Os ataques dos políticos contrários ao PLC 122 são perigosos e risíveis. Fico me perguntando se alguém, de fato, concorda que há orquestrado um plano para a criação de um Império homossexual no Brasil. E para além do desgosto com estes tais políticos, na minha humilde posição de quase-sociólogo e gay, tento entender a lógica simbólica que sustenta tais devaneios.
A polêmica em torno da homossexualidade, todos os ódios e mobilizações que suscita me instiga; por que alguém se dá ao trabalho de agredir pessoas que nada tem a ver consigo em plena rua, por estarem de mãos dadas com outra? Pegar um carro, uma arma e no meio de uma madrugada escura e fria atirar numa travesti que nem se conhece, perdida num local ermo de uma rodovia brutal em qualquer saída de grande cidade do país?
Apesar de ridícula, a expressão usada pelo senador em questão nos dá uma pista. "Império" é um símbolo de poder; que para além da dimensão política pertence, ainda hoje, ao homem branco, de classe média, heterossexual. O poder simbólico de um mundo construído para ele, o poder de acessar como naturais e simplesmente dadas, todas as lógicas que governam as relações, todos os mecanismos que localizam um ser humano na cultura, na história, na sociedade. É para conservar o homem branco heterossexual de classe média no topo dos tipos sociais que existe a homofobia, o racismo e o machismo. Já chega o que se perdeu com a liberação feminina e a nova consciência negra. Além disto agora, não se poderá mais afirmar o privilégio da própria identidade a partir do viado desviante? Sobre o que se afirmar superior senão em relação ao mais fraco?
E aqui reside a astúcia atual na lógica discursiva heterocêntrica: negar o desnível social, o privilégio heterossexual. Todas as atitudes ridículas do "Dia do orgulho hétero", da denúncia do "império homossexual" partem da falácia de que as identidades hétero e homo se dão nas mesmas condições de igualdade. Se assim fosse, reconhecer legislações específicas para os gays, seria, de fato, privilégio, um plus em relação à identidade hetero. Mas o fato é que legislações se fazem necessárias justamente porque há um desnível social entre gays e héteros, uma redução absurda no acesso a recursos próprios da cidadania para os primeiros. Desenvolve-se políticas específicas para grupos no sentido de possibilitar a estes iguais condições em relação ao restante dos cidadãos, isto é próprio da democracia já que a igualdade de todos perante a lei não é algo de fato dado, mas um objetivo a ser conquistado, também pela política.
A mesma falsa ideologia da igualdade de condições como pressuposto é usada, por exemplo, para explicar porque certos setores da sociedade avançam e outros nãos, ou porque países se desenvolvem e outros permanecem miseráveis. Negar as posições específicas dos atores sociais em relação à possibilidade de acessar os recursos democráticos é criar a base para se enxergar em qualquer tentativa de inclusão gay na cidadania plena um privilégio e não uma reparação devida. Estejamos atentos.
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sexta-feira, 6 de abril de 2012
sexta-feira, 23 de março de 2012
Fazer a hora ou esperá-la?
Hoje entra no ar o site www.casamentociviligualitario.com.br. A iniciativa visa angariar apoio da opinião pública para o projeto de emenda constitucional apresentada pelo deputado federal Jean Wyllys que almeja garantir por lei a casais gays a instituição do casamento civil, com os mesmos direitos e deveres dos casais héteros.
Acho admirável qualquer iniciativa que vise retirar-nos da situação de sub-cidadania em que, ainda, vivemos. O termo “casamento” ou “matrimônio” sempre gera bastante polêmica, como se tais palavras fossem de uso exclusivamente religioso, o que é uma bobagem. O “casamento civil” está aí, justamente, para secularizar a sagrada instituição do matrimônio.
Agora não sei se, estrategicamente, é a hora para insistirmos nesta nomenclatura. Pode parecer um detalhe insignificante a princípio, mas “união civil gay” e “casamento civil gay” repercutem de modo bastante diferente na sociedade brasileira.
Se não me engano, na maioria dos lugares em que as uniões gays ganharam a nomenclatura de “casamento” foi em um momento subsequente ao do estatuto da união civil, que me parece um primeiro passo para a sociedade perceber que reconhecer, pelo direito, as uniões de fato entre pessoas do mesmo sexo não representa nenhuma ameaça real à sociedade. A não ser é claro que a heterossexualidade seja um mito e, imediatamente depois de reconhecida legalmente a união gay, todos os maridos larguem suas esposas e arranjem um bofe prometendo casa, comida e ingressos para o próximo show da Madonna.
*****
E... Ótimo Fim de Semana!
Acho admirável qualquer iniciativa que vise retirar-nos da situação de sub-cidadania em que, ainda, vivemos. O termo “casamento” ou “matrimônio” sempre gera bastante polêmica, como se tais palavras fossem de uso exclusivamente religioso, o que é uma bobagem. O “casamento civil” está aí, justamente, para secularizar a sagrada instituição do matrimônio.
