Qual o limite da nossa agência? Da nossa capacidade de fazer diferente, de realizar algo de próprio, expressão do pessoal, sem bula, receita ou amarra? Ou somos só repetidores de fórmulas e regras sociais iludidos por um toque de tempero qualquer que chamamos de “autenticidade” e não passa de um: “Parabéns! Você tá reproduzindo direitinho o que tá aí à mão”. Dá para a gente pegar essas estruturas todas que nos conduzem pela vida que nem gado na fila do abatedouro e revirá-las, distorcê-las, usá-las a serviço do nosso desejo? Desejo é autêntico ou só uma naturalização do condicionamento? A gente dá o nome bonito de pulsão para algo que nos foi enfiado goela abaixo?
Essa questão tem me rondado nos últimos tempos. Volta e meia encarna-se em diferentes perguntas, espraia-se em inúmeras conversas, emerge de múltiplas áreas da vida. No campo profissional, eu decidi há alguns anos bancar o meu desejo e vivo as delícias e agruras disso, com aquela sensação de que, no entanto, tudo tem valido a pena, sim, a alma não é pequena, não é, meus caros.
As relações. Tenho clareza absoluta que as mais incríveis pessoas da minha vida são os amigos. Amo minha família, reconciliei-me com nossa história, mas aqueles que podem partilhar o pão do dia-a-dia, andar ao seu lado pela longa estrada, mesmo com pés cansados e fôlego arrastado, mas ali, lado a lado, são os poucos e bons amigos. A esses, devoção incondicional e cervejas em mesas de bar, quer nas noites sombrias ou em tardes cheias gargalhadas.
Agora, quanto a isso que inadvertidamente, chamamos simplesmente de “amor” e que supõe o outro, ou a outra, que, de um estranho em ato se vai transformando em pessoa privilegiada de sua intimidade física e existencial, aquele a quem você permite os acessos não abertos de tantas instâncias e esferas ou que ele as toma na paixão, ou se lhe é dado na confiança ou carência, quanto a esse não sei. Desconfio, e cada vez mais, que o modelo que prescreve o fechamento sentimental, sexual, da vida, exclusivamente em par, a dois,, é feito para não dar certo, fábrica transloucada de neurose e culpa. Onde ao final se pergunta “Quem errou? Quanto?”, talvez, o errado seja contar com o “para sempre” implícito como promessa, ainda que não dita, em tal modelo.
A questão é: Dá para fazer diferente? Qual a nossa capacidade em construir relações nas quais o amor, o sexo, o desejo não sejam cercas dispostas a furtar o melhor do outro em proveito próprio, sobre a desculpa de também se furtar à vida, aos outros? Chamamos isso de “amor” e continuamos a habitar suas fronteiras, a habitar dentro, sem nunca deixar de espiar o “lá fora” como perigo ou promessa? Ou dá pra fazer diferente?
Não sei, mas essas coisas tão aqui: borboletando, borboletando...
Tanta coisa...
quarta-feira, 20 de novembro de 2013
quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013
O deus das minhas incertezas
Não sei se são as cinzas dessa Quarta, ou algum efeito deletério da leitura de Proust, mas assim, sem mais nem menos, depois do café pós-almoço me encheu a boca a letra de uma antiga canção religiosa. Sem nem perceber comecei a cantarolar, abriu-se o portal e eu me vi transportado a um mundo de afetos pungentes, tantas vezes experimentado em momentos de oração, tardes de partilha, encontros com aqueles que experimentavam a mesma fé, o mesmo desejo, a mesma vida que eu.
Mundo esse que não é mais possível. Algo assim como o encanto de uma infância doce, de uma tarde no sítio do avô. Passando por uma estrada de interior qualquer, súbito um cheiro fresco de fruta te lança aos pés da imensa mangueira onde a gurisada azucrinava o juízo de todos, com pés de barro e sorriso fácil; um ínfimo daqueles sons, cheiros, desaguam uma emoção revisitada e quente em seu peito, ainda que com o selo do irreversível, do que já foi.
