domingo, 4 de dezembro de 2011

Phóton



Não é meu, mas poderia ser...

"Acordar ao seu lado, esse eterno amanhecer por dentro, um sol interno tão aceso, essa alegria gratuita. E existe algo em nós que é tão recíproco, cúmplice e intenso. Dos nossos olhares que dizem tanto sobre tudo, silenciosamente. Um movimento de corpo que é tão ao encontro o tempo todo. Da compreensão e paciência a que nos dedicamos diariamente. E o amor que permeia tanta poesia, e a poesia que se entrega inteira pras palavras que querem dizer do abraço. Seu corpo tão moldado ao meu, natureza líquida de água e jarro. Você me conduzindo à fonte de todas as coisas, lá onde o desejo se origina. E nada míngua com o passar do tempo e mesmo acreditando não ter mais espaço, cresce, flui, se imensa clareando o que era escuro e frio.Cada vez mais e mais eu preciso dizer do amor. Dessa ternura delicada. Cada vez mais o amor sendo a melhor experiência. Cada vez mais eu percebendo que se nada no mundo é definitivo, nossa história eu sei perene. Uma primavera inaugurada a cada dia. E mesmo que nada possa ser eterno, mesmo que o "pra sempre" não exista, eu sei que vou seguir te amando, pelo menos, pelos próximos 99 invernos.

(E se ainda eu não consigo explicar você pra mim, eu simplesmente aceito e agradeço)".

(Marla de Queiroz)

terça-feira, 22 de novembro de 2011

Florence, sua linda!

Ando meio obcecado por Florence Welch. Isto significa longas horas de pesquisa na net em busca de delicinhas raras e que me conseguem arrancar um belo sorriso do rosto. Biografia não me interessa, agora a discografia...

Florence participou de uma banda que lançou um único CD, em 2007, chamada "Ashok". O som é bem legal e o estranho é ouví-la fazendo quase que só a segunda voz nas músicas. Confere a ótima "New Year's ansiety":



Depois, a ruiva mais delícia da Inglaterra se juntou com Isabella Summers numa banda de dois com nome complicado, "Florrible and Misrabella". Desta época temos "Small hands":



Sem esquecer as versões alternativas às do primeiro álbum:



E o melhor é que Florence fará shows no Brasil: Rio de Janeiro, São Paulo e Floripa, em Janeiro. E o mais legal é ficar sabendo pela própria, no facebook. Pergunta, pergunta se eu vou...

domingo, 20 de novembro de 2011

Conclui-se que...

No post passado, o tema principal, era, sem dúvida alguma, o absurdo mercado imobiliário do Rio de Janeiro, com preços para os quais o céu é o limite. Tinha até imagem mega-ilustrativa sobre o assunto.

Eu pensei que os queridos comentadores iriam tecer considerações sobre as causas de tal desvario imobiliário, deixar testemunhos edificantes de como conseguiram o sonho da casa própria, apresentar uma comparação de preços entre o Rio e a própria cidade, ou, investigar as causas econômicas e sociais do fenômeno.

No entanto, bastou eu escrever “marido” e citar, assim, em passant, que estávamos procurando apê juntos para ser este o assunto que bombou nos comentários. De onde se concluí que:

O POVO DE BLOGSVILLE GOSTA MESMO É DE FOFOCA!!

rsrsr

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

Alugar ou morrer


Uma pesquisa recente mostrou que o custo de vida no Rio de janeiro é um dos mais caros do mundo. Mais caro que Nova York, tanto quanto Paris. E isto, naturalmente, vale para o preço dos imóveis. Qualquer kitinete meia-boca começa, só o aluguel, em R$ 600. E isto, os bem ruinzinhos, e no centro da cidade, claro, zona sul nem pensar.

Eu e marido estamos procurando um quarto e sala realmente habitável no centro, porque onde moro agora, Flamengo, é impossível. Outro dia parecia um milagre anunciado nos classificados: uma rua perto da minha, quarto e sala, por apenas (?) R$ 1.450. Chegamos animados para a visita: uma sala que dava para o pátio interno do prédio e uma cozinha que, na verdade, era um vão no corredor entre a sala e o quarto.

Neste calvário imobiliário, se você acha um apê bom e barato, faz-se a guerra. Corra imediatamente para a imobiliária com a ficha preenchida na mão, os documentos em ordem e reze para o seu fiador ter mais cacife do que o do concorrente. Há anúncios que exigem que o fiador tenha 2 imóveis!

Perder um apê bom e barato nestas circunstâncias só com anos de terapia, uma imensa capacidade de superação e um bom porre, como se fosse um amor que se foi, um parente numa desastrosa curva de estrada.

Mas também não adianta baixar o nível de exigência. Eu, por exemplo, faço questão de uma vista digna (eu disse "digna" não "maravilhosa") e uma sala que caiba amigos reunidos em preguiçosas tardes de Domingo.

No Rio, alugar é para os fortes...

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

O que você quer ouvir de verdade

Fazia muito tempo que um álbum da Marisa Monte não me pegava assim, na primeira distraída escutada. De certa forma para os phynnos e phynnas da música é um álbum quase para se ter vergonha de gostar, um flerte deliberado e delicioso com o brega, cheirando a rádio anos 70 e, por isto mesmo, uma delícia. Tem até forró! Quem diria hein, Senhora Monte?
Mas a música-chiclete para mim é esta aí embaixo:

terça-feira, 15 de novembro de 2011






sexta-feira, 29 de julho de 2011

Pequenas bobagens ou "Falta de inspiração é uó"

Será que este blog morrerá de inanição? Nenhuma vontade e inspiração para escrever.

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Por acaso, quando meus amigos de Manchester chegaram lá em casa estava tocando Adele. Percebi pela cara de Micky que eles não agüentariam ouvir mais um segundo. Karla me disse que “Someone like you” é a música-chiclete nas rádios inglesas. E eu respondi: “Você reclama porque não conhece o Luan Santana, darling”.

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Barba voltando e topete cada vez maior, num estilo moderno-desconstrutivista que leva séculos para construir... Mas gostando de sair com meu topetão na rua, algo descolado mode on.

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Agosto não é nada. Setembro tem: Amigos russos (oba!), Boroboleta e S. lá em casa (SAP: muito amor, cervejas e risadas) e meu aniversário.

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A melhor decisão que tomei: parar de pensar tanto. Pros cerebrais como eu a mente está cheia de cadafalsos e cantos escuros onde se perde o desejo, se estrangulam afetos.

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Terá sido este o último post????

Um fim de semana incrível para todos os habitantes de Blogsville!!

segunda-feira, 25 de julho de 2011

O circo dos horrores

Eu só quero dizer que eu entendo. Nem todas as peças se encaixam, a felicidade do tudo bem e do “faz sentido” é mesmo rara e efêmera e no cotidiano de tudo, os satisfeitos é que me parecem loucos.

Eu não sei se você era realmente o fenômeno que dizem. Gostava de algumas de suas músicas, mas com dois discos, sem produzir nada há anos, não sei. E me incomodava também a figura grotesca que você virou: seu inimaginável penteado, esses olhos e os tombos. Uma figura caricata de comédia ridícula até no “Pânico na TV”. Incomodava-me porque acho que rir da dor dos outros é sempre uma atitude desesperada para encobrir a própria dor.

Eu achava isso mesmo. Mas descobri que pior do que encobrir a dor, é ter gente que não a sente. E isto é tão pior! Eu entendo os artistas geniais, os loucos insociáveis, os suicidas, os que se perdem nas drogas. Isto de “vida” não é fácil. E se, de algum modo, você foi marcado com uma sensibilidade à flor de tudo, fica ainda mais difícil ainda que também mais belo. Por isto eu não gosto dos que riem da dor, mas gosto menos dos que não a sentem e olham atravessado, fazem um comentário enojadamente moralista e voltam pra suas vidinhas ridículas e previsíveis.
Enfim, eu só quero dizer que te entendo.

terça-feira, 19 de julho de 2011

O sonho

A saída era sinuosa, uma escarpa, a montanha. No entanto, o dia estava claro, eu não estava só, vozes atrás de mim me confirmavam que outros estavam prontos a começar o caminho. Os primeiros metros foram vencidos facilmente, nenhuma dificuldade a mais do que as já esperadas. Pelo contrário, o senso de aventura, o vento no rosto me davam uma sensação boa de desbravador intrépido.

Não sei quando, em nenhum limite visível, a escarpa se fez mais e mais estreita, os desfiladeiros à direita abissais e o paredão de pedra do entorno à esquerda intransponível. O sol continuava a se refletir na pedra em tons entre azuis e cinzas discretos que seriam bonitos de se ver, se o pé, a mão, o corpo todo não sentisse, a despeito da visão do belo colorido, uma crescente aflição. Como se a pedra crescesse em volume e arestas, o caminho inventado por entre impossibilidades se afinasse mais e mais e as vozes humanas, já por isso solidárias em meio a tanta aridez mineral, fossem ecoando cada vez mais fracas.

Um pequeno mirante me fez perceber que a subida tinha chegado ao fim. Ou se fica parado numa imobilidade contagiante que, do formigamento nos pés, rouba o ar dos pulmões, cessa sístoles e diástoles e, um dia, finalmente te sufoca em pedra ou se inventa uma descida tornada possível simplesmente porque se quer assim.

Lá em baixo, construções testemunhavam que outros fizeram o mesmo. Edifícios abandonados, de portões entreabertos e janelas batendo ao vento mostravam que tais corajosos foram poucos e antigos. Eu, parado sob o sol, agora inclemente, a sentir o formigamento pétreo já na ponta dos pés; querendo descobrir uma coragem que brotasse sabe-se lá de que entranhas. Das vísceras ou dos músculos, dos ossos em atrito, de qualquer parte, menos do que via à minha frente: um desfiladeiro impossível. Então, de repente, algo se moveu.

Algo humano passou correndo entre os prédios, sem som, sem barulhos de nada: passos, respiração, grito. Um vulto, cabelos e roupas ao vento. Logo atrás, um imenso urso marrom. Soube então: não apenas a imobilidade férrea como ameaça aos que param; mas a fúria selvagem aos que ousam.

Eu soube, mas, o que senti foi: Há algo humano. E isso basta. Então, comecei a descida.

segunda-feira, 18 de julho de 2011

Solta, soltinha!

Eu não sei porquê, mas nas gravações ao vivo de Adele eu a achava travada, envergonhada, a música mal havia emitido o último acorde e ela já agradecia um "Thank you" rápido, seco.
Mas não é que a menina está mudada? Neste show do iTunes Festival, Adele conversa com a platéia, lhe declara seu amor, ri à beça e quase chora um par de vezes. Já a sabia simples e talentosíssima, agora, além de tudo, é uma querida também.
Confere aí embaixo. Atenção para as 2 músicas do bis com a platéia cantando com ela, é de emocionar qualquer um. Agradeço de coração ao ex-namorado dela. Nunca um pé-na-bunda rendeu tanta beleza.

Lançando a campanha: "Queremos Adele no Brasil!!"

domingo, 17 de julho de 2011

Para os fortes

Eu queria estar sob o sol, inerte, entregue, como se despejar sobre mim ondas de sua luz e calor fosse o único objetivo do astro-rei em toda sua existência de incontáveis milênios.
Estar olho no olho com um amigo, numa intimidade fresca de fim de tarde, apenas mediada por copos simples de cerveja gelada. E isso em alguma mesinha debaixo de uma amendoeira ordinária que marcasse o ritmo das conversas alheias com farfalhar de folhas entregues à brisa qualquer.
Após o úmido bom do teu beijo, me virar na cama desfeita pelo nosso amor e deixar que teu corpo junto ao meu, teu ressoar quase no sono, me desse a certeza de tudo.