Agora não sei se, estrategicamente, é a hora para insistirmos nesta nomenclatura. Pode parecer um detalhe insignificante a princípio, mas “união civil gay” e “casamento civil gay” repercutem de modo bastante diferente na sociedade brasileira.
Se não me engano, na maioria dos lugares em que as uniões gays ganharam a nomenclatura de “casamento” foi em um momento subsequente ao do estatuto da união civil, que me parece um primeiro passo para a sociedade perceber que reconhecer, pelo direito, as uniões de fato entre pessoas do mesmo sexo não representa nenhuma ameaça real à sociedade. A não ser é claro que a heterossexualidade seja um mito e, imediatamente depois de reconhecida legalmente a união gay, todos os maridos larguem suas esposas e arranjem um bofe prometendo casa, comida e ingressos para o próximo show da Madonna.
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E... Ótimo Fim de Semana!
quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012
Pela Espada e pela Palavra
Estamos vivendo no Brasil o despertar político da luta pela cidadania gay. A questão do reconhecimento dos direitos sexuais que se inscreve no hall de direitos humanos em qualquer nação que se queira democrática e minimamente herdeira dos ideais da Revolução Francesa - liberdade, igualdade e fratarenidade – suscita paixões arrebatadoras, contra e a favor.
Conseguimos importantes vitórias no Judiciário, no âmbito estadual, aqui no Rio, temos leis para coibir a homofobia, mas nos falta ainda uma legislação nacional que mostre que o país está cumprindo de fato seu papel para com seus cidadãos homossexuais: garantir, mesmo que por leis específicas para grupos discriminados, a igualdade de oportunidades para todos.
Temos a nosso favor o fato de que, cada vez mais, a sociedade entende que a homossexualidade não é uma questão moral, que, de per si, a orientação sexual não define caráter ou sanidade mental. E contra nós os conservadores, dentre os quais os mais aguerridos são os religiosos porque entendem que a homossexualidade vai de encontro à própria criação. E se nós contamos com a crescente aprovação social para que cada um viva a sua vida amando quem se queira, os religiosos homofóbicos tem uma coesão política-ideológica nem sonhada por nós gays, e o neo-pentecostalismo cresce cada vez mais no Brasil.
Os dois parágrafos anteriores foram estruturados em termos de “Eles x Nós”. Esta polarização rompe qualquer possibilidade de procurar um terreno comum a partir do qual se possa dialogar; nos predispõe para a batalha, vendo no “outro” apenas o inimigo a ser subjugado.
Sem dúvida alguma este enfrentamento político, ideológico se faz necessário muitas vezes, e quiçá tivéssemos mais pessoas preparadas e dispostas a realizá-lo. No entanto, é igualmente necessário gente capaz de construir pontes, ainda que frágeis, temerárias, num trabalho insistente e delicado. Conheço religiosos, católicos e evangélicos assim. São como que o fermento que não pressiona “de fora”, mas faz crescer a partir do interior.
Eu não tenho mais paciência, saco, vontade para esta missão, mas peço na minha quase-ainda-fé: Que deus abençoe estes corajosos!
Conseguimos importantes vitórias no Judiciário, no âmbito estadual, aqui no Rio, temos leis para coibir a homofobia, mas nos falta ainda uma legislação nacional que mostre que o país está cumprindo de fato seu papel para com seus cidadãos homossexuais: garantir, mesmo que por leis específicas para grupos discriminados, a igualdade de oportunidades para todos.
Temos a nosso favor o fato de que, cada vez mais, a sociedade entende que a homossexualidade não é uma questão moral, que, de per si, a orientação sexual não define caráter ou sanidade mental. E contra nós os conservadores, dentre os quais os mais aguerridos são os religiosos porque entendem que a homossexualidade vai de encontro à própria criação. E se nós contamos com a crescente aprovação social para que cada um viva a sua vida amando quem se queira, os religiosos homofóbicos tem uma coesão política-ideológica nem sonhada por nós gays, e o neo-pentecostalismo cresce cada vez mais no Brasil.
Os dois parágrafos anteriores foram estruturados em termos de “Eles x Nós”. Esta polarização rompe qualquer possibilidade de procurar um terreno comum a partir do qual se possa dialogar; nos predispõe para a batalha, vendo no “outro” apenas o inimigo a ser subjugado.
Sem dúvida alguma este enfrentamento político, ideológico se faz necessário muitas vezes, e quiçá tivéssemos mais pessoas preparadas e dispostas a realizá-lo. No entanto, é igualmente necessário gente capaz de construir pontes, ainda que frágeis, temerárias, num trabalho insistente e delicado. Conheço religiosos, católicos e evangélicos assim. São como que o fermento que não pressiona “de fora”, mas faz crescer a partir do interior.