Foi isso que senti. Espasmos de um cristianismo bom onde a fé era amor e esse tinha a concretude de pessoas queridas nas lidas diárias, as minhas e as delas que eram, ainda que de formas tão diferentes, as mesmas batalhas. Saudades de um deus sem mistério, à mão que organizava um mundo pronto, feito, lúcido. Deus ou alegre criação das minhas inseguranças não importa, para mim, que caminhava então ainda mais trôpego que agora, ele era certeza e aconchego.
Agora sei que não há garantias. Que qualquer arrumação feita está à espera da próxima ventania. E que isso não é mau, é só mesmo a vida e, sendo assim, há de se encontrar a poesia possível em meio a tudo. Nascentes e poentes, risos amigos e mãos estendidas, mas também a sombra, a dor e o sem-sentido. Talvez deus esteja mais pra lá, seja essa espécie de insistência que faz brotar gramíneas verdes em dobras de cimento, uma certa teimosia da vida diante do imponderável que nos faz, sem saber muito bem o porquê, nem o como, simplesmente seguir adiante. Não um deus-à-mão, mas o princípio-esperança de que no derradeiro fim, e antes disso pouco a pouco nas pequenas delicadezas dos dias, se dê a completude do nosso mais humano desejo.
Será?
Mundo esse que não é mais possível. Algo assim como o encanto de uma infância doce, de uma tarde no sítio do avô. Passando por uma estrada de interior qualquer, súbito um cheiro fresco de fruta te lança aos pés da imensa mangueira onde a gurisada azucrinava o juízo de todos, com pés de barro e sorriso fácil; um ínfimo daqueles sons, cheiros, desaguam uma emoção revisitada e quente em seu peito, ainda que com o selo do irreversível, do que já foi.
Foi isso que senti. Espasmos de um cristianismo bom onde a fé era amor e esse tinha a concretude de pessoas queridas nas lidas diárias, as minhas e as delas que eram, ainda que de formas tão diferentes, as mesmas batalhas. Saudades de um deus sem mistério, à mão que organizava um mundo pronto, feito, lúcido. Deus ou alegre criação das minhas inseguranças não importa, para mim, que caminhava então ainda mais trôpego que agora, ele era certeza e aconchego.
Agora sei que não há garantias. Que qualquer arrumação feita está à espera da próxima ventania. E que isso não é mau, é só mesmo a vida e, sendo assim, há de se encontrar a poesia possível em meio a tudo. Nascentes e poentes, risos amigos e mãos estendidas, mas também a sombra, a dor e o sem-sentido. Talvez deus esteja mais pra lá, seja essa espécie de insistência que faz brotar gramíneas verdes em dobras de cimento, uma certa teimosia da vida diante do imponderável que nos faz, sem saber muito bem o porquê, nem o como, simplesmente seguir adiante. Não um deus-à-mão, mas o princípio-esperança de que no derradeiro fim, e antes disso pouco a pouco nas pequenas delicadezas dos dias, se dê a completude do nosso mais humano desejo.
Será?
terça-feira, 22 de janeiro de 2013
Finalmente
Aos 70, ouvirei solos de piano sem sentir-me à beira do abismo. A solidão envolvente e dramática não mais lembrar-me-á da morte, terei então, aprendido a dar-lhe a mão, esperarei por seu beijo não como o descompassado da vida, uma tragédia possível qualquer, adiantada sempre para minhas outroras expectativas juvenis.
Aos 70, poderei reconciliar-me com a sombra de tudo que lentamente pousará sobre meus músculos, minhas forças, o reflexo tenaz e vívido de minhas respostas orgânicas, agora, em desalinho; do mesmo modo como agora, aos 35 sei dos sonhos primaveris como uma ilusão não realizável em sua inteireza, tenho testado o agridoce do desejo e isso é bom e triste, tempero e veneno.
Aos 70, terei visto quase tudo, saberei reduzir a multiplicidade caledoscópica da novidade aos velhos bordões da parca inventividade humana, mas terei também o feeling do milagre, percebendo de imediato quando o novo estreia no mundo.