Eu não tomo prozac, não faço uso de antidepressivos. Não tenho medo da dor. Mas quase entendo quem teme a vida. Porque se você não é um completo babaca, e talvez esta seja a opção mais fácil, a reiterada cotidianamente opção por ser um babaca, o fluxo constante de tudo, que é sim belo e inspirador, condição de possibilidade de todas as mudanças, mas também turbulento e inefável, imprevisível em seus movimentos, tudo isto extasia e cansa.

Tudo o que não sei, o que almejo, o que pretendo agora, as coisas que sinto e aquelas que gostaria de experimentar, aquilo que jurei “para sempre”, as que disse “só por hoje” e que no instante seguinte gritam horrorizadas em todas as instâncias do quer sou “Não mais!”; a vida em suas arestas e surpresas, amargos e calafrios. As encruzilhadas do que “poderia ter sido se” e daquilo que precisa ser decidido hoje, sem mais, tudo, subitamente, desperta e grita como uma comichão por todo o meu corpo. A coceira que pinica o ser, desde a superfície dita epiderme até o fluído onipresente e pastoso que alguém, um dia, chamou de “alma”.

E o que se faz com essa vida que pulsa bravia e louca? Eu gosto do fluxo, aprendi que desejar calmarias e estabilidades é construir sobre quimeras. O louco existir pode até se aquietar, esmagado pela solidez robusta das convicções, amuado pela certeza de tudo que desponta infalível das mentes dos pequenos e orgulhosos grãos de nada que somos nós, ela se aquieta, a vida, e deixa que pensemos que, finalmente, descobrimos o segredo de seu movimento. Permite que lhe tracemos margens seguras, digamos com autoridade de animais racionais, de sujeitos controlados e sábios, de crentes em deuses que detém a chave: “Vais até aqui” ou “Não ultrapasses este ponto. Aqui cessa o furor de tuas ondas”. E então, cenas de mares calmos e cândidas espumas brancas a se estender em areias de fim de dias perfeitos. Até que a garganta seca, o peito acelera e irrompe o inaudito.

O “quanto se pode”, “se fez”, os sonhos perdidos flutuam em meio à fúria das águas como destroços inúteis a que basta ao náufrago tocar, como última esperança de salvação com a ponta dos dedos, para desaparecer como inúteis quimeras.

Não nos enganemos: A vida, aquela de verdade, é para os fortes.

terça-feira, 12 de julho de 2011

Serei eu este menino?

Olhando a foto, já não sei se sou eu o menino. Recém saído das águas; vencidos os, apenas, primeiros mergulhos. Desde lá, tenho descido às profundezas e há sempre fôlego novo para voltar, porque sei que é preciso erguer-se a tal altura que já não mais o mar assuste.

Serei eu este menino? Olhos baixos e boca aberta a cantar uma melodia secreta e feliz. A sentir-se tão diferente de tudo que o cerca: as águas, o cachorro, as plantas e mesmo sua mãe ou seu pai que o fotografam.

Devo ser eu este menino. Mãos em possível dança, captadas no passadiço instante de um ligeiro mover-se. Minha vida em instantâneos que, sem nem que eu o saiba, revelam algo de mim: a solidão de uma praia estrangeira, o conforto de águas calmas, a já citada melodia e dança inexistentes e a alegre companhia vira-lata de um cão qualquer.

Sou eu este menino. Passo pela vida desejando calmarias e insisto em salvar-me nelas em meio às tempestades. Canto belezas inexistentes em meio a dias difíceis e imagino danças voláteis onde a rigidez morta a tudo toma. Eu e meus fieis escudeiros, os vira-latas de todo o mundo, de cada dia.

Sim, sou eu este menino.

PQP! ou Um dia de Lobo

Até alguns momentos atrás eu achava que os cataclismas, pestes e bugs que aconteciam com o Lobo eram uma espécie de recurso estilístico para acentuar dramaticamente os pequenos males do cotidiano. Eu achava.

Como só trabalho à tarde hoje, resolvi fazer um almocinho caseiro. Um arroz quase-risoto com molho de tomate, açafrão e pimenta rosa. E um apetitoso rocambole de carne recheado com queijo e presunto. Tudo quase pronto, o delicioso cheiro do assado já a perfumar o ambiente e BUM! O pirex explode dentro do forno e me obriga a jogar fora a atração principal do almoço.

Limpo tudo mais ou menos e, um pouco atrasado, resolvo descontar minha frustração no lanche mais junk do MacDonald’s. É claro que tive que esperar um tempo enorme considerando que aquilo se propõe a ser FAST food e quando, finalmente, seguro de minha bandeja, dou meia-volta pra me dirigir à uma mesa, a lambisgóia do meu lado resolve se espreguiçar. Resultado: Um banho, não: uma tsunami de Coca-cola.
A vontade era largar tudo, sentar no chão e em meio a Big-mac’s e batatas fritas, chorar. Mas tive que voltar pra casa e, é claro, cheguei atrasado ao trabalho.

Espero que meu bad meal day tenha se restringido ao almoço, de qualquer modo, não custa jejuar hoje o resto do dia, não é mesmo?.

Como terminar este post senão com um

Aúúúúúúúúúúú.........

quarta-feira, 6 de julho de 2011

O mundo inteiro, logo ali

Eu pensei que o Couchsurfing fosse apenas uma forma mais barata de viajar, mas ele pode ser muito mais que isso. O projeto se propõe a ser uma rede mundial de suporte, de fraternidade para viajantes. Você pode procurar um sofá amigo no Camboja por três dias, hospedar um braisleiro desejoso de conhecer a sua cidade ou se dispor a tomar um café e mostrar seus lugares favoritos para alguém em férias no seu canto do mundo.

Em seis dias eu: fui a um sarau literário com uma baiana, participei de um encontro dos couchsurfers no Rio com gente do mundo inteiro e cerveja a R$ 2, fiz amizade com um chileno que se mudou a pouco para cá e quase não sabe português e hospedei por três dias um casal de Moscou.

Toda quinta há um encontro para reunir a galera que ou é ou que está no Rio. Bati papo com um cambojano, uma belga que fala português com sotaque baiano, e vários argentinos em visita à cidade: o mundo todo no meu quintal.

A experiência mais legal foi ter hospedado o casal de Moscou quer dizer, o cara é brasileiro, de Goiânia, mora lá há quatro anos e namora Kristina, esta sim, uma autêntica russa. Fomos à praia em Ipanema, vimos o sol se pôr fenomenal em Copa, bebemos na Lapa e zanzamos com caipirinhas o sábado quase inteiro pela feira do Lavradio. Gente finíssima! Eu aprendi a dizer спасибо (espassiba/ obrigado), e мастурбация (masturbaviriot/ masturbação)... rs ah! e ganhei uma autêntica Матрьона (matrioska), aquelas bonecas russas tradicinais, que vem uma dentro da outra.

No entanto, o mais legal de tudo, foi treinar um olhar novo, olhar estrangeiro sobre paisagens tão cotidianas e a sensação de que o mundo inteiro é logo ali depois da esquina.

terça-feira, 28 de junho de 2011

Fome de mundo

Eu sempre me achei um privilegiado por morar numa cidade como o Rio. Lugares incríveis, praias logo ali, um entorno montanhoso quando estiver com vontade de Serra e a 45 min. de Sampa, pra brincar um pouco de irresistível megalópole quando der vontade. E a verdade é que nem ligava muito pra viajar.

Além do mais, sair em férias não é uma tarefa fácil quando se é freelancer em 3 lugares e se faz faculdade. Resultado: Fazia anos que não viajava pro exterior. E eu estava super tranquilo com isso. Atenção para o tempo verbal da frase anterior! Bastou eu passar uma semana em Buenos Aires em Setembro do ano passado, para a fome de mundo, adormecida há séculos, despertar com força total.

Meu projeto a médio prazo era voltar a Buenos Aires e fazer também Chile ou Uruguai. Acontece que meu pai teve uma espécie de surto sentimental (e isso é absolutamente estranho nele) e decidiu levar toda a família para viagem que, inicialmente, ele e minha mãe fariam: Portugal e Espanha em Outubro. Estou aqui dando meus pitacos no roteiro, tentando convencê-los a passar mais tempo na Espanha, ir a Barcelona que inicialmente está fora dos planos, mas como é tudo paitrocinado, tô naquela “do que vier é lucro”.

Fora o milagre sentimental ibérico de papai, estou fuçando como viajar barato. Pensando em me aventurar no Couchsurfing e devorando várias dicas e relatos de viagem no Mochileiros.com. Meus planos organizados numa escala de “muito provável” a “Quem sabe um dia” são estes:

A curto prazo: Brasil (Nordeste com Borboleta e S.; Belém com amigo).

A médio prazo: Nova Iorque e Cidade do México.

A médio quase longo prazo: Mochilão pela América do Sul (Argentina, Chile, Peru e Bolívia).

A muitíssimo longo, “quem sabe um dia”: Viagem de volta ao mundo! Ou quase isso: Começaria pela Austrália, Nova Zelândia, Sudoeste asiático, Índia, China, Japão, Rússia, Israel, Emirados Árabes, Egito, Moçambique, Quênia, África do Sul. No esquema mochilão custa um carro popular zero. E o tempo ideal é um ano.

Aiai...Bora pôr o pé na estrada?

sábado, 25 de junho de 2011

Nós

Enquanto escrevo, você dorme. Adele canta e o café está quase pronto. Os primeiros sons da noite de sábado se fazem ouvir ao longe, lá fora homens riem. Uma criança chora.

No seu abraço, o travsseiro, não mais meu corpo entregue e feliz, como há momentos atrás. Em mim o selo da tua boca ainda está, o beijo bom de volta, o abraço cálido e saudoso de quem retorna.

Fiquei feliz que você tenha ido. Mesmo que eu não pudesse viajar no feriado, você o fez com seus amigos e isto me deu alegria, uma espécie de confirmação de que nessa nossa história que nasce, apenas dois meses, nenhum de nós se esqueceu de quem é, deixou a própria vida para tentar se fundir ao outro num romantismo tolo e sufocante.

O não saber estar em mim, estando com alguém, sempre foi uma questão. Parece que agora não mais. Você foi e voltou. E meus dias sem você também foram ótimos. Teve amigos e cervejas, trabalho e filme e é claro, saudade.

Eu quero você, não porque me falta algo, não para me disfarçar ou esqueçer-me. Te quero, porque, teus olhos sorriem e isto é tão simples, tua boca é a melhor em gerações e é tão nítido. Porque adormecer e acordar junto a ti é a razão pela qual comprei esta cama tão grande quando nem suspeitava, quando eu ainda não sabia.

terça-feira, 21 de junho de 2011

Elocubrações cifradas ou "Um post que não diz" ou "Escrevo aqui porque terapia está muito caro"

Tudo na vida é assim: movimento, dinâmica, nada de bom que não traga, em algum momento, de alguma forma seu contrário, e, à exceção do mal absoluto e sempre injustificável que, desponta, tétrico, aqui e ali na história, também as situações ruins tem em seu bojo, algo que pode, se revelar de algum modo construtivo, algo que, mesmo à custa de anos depois, ser integrado de forma real a um sentido construído com esforço, às vezes dor, mas que dá norte à existência.

Eu não acredito em paraísos terrestres nem em infernos intermináveis sobre esta terra. Acho que, em cada situação, se tem um e outro, em medidas variáveis e mutantes e o que nós precisamos decidir em cada momento é o quanto suportamos de cada uma delas.

Bom, este post com ar de auto-ajuda chinfrim, elocubrando teorias com a sagacidade literária de um Paulo Coelho (nunca vou me perdoar por isto) é um disfarce. Uma forma de não dizer o que nem eu mesmo sei, mas que está aqui, eu sinto. Pode-se querer e não querer quase ao mesmo tempo?