Eu não tenho mais paciência, saco, vontade para esta missão, mas peço na minha quase-ainda-fé: Que deus abençoe estes corajosos!
quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012
Eu sou a filha da Chiquita Bacana
Resiliência – Capacidade de o indivíduo lidar com problemas, superar obstáculos ou resistir à pressão de situações adversas (Wikipédia)
È isto de que boa parte das minorias são feitas. Para existir, o que por si só já é resistir, num mundo com padrões rígidos de ser aos quais você não satisfaz, por um motivo ou outro, ou por quase todos, é preciso resiliência.
E isto fica absolutamente claro através da celebração das “filhas da chiquita”. A festa surgiu em 1975 no bojo da maior manifestação religiosa do norte do Brasil, o Círio de Nazaré que atrai cerca de 2.000.000 de pessoas em Outubro.
Este contexto é interessantíssimo. O mais importante evento gay de Belém do Pará nasce em simbiose total com a festa católica mais tradicional da região. Espera-se a imagem da santa ser transladada até a Igreja da Sé e depois no meio deste percurso acontece a festa. Há shows de drag, música e muito, muito fervo.
Eu conhecia esta história por alto, mas ontem vi o ótimo documentário “As filhas da Chiquita” (Direção: Priscilla Brasil. 2006). O filme retrata muito bem esta interseção entra as duas festas e a maneira como cada um dos respectivos organizadores lida com esta confluência de motivos, pessoas e rituais tão díspares.
O discurso da Igreja é o óbvio lulante e não poderia ser outro a partir dos personagens escolhidos para representá-la: um padre com cara de infeliz que repete todos os bordões de uma teologia rasa contra a homossexualidade e uma senhorinha fofa de cabelos quase azuis que diz que um assassino merece mais perdão do que um homossexual.
A fala das “chiquitas” é bem mais interessante. Mostra como cada um, e muitos se afirmavam devotos, ressignificou a pertença religiosa para além da questão da culpa pela homossexualidade. Mais do que isso, desde que esta é entendida como algo intrínseco, vivê-la é de algum modo respeitar a sua natureza e, assim sendo, ser autêntico, verdadeiro, valores morais positivos diante de Deus.
O documentário, rapidamente, conversa com gente simples sentado num bar. Um diz que a homossexualidade é algo estranho à cultura cabocla, indígena da região, uma espécie de contágio que viria do “sul”, das novelas a que os companheiros de mesa logo desdizem; um senhor faz mesmo um discurso bastante libertário sobre o que, nós “do sul”, chamamos de “direitos individuais”. O que mais me chamou atenção nesta sequência, no entanto foi o uso tranqüilo, plenamente incorporado ao discurso, do termo “gay”. Não deixou de me causar certo fascínio pensar que tal termo foi incorporado à homossexualidade nos E.U.A. como uma forma de positivar a experiência de ser homossexual e foi se propagando por meio da militância e setores mais engajados com esta mesma finalidade, chegando até uma mesa de bar bem simples em Belém do Pará.
É o “mestre de cerimônias” da festa das filhas da Chuiquita, no entanto, que nos dá a forma mais feliz de entender a relação entre estas duas festas. Uma imagem que sai cheia de flores, com um manto todo trabalhado na pedraria tinha mesmo que inspirar uma festa gay. E eu acrescentaria: que é conduzida num carro puxado por um bando de homens se roçando uns aos outros para segurar a corda. Ok, talvez a melhor frase mesmo seja a da Miss “Chiquita 2006”, uma drag pobre e descabelada que no seu agradecimento disse cinco frases incompreensíveis, no meio das quais soltou esta: “Nasci feia. Porque quando eu nasci, a beleza tava de férias”.
Fiquei pensando também se apesar de ser um grande fervo a festa das chiquitas não é por si só a manifestação gay política mais significativa do Norte. Existir e se mostrar em praça pública, no evento sagrado e sério do Círio, talvez seja maior do que qualquer manifestação sisuda e cheia de cartazes.
È isto de que boa parte das minorias são feitas. Para existir, o que por si só já é resistir, num mundo com padrões rígidos de ser aos quais você não satisfaz, por um motivo ou outro, ou por quase todos, é preciso resiliência.
E isto fica absolutamente claro através da celebração das “filhas da chiquita”. A festa surgiu em 1975 no bojo da maior manifestação religiosa do norte do Brasil, o Círio de Nazaré que atrai cerca de 2.000.000 de pessoas em Outubro.
Este contexto é interessantíssimo. O mais importante evento gay de Belém do Pará nasce em simbiose total com a festa católica mais tradicional da região. Espera-se a imagem da santa ser transladada até a Igreja da Sé e depois no meio deste percurso acontece a festa. Há shows de drag, música e muito, muito fervo.
Eu conhecia esta história por alto, mas ontem vi o ótimo documentário “As filhas da Chiquita” (Direção: Priscilla Brasil. 2006). O filme retrata muito bem esta interseção entra as duas festas e a maneira como cada um dos respectivos organizadores lida com esta confluência de motivos, pessoas e rituais tão díspares.