Aos 70, sentar-me-ei só, diante do alimento e saborearei em cada pedaço todas as mesas que já provei, reconhecerei em cada rosto amigo que perdurar comigo, todas as pessoas que vivi no essencial das minhas encruzilhadas ou nas cercanias da minha história.
Aos 70, terei visto tecno-revoluções despejarem coisas impensáveis no dia-a-dia dos que me sucederão e apetrechos incríveis de que ninguém teve ou terá absoluta necessidade. Rirei das cadeias desfeitas de outrora e surpreendido com os novos grilhões me espantarei do bicho-homem, maravilhoso e terrível.
Aos 70, ouvirei música nos graves silêncios, risos entre os cantos de pássaros e zombarei de tudo ao dar-me o direito de caducar em paz. Apegar-me-ei com elegância e traquejo ao fio dourado da vida que tece o sempre inusitado cotidiano e se rompe ao fechar das pálpebras, até a manhã seguinte, até nunca mais.
Aos 70, poderei reconciliar-me com a sombra de tudo que lentamente pousará sobre meus músculos, minhas forças, o reflexo tenaz e vívido de minhas respostas orgânicas, agora, em desalinho; do mesmo modo como agora, aos 35 sei dos sonhos primaveris como uma ilusão não realizável em sua inteireza, tenho testado o agridoce do desejo e isso é bom e triste, tempero e veneno.
Aos 70, terei visto quase tudo, saberei reduzir a multiplicidade caledoscópica da novidade aos velhos bordões da parca inventividade humana, mas terei também o feeling do milagre, percebendo de imediato quando o novo estreia no mundo.
Aos 70, sentar-me-ei só, diante do alimento e saborearei em cada pedaço todas as mesas que já provei, reconhecerei em cada rosto amigo que perdurar comigo, todas as pessoas que vivi no essencial das minhas encruzilhadas ou nas cercanias da minha história.
Aos 70, terei visto tecno-revoluções despejarem coisas impensáveis no dia-a-dia dos que me sucederão e apetrechos incríveis de que ninguém teve ou terá absoluta necessidade. Rirei das cadeias desfeitas de outrora e surpreendido com os novos grilhões me espantarei do bicho-homem, maravilhoso e terrível.
Aos 70, ouvirei música nos graves silêncios, risos entre os cantos de pássaros e zombarei de tudo ao dar-me o direito de caducar em paz. Apegar-me-ei com elegância e traquejo ao fio dourado da vida que tece o sempre inusitado cotidiano e se rompe ao fechar das pálpebras, até a manhã seguinte, até nunca mais.
sexta-feira, 18 de janeiro de 2013
Manual Quase-prático para o amor
Tem gente ganhando muito dinheiro com isso, mas o meu manual é de graça. E isso já diz tudo, mas atenção: Querer preencher o espaço vazio, esse aí, do seu lado no cinema, ou o da cadeira em frente no restaurante, o do “cadê o namorado(a)?” na festa de amigos e familiares, é uma motivação honesta e urgente para o amor, no entanto, não garante resultados promissores. Num mundo onde só se é feliz estando obrigatoriamente a dois, aprender a andar na própria companhia é uma revolução necessária.
Disse que o manual é de graça porque o amor também o é, quer dizer, mais ou menos, é preciso pagar pelo amor: tempo, energia, disposição, as vezes dinheiro mesmo, então fica melhor dito assim: o amor é imponderável. Não é fruto de um cálculo, de uma jogada, cuidar do próprio jardim pode só significar que você terá um jardim lindo para curtir sozinho (a). Porque o amor é dom, é graça, milagre de duas existências que se sabem ao encontrar uma à outra (claro, isso depois de nuas, a nudez é essencial no amor). Pode acontecer ou não. Por isso esqueça o “trago a pessoa amada em três dias”: horas, prazos, cronogramas, o amor é, normalmente avesso à burocracia. É preciso também ter uma estratégia, nem que seja a minha que consiste em não ter estratégia. Ah, é fundamental não ter medo do ridículo, ele e o amor são vizinhos.
