
Meu combalido aparelho de som, após longa agonia, emitiu sua última nota. Aproveitando uma obrigatória passagem da minha irmã pelo Free Shop, lhe encomendei logo um iPod com respectivas caixas de som. Domingo passado ela voltou de viagem, mas me trouxe só a primeira parte da encomenda.
Depois do almoço de boas-vindas, lá fui eu zanzar por todas as lojas de produtos eletrônicos do gigantesco Barra Shopping. Não tinha visto nada que eu gostasse até que já cansado tive o que, parecia ser uma miragem: uma mega loja da Apple. Mas não! Era real! Inaugurada uma semana antes, a maior loja da Apple no Brasil, com vários modelos do que eu queria. As menores caixas tinham também um som bem pouco potente, a única que não testei foi uma em forma de porco, ah não, porco não dá, né?!
Escolhi uma na melhor relação potência/ tamanho/ preço e fui feliz pagar. Atrás de mim chegou uma tia. Devia ter seus sessenta e poucos, cabelos e sobrancelhas gritantemente tingidos de acaju e um porco nas mãos.
- Nossa que grande sua caixa.
-É.. (eu, sem vontade nenhuma de começar uma conversa)
- Vou levar o porquinho, é pequeno, mas tem um som ótimo.
-Legal...
Ufa! Chegara minha vez.
Enquanto pago, a tia me adverte:
-Não vai pedir pra testar? Olha que às vezes dá problema
Testar significava tirar do embrulho e conectar às duas caixas à base, esperar não sei qual funcionário chegar com o iPod dele, o único disponível em toda a loja já que eu não estava com o meu.
- Não vou não. Tô com pressa.
-Olha lá, hein...
Sem dar mais atenção pra tia, peguei minha sacola e saí.
Em casa conectei o iPod, ele funcionou, vi que estava carregando. Só que o som não saía de jeito nenhum! Reconectei as caixas, nada. Troquei-as de lado, nem um pio, nadinha da linda voz de Rufus Wainright. Agonia. Lembro então das sobrancelhas arqueadas e da voz da tia maldita que agora sai em lenta rotação: “Olha que às vezes dá problema”... inferno! Acho que a bruxa de Acaju me lançou uma iPraga.
Se tem alguma coisa que eu detesto é quando as coisas não dão certo. Semanas esperando meu novo som e agora, nada. Merda! Fiquei rogando várias pragas pra tia: que trocassem, na sua próxima ida ao salão, a tinta acaju por ácido sulfúrico, ou que as sobrancelhas caíssem, ou que o porco fosse na verdade uma bomba terrorista que se destinava à Apple dos E.U.A. e veio pra cá por engano. Quando já tinha desistido e pego de volta a caixa para guardar o aparelho, me dei conta de algo: tinha esquecido de ligá-lo na tomada.
A luz se acendeu nas caixas e o som começou a tomar toda a minha sala: Coldplay, cantando uma das minhas favoritas: Clocks. Vou tomar banho. Lá dentro do box, o som chega estranho, ruidoso. Fora também! Na verdade, tem uma caixa que está chiando pacas, saco! Me aparece de novo a figura da tia de acaju. Desta vez, torço para que ele, ao sair da loja, tenha tropeçado e o porco rolado para o meio da Av. das Américas, sendo triturado por um rolo-compressor que estivesse fazendo obras no local.
O jeito é ir até a Barra na manhã seguinte para trocar a porcaria.
Dia seguinte, acordo cedo e saio com a pesada sacola na mão: metrô até a estação Ipanema, ônibus para a Barra, longe, muito longe e engarrafado. Morte às tias de acaju! Já na loja uma recompensa, quem me atende é um vendedor gatinho, com aquele sotaque-delícia do Sul. Testamos o som, desta vez, a caixa que estava chiando, nem funciona. Pegamos outro aparelho, Ele já ia mandar embrulhar quando eu exijo que o abram para testar, Tia deve estar dando gargalhadas e repetindo mentalmente: “Eu te avisei, hahaha... Eu te disse...”.
Testamos o novo aparelho e... um canal de som não funciona! De novo! O gerente pergunta se eu não quero levar outro modelo. Digo que quero um som mais potente e aqueles que estavam ali não me satisfaziam. Foi quando o vendedor-gaúcho-gato me disse:
- O iPig é mais potente que este que você comprou.
O porco!
Contrariado, resolvo testá-lo. Impressionante a capacidade da coisa.
Reflexão mental: Hum... é um porco, não! É bem menor que o outro, sim! O som é ainda mais potente, Yes! e é R$ 200 mais caro, Puta que o pariu!
- Você só tem em amarelo?
Olhos verdes, além de tudo o cara tem olhos verdes.. aiai
- Não senhor, temos ele em branco e preto também.
(Putz, não me chama de “senhor” que eu já imagino uma coisa dominadora.. você preso a correntes, de sunga de couro.. e eu com uma chibata...)
-Senhor?
-Hum... – Olhei de novo pro porco, de repente, tive uma luz. Ele parece, parece... um extra-terrestre, sim! Uau!! Que legal uma caixa de som no formato de um E.T.!
Paguei os R$ 200 a mais e cá estou feliz e contente ouvindo “A menina dança” dos Novos Baianos no meu iE.T. enquanto escrevo este post.
Mas pensa que me arrependi das pragas contra a tia? Tsc... tsc... tsc... Não mesmo.