Ouvi uma vez que, de certo modo, todos nós sobrevivemos à infância. E acredito nisto. Grande parta da minha vida até os vinte e oito foi sentindo-me um outsider, alguém que, simplesmente não se encaixava. E isso era amargo e triste. Hoje acho ótimo, celebro certa estranheza e acho o tal do “não se encaixar” uma das coisas mais saudáveis na vida de um ser humano.
Há medo, mágoa e fragilidades em mim que foram terminantemente negadas, exorcizadas, maquiadas de todas as formas durante anos. E agora, eu as abraço. Dizendo a mim mesmo que ficará tudo bem, que sou forte, que os eventuais dias ruins não são os primeiros e nem serão os últimos. Eu agora posso fazer isto. Antes não, antes de uma certa maturidade adquirida, ninguém pode. Devem ser outros a nos envolver e acalentar em seus braços. E isso eu não tive.
Não cobro, não baseio minha relação com ninguém a partir disto. Simplesmente os tenho próximos, mas na teia mais íntima das minhas relações devo reconhecer que eles não estão. Sei que me amam à sua maneira. Sei para que e de que forma posso contar com eles, mas há uma gap afetivo que dá o tom na forma como convivemos.
Para mim há duas compreensões esclarecedoras: Não há culpados, o que significa que eu não sou responsável pela situação, idéia que me acompanhou boa parte da infância e adolescência; e eu posso, agora cuidar de mim e contar com o afeto daqueles que me amam, porque a gente cresce e passa a ter vida própria e não apenas o reflexo da forma como se é ou não amado no início de tudo.
Mas ainda é perturbador ouvir que, na infância, foi recomendado que me levassem a um psicólogo num momento bastante delicado da vida e que após algumas visitas, o tratamento foi interrompido porque era caro. Na hora, eu disse um “deixa para lá, faz tanto tempo”. Mas a pergunta que ficou na minha cabeça foi “E quantas vezes vocês trocaram de carro neste mesmo período?”.
7 comentários:
Sei como é. Principalmente por que eu também não me encaixava muito bem. Na verdade era mega rejeitado.
Mas sabe, o tempo passou, e olha como são as coias, eu achei ótimo também.
Sim, é verdade, em um determinado momento dói sim, mais é a vida.
Até logo moço.
http://semguarda-chuvas.blogspot.com/
Ah! as famílias! todas iguais ... Ah! o ser humano! todos iguais ... Ainda bem q crescemos e conseguimos chegar a este estágio de esclarecimento e de percepção das coisas né?
pois é, mas só da pra ser maduro assim qndo se consegue construir uma vida além deles, qndo não... ai...
Pode ser saudável depois, mas na hora é um inferno. Até hoje sou um outsider, mas hoje em dia lido bem melhor com isso do que em outros tempos.
Mas continua não sendo legal muitas vezes.
Obrigado por esse post de coração aberto!
Bjs Rafa
Na hora é doloroso e as marcas persistem.
Pelo menos no meu caso é assim.
Sim, acho q preciso de terapia.
Um abraço.
QuehomeméesseminhaNossaSenhoradosBonsPartidos!
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