Pode-se arranjar alguém para passar os dias difíceis, ter namorado, marido, bodas de prata e casa na praia e nada de amor. O amor é voluntarioso, se dá quando, onde, como e a quem ele queira. Sem méritos, dever de casa feito, nota 10 na redação. Acontece também com os chatos, com as feias, a miss universo, Einstein e com os que juram que não o querem.
Eu não sei nada sobre o amor e acabou que este não é a porra de um manual quase-prático nenhum. Não sei nada, mas desconfio:
1) Deve-se estar empenhado em ser você mesmo, de algum modo ser fiel a si - seja lá o que isso signifique em cada caso.
2) É preciso saber minimamente o que não se quer e não se aferrar rigidamente a isso.
3) Se o amor nos testa, enviando-nos ao longo de anos sem-fim: quase-amor, falso-amor, carência com máscara de carnaval de amor, é preciso rir de si mesmo, chorar no fim da noite bebendo uma vodka suja qualquer e estar recuperado dali a algum tempo ou mentir tão bem que se está que você mesmo acredite nisso.
4) Reconciliar-se com o instante. Ter apaziguado o momento fugidio, saber desfrutar da mágica do “agora”, saborear o efeito inigualável do que uma manhã de sol ou tarde de chuva fina e terra fresca causam nos sentidos.
Dizem que terra úmida e chuva fresca fazem um bem danado para o amor.
Disse que o manual é de graça porque o amor também o é, quer dizer, mais ou menos, é preciso pagar pelo amor: tempo, energia, disposição, as vezes dinheiro mesmo, então fica melhor dito assim: o amor é imponderável. Não é fruto de um cálculo, de uma jogada, cuidar do próprio jardim pode só significar que você terá um jardim lindo para curtir sozinho (a). Porque o amor é dom, é graça, milagre de duas existências que se sabem ao encontrar uma à outra (claro, isso depois de nuas, a nudez é essencial no amor). Pode acontecer ou não. Por isso esqueça o “trago a pessoa amada em três dias”: horas, prazos, cronogramas, o amor é, normalmente avesso à burocracia. É preciso também ter uma estratégia, nem que seja a minha que consiste em não ter estratégia. Ah, é fundamental não ter medo do ridículo, ele e o amor são vizinhos.
Pode-se arranjar alguém para passar os dias difíceis, ter namorado, marido, bodas de prata e casa na praia e nada de amor. O amor é voluntarioso, se dá quando, onde, como e a quem ele queira. Sem méritos, dever de casa feito, nota 10 na redação. Acontece também com os chatos, com as feias, a miss universo, Einstein e com os que juram que não o querem.
Eu não sei nada sobre o amor e acabou que este não é a porra de um manual quase-prático nenhum. Não sei nada, mas desconfio:
1) Deve-se estar empenhado em ser você mesmo, de algum modo ser fiel a si - seja lá o que isso signifique em cada caso.
2) É preciso saber minimamente o que não se quer e não se aferrar rigidamente a isso.
3) Se o amor nos testa, enviando-nos ao longo de anos sem-fim: quase-amor, falso-amor, carência com máscara de carnaval de amor, é preciso rir de si mesmo, chorar no fim da noite bebendo uma vodka suja qualquer e estar recuperado dali a algum tempo ou mentir tão bem que se está que você mesmo acredite nisso.
4) Reconciliar-se com o instante. Ter apaziguado o momento fugidio, saber desfrutar da mágica do “agora”, saborear o efeito inigualável do que uma manhã de sol ou tarde de chuva fina e terra fresca causam nos sentidos.
Dizem que terra úmida e chuva fresca fazem um bem danado para o amor.
terça-feira, 11 de dezembro de 2012
Um HIV para se gostar
Poucas doenças condenaram seus possuidores ao estigma social na amplitude em que a AIDS fez. Nos anos 80 e boa parte dos 90, o “positivo” no teste para sorologia do HIV era não apenas uma sentença de morte, mas a certeza de uma execração pública. Pesava sobre o/a infectado (a) uma condenação moral além de uma bomba-relógio viral.