O discurso da Igreja é o óbvio lulante e não poderia ser outro a partir dos personagens escolhidos para representá-la: um padre com cara de infeliz que repete todos os bordões de uma teologia rasa contra a homossexualidade e uma senhorinha fofa de cabelos quase azuis que diz que um assassino merece mais perdão do que um homossexual.
A fala das “chiquitas” é bem mais interessante. Mostra como cada um, e muitos se afirmavam devotos, ressignificou a pertença religiosa para além da questão da culpa pela homossexualidade. Mais do que isso, desde que esta é entendida como algo intrínseco, vivê-la é de algum modo respeitar a sua natureza e, assim sendo, ser autêntico, verdadeiro, valores morais positivos diante de Deus.
O documentário, rapidamente, conversa com gente simples sentado num bar. Um diz que a homossexualidade é algo estranho à cultura cabocla, indígena da região, uma espécie de contágio que viria do “sul”, das novelas a que os companheiros de mesa logo desdizem; um senhor faz mesmo um discurso bastante libertário sobre o que, nós “do sul”, chamamos de “direitos individuais”. O que mais me chamou atenção nesta sequência, no entanto foi o uso tranqüilo, plenamente incorporado ao discurso, do termo “gay”. Não deixou de me causar certo fascínio pensar que tal termo foi incorporado à homossexualidade nos E.U.A. como uma forma de positivar a experiência de ser homossexual e foi se propagando por meio da militância e setores mais engajados com esta mesma finalidade, chegando até uma mesa de bar bem simples em Belém do Pará.
É o “mestre de cerimônias” da festa das filhas da Chuiquita, no entanto, que nos dá a forma mais feliz de entender a relação entre estas duas festas. Uma imagem que sai cheia de flores, com um manto todo trabalhado na pedraria tinha mesmo que inspirar uma festa gay. E eu acrescentaria: que é conduzida num carro puxado por um bando de homens se roçando uns aos outros para segurar a corda. Ok, talvez a melhor frase mesmo seja a da Miss “Chiquita 2006”, uma drag pobre e descabelada que no seu agradecimento disse cinco frases incompreensíveis, no meio das quais soltou esta: “Nasci feia. Porque quando eu nasci, a beleza tava de férias”.
Fiquei pensando também se apesar de ser um grande fervo a festa das chiquitas não é por si só a manifestação gay política mais significativa do Norte. Existir e se mostrar em praça pública, no evento sagrado e sério do Círio, talvez seja maior do que qualquer manifestação sisuda e cheia de cartazes.
terça-feira, 31 de maio de 2011
O professor: Recurso mais importante no combate à homofobia na escola
Lembra que eu disse aqui como fiquei feliz com um trabalho sobre transexualidade no estágio. Pois é, alegria de gay dura pouco. Esta semana o tema da aula eram as políticas de reparação e reconhecimento de grupos minoritários. O professor fez um paralelo entre a lei contra o racismo de 1989 e o Projeto de Lei Complementar 122 que, entre outras discriminações, confere o mesmo status de crime às manifestações homofóbicas de que gozam as racistas.
Disse que gostaria de um debate sobre as semelhanças e diferenças a respeito destas duas formas de discrimanção. Mas o que fez, de fato, ao longo de toda a aula foi defender que o projeto contra a homofobia era contrário à liberdade de expressão. A lei contra o racismo teria consagrado uma postura unânime da sociedade sobre o tema, enquanto a questão da homofobia é bastante controversa. Pra coroar, citou apenas uma parte do texto do projeto de lei e pôs no quadro o manifesto inteiro da Faculdade Presbiteriana Mackenzie, sublinhando a parte em que se afirma que nem toda manifestação contrária aos homossexuais é homofóbica. Citou ainda Bolsonaro e Marcelo Crivella. Ele chegou ao ponto de apelar para a questão do humor, quase dizendo que fazer piada das minorias era algo absolutamente inocente. Lembrei de um professor meu da faculdade que, em sua dissertação de mestrado sobre as travestis, afirma que as piadas e os risinhos vão criando o ambiente que ajuda a apertar o gatilho.
Desde quando a liberdade de expressão é um valor absoluto ao ponto de se permitir a degradação da dignidade humana de outros cidadãos que gozam do direito não só à vida e integridade física, mas também à sua imagem? Dizer que o repúdio ao racismo era já consenso na sociedade brasileira e por isso a lei consagrou uma atitude social já consolidada? Para que a lei então? Eu cresci vendo na televisão piadas sobre negros, pegando elevadores sociais nos quais as empregadas domésticas e porteiros, muitos deles negros, eram impedidos de entrar. Tudo isto foi mudando graças à maior consciência sim, mas muito por causa do instrumento coercitivo que a lei proporcionou a quem era descriminado.
Fiquei com pena dos alunos, alguns visivelmente gays. Mais do que material didático contra a homofobia, é urgente que se invista na sensibilização dos professores em relação à questão.