Quando é precipitado cortar as situações? Antes de que ponto? Não é covardia deixá-las se esticar até o momento do não mais possível, quando por si só, elas arrebentam? E o mais importante: Como permanecer, de algum modo, fiel a si mesmo, o que quer que isto signifique?

Sabe o que mais? Vou ali tomar um café: bem forte e amargo.

sábado, 18 de junho de 2011

Com vista para o mar - Final

Vinte minutos depois, estava na Av. Atlântica. Os prédios enormes, o saguão da portaria tão amplo e dourado. Cobertura. Antes da porta ser aberta, Dalva, pela janelinha do elevador, vê uma Daminana atordoada e de olhos muito vermelhos. Pobre moça! D. Beth, pelo que percebera ao telefone estava impossível e a escolhida da vez, já que Dalva não tinha chegado ainda foi Damiana que morria de medo da patroa. Para ela, saída da pobreza extrema de uma cidade perdida em Alagoas e vindo parar num subúrbio longínquo do Rio de Janeiro, toda aquela gente situada à beira-mar era quase que de outra espécie. Um outro tipo de ser, muito distante do que ela mesma era.

Dalva não. A negra abusada na sua pouca condição financeira, sabia que gente era realmente tudo gato do mesmo balaio, quer coma vieiras cozidas ao vapor com redução de balsâmico, quer feijão com farinha. Às vezes, Dalva conseguia num olhar, preciso e vingativo, “suspender” o efeito no rosto de D. Beth dos milhões de potes com letras em francês do seu banheiro, do cabeleireiro de toda semana, da plástica nas pálpebras, queixo e lipoaspiração. Via então uma mulher bem comum, dessas que se encontram nos ônibus e atravessando os viadutos das estações de trem. Pelo contorno do nariz e as rugas inexistentes, em sua maioria, D. Beth deveria ser bem parecida com Marinalva, uma vizinha sua, lá no morro.

-Ai, que bom que você chegou! Já estava ficando braba hein?! - E balançou o indicador igualzinho como a via fazer com Samy, a poodle cor-de-rosa, que naquele dia de festa tinha ainda horrorosos laços brancos.

Pontualmente atrasadas cerca de meia-hora, começaram a chegar as convidadas. Sempre as mesmas mulheres a ocupar o tempo numa sucessão interminável de chás e almoços, enquanto os maridos empresários, ganhavam muito dinheiro. Muitas loiras, muito mais ainda vestidas de terninho, tailleur. Sempre educadíssimas, comendo as pequenas porções com fome de passarinho. Dalva se divertia imaginando-as chegar em casa e fazer um pratão, não é possível que aquelas comidinhas mirradas em porções mínimas sustentassem alguém de verdade.

Desvencilhando-se um pouco da louça na pia, a “soberana da copa à área de serviço da casa” foi até o quarto de Rodrigo, que como sempre berrou lá de dentro que não queria lanchar. Dalva sentiu, de repente, o coração disparar e um suor frio lhe escorrer pela face. A mesma sensação da manhã com o revólver de Quinzinho na cara lhe percorreu a espinha. Dalva se deu conta, então, do mesmo cheiro, saindo por debaixo da porta do filho da madame. Rodrigo estava fumando.

Numa hora não combinada previamente, mas que surtia um efeito impressionante nas madames, todas foram se retirando, de tal modo que, o cair da tarde encontrou a casa quase vazia. Rodrigo saíra e D. Beth estava com uma terrível dor de cabeça. Na verdade, estava muito chateada pela ausência de Augusta Pires Leal, o que diminuía em muito as chances de ver seu “evento” na coluna social da Hilde.

A única movimentação era dos garçons, já despidos do avental do uniforme preto, para ser moderno, e de Damiana retirando as coisas, as duas sem os solenes e ridículos adereços de cabelo para domésticas de endinheirados.

A luz tão oblíqua e morna, própria daquela hora, causava sombras no imenso salão de tanto mármore e cristais. Dalva achava que o mar fazia questão de ser o único a brilhar em prata, e o sol, nem que fosse por alguns instantes, antes de partir, satisfazia este capricho, deixando para ele o resplandecer final do dia. Ou então era Iemanjá que se vestia com seu manto prateado, mais rico que os anéis e brincos de todas as peruas do mundo.

Dalva não via conflito nenhum entre seu amor à Nossa Senhora Aparecida e sua admiração por Iemanjá. Para ela, uma era mais quietinha e bondosa, também Dalva se assemelhava à negrinha quando pensava na mãe e nos sobrinhos do interior. Já “a das águas” era mais altiva e não deixava que abusassem de seus domínios era a Dalva dos namorados e das patroas. Talvez mesmo, Iemanjá e Aparecida fossem uma só, em dias calmos e outros de tempestade.

-Vai ficar olhando aí o mar, é? A senhora não é madame não, querida. Olha a vassoura na mão parada.
-Ah, Damiana já to indo, vem ver que espetáculo este fim de dia.
-Eu tô é doida pra ver o fim do serviço e ainda tem um montão de louça na pia.
-Ihh... Você tá parecendo o povo dessa casa que mora em frente a este marzão e nunca pára na janela. Por mim não precisava de nenhum desses quadros caros aí pelas paredes, bastava colocar uma moldura neste janela da sala e tava pendurada a imagem mais linda do mundo.
-Vamô, Dalva. Chegue de conversa.
-Eu acho que D. Beth só mora aqui por que é chique. Se chique fosse morar em Caxias, ou de frente para um paredão de concreto, lá estaria ela, tomando champagne e convidando a Augusta Pires Leal para um “evento” em Xerém – e voltando a impunhar a vassoura ria gostosamente.

Ao se aproximar de casa, já na escuridão da noite, sentiu um medo inédito ao se deparar com a escadinha que levava à porta do seu barraco, graças a Deus não havia ninguém. Recuperando-se ainda das palpitações, a luz acesa lhe provoca um novo susto, a bala atingiu a santinha que, espatifada, a cabeça ainda coroada ao lado da TV, se espalhara em pedaços pelo chão. O oratório e a parede furados à bala eram um estranho elemento na pequena sala cor de amarelo, para dar alegria, lembrou-se Dalva.

Naquela noite colocou o colchão no chão da sala. Da janela do seu quarto via um pedaço ainda existente de mata, bem no alto do morro e muitos barracos vizinhos. Se esticasse a mão poderia mesmo cumprimentar D. Cleyde em sua janela.

Sempre que queria sonhar dormia na sala, debaixo da janela. Não era possível ouvir o barulho do mar, mas o imaginava enquanto as ondas iam e vinham em sua memória. De manhã seria despertada pelo sol e tudo ficaria bem.
Onde estaria, àquela hora, o barquinho?

sexta-feira, 17 de junho de 2011

Com vista para o mar - II

Depois de perder a conta das figuras estranhas no sofá, Dalva passou a tentar identificar as armas que cuspiam fogo ininterruptamente. Conhecia-as quase todas, só pelo som do disparo, pelo intervalo entre um e outro. Além dos tiros, as pisadas firmes e um número cada vez maior de comandos gritados asperamente, indicavam que Beto Crack e seu bando estavam em apuros.

Dalva não podia negar que o chefe do morro era um moreno atraente. Apesar do corpo esguio de miséria, tinha músculos definidos e um olhar muito firme de quem não pode vacilar um minuto. Olhar de quem sempre espreita algo improvável, mas nem por isso menos perigoso, que conversa vendo fundo nos olhos do outro, mas sem nunca deixar de estar atento ao derredor; além disso, a fama de bom-de-cama, insaciável diziam, e maludo mexia mesmo com Dalva, ela não podia negar. Mas claro que não era louca, nem jovem o suficiente, nem mocinha viciada do asfalto para ir além desse ponto.

Como antes do tiroteio ninguém soltou fogos, a guerra não era contra a polícia, devia ser a facção rival do morro vizinho, agora contíguo à favela. Dalva tinha uma comadre que morava naquela área, chamada pelos jornais de “Faixa de Gaza”, mas que o povo chamava mesmo era de “Faixa de Gases”. Levantando a cabeça por cima do sofá-barricada, riu em meio ao tiroteio: “Pobre é fogo mesmo! Ri até da própria desgraça”.

Pertinho da janela, avistou, de pé, e impassível como sempre, a negrinha. Havia a colocado ali, num oratoriozinho de papel-machê feito pela sobrinha, para que ela pudesse ver o mar. Lembrou-se da outra Nossa Senhora Aparecida, que ficava na cozinha da patroa. Dalva a tinha dado de presente para D. Beth quando foi numa peregrinação ao santuário. A madame adorou, mas como havia já uma Nossa Senhora branca de olho azul na sala, deixou a negrinha nos fundos, talvez para fazer companhia à Dalva e Damiana.

-Dalva, cadê você? Esta Doriana é uma tonta!
-Daminana, D. Beth
-Quê?
-O nome da menina é Damiana
-Ah, pois é... uma tonta. Preciso de você urgente. Você sabe onde colocamos aqueles copos de cristal ?
-Estão no armário da dispensa, na segunda porta.
- E os vasos para as orquídeas, aqueles cumpridinhos? A florista já está vindo e eu disse que tinha os vasos.
-Olha D. Beth, um quebrou.
-Quebrou?Ai e agora?
-Têm dois, além daquele maiorzinho que a senhora colocou o arranjo de copos-de-leite na semana passada. Tá no móvel da copa, embaixo, na terceira porta.
-Dalva, eu preciso de você. Venha já pra cá. Vou desligar que a Doriana pegou as bandejas erradas! Ai ! Estou te esperando.

Quinze minutos depois, o tiroteio cessou. Dalva ajeitou novamente a cabeleira para sair. Ao abrir a porta deu com Quinzinho, na escada, fumando um baseado.
- Já falei que não quero ninguém fumando esta porcaria na minha porta!
- Colé tia?! Fumando um bagulhinho só para relaxar depois do estresse. Os cara fugiram, mas o caveirudo levou ferro, tá mauzão.
-Não me interessa, vamos, sai!

Quinzinho desocupou o degrau e ia saindo, um pivete, doze, treze anos. Já no último degrau se vira bruscamente e tira um revólver, encosta na cara de Dalva.
-Que isso menino! Pelo amor de Deus!
-Tá pensando o quê tia?! Ninguém me esculacha não. Dô logo dois tiro, leva logo ferro na cara
-Washington, eu conheço sua mãe, te vi na barriga!
-Me viu na barriga, me viu na barriga?! Foda-se !! O Caralho! Não vem tirar onda comigo não. Pede desculpa anda, anda porra!

Balbuciando as desculpas em meio às lágrimas, na dificuldade da boca seca e o cheiro da maconha nauseante, Dalva não pode acreditar quando Quinzinho disparou contra a janela. Sem saber o que fazer, já voltando para casa a fim de verificar o estrago, dá meia-volta e segue adiante. Se voltasse, morreria. Não baleada, mas de desgosto. O abrigo intransponível do seu barraco! Seu refúgio, um lar, apesar da loucura de tudo. A casa feita, pintada, mobiliada com tanto trabalho e sonho, foi violada; em algum lugar havia uma bala.

quinta-feira, 16 de junho de 2011

Com vista para o mar - I

A claridade espalhada entre as nuvens, que cobriam boa parte do pedaço de céu visto pela janela, estava diferente aquela manhã, como que emaranhada, contida pelo ainda nublado firmamento; não tinha a mesma força e onipresença de todos os outros dias de verão. Quase na divisa entre o céu e o mar, um barco – de pescador? – seguia tranqüilo. Dalva se lembrou de uma música antiga sobre um barquinho que ia, ia, enquanto findava a tarde.