Para os gays, então, isso foi gravíssimo. Os anos 70 representaram uma época de liberação sexual, de luta contra os preconceitos, momentos no qual começaram a se criar as condições sociais para uma imagem pública positiva dos indivíduos que amavam e/ ou fodiam com outros do mesmo sexo. Os primeiros casos de AIDS reavivaram toda a onda moralista que parecia dar seus primeiros sinais de arrefecimento. Na boca e na escrita de muitos, a doença representava o acerto de contas de deus, da biologia contra os usos anti-naturais e, por isso, sacrílegos dos corpos.
É bem verdade que o advento da epidemia forçou uma série de debates e popularizou a discussão sobre práticas sexuais que antes permaneciam escondidas, marginais, trazendo-as dos guetos e camas “dos pederastas” para as principais arenas da opinião pública e fóruns governamentais.
Já faz alguns anos que, apesar de condição crônica de saúde, ser soropositivo deixou de ser uma sentença de morte. Com a dissolução lenta da ideia de “grupos de risco” para a infecção, pela democrática tragédia da contaminação sem preferências, também já não se associa a AIDS como alguma espécie de “peste gay”. Mas nada tinha surgido até agora que inocentasse o HIV.
No meio da dor de tantas vidas injustamente ceifadas por “ele”, talentos podados no auge, ânsias corajosas de vida e tesão esmagados sobre um vírus odioso travestido de moral divina, o HIV ainda era o símbolo, unidos a tantos outros, do absurdo da existência. Absurda existência que se dobra e finda ante uma partícula mínima e irracional que, no entanto, impacta e deforma as tramas do poder intelectual, das histórias de amor interrompidas, a explosão de sensibilidades para sempre não realizadas.
E, como diante de todo imponderável na vida, a gente se cala e espera, numa fé cega, suspensa no vácuo de todo sentido, que algo nasça dali. Muitos viram alguma luz, compreenderam a contingência, a finitude, a morte como um grito à vida, ao momento, ao instante que é precioso e se esvai.
Isso, no entanto é a redenção dos que pensam e sentem, dos vivos e mortos que tem “alma”, essa resiliente persistência no sentido das coisas. Não era, no entanto, a redenção do vírus. Para o HIV não havia salvação. Até hoje, quando, de manhã, li a notícia. Pacientes desenganados de leucemia que vem respondendo de maneira excelente ao tratamento pela introdução de HIV desativado, o que faz com que o sistema imunológico produza um tipo específico de células competentes para o combate ao câncer.
Emoção. Fiquei pensando, no quanto a gente, homens e mulheres, desde sempre, inventamos o mundo, reinventamos tudo, desafiando a natureza, todos os deuses para continuar vivos e transmitir aos que chegarão uma vida melhor, com mais recursos. O quanto na breve saga humana sobre esta terra, apesar de todas as misérias e abominações, há também tanto de beleza, persistência e criatividade. Somos humanos, na fragilidade de nossas condições e na grandeza de nosso desejo.
Finalmente um HIV para se gostar.
Para os gays, então, isso foi gravíssimo. Os anos 70 representaram uma época de liberação sexual, de luta contra os preconceitos, momentos no qual começaram a se criar as condições sociais para uma imagem pública positiva dos indivíduos que amavam e/ ou fodiam com outros do mesmo sexo. Os primeiros casos de AIDS reavivaram toda a onda moralista que parecia dar seus primeiros sinais de arrefecimento. Na boca e na escrita de muitos, a doença representava o acerto de contas de deus, da biologia contra os usos anti-naturais e, por isso, sacrílegos dos corpos.
É bem verdade que o advento da epidemia forçou uma série de debates e popularizou a discussão sobre práticas sexuais que antes permaneciam escondidas, marginais, trazendo-as dos guetos e camas “dos pederastas” para as principais arenas da opinião pública e fóruns governamentais.
Já faz alguns anos que, apesar de condição crônica de saúde, ser soropositivo deixou de ser uma sentença de morte. Com a dissolução lenta da ideia de “grupos de risco” para a infecção, pela democrática tragédia da contaminação sem preferências, também já não se associa a AIDS como alguma espécie de “peste gay”. Mas nada tinha surgido até agora que inocentasse o HIV.
