Aos 70, ouvirei solos de piano sem sentir-me à beira do abismo. A solidão envolvente e dramática não mais lembrar-me-á da morte, terei então, aprendido a dar-lhe a mão, esperarei por seu beijo não como o descompassado da vida, uma tragédia possível qualquer, adiantada sempre para minhas outroras expectativas juvenis.
Aos 70, poderei reconciliar-me com a sombra de tudo que lentamente pousará sobre meus músculos, minhas forças, o reflexo tenaz e vívido de minhas respostas orgânicas, agora, em desalinho; do mesmo modo como agora, aos 35 sei dos sonhos primaveris como uma ilusão não realizável em sua inteireza, tenho testado o agridoce do desejo e isso é bom e triste, tempero e veneno.
Aos 70, terei visto quase tudo, saberei reduzir a multiplicidade caledoscópica da novidade aos velhos bordões da parca inventividade humana, mas terei também o feeling do milagre, percebendo de imediato quando o novo estreia no mundo.
Aos 70, sentar-me-ei só, diante do alimento e saborearei em cada pedaço todas as mesas que já provei, reconhecerei em cada rosto amigo que perdurar comigo, todas as pessoas que vivi no essencial das minhas encruzilhadas ou nas cercanias da minha história.
Aos 70, terei visto tecno-revoluções despejarem coisas impensáveis no dia-a-dia dos que me sucederão e apetrechos incríveis de que ninguém teve ou terá absoluta necessidade. Rirei das cadeias desfeitas de outrora e surpreendido com os novos grilhões me espantarei do bicho-homem, maravilhoso e terrível.
Aos 70, ouvirei música nos graves silêncios, risos entre os cantos de pássaros e zombarei de tudo ao dar-me o direito de caducar em paz. Apegar-me-ei com elegância e traquejo ao fio dourado da vida que tece o sempre inusitado cotidiano e se rompe ao fechar das pálpebras, até a manhã seguinte, até nunca mais.
terça-feira, 22 de janeiro de 2013
sexta-feira, 18 de janeiro de 2013
Manual Quase-prático para o amor
Tem gente ganhando muito dinheiro com isso, mas o meu manual é de graça. E isso já diz tudo, mas atenção: Querer preencher o espaço vazio, esse aí, do seu lado no cinema, ou o da cadeira em frente no restaurante, o do “cadê o namorado(a)?” na festa de amigos e familiares, é uma motivação honesta e urgente para o amor, no entanto, não garante resultados promissores. Num mundo onde só se é feliz estando obrigatoriamente a dois, aprender a andar na própria companhia é uma revolução necessária.
Disse que o manual é de graça porque o amor também o é, quer dizer, mais ou menos, é preciso pagar pelo amor: tempo, energia, disposição, as vezes dinheiro mesmo, então fica melhor dito assim: o amor é imponderável. Não é fruto de um cálculo, de uma jogada, cuidar do próprio jardim pode só significar que você terá um jardim lindo para curtir sozinho (a). Porque o amor é dom, é graça, milagre de duas existências que se sabem ao encontrar uma à outra (claro, isso depois de nuas, a nudez é essencial no amor). Pode acontecer ou não. Por isso esqueça o “trago a pessoa amada em três dias”: horas, prazos, cronogramas, o amor é, normalmente avesso à burocracia. É preciso também ter uma estratégia, nem que seja a minha que consiste em não ter estratégia. Ah, é fundamental não ter medo do ridículo, ele e o amor são vizinhos.
Pode-se arranjar alguém para passar os dias difíceis, ter namorado, marido, bodas de prata e casa na praia e nada de amor. O amor é voluntarioso, se dá quando, onde, como e a quem ele queira. Sem méritos, dever de casa feito, nota 10 na redação. Acontece também com os chatos, com as feias, a miss universo, Einstein e com os que juram que não o querem.
Eu não sei nada sobre o amor e acabou que este não é a porra de um manual quase-prático nenhum. Não sei nada, mas desconfio:
1) Deve-se estar empenhado em ser você mesmo, de algum modo ser fiel a si - seja lá o que isso signifique em cada caso.
2) É preciso saber minimamente o que não se quer e não se aferrar rigidamente a isso.
3) Se o amor nos testa, enviando-nos ao longo de anos sem-fim: quase-amor, falso-amor, carência com máscara de carnaval de amor, é preciso rir de si mesmo, chorar no fim da noite bebendo uma vodka suja qualquer e estar recuperado dali a algum tempo ou mentir tão bem que se está que você mesmo acredite nisso.
4) Reconciliar-se com o instante. Ter apaziguado o momento fugidio, saber desfrutar da mágica do “agora”, saborear o efeito inigualável do que uma manhã de sol ou tarde de chuva fina e terra fresca causam nos sentidos.
Dizem que terra úmida e chuva fresca fazem um bem danado para o amor.
Disse que o manual é de graça porque o amor também o é, quer dizer, mais ou menos, é preciso pagar pelo amor: tempo, energia, disposição, as vezes dinheiro mesmo, então fica melhor dito assim: o amor é imponderável. Não é fruto de um cálculo, de uma jogada, cuidar do próprio jardim pode só significar que você terá um jardim lindo para curtir sozinho (a). Porque o amor é dom, é graça, milagre de duas existências que se sabem ao encontrar uma à outra (claro, isso depois de nuas, a nudez é essencial no amor). Pode acontecer ou não. Por isso esqueça o “trago a pessoa amada em três dias”: horas, prazos, cronogramas, o amor é, normalmente avesso à burocracia. É preciso também ter uma estratégia, nem que seja a minha que consiste em não ter estratégia. Ah, é fundamental não ter medo do ridículo, ele e o amor são vizinhos.
Pode-se arranjar alguém para passar os dias difíceis, ter namorado, marido, bodas de prata e casa na praia e nada de amor. O amor é voluntarioso, se dá quando, onde, como e a quem ele queira. Sem méritos, dever de casa feito, nota 10 na redação. Acontece também com os chatos, com as feias, a miss universo, Einstein e com os que juram que não o querem.
Eu não sei nada sobre o amor e acabou que este não é a porra de um manual quase-prático nenhum. Não sei nada, mas desconfio:
1) Deve-se estar empenhado em ser você mesmo, de algum modo ser fiel a si - seja lá o que isso signifique em cada caso.
2) É preciso saber minimamente o que não se quer e não se aferrar rigidamente a isso.
3) Se o amor nos testa, enviando-nos ao longo de anos sem-fim: quase-amor, falso-amor, carência com máscara de carnaval de amor, é preciso rir de si mesmo, chorar no fim da noite bebendo uma vodka suja qualquer e estar recuperado dali a algum tempo ou mentir tão bem que se está que você mesmo acredite nisso.
4) Reconciliar-se com o instante. Ter apaziguado o momento fugidio, saber desfrutar da mágica do “agora”, saborear o efeito inigualável do que uma manhã de sol ou tarde de chuva fina e terra fresca causam nos sentidos.
Dizem que terra úmida e chuva fresca fazem um bem danado para o amor.
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