Mas já que o dia estava apenas começando e prometia ser bem agitado, a mulata gostosa, corpo esculpido por muita escadaria e tanque, dá uma última ajeitada na cabeleira, em novo penteado afro, pega a bolsa, e quase já à porta, ouve os passos apressados sobre sua cabeça. Pronto, era só o que faltava.

Não se passam dois minutos e a origem dos passos suspeitos é confirmada pelo pipocar das metralhadoras: os “hómi” estão em guerra. Há muito que a laje feita no dia da Padroeira por todos os vizinhos e pelo Tião, o então namorado, lhe dava mais problemas que alegria. Fez dela um amplo salão com um banheiro, fogão e geladeira.

No ano-novo, alugava o espaço para os turistas que pagavam uma baba pelo melhor lugar do morro para assistir aos fogos. Caso fosse um grupo muito grande, Dalva alugava também o andar de baixo e passava o ano na casa da prima, em Inhaúma, achava a coisa mais repetida esses fogos. O problema é que sempre que tinha confusão no morro, em todos os outros dias do ano que ia se gastando, os bandidos dominavam o terraço. De lá podiam ver com facilidade as duas principais entradas da favela, as únicas por onde, até certo ponto, subia carro ou o caveirão da polícia.

- Oi Damiana, sou eu, Dalva. Me chama a madame aí. – Não agüentava Damiana tentando disfarçar o sotaque nordestino “Résidência dos Magalhães e Silva”.
Ela mesma, quando atendia ao telefone, empostava a voz, quase como se fosse uma governanta loira dizendo “alô” em alguma residência importante na Escandinávia.
- Como não vem, Dalva?!
- Dona Beth, tá tendo tiroteio aqui no morro.
-De novo?! Ah... faz um esforçinho Você sabe como este evento é importante para mim... E não confio nesta menina a Dami..., como é mesmo?
-Damiana, D. Beth. A senhora não faz sempre esses lanches – e podia imaginar a cara da patroa ao transformar seu “evento” num “lanchinho”.
-Mas hoje é especial. Olha a Suzy Marcondez, a Lôlô Braga, até a Augusta Pires Leal já confirmaram! Não, não! Você tem que vir
- D. Beth, além da Damiana não tem o “Bufe”?
-Claro! O buffet do maravilhoso Ed Clark. Mas preciso de alguém comandando o resto. E você sabe querida, aqui em casa da copa até a área de serviço, ohh, você é soberana!
“Ah perua fingida. Vô lembrar disso na hora do salário de fome que a senhora me paga!” - ...
- Olha!! A senhora tá ouvindo ?! É tiro na minha laje!
-Ai!! Dalva, Você ouviu? A campainha tocou. É o Buffet. Vou desligar. Espero você daqui a vinte minutos hein. Desce com cuidado.

Já agachada atrás do sofá, contando os inúmeros desenhos indecifráveis que compunham a estampa gasta, Dalva repetia como quem mal consegue engolir: “Desce com cuidado”. Perua filha de uma puta!

terça-feira, 14 de junho de 2011

Desabafo ou Eu menti no post anterior

Eu disse que gostava de gente. E isto é mesmo quase uma mentira. Quer dizer, é claro que eu gosto de alguns, mas estes são a exceção, e é cada vez mais difícil fazer parte do reino dos meus consagrados, daqueles amados acima de tudo e de todos.

Antes eu era muito sociável, era sempre aquele que me movia bem em todos os grupos, querido em todas as panelas, por todos os tipos. Talvez por uma absoluta necessidade de me encaixar. Ah, mas tem coisa mais irritante do que gente? (rs)

Acho um saco os metidos, por exemplo. Há uma sofisticação natural, uma elegância real, o bom-gosto que se exala da pele da pessoa. Não é desse que falo. O metido precisa a todo instante de mil provas de que está in. Precisa provar sua inteligência, seu apurado senso estético, a exclusividade de suas escolhas para sentir-se minimamente confortável consigo mesmo, formar uma identidade própria, quanto mais esta se distanciar da massa ignara, melhor.

E os gays? Aff... Quando que, de contra-cultura, experimentalismo, contestação, a gente virou estas bilús chatas, saradinhas, propagandas ambulantes de grifes e cobaia preferencial de tratamentos estéticos mil? Ahhh.. que sono!

Ai e os religiosos? Infelizmente eu conto nos dedos das mãos, nem precisa contar com os dos pés, gente que eu conheço para quem a religião faz bem, que torna a pessoa mais autônoma, com um olhar generoso pra vida e pros outros. Que dificuldade com o diferente, seja de que diferença for! Tudo bem que se queira viver na coleira, porque apesar de prender o tal artefato dá segurança, mas impô-la aos outros?

Lobão feelings: “Cansado de tanta caretice, tanta babaquice, dessa eterna falta do que falar”
Eu não gosto de gente.
Só de gente que vale a pena e esses são poucos!
Ui... Desabafei... rsrs

segunda-feira, 13 de junho de 2011

Manhã preguiçosa

A greve dos professores da rede estadual me liberou do estágio hoje. Nada de acordar as seis da matina. Tempo pra fazer o café do namorado e manhã livre. Arrumo um pouquinho a casa, faço mais uma garrafa de café e sabe o que "encontro"? Um baú cheio de meus textos: coisas curtas para o blog, contos, outros contos ainda maiores, coisas inacabadas, páginas revisadas e em estado bruto.

Este brevíssimo aí em baixo foi uma das primeiras coisas que postei no blog. E tem tanta coisa mais! Ah, se eu pudesse, se meu dinheiro desse, eu queria ser mesmo era escritor.

"Prezada A.
Ontem, enquanto o estrondo da porta batida ainda ecoava pelas paredes brancas e nuas do apartamento, tive o impulso de correr atrás de você. Mas não fiz. Descer os dois lances de escada, ofegante, tonto, com a sua última e certeira frase a girar em mim como num looping interminável, e ir procurar-te assim, não nos faria bem. Pensei que hoje, talvez te achasse no metrô, estação Carioca, de blusa azul e cabelo num corte que ficaria esquisito para o seu rosto, como da primeira vez. Ou em qualquer outro lugar que nesses quatro anos freqüentamos religiosamente. Mas também decidi não ir.

Estou aqui, sentado à mesa posta para dois, esperando o empadão de que tanto gostas assar e acompanhado só pela flor que detestastes, mesmo com o meu argumento invencível à época: “é de plástico, não morre.”.

Resolvi escrever-te. Não mandar um email que é coisa muito comercial e moderna, como somos ambos. Mas mandar-te minhas palavras, nossos momentos, com a minha letra. Eu mesmo numa caligrafia, impresso num papel de carta. Nem sabia que ainda existiam, desci agora a pouco e comprei um bloco. Mas escreverei esta única carta, talvez numa única folha. A verdade é que não sei se quero que voltes. Ontem quando a porta bateu era tudo o que eu mais queria na vida, que voltasses, arrependida, carinhosa, humilhada e depois de uma trepada nervosa e rápida instalar-se-ia novamente o cotidiano das coisas, aquele tão próprio de nós dois. Mas ter passado a noite só, iluminado porcamente pelo Néon do bar aqui em frente, já que a porra da persiana emperrou mais uma vez, me fez pensar.

Por que nos agarramos um ao outro de forma tão desesperada e inútil? Pelas ilhas de descanso aos Domingos à tarde quando todas as ofensas, injúrias e mesquinharias já foram ditas ao longo da semana? Vale a pena morrer de sede de ti para saciar-me em oásis repentinos e breves quando a tua amargura adormece e o meu cinismo e cansaço de tudo se distrai? 

Não sei se reflexões etílicas, a meia garrafa de um uísque vagabundo, feitas ao ritmo de uma música incompreensível qualquer vinda da rua, mas suficientemente ruim para ser percebida logo como tal, são confiáveis. Mas a questão é que, quando tudo começou a perder seu aspecto soturno, porque sempre me parece que a noite nunca vai acabar, e eu vi as primeiras claridades, pensei que, de fato, nós precisamos um do outro, mas não ficaremos juntos.

É injusto precisar desesperadamente de alguém só para confirmar o quanto a vida pode ser sem sentido e o quanto estamos certos em não nutrir mais nenhum sonho. Você me recorda a todo instante, não pelo que diz ou faz, mas por ser isso que você é, que não vale a pena mesmo muita expectativa, que o melhor é se acostumar, viver uma vida em horário comercial, pedir uma comida qualquer por delivery, e se emputecer com as atendentes de telemarketing ao telefone.

No entanto, caramba, o sol nasceu de uma forma tão absurda e original esta manhã que me fez pensar que algo novo pode estar prestes a irromper. Não é que não te queira mais, mas acho que não podemos fazer isso um com o outro. Vou tomar um banho, sair, ver o mar. Se esta carta chegar até você, amanhã ou depois - estás na casa da tua mãe, né? – te peço, por favor, não voltes.

Com Carinho, N.

sexta-feira, 10 de junho de 2011

Vontade de

Este blog nunca ficou tanto tempo parado. Eu, simplesmente, não sabia o que escrever. Faltava-me assunto, vontade, inspiração, tudo. Resolvendo mil coisas, pondo-me todo nos afazeres externos, me era impossível certo recolhimento que precede a escrita. Como quando o míope sem óculos precisa comprinir o olho para achar o foco e enxergar, há um movimento tênue mas absolutamente necessário para que eu veja, sinta e, então, escreva.

Mas hoje me deu vontade. De não versar sobre nada, só escrever. Porque fazê-lo é de certa forma, como já dizia Clarice, uma espécie de salvação (é de Clarice mesmo?). A vida é imprevisível, louca, insuperável, forças aleatórias a criar e destruir pobres seres conscientes ou não. Mas quando escrevo: “sol”, “café”, “vida”, “morte” sou eu que dou o tom, a tessitura, dou, de certa forma, uma existência a todas essas coisas. Filtro, alinho, ponho em sobretons o caráter espetacular e mágico de se estar vivo, que, normalmente, se perde em cada esquina, se esvai anonimamente a cada distração que surge.

Eu leio e escrevo no fundo porque gosto de gente. E quer você escreva poesia abstrata à décima potência, contos e novelas ou o que comeu no café da manhã é você que está ali. O que se mostra, então, é esta articulação nervosa e viva entre o que se sabe, se aprendeu na escola, nas gramáticas e o que só se intui, advinha, pressente e que nomes bobos como emoção, afeto, imaginação não conseguem dizer o que é. Eu só confio em gente que lê; se escreve então, tem meu coração e minha alma.

I`m backy, buddies!

terça-feira, 31 de maio de 2011

O professor: Recurso mais importante no combate à homofobia na escola

Lembra que eu disse aqui como fiquei feliz com um trabalho sobre transexualidade no estágio. Pois é, alegria de gay dura pouco. Esta semana o tema da aula eram as políticas de reparação e reconhecimento de grupos minoritários. O professor fez um paralelo entre a lei contra o racismo de 1989 e o Projeto de Lei Complementar 122 que, entre outras discriminações, confere o mesmo status de crime às manifestações homofóbicas de que gozam as racistas.

Disse que gostaria de um debate sobre as semelhanças e diferenças a respeito destas duas formas de discrimanção. Mas o que fez, de fato, ao longo de toda a aula foi defender que o projeto contra a homofobia era contrário à liberdade de expressão. A lei contra o racismo teria consagrado uma postura unânime da sociedade sobre o tema, enquanto a questão da homofobia é bastante controversa. Pra coroar, citou apenas uma parte do texto do projeto de lei e pôs no quadro o manifesto inteiro da Faculdade Presbiteriana Mackenzie, sublinhando a parte em que se afirma que nem toda manifestação contrária aos homossexuais é homofóbica. Citou ainda Bolsonaro e Marcelo Crivella. Ele chegou ao ponto de apelar para a questão do humor, quase dizendo que fazer piada das minorias era algo absolutamente inocente. Lembrei de um professor meu da faculdade que, em sua dissertação de mestrado sobre as travestis, afirma que as piadas e os risinhos vão criando o ambiente que ajuda a apertar o gatilho.