No meio da dor de tantas vidas injustamente ceifadas por “ele”, talentos podados no auge, ânsias corajosas de vida e tesão esmagados sobre um vírus odioso travestido de moral divina, o HIV ainda era o símbolo, unidos a tantos outros, do absurdo da existência. Absurda existência que se dobra e finda ante uma partícula mínima e irracional que, no entanto, impacta e deforma as tramas do poder intelectual, das histórias de amor interrompidas, a explosão de sensibilidades para sempre não realizadas.
E, como diante de todo imponderável na vida, a gente se cala e espera, numa fé cega, suspensa no vácuo de todo sentido, que algo nasça dali. Muitos viram alguma luz, compreenderam a contingência, a finitude, a morte como um grito à vida, ao momento, ao instante que é precioso e se esvai.
Isso, no entanto é a redenção dos que pensam e sentem, dos vivos e mortos que tem “alma”, essa resiliente persistência no sentido das coisas. Não era, no entanto, a redenção do vírus. Para o HIV não havia salvação. Até hoje, quando, de manhã, li a notícia. Pacientes desenganados de leucemia que vem respondendo de maneira excelente ao tratamento pela introdução de HIV desativado, o que faz com que o sistema imunológico produza um tipo específico de células competentes para o combate ao câncer.
Emoção. Fiquei pensando, no quanto a gente, homens e mulheres, desde sempre, inventamos o mundo, reinventamos tudo, desafiando a natureza, todos os deuses para continuar vivos e transmitir aos que chegarão uma vida melhor, com mais recursos. O quanto na breve saga humana sobre esta terra, apesar de todas as misérias e abominações, há também tanto de beleza, persistência e criatividade. Somos humanos, na fragilidade de nossas condições e na grandeza de nosso desejo.
Finalmente um HIV para se gostar.
quarta-feira, 8 de agosto de 2012
O Eterno e o Fátuo
Carregou sua melhor arma. Tirou o cigarro da boca, mirou, meio de lado, e jogando aquele olharzinho de desprezo, deixou a fumaça sair em grandes círculos. Tinha visto num filme, Marlene Dietrich ou Rita Hayworth, coisa assim.
Mas a vítima, ao invés de cair fulminada no chão, àquela hora, grudento da boate, sorriu e deu de ombros. Não pôde deixar de sorrir também. E assim foram vencidas distâncias, trocados nomes, profissões, bandas preferidas. Júlio bebia cerveja, Carlos só vodka e pura. Júlio nunca tinha experimentado, uma ou outra caipvodka, mas não pura e achou intenso e forte o gosto nos lábios de Carlos.
A vodka quente em seus lábios, os braços em torno aos seus, um cheiro de suor e perfume que não se sabia mais de quem. Até que as luzes se acenderam, o carrossel mágico parou de girar e Carlos sabia, então, que o amor expirara. Etiqueta velha, prazo de validade marcado para as primeiras horas do novo dia, o primeiro pé pra fora nas calçadas do cotidiano.
E, no entanto, Júlio ligou, uma e outra vez. Até que Carlos respondeu, o fez só por lembrar o arco das sobrancelhas do outro levantando enquanto seu sorriso em covinhas surgia diante do olhar blasé, até então matador, de Carlos.
Cinema, show, praia, pizza. E nada de sexo. Uma espécie de sinal dos céus, porque nas raras vezes em que houve algum segundo e terceiro encontro, era sexo e nada de cinema, show, praia e pizza. E então, numa quinta-feira, 15h42, assim que Carlos chegou com o DVD prometido a Júlio, o beijo levou-os ao pescoço, este ao ouvido, se estendendo numa linha úmida até o mamilo esquerdo e desde lá, tudo se fez.
