Meus olhos passam pela vitrine e brilham, através delas, um mundo inteiro. Aguça-se meu sentido de expert e logo percebo que para variar, o mais bem contruído mostruário é o que menos importa, holofotes e glitter sobre merdas fáceis de se digerir para sentir-se um pouco menos culpado pela banalidade da vida, afinal, ainda que o título, o tema e a escrita seja pavorosa, é ainda, assim um livro. Há status.
Basta reparar no metrô lotado enquanto duas mocinhas riem imbecis, o senhor com olhar vago amarga o passado e uma multidão está em sua própria festa particular com seus mp3's. Sentado, comprimida entre tipos quaisquer de usuários, está não mais do que um rapaz, de óculos e barbicha que é quase apenas um prenúncio do homem que será, lê um livro. Ou uma senhorinha com roupas de eficiente secretária, ar cansado de hirearquias e corporações, mas que, no entanto, ali em pé, com bolsa e sacolas sobre os braços, segura desajeitadamente um livro. Há status.
O que me levou ali naquela manhã foi uma necessidade absoluta, uma obra sobre a formação identitária do Brasil para um trabalho da faculdade. Mas basta entrar em um lugar de livros para se perder. Deve-se passar, como dito, direto pelos grandes mostruários e bizarrices de best-sellers, e esmiuçar com sofreguidão e de maneira discreta, para não chamar a atenção de outros experts, as estantes laterais, as prateleiras mais inacessíveis, onde se encontram os verdadeiros tesouros. Folhear, ler a primeira página, cheirar um pouquinho o livro.
Outra delícia das livrarias é traçar os perfis psicológicos a partir do que as pessoas lêem, que livros seguram, a partir de que orelhas se interessam. Nesse sentido é importante nunca se aproximar da estante de auto-ajuda, dê a volta, faça salto com vara, vai que alguém te flagra perto da edição comemorativa dos 25 anos do "Diário de um mago", ou do best-seller "Como influenciar pessoas e fazer amigos". Aff...Não há outra saída então, corte os pulsos.
Afinal, não tinha o livro de que precisava. Saí com outros dois de que não tinha a menor necessidade. Mas o amor é assim: gratuito e livre.
9 comentários:
Amei o post, Rafa, amei. Me senti um pouco menos anormal por adorar livros. Adorei particularmente o penúltimo parágrafo.
Mês passado contei pra um conhecido, intelectual e jornalista famoso, sobre o meu prazer na Livraria Leitura de SP. Daí ele fez uma careta pra mim e soltou um "ai, livro, que coisa mais 2005...".
Enfim.
Excelente post, meu querido.
Boa semana pra você!
Rafa: será q vc não acha o livro q procura na Estante Virtual?
Tem coisas bacanas por lá.
Eu tb amo ir em livrarias, pena q tá cada dia mais custoso fazer isso, né?
Um abraço!
Ahhh.....esse tipo de escrita cirúrgica me agrada......caneta amarga que difere tanto da caneta perversa!
Pax Vobiscum
belíssima declaração de amor às letras ... mas acho injusto vc analisar tão superficialmente o povo brasileiro ... ele tem lido muito ... tanto q o "livro" Ágape é um sucesso ... rs
bjão
Aí me surge uma curiosidade: você já aderiu a algum livro digital? O que pensa deles?
e o texto está tão bem escrito...! =)
ow, q coisa mais fofa!
lindo mesmo.
:) Bonitinho Rafa!
lindo!!
mas, ó: sem preconceito com best-sellers!!!! é literatura igual a qlqr outra
:D
bjuu
Sim. Também me perco (ou me acho) em livraria.
Não. Não apareço na tal cama.
E certamente adoraria saber qual perfil psicológico vc detectaria em mim... me traça, Rafa?
Hahahahahahaha!
Bjão no bochechão!
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