Disse que gostaria de um debate sobre as semelhanças e diferenças a respeito destas duas formas de discrimanção. Mas o que fez, de fato, ao longo de toda a aula foi defender que o projeto contra a homofobia era contrário à liberdade de expressão. A lei contra o racismo teria consagrado uma postura unânime da sociedade sobre o tema, enquanto a questão da homofobia é bastante controversa. Pra coroar, citou apenas uma parte do texto do projeto de lei e pôs no quadro o manifesto inteiro da Faculdade Presbiteriana Mackenzie, sublinhando a parte em que se afirma que nem toda manifestação contrária aos homossexuais é homofóbica. Citou ainda Bolsonaro e Marcelo Crivella. Ele chegou ao ponto de apelar para a questão do humor, quase dizendo que fazer piada das minorias era algo absolutamente inocente. Lembrei de um professor meu da faculdade que, em sua dissertação de mestrado sobre as travestis, afirma que as piadas e os risinhos vão criando o ambiente que ajuda a apertar o gatilho.
Desde quando a liberdade de expressão é um valor absoluto ao ponto de se permitir a degradação da dignidade humana de outros cidadãos que gozam do direito não só à vida e integridade física, mas também à sua imagem? Dizer que o repúdio ao racismo era já consenso na sociedade brasileira e por isso a lei consagrou uma atitude social já consolidada? Para que a lei então? Eu cresci vendo na televisão piadas sobre negros, pegando elevadores sociais nos quais as empregadas domésticas e porteiros, muitos deles negros, eram impedidos de entrar. Tudo isto foi mudando graças à maior consciência sim, mas muito por causa do instrumento coercitivo que a lei proporcionou a quem era descriminado.
Fiquei com pena dos alunos, alguns visivelmente gays. Mais do que material didático contra a homofobia, é urgente que se invista na sensibilização dos professores em relação à questão.
terça-feira, 24 de maio de 2011
Des-costura
As coisas não são, elas se fazem. No princípio era o vácuo. E, então, alguém inventou: homem, mulher, moral, sexo, normal, correto. A partir do primeiro contorno rarefeito de cada uma destas coisas se viu que era necessário mais formas, definir, moldar: mulher-dócil-materna, homem-ativo-provedor, sexo-homem/mulher; a cada laço se reforçava como o “é assim” o que se inventava apenas a cada vez que se contavam casos, histórias, teorias científicas, narrativas sagradas. Cada laço, moldando, ajustando, formando o que, depois, se vê como a identidade sólida e perene de algo. Porque tudo é performance.
Formar-se per, através de, insistindo-se perenemente, e em laços sempre outros a respeito do mesmo. Costura-se, amarra-se de todas as maneiras possíveis, a única exigência é que o tecido seja inteiro, de alto a baixo sem linhas, junturas ou justaposições. É preciso que a costura se perca para deixar que as coisas apenas “sejam”, numa identidade que se produz a cada instante e instância.
Daí o medo dos incautos. Como desafiar um mundo de certezas? Ser homem e gostar de homem? Ser mulher e não jogar as tranças esperando alguma espécie de salvação? Os covardes dirão que é tudo muito difícil e cruel, que as coisas são como são e ponto. O que eles não sabem, ou não querem enxergar, é que as coisas não são, elas se fazem.
A natureza inscrita numa espécie de código imutável a se repetir perenemente, a sociedade como instância que precisa de bases sólidas e homogêneas, protegidas como o interesse maior da humanidade, sancionada pela benção divina que criou homem e mulher. Filmes, livros, discos, “desde que o mundo é mundo é assim” transmitem certezas absolutas e contam com manicómios, exorcismos, alguma permissão temporária no carnaval, normal/anormal e lâmpadas na cara em plena avenida para ajustar os desviantes. Tudo para que o que se faz reiteradamente como condição de se manter, desponte apenas como a obviedade do “desde sempre foi assim”.
O que não se percebeu de antemão é que, cada laço que afirma não se encaixa completamente no anterior, a costura não é perfeita, há espaços, vazios, volumes e fendas não previstas. Porque sendo performance, ser homem e mulher, nunca pode ser exatamente a mesma coisa. Não sabiam disso, não contavam comigo e tantos outros.
Aqui e ali, alargamos as brechas, vemos oportunidades na folga de laços, atrapalhamos, com apurado senso de espetáculo, o fazer-se repetitivo da trama. Retiramos da invisível sombra, o tecer constante do “normal”. Ser homem, ser mulher não é de forma alguma destino natural, mas é o que se inventa disso, e nisso falaremos mais e mais, para escândalo dos opressores e glória dos que sabem ser a vida o que, afinal de contas, importa. Então porque não fazê-la mais ampla e colorida?
Formar-se per, através de, insistindo-se perenemente, e em laços sempre outros a respeito do mesmo. Costura-se, amarra-se de todas as maneiras possíveis, a única exigência é que o tecido seja inteiro, de alto a baixo sem linhas, junturas ou justaposições. É preciso que a costura se perca para deixar que as coisas apenas “sejam”, numa identidade que se produz a cada instante e instância.