Desde quando a liberdade de expressão é um valor absoluto ao ponto de se permitir a degradação da dignidade humana de outros cidadãos que gozam do direito não só à vida e integridade física, mas também à sua imagem? Dizer que o repúdio ao racismo era já consenso na sociedade brasileira e por isso a lei consagrou uma atitude social já consolidada? Para que a lei então? Eu cresci vendo na televisão piadas sobre negros, pegando elevadores sociais nos quais as empregadas domésticas e porteiros, muitos deles negros, eram impedidos de entrar. Tudo isto foi mudando graças à maior consciência sim, mas muito por causa do instrumento coercitivo que a lei proporcionou a quem era descriminado.

Fiquei com pena dos alunos, alguns visivelmente gays. Mais do que material didático contra a homofobia, é urgente que se invista na sensibilização dos professores em relação à questão.

segunda-feira, 30 de maio de 2011

Saudade das quase 17h

São 16h43 e me falta o ar ao me lembrar do jeito como ontem, entre um gole e outro no chope, nos olhamos. As quase cinco da tarde a saudade é uma pontada. Ela nem existia quando saí hoje de manhã e te deixei: de lado, tua pele morena sobre o lençol branco, teus lábios que mesmo em sono pareciam me prometer futuros. Assim, dormindo, só perdi teus olhos: grandes, atentos, que me falam de tanta doçura ainda que dele não saiam palavras.

Deixei-te o café pronto, um bilhete de bom-dia e saí feliz, porque minha casa não estava vazia. Fechei a porta cuidadosamente, porque lá dentro, no breu do quarto, na minha cama, estava você.

À porta do prédio deve ter começado. O dia sem você, sem os olhares que tudo entendem, as pequenas carícias que me confortam, a sede de tuas mãos nas minhas a cada instante, e eu fiquei feliz de sentir, ali na esquina da rua, a pouquíssimos metros de onde você estava, esta saudade nascente.

A madrugada fora estranha. Em algum momento, entre o acordado e o sonho, tive medo. Acho que depois que disseste o quão claramente você está envolvido, tremi. Eu posso ser bem idiota nessas horas e fui, ainda que tudo tenha se passado em mim, sem nem se quer um olhar que me traísse e revelasse essas sombras. Como um raio me veio o quão vulnerável o amor nos torna ao amado, por mais que nos cerquemos contra esta espécie de fragilidade que, no entanto, faz parte mesma do que é o amor. O cansaço das últimas vezes, o quanto decidido a me relacionar de forma diferente de tudo o que se pode chamar de “namoro” eu estava.

Agora? Não sei mais. Não há planos, decisões, ou estratégias. Só esta saudade imensa, este desejo do teu abraço, da tua boca na minha, tua barba brincando em meu pescoço, esta vontade de fechar os olhos e, em paz, sentir tua respiração ao meu lado.

sexta-feira, 27 de maio de 2011

Teste para um projeto secreto

Foi só pôr o primeiro pé na rua e ela começou, uma chuvinha lenta, mas insistente, de um friozinho histérico. Saco! Com a minisaia e a blusa que eu tava iria sentir um puta frio até chegar em casa.
“Merda! Chuva...”

Espantada, olhei pro lado. Havia me esquecido completamente dele.

“Qual teu nome mesmo?”
“Porra, tu não lembra?”
“Cara, se lembrasse eu tava te perguntando?”
Apressei o passo. Porque todo cara bonitinho e que beija bem, sim do beijo eu lembrava, fode com tudo quando abre a boca?
“Marco”
“Ah... Tu não parece”
“Que?”
“Tua cara não é de Marco.. sei lá, parece mais Bruno ou Antônio”.

Ele fez uma cara escrota e a chuva apertou. Merda, vou chegar toda molhada em casa. A água insistia e penetrava em arrepios contínuos a malha fina da minha blusa, ensopava o jeans da saia, nem o tecido mais grosso das meias quase até os joelhos eram capazes de resistir.
“Merda de chuva!”

Ele sorriu divertido, com sua cabelerira rebelde amansada pelo dilúvio. Tinha olhos grandes o Marco.
“Vem”

Debaixo da marquise, ainda atingidos pela água onipresente, mas um pouco mais a salvo esperávamos. Seu braço tocou o meu. Eu quis lhe secar os cabelos agitando-os com minhas mãos molhadas. Beijo, beija bem o danado.

Uma língua quente no frio de uma esquina em Botafogo no meio da madrugada não é nada ruim. Aqui e ali um certo amargor de cerveja é sentido, mas não quero que ele pare. Estou molhada e com frio. Seus braços finos mas decididos me abraçam, vasculham minhas costas, apertam minha bunda. Eu não deixaria, mas ali somos só nós e a chuva. Nem um mendigo, um cachorro qualquer estaria tão desamparado debaixo daquela marquise.

Aperto-o com vontade. Começo a tremer de frio, estou molhada. Ele me aperta ainda mais e suas mãos deslizam em meu corpo, sinto a ranhura de seus dedos sobre meius peitos, vencendo minha blusa, ultrapassando o vigor do sutiã novo, a aspereza gelada de sua mão aperta os bicos dos meus peitos. Penso em protestar, mas molhada numa esquina escura no meio de uma madrugada onde o mundo desaba em água?

Dos peitos pra barriga, quando descobre meu piercing, vejo-o sorrir, eu o impeço de falar. Me beija, não pára é o que ele advinha no meu corpo fortemente junto ao dele. Molhada, peciso do seu calor. Ele desliza suas mão pra baixo do meus jeans, abre minhas coxas e, sem pudor, invade minha calcinha. Eu tremo e me lembro de minha mãe falando das meninas fáceis de hoje em dia “Que horror, que horror” e torce o nariz arrebitado em plástica. Não pare, a forma como prendo seus dedos entre minhas coxas úmidas lhe diz. Um, dois, quase três dedos. Molhada, quente.

Ele me põe contra a parede e num gesto automático, como se fizesse isso em todas as madrugadas chuvosas por todas as esquinas da cidade, abre o zíper, tira uma camisinha do bolso e se joga sobre meu corpo. Penso em gritar, mas minha boca chupa os dedos de sua mão; em pedir que pare enquanto algo se rompe definitivamente na minha vida, mas minha boca em sua orelha não deixa; minha voz arfante em palavras desconexas, minha boca na dele. Uma quentura viscosa sai de mim, enquanto esta mesma quentura em ondas se projeta em círculos desde a minha barriga, captada pelos bicos dos meus seios em ondas que me contraem o abdômen, retesam meus músculos. Vonta de rir, descontroladamenete, enquanto ele geme como se tivesse sido atingido por uma dor estranha. Mordo-lhe a orelha.

“Porra! Tá maluca, sua escrota?” Ele tenta reter o sangue que mancha agora seu pescoço. O pau já murcho, num espetáculo deprimente devidamente guardado. Marco saiu furioso e eu, rindo de gargalhar.

Sozinha, depois de dois segundos a chuva pára. Acendo o último cigarro, tento prender o cabelo e tomo o rumo de casa, ainda molhada.

terça-feira, 24 de maio de 2011

Des-costura

As coisas não são, elas se fazem. No princípio era o vácuo. E, então, alguém inventou: homem, mulher, moral, sexo, normal, correto. A partir do primeiro contorno rarefeito de cada uma destas coisas se viu que era necessário mais formas, definir, moldar: mulher-dócil-materna, homem-ativo-provedor, sexo-homem/mulher; a cada laço se reforçava como o “é assim” o que se inventava apenas a cada vez que se contavam casos, histórias, teorias científicas, narrativas sagradas. Cada laço, moldando, ajustando, formando o que, depois, se vê como a identidade sólida e perene de algo. Porque tudo é performance.

Formar-se per, através de, insistindo-se perenemente, e em laços sempre outros a respeito do mesmo. Costura-se, amarra-se de todas as maneiras possíveis, a única exigência é que o tecido seja inteiro, de alto a baixo sem linhas, junturas ou justaposições. É preciso que a costura se perca para deixar que as coisas apenas “sejam”, numa identidade que se produz a cada instante e instância.

Daí o medo dos incautos. Como desafiar um mundo de certezas? Ser homem e gostar de homem? Ser mulher e não jogar as tranças esperando alguma espécie de salvação? Os covardes dirão que é tudo muito difícil e cruel, que as coisas são como são e ponto. O que eles não sabem, ou não querem enxergar, é que as coisas não são, elas se fazem.

A natureza inscrita numa espécie de código imutável a se repetir perenemente, a sociedade como instância que precisa de bases sólidas e homogêneas, protegidas como o interesse maior da humanidade, sancionada pela benção divina que criou homem e mulher. Filmes, livros, discos, “desde que o mundo é mundo é assim” transmitem certezas absolutas e contam com manicómios, exorcismos, alguma permissão temporária no carnaval, normal/anormal e lâmpadas na cara em plena avenida para ajustar os desviantes. Tudo para que o que se faz reiteradamente como condição de se manter, desponte apenas como a obviedade do “desde sempre foi assim”.

O que não se percebeu de antemão é que, cada laço que afirma não se encaixa completamente no anterior, a costura não é perfeita, há espaços, vazios, volumes e fendas não previstas. Porque sendo performance, ser homem e mulher, nunca pode ser exatamente a mesma coisa. Não sabiam disso, não contavam comigo e tantos outros.

Aqui e ali, alargamos as brechas, vemos oportunidades na folga de laços, atrapalhamos, com apurado senso de espetáculo, o fazer-se repetitivo da trama. Retiramos da invisível sombra, o tecer constante do “normal”. Ser homem, ser mulher não é de forma alguma destino natural, mas é o que se inventa disso, e nisso falaremos mais e mais, para escândalo dos opressores e glória dos que sabem ser a vida o que, afinal de contas, importa. Então porque não fazê-la mais ampla e colorida?

segunda-feira, 23 de maio de 2011

Doce é

Leve. E isto é uma forma de ausência. Porque teu corpo sobre o meu não é jamais um peso, mas, sim, afago. Para meus ossos cansados dos atritos no longo caminhar, vigor; para minha pele, quebradiça à custa de tanto, sol, chuvas, intempéries, bálsamo; para minha boca, a tua é fonte.

Prazeres que eu não sabia; recantos agora vivos, antes em dormência de séculos, só porque você me abraça, no exato momento em que sinto teu respirar junto ao meu pescoço, tuas mãos a me bagunçar o cabelo, teu hálito, bom e quente, num convite tão próximo à minha língua sedenta.

Eu não sei de amanhãs e para sempres. Nunca soube. Mas hoje é tão bom, que, por onde passo os campos verdejam. Eu não sei de amanhãs ou depois, mas por ora, tudo em mim é vida e ela canta sua doce e perfeita melodia.

quarta-feira, 18 de maio de 2011

Correria, Alegria e Musiquinha

Correria danada no trabalho hoje

Alegria imensa no tum-tum (é bate o coração)

E olha que musiquinha mais legal!

terça-feira, 17 de maio de 2011

A mais triste


Ela é sem sombra de dúvida uma das cantoras mais interessantes da atualidade. Voz incrível, que atinge modalidades, texturas diversas, do tipo que você não se cansa de ouvir porque a cada vez que o faz, percebe sempre algo novo. 23 anos, mas composições, canto e visual de diva à moda antiga.

