segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

Quinta. Entre 5 e 6 da tarde

-Por que a gente tem que perder tudo o que ama?

E o olho luziu numa provável lágrima. Eu ali, parado, absorto no instante deste quase choro. Mas o olho se fechou e a boca aberta procurou a minha. Por uma espécie de piedade chinfrim eu correspondi. A língua quente, aquele sabor de gente passando por poros e cantos, a língua com a língua. Sobre nós nenhum deus, nenhum céu, só as pás do ventilador numa sinfonia zumbida, sem vento. O suor empapando o lençol, meu corpo sobre, o dele em mim. Teso, a barba por fazer, seu cabelo negro nublando meus olhos irritados de suor. O corpo magro, a vida pouca, a idade em flor.

Então os derradeiros raios horizontais mal venciam a persiana torta, entravam, a custo no quarto, jogando-se sobre a parede num lento suicídio. O garoto me abraçava como a garantir qualquer coisa, a cabeça incômoda no meu peito, seu pau murcho a roçar minhas pernas vez em quando.

Afasto-o e começo a me vestir. Sem quase ter se mexido, meio submerso na bagunça de lençóis úmidos, seus grandes olhos me perscrutam:
- Me responde.

Camisa posta, olho-o imóvel na cama. A bunda boa e branca, as costas quase infantis, lisas de músculos e trabalhos. Só seu olhar.

- Por que a gente tem que perder tudo o que ama. E isso, é só o começo, garoto.

A porta bate. Detenho-me um instante, nenhum som, só o monótono zumbido de um ventilador inútil.

A lágrima cai em silêncio.

9 comentários:

Paulo Roberto Figueiredo Braccini - Bratz disse...

tem coisas q podiam ser eternas né?

Unknown disse...

Perder tudo que ama pra poder amar outra vez, esse mesmo ou outro tudo.

Dan disse...

é. a gente perde pra amar outra. Eu descobri pra amar sempre! Sejam as mesmas ou as novas coisas.

Lindo texto querido! lindo mesmo!!

Dan disse...

* eu descobri que nasci pra amar sempre!
;]

FOXX disse...

bem, desse mal eu não sofro, nunca tive nada pra poder perder...

Fred disse...

Mas algumas coisas perdidas podem ser achadas de novo. Eu acho! Lindo e intenso fragmento... DOREI! Bjzzz!

Anônimo disse...

O que mais me entristece em textos escritos com tamanha precisão e beleza cirúrgica é que eles perpetuam o cinismo já tão banal entre os homens.
Cada linha trás dor e de dor em dor continuada estamos nos distanciando cada vez mais dessa lágrima que abre e fecha suas linhas.
Apesar de lindamente escrito, não gostei!
Abraços

Fred disse...

É porque eu ADORO reclamar... mesmo de boca cheia... hehehe!
E nem vem que Blogsville toda comenta dos teus - famosos - VÁÁÁÁÁRIOS CENTÍMETROS, tzá? Hahahaha! Bjz na ponta... do nariz!

Edilson Cravo disse...

Rafa:

A vida nos reserva dores e gozos.
A vida é tanta.
Abraços, amei o texto.