Daí o medo dos incautos. Como desafiar um mundo de certezas? Ser homem e gostar de homem? Ser mulher e não jogar as tranças esperando alguma espécie de salvação? Os covardes dirão que é tudo muito difícil e cruel, que as coisas são como são e ponto. O que eles não sabem, ou não querem enxergar, é que as coisas não são, elas se fazem.
A natureza inscrita numa espécie de código imutável a se repetir perenemente, a sociedade como instância que precisa de bases sólidas e homogêneas, protegidas como o interesse maior da humanidade, sancionada pela benção divina que criou homem e mulher. Filmes, livros, discos, “desde que o mundo é mundo é assim” transmitem certezas absolutas e contam com manicómios, exorcismos, alguma permissão temporária no carnaval, normal/anormal e lâmpadas na cara em plena avenida para ajustar os desviantes. Tudo para que o que se faz reiteradamente como condição de se manter, desponte apenas como a obviedade do “desde sempre foi assim”.
O que não se percebeu de antemão é que, cada laço que afirma não se encaixa completamente no anterior, a costura não é perfeita, há espaços, vazios, volumes e fendas não previstas. Porque sendo performance, ser homem e mulher, nunca pode ser exatamente a mesma coisa. Não sabiam disso, não contavam comigo e tantos outros.
Aqui e ali, alargamos as brechas, vemos oportunidades na folga de laços, atrapalhamos, com apurado senso de espetáculo, o fazer-se repetitivo da trama. Retiramos da invisível sombra, o tecer constante do “normal”. Ser homem, ser mulher não é de forma alguma destino natural, mas é o que se inventa disso, e nisso falaremos mais e mais, para escândalo dos opressores e glória dos que sabem ser a vida o que, afinal de contas, importa. Então porque não fazê-la mais ampla e colorida?
segunda-feira, 25 de abril de 2011
No currículo escolar
Comecei meu estágio, obrigatório para quem faz licenciatura, atrasado por motivos burocráticos. Hoje o professor corrigiu a prova bimestral e 2 trabalhos que complementaram a nota desta. E qual não foi minha surpresa ao ver que um destes trabalhos era sobre gênero e diversidade sexual.
A primeira questão pedia para citar 2 elementos que definem o sexo de uma pessoa, por exemplo, órgãos genitais e hormônios. A segunda era sobre gênero, definindo-o como a expectativa social a respeito dos sexos em determinada cultura. A última questão: Qual a orientação sexual de uma transexual?
O professor salientou que aceitou tanto quem considerou a orientação da trans antes da operação de mudança de sexo, que segundo ele seria então “homossexual”, quanto após a cirurgia, aí a resposta correta seria “heterossexual”.
Confesso que achei bem esquisita a questão. Mas ver meninos e meninas por volta de dezesseis anos em um colégio estadual discutindo sobre diversidade sexual como matéria de aula renovou minha esperança que, apesar de tanta caretice neste mundo, a gente está definitivamente conquistando espaços e preparando uma sociedade mais plural e colorida sem que se tenha que matar ou morrer tanto por causa disto. E viva o Gay Power!
A primeira questão pedia para citar 2 elementos que definem o sexo de uma pessoa, por exemplo, órgãos genitais e hormônios. A segunda era sobre gênero, definindo-o como a expectativa social a respeito dos sexos em determinada cultura. A última questão: Qual a orientação sexual de uma transexual?
O professor salientou que aceitou tanto quem considerou a orientação da trans antes da operação de mudança de sexo, que segundo ele seria então “homossexual”, quanto após a cirurgia, aí a resposta correta seria “heterossexual”.
Confesso que achei bem esquisita a questão. Mas ver meninos e meninas por volta de dezesseis anos em um colégio estadual discutindo sobre diversidade sexual como matéria de aula renovou minha esperança que, apesar de tanta caretice neste mundo, a gente está definitivamente conquistando espaços e preparando uma sociedade mais plural e colorida sem que se tenha que matar ou morrer tanto por causa disto. E viva o Gay Power!
quinta-feira, 27 de janeiro de 2011
Quem tem medo dos gays?
Prezadas famílias de comercial de margarina, células fundamentais da nossa sociedade, núcleos familiares formados por um pai provedor-bonachão-de-bigodes, mãe-de-avental-fazendo-bolinhos-de-chuva-no-Domingo-de-tarde e crianças-loiras-e-sapecas-comendo-seus-sucrilhos-no-café-da-manhã: Nós os gays, também chamados de bichas, viados, boyolas existimos!
Talvez vocês não tenham reparado, mas aquele tio solteirão, o primo que raramente comparece às festas de família e sempre que vai, leva um amigo, sãos gays. Desculpem-me avisá-los assim, mas há entre nós senhores de respeitável aparência e família solidamente formada e mulheres eternamente insatisfeitas com os maridos que, uma única vez, numa Quinta à noite tocaram suas amigas por sobre a blusa. Isto e pegações em lugares escuros, encontros fortuitos e uma psique destroçada era todo o possível para nós, as bichas, até algumas décadas atrás.