Bateu Lady Gaga recentemente no ranking de canção mais tocada, sem clipes milionários, chifres e outras bizarrices. No Brit Awards apresentou-se apenas acompanhada do piano, esteve quase imóvel diante do microfone o tempo todo, mas soltou a voz e isto foi mais que o suficiente. Única artista a se igualar a marca dos Beatles, desde 1964, tendo consecutivamente dois albúns mais vendidos e duas canções mais tocadas na Grã-Bretanha.

Outra peculiaridade é que enquanto todas as divas pops cantam sobre uma sexualidade feminina poderosa e livre, sobre o amor plenamente realizado ou sobre como, magistralmente, deram a volta por cima, Adele canta a imensa dor da perda, do esfacelamento do amor.

Em entrevista recente para a revista australiana gay “Out” afirma que o seu ex, é, de fato, sua alma gêmea e que largaria tudo, até a carreira, confinaria mesmo sua voz ao chuveiro por ele. Adele teme que, num próximo albúm em que esteja feliz, a mágica acabe. Imagina os críticos a esculhambando e recomendando que volte a ficar na merda pra que produza, de novo, algo bom.

A tristeza é bela? Ou o olhar sensível torna belo o que contempla? Não sei. Mas espero que Adele continue nos agraciando com letras deste quilate, sejam elas tristes ou alegres:

“And I wish I could lay down beside you
When the day is done
And wake up to your face against the morning sun
But like everything I've ever known
you'll disappear one day
So I'll spend my whole life hiding my heart away”

segunda-feira, 16 de maio de 2011

Memória da pele

Sinto falta do quente da tua pele na minha. Ainda prevejo, no instante imediatamente anterior, o arrepio que tua barba me causa, oriçando-me a nuca, as costas, os pêlos todos. Quero de novo nossos abraços perfeitos. Tão amplos e confortáveis que hecatombes não destruiriam e maremotos não seriam capazes de nos separar.

Tua língua desenhando horas perfeitas na minha, a tarde que se escoa pesarosa de nos deixar à escuridão da noite, já que sua penumbra chuvosa foi o manto perfeito a cobrir nossa nudez entregue, nossos corpos em delícias de se dar e receber, a descoberta desta geografia de macho que tanto me encantou: tórax, pêlos, barriga, pau. Tudo devidamente conhecido, tateado, sorvido com ânsia e ternura, volúpia e delicadeza.

Quero teus planos para nós em cochichos ao meu ouvido, verdadeiras carícias em segredos que só eu e você conhecemos. O regalo dos teus braços fortes, dos teus olhos que brilham qual fruta madura da estação a sempre me abrir o apetite.

Quero que esta memória da pele, se enraíze em mim, se infiltre pelos poros, atinga os capilares, se comunique a tudo o que sou e assim, abraçado em todas as minhas possibilidades orgânicas de ser, estaremos juntos e secretamente unidos durante todo o longo e pesaroso dia.

Sinto falta do doce das tuas palavras, do veneno inebriante que é teu beijo, do suor mais que justificado a surgir do teu corpo em meio a tudo o que nos tornamos depois da entrega, sem reservas e quase sem nenhum medo, de um ao outro.

Quero a ti, de novo e de novo. Até lá, guardo viva a memória da pele pulsando em mim, teus abraços serão meu almoço, matarei minha sede no úmido de teus beijos, como se tudo o que traz vida e sustenta os meus dias evocasse luxuriosamente aquela tarde de Domingo.

sexta-feira, 13 de maio de 2011

Kd meu post de ontem, porra???

Sumiu o post, os comentários, já eram meu Planos Perfeitos....aff!

Bom, mas o importante é que o glorioso Rodrigo desvendou o maior enigma de todos os tempos. Porque há tanta gente como nós - quer dizer: bonito, rico, gostoso, intelectual, de bom-gosto, que entende de moda, decoração e Física Quântica - solteira?

Tchan na na nan (sempre quis escrever isto): Eis a resposta!



òtimo Fim-de-semana!!!

quinta-feira, 12 de maio de 2011

Planos Perfeitos

Compraremos um casarão abandonado em algum quase subúrbio da cidade. Sei do sinal: uma mangueira na frente, com cipós que se lançam ao chão e ficam por lá, relaxados e distraídos. Há de se fazer algumas reformas: cada cômodo de uma cor, precisaremos urgentemente de piso de madeira que ressoe gostoso, como nas casas felizes de antigamente.

Na sala apenas um sofá para amigos mais velhos e muitas almofadas, para que, ao chegarem, aqueles que vem sintam-se em casa desde o primeiro minuto, porque só os muito queridos entrarão. Haverá uma senha secreta e boba a ser dita no portão e só depois de ouví-la o vira-latas que tomará conta da casa e se chamará Lico, Princesa, Florzinha ou Cão, permitirá a entrada.

Aqueles que vierem serão recebidos pela gargalhada vibrante de S., receberão o brilho dos olhos de Borboleta num chamego todo especial e o meu melhor e mais terno abraço. Poderão deixar de lado as pastas, gravatas, mochilas, as roupas todas e dançaremos nús e completamente fora do ritmo durante a noite inteira. Exatamente as 2h37 pararemos a música, nos sentaremos em roda e cada um contará a história de uma paixão fracassada diante do absoluto silêncio dos demais. Ouviremos então Dolores ou Maysa ou Anthony and the johnsons ou mesmo Adele. Pode-se chorar um pouquinho, Mas logo haverá mais cerveja, outros abraços, diferentes músicas e nos lembraremos que estamos vivos e que isto é, por si só, um imenso privilégio.

Pela manhã acordarei S. e Borboleta com o cheiro inebriante do meu café invencível. Leremos os jornais desconfiando da seriedade de tudo e trocaremos as flores por outras novas, emocionados por a vida ser assim, bela e voraz. A vida consome tudo: o tempo, os planos, as reservas, os bons propósitos só o que fica é a beleza e esta será tudo nesta nossa casa. Duvida? A prova é que ao entardecer sentaremos os três em grandes poltronas, impactados pela maneira como o sol lança os últimos reflexos dourados sobre as cortinas de retalhos multicoloridos.

Beberemos vinho ouvindo Chet Baker e, revigorados, sairemos pelas ruas de mãos dadas sem deixar que percebam se somos um ménage a trois, umas virgens inocentes, velhas futriqueiras ou bando de loucos.

Teremos rasgado nossas identidades, jogado fora nossos CPF’s, feito o enterro ritual de tudo o que se exige de nós para ser alguma coisa e seremos, então, só e absolutamente o que desejarmos, o que a imaginação nos colorir, o que inflar em nós o santo e irriquieto desejo.

Amém.

quarta-feira, 11 de maio de 2011

Fica a dica



O post anterior foi inspirado no filme Strapped, do diretor Joseph Graham de 2010. A ação toda se passa num único prédio que, na descrição de um dos personagens, é o edifício “mais gay da rua mais gay da cidade”. Talvez por isto o michê, papel principal do filme, não consiga deixar o prédio, encontrando sempre clientes pelos corredores. Na lista inumerável destes há o tímido, os porras-loucas, o idoso, o pseudo-hétero homofóbico.

A atmosfera é quase sempre lúgubre, no entanto, é visível o afeto que o diretor tem por aqueles personagens perdidos na noite satisfazendo seus desejos. Há na relação do michê com seus clientes uma espécie de carinho, de cuidado que empresta ao filme certa ternura.

Sem dúvida alguma o grande destaque é o ator que faz o michê, Ben Bonenfant (é também dele a foto no post anterior). Sabe aqueles atores cuja câmera adora? Parece ser o caso. Não há nenhuma cena explícita, o máximo que se revela de Ben é o cofrinho, mas quando ele tira a roupa dançando sensualmente, sorri ou te olha de um jeito entre o malandro e o perdido, dá vontade mesmo de levar pra casa e dar tudo, até a senha do banco se ele te pedir com jeitinho.

Só não gostei mesmo do final (No spoiler!). Mas eu ando mesmo muito chato pra coisinhas felizes.

terça-feira, 10 de maio de 2011

Puto


Os sóis claríssimos sobre o asfalto ainda quente iluminam minha passarela de todas as noites. Se não tenho endereço certo, fico por ali, sentindo o friozinho que, vez por outra, sopra vindo do mar, dois ou três quarteirões ao norte. Gosto de observar as manchas estranhas, borrões metálicos dos néons sobre os carros que passam. Ao lado do meu hidrante, no meio da madrugada, eu estou em casa.

Sei adivinhar o tipo de cara só pela maneira que se aproxima: a quantidade de vezes que passa por mim antes de parar, a velocidade com que abaixa o vidro e faz contato, a música que ecoa lá de dentro.

Gosto de trepar. Até com mulheres, vez por outra. Mas os caras é que me dão tesão de verdade, além de ser um mercado infinito. Muitos chegam tensos, tímidos como se o que fosse ocorrer dali a instantes fosse a coisa mais extraordinária do mundo: pau na boca, no cú, enfim, o óbvio e costumeiro. Eu tenho um jeito especial com estes, converso, os acalmo, ponho a mão em seus ombros o mais rápido que posso, para eles sentirem segurança e sorrio, sempre. O meu melhor sorriso. Há sempre cerveja, ou vinho, até whisky e, então, o álcool faz o resto. Depois de ultrapassada a barreira inicial os fodo com vontade, batendo o saco em suas bundas, mordendo-os na nuca, na pressão exata para que sintam quem manda ali, mas que nunca fiquem marcados e então possam voltar sãos e salvos para suas esposas, namoradas e namorados.

A melhor coisa numa noite é diversificar. Tem uma hora, depois de quatro, cinco encontros comendo que tudo o que você precisa é de alguém que queira apenas que você o chupe, bote o pau do cara lá na garganta e deixo-o esporrar lá dentro. Cobro muito mais barato e é um alívio no meio da madrugada. Ou senão dar a bunda. Faço isso com uma facilidade tremenda: não importa tamanho, calibre ou o quanto o cara enfia a rola em você, tiro de letra e, quase sempre antes que o cara queira, ele se entrega e goza: chave de cu é isso.

Acho o sexo uma das formas mais completas de carinho. Você quer um abraço? Deixe que eu aperto seu corpo junto ao meu enquanto enfio gostoso na sua bunda. Precisa de atenção, sente-se desvalorizado? Durante trinta, quarenta minutos você será o centro do mundo numa dedicação exclusiva e entrega total: tudo o que você quiser.

Se isto é o melhor que eu posso oferecer aos caras, uma espécie de talento nato, porque não ganhar por isso? As pessoas fazem sexo por tantos motivos: carência, auto-afirmação, estresse, porque não posso fazer por dinheiro? Eu não tenho nenhuma espécie de constrangimento, faço com carinho, com vontade, sou, no momento, tudo aquilo que o outro quer que eu seja, que ele precisa que eu seja, isto não é uma forma de amor? Pra mim é e o dinheiro, também. Ah, faço tudo mesmo, só não beijo na boca, ok? Sei lá, é algo assim... muito íntimo, né?

domingo, 8 de maio de 2011

A fonte

Você se acostuma às paisagens desérticas; com a prática, chega a vislumbrar os diferentes tons de vermelho escalonados em paredões íngremes, encontra a poesia no vento que sibila revolvendo areias, e percebe que, mesmo lá, há um pôr do sol fantástico, vez por outra.

Pelas trilhas percorridas vai se livrando de bugigangas inúteis àquela realidade como o que outrora foram grandes sonhos, agora levados em potes mínimos, também já descartados por aí. A aridez que castiga sua pele em chicotadas ásperas é só o normal desde a algum momento, o coração em febres que nem mornas são, mas inventadas para o momento, para durarem nada, só pra se saber ainda vivo é a sua melhor tática de sobrevivência.

