sexta-feira, 6 de abril de 2012

O que está por trás (ui!) do Império Homossexual?

Os ataques dos políticos contrários ao PLC 122 são perigosos e risíveis. Fico me perguntando se alguém, de fato, concorda que há orquestrado um plano para a criação de um Império homossexual no Brasil. E para além do desgosto com estes tais políticos, na minha humilde posição de quase-sociólogo e gay, tento entender a lógica simbólica que sustenta tais devaneios.

A polêmica em torno da homossexualidade, todos os ódios e mobilizações que suscita me instiga; por que alguém se dá ao trabalho de agredir pessoas que nada tem a ver consigo em plena rua, por estarem de mãos dadas com outra? Pegar um carro, uma arma e no meio de uma madrugada escura e fria atirar numa travesti que nem se conhece, perdida num local ermo de uma rodovia brutal em qualquer saída de grande cidade do país?

Apesar de ridícula, a expressão usada pelo senador em questão nos dá uma pista. "Império" é um símbolo de poder; que para além da dimensão política pertence, ainda hoje, ao homem branco, de classe média, heterossexual. O poder simbólico de um mundo construído para ele, o poder de acessar como naturais e simplesmente dadas, todas as lógicas que governam as relações, todos os mecanismos que localizam um ser humano na cultura, na história, na sociedade. É para conservar o homem branco heterossexual de classe média no topo dos tipos sociais que existe a homofobia, o racismo e o machismo. Já chega o que se perdeu com a liberação feminina e a nova consciência negra. Além disto agora, não se poderá mais afirmar o privilégio da própria identidade a partir do viado desviante? Sobre o que se afirmar superior senão em relação ao mais fraco?

E aqui reside a astúcia atual na lógica discursiva heterocêntrica: negar o desnível social, o privilégio heterossexual. Todas as atitudes ridículas do "Dia do orgulho hétero", da denúncia do "império homossexual" partem da falácia de que as identidades hétero e homo se dão nas mesmas condições de igualdade. Se assim fosse, reconhecer legislações específicas para os gays, seria, de fato, privilégio, um plus em relação à identidade hetero. Mas o fato é que legislações se fazem necessárias justamente porque há um desnível social entre gays e héteros, uma redução absurda no acesso a recursos próprios da cidadania para os primeiros. Desenvolve-se políticas específicas para grupos no sentido de possibilitar a estes iguais condições em relação ao restante dos cidadãos, isto é próprio da democracia já que a igualdade de todos perante a lei não é algo de fato dado, mas um objetivo a ser conquistado, também pela política.

A mesma falsa ideologia da igualdade de condições como pressuposto é usada, por exemplo, para explicar porque certos setores da sociedade avançam e outros nãos, ou porque países se desenvolvem e outros permanecem miseráveis. Negar as posições específicas dos atores sociais em relação à possibilidade de acessar os recursos democráticos é criar a base para se enxergar em qualquer tentativa de inclusão gay na cidadania plena um privilégio e não uma reparação devida. Estejamos atentos.

7 comentários:

FOXX disse...

que texto perfeito!
tenho nada a acrescentar
só aplaudo de pé.

Anônimo disse...

Acho que há algo que nos escapa na mentalidade deles... Aquela velha dificuldade de "se colocar no lugar de outro".

Mas você quando escreve sério se dá muito bem e não vou falar nada mais. =)

Lobo disse...

O texto ficou meio pesado pra mim hahaha. Mas de forma alguma isso tira o mérito dele.

Ainda estou absorvendo aqui. Mas vou precisar reler mais algumas vezes :p

Beijo Rafa!

Fred disse...

Clap, clap, clap!
Atentos estaremos!
E vem cá que te dou um prêmio pelas tuas "nozes" também, querido! Vem! Hahahahahahahaha! Bjzzzz!

Prisioneiro 0001 disse...

Textão!

sim, acho q tem gente q acha q está em um mundo em processo de dominação gay (???).
Tenso.

Nato disse...

Estaremos, Rafa!

N. disse...

Mais preciso, está pra aparecer! Parabéns pelo texto Rafa, e que "a força esteja conosco" diante da perigosa "sociedade tradicional".