Felizmente hoje, nós temos maior visibilidade e aceitação social. A sensação que se tem de que a “ameaça gay” está se alastrando é só isso: uma impressão. O que acontece é que homens e mulheres gays deixaram de constituir famílias heterossexuais que seriam infelizes e não precisam se esconder tanto, ainda que não seja fácil assumir-se em muitas instâncias sociais. Mas fiquem tranqüilos: estatisticamente não estamos nos multiplicando.
O pânico que despertamos nos setores conservadores da sociedade supõe que a humanidade inteira é composta por bissexuais e que se estes descobrirem o terrível e fascinante segredo de que o sexo entre os que tem o mesmo sexo é muito mais prazeroso, a espécie humana estará terminada. Apesar de concordar com vocês que o sexo com outro homem é bem mais interessante do que com mulheres, minhas amigas lésbicas aqui discordarão, devo lhes dizer que há homens que gostam de mulher de verdade. É sério! Gostam de beijar-lhes, ternamente, o seio, passar a língua no bico intumescido e descobrir-lhes o quente e úmido do entre as pernas enquanto aspiram ao perfume que, em ondas, emana de seus cabelos É estranho, mas é verdade, existem homens que gostam de mulheres e vice-versa. Ou seja, o pânico de que, se reconhecerem nosso modo de amar como legítimo, a humanidade findará é só uma imensa bobagem.
Outra novidade: crianças criadas por casais gays não se tornam necessariamente homossexuais. A imensa maioria dos gays que conheço e eu próprio fomos criados em lares heterossexuais, numa escola heteronormativa, numa sociedade heterosexista e somos viados. Ou seja, há algo muito forte e real na forma como cada ser humano ama e deseja, capaz de contradizer as instâncias mais fundamentais da vida social. Seu filho, sua linda filha de maria-chiquinha e vestido florido não vão “virar” gay por ver um casal de homens com seu filho na capa de uma revista, nem duas mulheres se acarinhando românticas à luz do dia, pelo contrário, talvez isto os ajude a se tornar seres humanos melhores: mais plurais, humanamente fraternos e capazes de reconhecer o brilho da vida em toda a parte em que ele refulge.
Pra dizer a verdade, os gays não são uma ameaça à família ou a humanidade em geral. O que corrói estas sagradas instâncias é a falta de amor, de interesse no outro, de diálogo e partilha e estes males não tem gênero, nem orientação sexual definida. Lamento informá-los, mas nós não somos os monstros que se pensa, procure-os dentro de vocês. Eu sei dos meus e mantenho-os vigiados, sem deixar que se projetem no outro só porque esse é diferente de mim.
Talvez vocês não tenham reparado, mas aquele tio solteirão, o primo que raramente comparece às festas de família e sempre que vai, leva um amigo, sãos gays. Desculpem-me avisá-los assim, mas há entre nós senhores de respeitável aparência e família solidamente formada e mulheres eternamente insatisfeitas com os maridos que, uma única vez, numa Quinta à noite tocaram suas amigas por sobre a blusa. Isto e pegações em lugares escuros, encontros fortuitos e uma psique destroçada era todo o possível para nós, as bichas, até algumas décadas atrás.
Felizmente hoje, nós temos maior visibilidade e aceitação social. A sensação que se tem de que a “ameaça gay” está se alastrando é só isso: uma impressão. O que acontece é que homens e mulheres gays deixaram de constituir famílias heterossexuais que seriam infelizes e não precisam se esconder tanto, ainda que não seja fácil assumir-se em muitas instâncias sociais. Mas fiquem tranqüilos: estatisticamente não estamos nos multiplicando.
O pânico que despertamos nos setores conservadores da sociedade supõe que a humanidade inteira é composta por bissexuais e que se estes descobrirem o terrível e fascinante segredo de que o sexo entre os que tem o mesmo sexo é muito mais prazeroso, a espécie humana estará terminada. Apesar de concordar com vocês que o sexo com outro homem é bem mais interessante do que com mulheres, minhas amigas lésbicas aqui discordarão, devo lhes dizer que há homens que gostam de mulher de verdade. É sério! Gostam de beijar-lhes, ternamente, o seio, passar a língua no bico intumescido e descobrir-lhes o quente e úmido do entre as pernas enquanto aspiram ao perfume que, em ondas, emana de seus cabelos É estranho, mas é verdade, existem homens que gostam de mulheres e vice-versa. Ou seja, o pânico de que, se reconhecerem nosso modo de amar como legítimo, a humanidade findará é só uma imensa bobagem.
Outra novidade: crianças criadas por casais gays não se tornam necessariamente homossexuais. A imensa maioria dos gays que conheço e eu próprio fomos criados em lares heterossexuais, numa escola heteronormativa, numa sociedade heterosexista e somos viados. Ou seja, há algo muito forte e real na forma como cada ser humano ama e deseja, capaz de contradizer as instâncias mais fundamentais da vida social. Seu filho, sua linda filha de maria-chiquinha e vestido florido não vão “virar” gay por ver um casal de homens com seu filho na capa de uma revista, nem duas mulheres se acarinhando românticas à luz do dia, pelo contrário, talvez isto os ajude a se tornar seres humanos melhores: mais plurais, humanamente fraternos e capazes de reconhecer o brilho da vida em toda a parte em que ele refulge.