E então o que acontece? Abrigado a uma passageira sombra, suficiente para um frescor momentâneo, sentado o tempo exato para recobrar as energias e feliz, porque na verdade, o deserto agora é a sua casa, o seu habitat, orgulhoso pela desenvoltura com que você se move nele, eis a fonte: límpida, suave, refrescante que renova a vida . O que fazer senão, mãos em concha, se aproximar com gratidão e cuidado da fonte, sentindo, subitamente, toda a sede esquecida, o ardor de séculos na garganta: o primeiro gole.

Que água é esta? Que propriedades contém? De que minerais é feita? Bebe-se mais e mais e as mãos em concha se estendem ininterruptas. Bebe-se uma noite inteira com desejo e de tal forma que parece que não o corpo apenas, mas qualquer coisa de mais íntima pudesse se nutrir dessa água, como se ao contato dela, as camadas todas de pó, pedras e granitos sem fim revelassem o úmido, o vivo que ainda reside em você. Bebe-se com vontade e sempre mais na noite, agora fresca, mas não com sofreguidão como um sedento esturricado e ensandecido bebendo aquilo que acabará por matá-lo. Bebe-se desta fonte à semelhança de vinhos, degusta-se, descobrem-se sutis sabores, se possível fosse, temperos, e isto a noite toda.

Será mero filete? Alguma precipitação passageira, logo evaporada pelas absurdas condições climáticas do deserto, como tantas outras poças efêmeras? Ou apenas se começou a sorver a água da vida? Filete ou aqüífero, não importa, porque, por ora, a água corre, livre e benfazeja e é a prova de que há vida no deserto.

quinta-feira, 5 de maio de 2011

I`m back, babies

O Internet explorer do meu computador adquiriu vida própria e passou a funcionar quando bem entendesse. Percebi de imediato que ele é homofóbico porque não me deixava nunca abrir sites babados e quase nunca inteligente, porque na maioria das vezes, era impossível acessar a amada Blogsville.

No auge do meu desespero pensei em trocar o computador, mas cadê a grana pra isso agora? Roubar o computador do meu pai que tem 2 e mais o Ipad? Entrar de madruga na editora que trabalho surrupiar uma máquina e deixar uma trilha de migalhas de fandangos, do sabor que a secretária sempre come? Optei mesmo por juntar dinheiro de forma honesta, vendendo meu corpo em algum ponto da decadente Praça Tiradentes... até que... tchan na na nan... Baixei o Firefox e todos os meus problemas (quer dizer pelo menos os referentes à internet) se resolveram!

Viva a raposa!! (Sim Foxx é isto mesmo!!)
Logo, logo, apareço nas casas de vocês para uma happy hour.
Bjs querid@s!

sexta-feira, 29 de abril de 2011

quinta-feira, 28 de abril de 2011

Estilhaço-instante

Este é o momento para rasgar o instante.
À minha frente o monitor desdobra-se em mil telas, cada uma pendência de algo a se fazer.
Meio copo d’água e uma xícara de café vazia, borra na qual não se advinha futuro algum.
Mais à esquerda Edu liga, trabalha, suspira: conformado. E à direita, a cidade se move impávida e monótona, bem ao ritmo das Quintas-feiras por volta de 17h15 da tarde.
Vamos rasgar o instante?
Play, música, o amargo do café, o aperto no pau por sobre a calça, a lembrança do derradeiro abraço do último amor.
Vamos estilhaçar o momento inerte em frente desta geringonça devoradora de almas?
Intimidades que se comem junto com o almoço na companhia querida do amigo há horas atrás, amanhã é sexta, há vinho em casa e o último chocolate da páscoa ainda te espera em cima da geladeira.
Sábado beberei com Bia, Domingo será dia de dormir até não poder mais e tenho meia dúzia de pessoas queridas com quem conto pro que der e vier.
Pronto.
Salvo o instante, volto ao trabalho.

quarta-feira, 27 de abril de 2011

Contracorrente


Fui preparado para o clássico roteiro de filme gay: Um amor incandescente e proibido entre dois machos, os conflitos, um querendo tornar pública a relação e o outro satisfeito com o armário e, claro, um final trágico. Há coisa mais sofrida que filme de biba?

Confesso que os atores serviram como um chamariz a mais. Dentre as miríades de tipos que me despertam o interesse, há um lugar especial para os barbudos, adoro-os. É o caso dos dois no filme. Um ainda é pescador: aquela wibe rústica, torso bronzeado ao sol, corpo trabalhado nas labutas ao mar... aiai.

Contracorrente fica no limiar entre o óbvio, sem fugir muito do esquema previsto e o surpreendente, porque o faz a partir de elementos inusitados. Confesso que o acontecimento que dá o mote à obra me deixou bem irritado quando o entendi, mas depois ele surge como metáfora maravilhosa para os amores no armário.

É um alívio e uma situação muito confortável para milhares de homens e mulheres que curtem o mesmo sexo, manter um estilo de vida socialmente aprovado e domesticar o desejo, deixando-o escondido ou vivê-lo em escapadelas, em hiatos, em breves momentos nos quais se pensa poder suspender sua inserção social, seu papel, sua identidade conquistada diante dos outros e realizar então o interdito desejo às margens, na penumbra esquizofrênica entre o que arde em nós e quem nos permitimos ser.

Não gosto de moralismos, mas acho mesmo que, de uma forma ou de outra, é assumindo em alguma instância o que se é, discreta ou corajosamente, que vai se naturalizando questões como a da homossexualidade. Às vezes para a nossa realização e para que outros encontrem mais espaço e possam respirar mais livremente sendo quem são é preciso mesmo nadar contracorrente.

terça-feira, 26 de abril de 2011

Farmacon

A sua loucura, ela punha-a em potes. Em épocas de tensões hormonais, reuniões de avaliação, prazos de entrega: grandes baldes que se espalhavam pela casa toda, sempre respingando e, por isto, não podia mesmo evitar shots de cachaça às segundas, noites insones com homens que sabia não valer a pena nas quartas. Mas tudo bem, o excesso estava mesmo contido em baldes, panelas e vasilhames por toda a a casa.

Normalmente, no entanto, pequenos potes de requeijão, de antigos perfumes, de outros tantos conteúdos lhe bastavam. E assim passava por uma mulher independente, culta e que já chegou a orgasmos inúmeras vezes na vida, uma mulher “Cláudia” ou, até mesmo, uma fêmea “Marie Claire”.

Até bem pouco tempo tampava com força cada pote, a fim de evitar qualquer emanação de loucura. Queria prendê-la, negá-la, tampando-a à vácuo. No entanto aqui e ali, o cabelo tão amansado de secador e escova rebelava-se em cacho, misteriosamente a saia comportada se abria em fendas e ela em confraternizações de trabalho e happy hours para networking se via dando mole de forma horrorosamente vulgar para os mais reprováveis tipos. A loucura havia escapado.

Hoje, a carrega em ampolas na bolsa. Quando o trânsito vai mal, abre suavemente o vidrinho e aspira: aumenta o som e balança a cabeça como num derradeiro show de Metal. No meio da reunião, metas a serem atingidas, capital a ser conquistado; para escapar à carranca de tédio absoluto que ameaça se formar, passa um pouquinho de loucura no pulso e a cheira como um perfume; então, enquanto se decifram os balancetes do ano anterior, desce a mão discretamente, apalpa as próprias cochas, vasculha o interior da saia sentindo a suavidade do tecido que roça sua pele em arrepio e chega, em brevíssimas investidas, na fonte úmida de seu prazer.

Ontem bebeu um vidrinho inteiro e, diante das preocupações do chefe sisudo, riu solta e deliberadamente, pegou suas coisas e, antes de bater a porta com estrondo, jogou, como uma bóia a um náufrago, um pote médio de loucura no colo do patrão com o rótulo: Consumir todo. Acredite, você precisa.

segunda-feira, 25 de abril de 2011

No currículo escolar

Comecei meu estágio, obrigatório para quem faz licenciatura, atrasado por motivos burocráticos. Hoje o professor corrigiu a prova bimestral e 2 trabalhos que complementaram a nota desta. E qual não foi minha surpresa ao ver que um destes trabalhos era sobre gênero e diversidade sexual.

A primeira questão pedia para citar 2 elementos que definem o sexo de uma pessoa, por exemplo, órgãos genitais e hormônios. A segunda era sobre gênero, definindo-o como a expectativa social a respeito dos sexos em determinada cultura. A última questão: Qual a orientação sexual de uma transexual?

O professor salientou que aceitou tanto quem considerou a orientação da trans antes da operação de mudança de sexo, que segundo ele seria então “homossexual”, quanto após a cirurgia, aí a resposta correta seria “heterossexual”.

Confesso que achei bem esquisita a questão. Mas ver meninos e meninas por volta de dezesseis anos em um colégio estadual discutindo sobre diversidade sexual como matéria de aula renovou minha esperança que, apesar de tanta caretice neste mundo, a gente está definitivamente conquistando espaços e preparando uma sociedade mais plural e colorida sem que se tenha que matar ou morrer tanto por causa disto. E viva o Gay Power!

quarta-feira, 20 de abril de 2011

"Comi uma cenora... tão GRANDE ela era..."

Querid@s, irmanados por este hino pornô-soft de Páscoa desejo a todos:

Ótima Páscoa

Excelente Feriado

Até semana que vem!!

terça-feira, 19 de abril de 2011

Se acaso você chegasse

Eu já quis você em meus braços em tardes de domingo embaladas com sol, cerveja e amigos quando, aqui e ali, riríamos bobos de coisas que só nós saberíamos.
Já te quis como o ombro que não falta, o abraço que aquece e as mãos sempre dadas no cinema.

Quis te levar em almoços de família, em churrascos de colegas, te desejei expor em públicas manifestações, porque nosso amor seria motivo suficiente para desafiar todas as nossas próprias covardias, pelo menos, as mais complacentes com a caretice absurda do mundo.

Eu também já te quis apenas esta noite, enquanto a música está alta e a bebida faz efeito. Te desejei em fogos breves, na exata duração da tua boca em minha nuca, meu peso sobre o teu, enquanto minha sede não se encontrasse satisfeita em teu corpo másculo, no teu pau rijo.

Eu te amei de longe e no mais perto, para sempre e só por um instante ao saber de tuas belezas e medos mais sutis e sem nem ouvir teu nome.

E agora?

Falta-me disposição para me encantar contigo. Em cinco minutos de conversa me vêem trezentas opções melhores para se fazer àquela hora do que estar em teus braços.
Tudo que te interessa me parece já visto: teus sussurros são ecos de tantos outros, tuas percepções de mundo, compradas em bancas de jornal em qualquer esquina.

Teu amor reciclado me dá ânsias de vômito e tuas promessas e declarações se desfazem no ar, são um sopro, duram a medida exata da mesma voz que as pronunciou e depois, o vazio.

O que fazer num mundo de desertos? Pegar o que é seu, pôr ao ombro seu fardo e continuar caminhando. Estender o abraço aos amigos, perfurar com dificuldade e obstinação seu próprio poço e beber da sua água, satisfazendo-se, dando-a aos outros, saciando sedes, mas sem dar-se.

Até que você apareça, até que surjas tu que me capte num sorriso e vença meu olhar experiente de tudo já ter visto, com um brilho novo.

Até que as palavras se calem, as lógicas sejam vencidas e, num gesto absolutamente consciente e livre, eu abra a minha porta e, sereno, diga: Sê bem-vindo.
Por ora, meu ceticismo pergunta: Acaso você existe?

quinta-feira, 14 de abril de 2011

Viciado

A primeira vez que a ouvi foi no blog do Dan. Na ocasião eu simplesmente "gostei", ou seja, nada que despertasse a minha ânsia de procurar na wikipédia sobre, conferir a discografia, baixar as músicas, como faço quando adoro.