Foi quando os últimos raios de luz daquela quinta entraram míopes pela veneziana quase fechada, encontrando-os nus e sujos, de amor e porra, que Carlos soube: Era ele. Então toda a prudência sólida, a esperteza adquirida, as palavras quase naturais porque ditas à exaustão, as regras de sobrevivência no mundo cão dos amores cotidianos e fátuos se romperam e o que se julgava domesticado, desaparecido ou extinto emergiu, com a força que só a repressão insistente pode dar a um estímulo.
No breu do quarto, virou-se para dizer, mas as palavras de tão gastas se rasgaram antes que pudesse costurá-las em linda frase. Ali, bem próximo a si, aninhado a seu corpo, Júlio, no entanto, pareceu ter compreendido. Carlos não pode ver se sorria em covinhas, preencheu-lhe a boca em beijo urgente e demorado.
No outro dia, Carlos ligou. De novo.
No outro, também.
E no seguinte.
Fim
P.S. Blog ainda em férias!
P.S. 2: Essa postagem se deve única e exclusivamente: 1. À súbita inspiração. 2. À promessa do Sr. Fred de, se eu voltasse a postar, publicar uma foto sua de cueca. Promessa é dívida, estou esperando.
Mas a vítima, ao invés de cair fulminada no chão, àquela hora, grudento da boate, sorriu e deu de ombros. Não pôde deixar de sorrir também. E assim foram vencidas distâncias, trocados nomes, profissões, bandas preferidas. Júlio bebia cerveja, Carlos só vodka e pura. Júlio nunca tinha experimentado, uma ou outra caipvodka, mas não pura e achou intenso e forte o gosto nos lábios de Carlos.
A vodka quente em seus lábios, os braços em torno aos seus, um cheiro de suor e perfume que não se sabia mais de quem. Até que as luzes se acenderam, o carrossel mágico parou de girar e Carlos sabia, então, que o amor expirara. Etiqueta velha, prazo de validade marcado para as primeiras horas do novo dia, o primeiro pé pra fora nas calçadas do cotidiano.
E, no entanto, Júlio ligou, uma e outra vez. Até que Carlos respondeu, o fez só por lembrar o arco das sobrancelhas do outro levantando enquanto seu sorriso em covinhas surgia diante do olhar blasé, até então matador, de Carlos.
Cinema, show, praia, pizza. E nada de sexo. Uma espécie de sinal dos céus, porque nas raras vezes em que houve algum segundo e terceiro encontro, era sexo e nada de cinema, show, praia e pizza. E então, numa quinta-feira, 15h42, assim que Carlos chegou com o DVD prometido a Júlio, o beijo levou-os ao pescoço, este ao ouvido, se estendendo numa linha úmida até o mamilo esquerdo e desde lá, tudo se fez.
Foi quando os últimos raios de luz daquela quinta entraram míopes pela veneziana quase fechada, encontrando-os nus e sujos, de amor e porra, que Carlos soube: Era ele. Então toda a prudência sólida, a esperteza adquirida, as palavras quase naturais porque ditas à exaustão, as regras de sobrevivência no mundo cão dos amores cotidianos e fátuos se romperam e o que se julgava domesticado, desaparecido ou extinto emergiu, com a força que só a repressão insistente pode dar a um estímulo.
No breu do quarto, virou-se para dizer, mas as palavras de tão gastas se rasgaram antes que pudesse costurá-las em linda frase. Ali, bem próximo a si, aninhado a seu corpo, Júlio, no entanto, pareceu ter compreendido. Carlos não pode ver se sorria em covinhas, preencheu-lhe a boca em beijo urgente e demorado.
No outro dia, Carlos ligou. De novo.
No outro, também.
E no seguinte.
Fim
P.S. Blog ainda em férias!
P.S. 2: Essa postagem se deve única e exclusivamente: 1. À súbita inspiração. 2. À promessa do Sr. Fred de, se eu voltasse a postar, publicar uma foto sua de cueca. Promessa é dívida, estou esperando.
sexta-feira, 13 de julho de 2012
O Blog e o Blogayro
ATENÇAO! Este blog está de férias por tempo indeterminado
porque
O blogGAYro está ocupado pra caramba!
Cuidem-se e, à medida do possível, visito vocês...
Inté mais
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