Pra dizer a verdade, os gays não são uma ameaça à família ou a humanidade em geral. O que corrói estas sagradas instâncias é a falta de amor, de interesse no outro, de diálogo e partilha e estes males não tem gênero, nem orientação sexual definida. Lamento informá-los, mas nós não somos os monstros que se pensa, procure-os dentro de vocês. Eu sei dos meus e mantenho-os vigiados, sem deixar que se projetem no outro só porque esse é diferente de mim.
quinta-feira, 15 de julho de 2010
Eu quero saborear os frutos!
Eu acho mesmo que estamos no alvorecer de uma lenta, trabalhosa, mas real mudança sobre a questão gay no mundo. Apesar das resistências que são inúmera vemos, cada vez mais, os Estados reconhecerem legalmente os direitos homossexuais seja sob a modesta figura jurídica da “união civil”, seja na forma plena do “casamento”.
Emocionei-me com os argentinos que esperavam em vigília pelo resultado da votação no Senado e que, às 4h da manhã, celebraram a aprovação do casamento gay no país. Eles já tinham a união estável em Buenos Aires e em alguns outros estados e agora podem adotar crianças, ter garantido o direito de herança e tantos outros que fazem com que um cidadão seja, de fato, reconhecido como tal, independente de com quem ele se deita.
Aqui, tudo permanece evasivo e medroso. Basta ver como se pronunciam a respeito da questão os nossos presidenciáveis. Marina Silva é contra, e nem poderia ser diferente, sendo da Assembléia de Deus. Dilma ficou completamente em cima do muro, apesar do governo Lula ter avançado muito em algumas questões sobre a cidadania gay, pelo menos, organizando e reconhecendo fóruns de discussão em todos os níveis municipal, estadual e federal. Sobre o Serra eu realmente estou desinformado.
Meu voto este ano será bem utilitário e o critério será a questão do reconhecimento dos direitos LGBT. Não gosto muito da atuação política do Sérgio Cabral aqui no Rio. Mas tenho que reconhecer que, desde de que ele foi presidente da Assembléia Legislativa ele vem trabalhando em prol dos nossos direitos. Voto nele.
É vergonhoso que enquanto nos congratulamos com nossos hermanos pela possibilidade legal do casamento gay, enquanto o Uruguai e Chile aprovaram a união civil, o máximo que temos em termos legais no Brasil é uma brecha ridícula na legislação: registrar a união como uma parceria, quase um contrato comercial.
Estamos mesmo num momento de transição, se pararmos e olharmos para trás, cinqüenta, sessenta anos atrás veremos o quanto avançamos, mas que eu quero ver esses brotos mudados em frutos, todos maduros, pendentes dos cachos, os ramos verdes abertos em flor, ah! Eu quero.
Emocionei-me com os argentinos que esperavam em vigília pelo resultado da votação no Senado e que, às 4h da manhã, celebraram a aprovação do casamento gay no país. Eles já tinham a união estável em Buenos Aires e em alguns outros estados e agora podem adotar crianças, ter garantido o direito de herança e tantos outros que fazem com que um cidadão seja, de fato, reconhecido como tal, independente de com quem ele se deita.
Aqui, tudo permanece evasivo e medroso. Basta ver como se pronunciam a respeito da questão os nossos presidenciáveis. Marina Silva é contra, e nem poderia ser diferente, sendo da Assembléia de Deus. Dilma ficou completamente em cima do muro, apesar do governo Lula ter avançado muito em algumas questões sobre a cidadania gay, pelo menos, organizando e reconhecendo fóruns de discussão em todos os níveis municipal, estadual e federal. Sobre o Serra eu realmente estou desinformado.
Meu voto este ano será bem utilitário e o critério será a questão do reconhecimento dos direitos LGBT. Não gosto muito da atuação política do Sérgio Cabral aqui no Rio. Mas tenho que reconhecer que, desde de que ele foi presidente da Assembléia Legislativa ele vem trabalhando em prol dos nossos direitos. Voto nele.
É vergonhoso que enquanto nos congratulamos com nossos hermanos pela possibilidade legal do casamento gay, enquanto o Uruguai e Chile aprovaram a união civil, o máximo que temos em termos legais no Brasil é uma brecha ridícula na legislação: registrar a união como uma parceria, quase um contrato comercial.
Estamos mesmo num momento de transição, se pararmos e olharmos para trás, cinqüenta, sessenta anos atrás veremos o quanto avançamos, mas que eu quero ver esses brotos mudados em frutos, todos maduros, pendentes dos cachos, os ramos verdes abertos em flor, ah! Eu quero.
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