e camas “dos pederastas” para as principais arenas da opinião pública e fóruns governamentais.

Já faz alguns anos que, apesar de condição crônica de saúde, ser soropositivo deixou de ser uma sentença de morte. Com a dissolução lenta da ideia de “grupos de risco” para a infecção, pela democrática tragédia da contaminação sem preferências, também já não se associa a AIDS como alguma espécie de “peste gay”. Mas nada tinha surgido até agora que inocentasse o HIV.

No meio da dor de tantas vidas injustamente ceifadas por “ele”, talentos podados no auge, ânsias corajosas de vida e tesão esmagados sobre um vírus odioso travestido de moral divina, o HIV ainda era o símbolo, unidos a tantos outros, do absurdo da existência. Absurda existência que se dobra e finda ante uma partícula mínima e irracional que, no entanto, impacta e deforma as tramas do poder intelectual, das histórias de amor interrompidas, a explosão de sensibilidades para sempre não realizadas.

E, como diante de todo imponderável na vida, a gente se cala e espera, numa fé cega, suspensa no vácuo de todo sentido, que algo nasça dali. Muitos viram alguma luz, compreenderam a contingência, a finitude, a morte como um grito à vida, ao momento, ao instante que é precioso e se esvai.

Isso, no entanto é a redenção dos que pensam e sentem, dos vivos e mortos que tem “alma”, essa resiliente persistência no sentido das coisas. Não era, no entanto, a redenção do vírus. Para o HIV não havia salvação. Até hoje, quando, de manhã, li a notícia. Pacientes desenganados de leucemia que vem respondendo de maneira excelente ao tratamento pela introdução de HIV desativado, o que faz com que o sistema imunológico produza um tipo específico de células competentes para o combate ao câncer.

Emoção. Fiquei pensando, no quanto a gente, homens e mulheres, desde sempre, inventamos o mundo, reinventamos tudo, desafiando a natureza, todos os deuses para continuar vivos e transmitir aos que chegarão uma vida melhor, com mais recursos. O quanto na breve saga humana sobre esta terra, apesar de todas as misérias e abominações, há também tanto de beleza, persistência e criatividade. Somos humanos, na fragilidade de nossas condições e na grandeza de nosso desejo.

Finalmente um HIV para se gostar.

10 comentários:

Luciana Nepomuceno disse...

São textos assim que me dizem tanto... (com todas as ambiguidades da frase mesmo).

FOXX disse...

gente, qm teve a ideia de usar o hiv pra combater cancer?

Paulo Roberto Figueiredo Braccini - Bratz disse...

Tudo na vida é assim ... das piores coisas tb podem sair boas coisas ... #fato

Cris Serra disse...

Que bom te ver de volta! :-)

Fred disse...

É como eu digo: até o pior dos piores tem - em algum lugar, dentro ou fora de si - algo de bom. Lindo teu texto, claro!

E GLÓRIA AO PAI, ALELUIA 3X: ele voltou! E pra ficar - eu desejo. E desejo muito. Virge... como desejo. Hahahahahaha! Bjossssssssss, Coração de Leão!

Fred disse...

Morre não! Ou vou ir até aí só pra te ressuscitar... hehehehehe! Bjossssss!

Fred disse...

Foto clássica embaixo do chuveiro?!? Hummmmmm... Só se for com "camiseta molhada"... hahahahahaha! Bjos!

Fred disse...

Feliz Natal, Rafão e um 2013 maravilhoso pra ti e todos os teus, meu querido! Bjos!

Fred disse...

Olha... no que me toca (ui)... eu iria ADORAR ver o Rafão mostrando os contornos de do seu "rafão" à bordo de uma sunguitcha... #ficadica!
E deixa de onda... rapaz "recatado" não fica reparando na suposta mala do amigo que é ainda mais recatado... #tomatento!!!!! Hahahahahaha! Bjos!

Anônimo disse...

Quando li a noticia, fiquei pensando em até onde ainda irá o ser humano. Tanto para o bem, como para o mal, num mundo onde as duas coisas andam tão juntas, por conta as vezes de nós humanos mesmos.
Abraço !!