Mas então houve o Brit Awards e Adele fez uma das apresentações mais tocantes que já vi. Sem saltitar no palco, se vestir de chã de dentro e patinho ou ter um ventilador constantemente diante da cabeleira, a jovem de apenas 22 anos(!) mostrou-se do porte de uma diva: voz, e que voz, e interpretação eletrizante.

Aí sim, quis saber tudo, baixei os dois CD`s da moça (19 e 21) e ouço quase todo dia, algumas músicas, como a da apresentação no Brit Awards, mais de uma vez... vício é assim.
Confere aí embaixo. É ou náo uma diva?

quarta-feira, 13 de abril de 2011

"Quando Setembro chegar" ou "À tarde, com Borboleta"

Sair deste escritório, romper o ensurdecedor barulho dos carros, da britadeira na esquina, esquecer o zumbido constante das pequenas preocupações dos transeuntes. Arregaçar mangas, expulsar a gravata e num rodopio olímpico ver os sapatos pendurados em qualquer fio de alta-tensão.

Quero te encontrar na praia. Deve ser à hora precisa: 17h45. Porque assim falaremos sobre o obscuro dos dias, o pesado da alma, o quanto é preciso ser forte a cada instante e matar um leão a cada três horas neste mundo louco, até que, surpreendidos pela luz rósea, olharemos o Dois Irmãos e, diante do sol, que se vai num último êxtase espalhando sua luminosidade difusa sobre a areia branca, entenderemos que tudo na vida se põe. E que enquanto estamos vivos e de pé não se pode negligenciar o milagre.

Deixaremos lentamente a praia junto à caravana de crianças saltitantes e pais cansados e procuraremos o bar mais simples, com mesas de alumínio, balcão velho, azulejos azuis e cerveja gelada. Do centro do mundo onde estamos, abriremos uma, duas, mais garrafas e ouvindo a noite começar ao redor, fixar-me-ei em teus olhos risonhos que são uma celebração.

terça-feira, 12 de abril de 2011

Women in love -



Acabei de assistir o primeiro episódio da nova minissérie da BBC: Women in love. Adaptação para a TV de duas obras de D.H. Lawrence: The rainbow e sua sequência Women in love. Eu já havia lido, há muito tempo atrás, do mesmo autor O amante de Lady Chatterley, obra proibida na Inglaterra durante 32 anos. Foi escrito em 1927 e contava um romance entre uma aristocrática lady e um serviçal (escândalo) onde o desejo feminino é manifesto sem subterfúgios (mais escândalo), em narrativas que, se hoje não chocam nem o mais pudico dos homens, eram devastadoras para a época (ápice do escândalo!).

Pelo que percebi na minissérie, estas duas obras que a inspiram tem a mesma pegada de O amante de Lady Chatterley. Não há pornografia, o que se faz é desvelar o sexo como realidade essencialmente humana e, portanto que deve ser dita, representada, vista. Para além dos esquemas morais, o sexo surge como o abismo no qual o bem e o mal se mostram pontos eqüidistantes no desejo. Força incontrolável é capaz de comunicar o que é mais pessoal ao outro, e por isto se mostra fascinante e perigoso, porque afinal nunca estamos expostos a alguém como no sexo, sendo a nudez física apenas o primeiro dos desvelamentos.

Os personagens principais são duas irmãs: Ursula (Rosamund Pike), uma professora, e Gudrun Brangwen (Rachel Stirling - belíssima!) pintora, e dois amigos Rupert Birkin (Rory Kinnear) pastor, e Gerald Crich (Joseph Mawle) industrial.

Atenção para o texto que é incrível. Há uma cena em que Ursula revela à mãe o real motivo do seu desinteresse pelo noivo que é um dos diálogos mais lindos que vi recentemente. Bom, não quero falar mais para não cometer o sacrilégio imperdoável do spoiler. Mas fica a dica.

Não somos racistas?!

“O número de homicídios de jovens brancos caiu significativamente no período 2002/2008, passando de 6.592 para 4.582, o que representa uma queda de 30% nesses seis anos. Já entre os jovens negros, os homicídios passaram de 11.308 para 12.749, o que representa um incremento de 13%. Com isso, a brecha de mortalidade entre brancos e negros cresceu 43% num breve lapso de tempo. Da mesma forma, se as taxas brancas caíram 23,3% (de 39,3 para 30,2) as taxas negras cresceram 13,2% no período. Com esse diferencial de evolução entre brancos e negros, a brecha histórica de vitimização negra se incentiva drasticamente no quinquênio: Em 2002, morriam proporcionalmente 45,8% mais negros do que brancos. Se esse já é um dado grave, em 2005, esse indicador sobe mais ainda: vai para 77,8%. E, em 2008, o índice atinge 127,6%.”

Ano: 2008
Taxa de homicídio de jovens negros entre 15 e 25 anos: 70,6%
Fonte: WAISELFISZ, Julio Jacobo (coord.). Mapa da violência 2011. Instituto Sangari. Ministério da Justiça. p. 60-65.

Não dá pra diluir a questão racial no Brasil na gritante diferença social entre ricos e pobres. Há uma razão histórica para que a maioria destes últimos serem negros: Uma abolição quase pró-forma, realizada sem nenhuma preocupação de inserção social do contingento liberto de forma digna na sociedade brasileira. Aos negros restou permanecer nas cozinhas, realizando trabalhos braçais.

Ainda hoje se você é pobre, há mais probabilidade de ter uma arma apontada pra sua cabeça, mas se você além de pobre é negro esta possibilidade é 127% maior.

A celebrada democracia racial brasileira é um mito que serve à uma ideologia: a dos desejosos de perpetuar o status quo.

segunda-feira, 11 de abril de 2011

Semeando em meio à chuva

A questão toda da vida é que ela “deveria ser”, é o “se ela fosse”, o “seu eu pudesse”, porque, na verdade, pura e simplesmente, a vida é. E isto tem uma densidade, um peso, paira no ar sobre todos com sua cor marrom. Como num quarto com paredes que vão se juntando, comprimindo o vão livre, tornando o espaço mais e mais exíguo, vamos crescendo nos tornando alguém, anulando as possibilidades que uma identidade, um emprego, uma inscrição no tempo e no espaço acarreta.

Há dias nos quais este confinamento é palpável: a conta do banco com jeito de fim de mês e nem dia 15 é ainda, caminhos rotineiros, dias cinzas, o mundo povoado de chatos, segunda-feira. E o que se faz com a vida que é?

A gente reclama um pouquinho, bebe pra esquecer, às vezes senta no meio-fio e chora. Mas depois de qualquer uma dessas opções o recomendável mesmo é fazer como eu. Num dia enclausurado, com as mãos grossas da vida sufocantes ao pescoço: tomei banho com meu produto importado que faz espumas milagrosas, descobri um novo som e fiz os caminhos de sempre, mas atento para detectar as rachaduras, as quebras, os hiatos e semear na homogênea rotina um pouco do frescor chamado “Liberdade”, algo de sutil e com cheiro de jasmim-Esperança, tendo o cuidado de aqui e ali não esquecer das sementes de alegria.

Sementes sim, porque, por ora espero germinarem, vê-las florescer em breve, não idealizando o impossível, mas que, um passo após o outro, eu possa colher em sol aquilo que semeei em meio aos ventos e à tempestade.

A vida é assim.
Mas eu ainda acredito na subversão.

domingo, 10 de abril de 2011

A vida em um dia

O que surpreende em “A vida em um dia” não é a extrema diversidade de culturas e tipos de pessoas sobre a terra, é o fato de, apesar disso, sermos todos fundamentalmente humanos. Aproveitei o último dia do festival “É tudo verdade” que estava rolando aqui no Rio e em Sampa para conferir a instigante proposta de Ridley e Tony Scott: voluntários gravariam suas vidas em um dia preciso, 24/07/2010, e a partir deste material se faria um documentário. Mais de 80.000 inscritos em 192 países responderam ao chamado dos produtores em parceria com o Youtube, somando o total de 4.500 horas gravadas.

De meia noite à meia-noite do dia seguinte vemos passar pela tela um monte de gente nas mais variadas situações ao redor do mundo. A única trama são perguntas que foram respondidas por alguns voluntários como o que eles mais amavam, qual era o medo maior deles, entre outras. Tem gente que só aparece escovando o dente, fritando um ovo, mas há alguns personagens mais constantes como o coreano que dá a volta ao mundo numa bicicleta há 9 anos e um menino no Peru que trabalha como engraxate e que ama a Wikipédia. Duas participações brasileiras no documentário. Pés à beira d’água enquanto se ouve a confissão de que o que a menina mais ama é sentir a areia molhada e uma cena engraçadíssima de um pai filmando o parto do filho.

A transição entre as horas é um recorte de hábitos associados àqueles momentos: muitos desjejuns, sonecas de tarde (24/7 foi um sábado), tudo ao som de uma trilha sonora fofa com um certo quê de comercial da mastercard.

Gostei do filme, ajuda a gente a perceber como este mundão é grande e que estamos todos envolvidos na mais bela e difícil batalha, a do dia-a-dia, com suas pequenas glórias, seus momentos de puro regozijo e, vez por outra, muitos motivos para sentar e chorar. Mas prosseguimos, quase sempre, quase todo mundo.

P.S. O blog só voltaria na próxima sexta quando resolvo umas pendengas que tem tirado meus sono, mas blogsville é irresistível!

quarta-feira, 6 de abril de 2011

BLOG INTERDITADO TEMPORARIAMENTE

Motivos de "Força maior" (adoro esta explicação obscura)

Mas eu volto,

Bjão

segunda-feira, 28 de março de 2011

Feliz de quem tem!

Acordei leso como sempre. Eu realmente preciso de uns quarenta e cinco minutos para deixar a zona cinzenta e amorfa do pós-sono e entrar, de verdade, no mundo dos vivos. Ainda confuso, enquanto a água era sorvida em goles imensos e despertava, gelada, minha garganta, ouvi o bip de mensagem do celular. A primeira era do carinha com quem dei uns amassos na noite anterior e a segunda da amiga C. me pedindo para ligar assim que pudesse para ela. Resumo da história: O peguete de um grande amigo havia tido um surto psicótico no sábado à noite e estava na emergência do hospital psiquiátrico Pinel. Meu amigo estava lá a noite inteira e foi pra lá que me dirigi, depois de um rápido e assustado banho.

Ficamos horas ali, eu o amigo R. e as amigas C e J. esperando o pai do rapaz chegar ao Rio. Não saía da minha cabeça a angústia que ele deveria estar sentindo. Primeiro a ligação do filho se despedindo, dizendo que ia se matar, depois outra ligação do meu amigo dizendo que o filho fora internado, a espera até ser possível pegar um ônibus numa viagem de quatro horas até São Paulo e a ponte área para cá. Se não fosse o meu amigo, o pior poderia ter acontecido ao rapaz.

Quando eu cheguei num domingo ensolarado ao hospital, vários internos estavam no pátio, alguns visivelmente fora da realidade, outros acabrunhados, todos em seus uniformes brancos ou azuis. Atrás daqueles muros, um outro mundo e foi com uma emoção boa que encontrei C. e J. As meninas que estão onde os amigos precisam, na hora em que eles mais necessitam. R. estava visivelmente cansado, abatido e meu desejo era, num abraço apertado, lhe mostrar o quanto estava ali por ele, pra ele. Ao final tudo se resolveu da forma que era possível. Almoçamos exaustos num shopping ali perto e ainda fomos para a casa das meninas tomar umas cervejas porque merecíamos, porque estamos vivos e, sobretudo, porque temos uns aos outros pra toda e qualquer hora, na alegria e na tristeza, na saúde e na doença. Quando o universo joga aleatoriamente seus dados, em meio à instabilidade reinante e à loucura do mundo, feliz de quem tem o abraço seguro de um amigo.