Eu já beijei todas as bocas, conheço o gosto, o traquejo, as maneiras das línguas. Antecipo as palavras que serão sussurradas aos ouvidos, adivinho sem dúvida ou surpresa os pequenos gestos ensaiados de encantamento.
Por isto o desejo não é mais aguilhão, frêmito, o imponderável que rasga a banalidade dos dias e emerge quando quer. O desejo é a mercadoria exposta nas prateleiras, é o contido nos rótulos do supermercado, se consegue ainda mais barato nas bancas dos camelôs. O desejo é só uma lembrancinha, não repara. Uma palavra entre outras duas no dicionário, substantivo masculino.
Afeto. Amigos à mesa de bar. Telefone: Você está bem? Beijo na boca, corpos ardendo e abraço apertado. Mão bagunçando o cabelo. O nome. Meu nome. Seu nome.
É o afeto que vê o outro. Mira lá dentro dos olhos e compreende tudo o que não se precisa explicar.
Declaração universal de todos os direitos: Há de se ter e se dar afeto. Perto ou longe, hoje ou para sempre. O que importa é que seja em todo agora possível.
P.S. Querid@s, agora só em 2011! Um ano maravilhoso pra todos nós.
quarta-feira, 29 de dezembro de 2010
segunda-feira, 27 de dezembro de 2010
Madá, ô Madá, ô Madalelelelena...
Dona Madalena nasceu em 1916, numa vila próxima à cidade do Porto em Portugal. Da mesma forma que tenho dificuldade em processar a informação de que há pessoas no mundo que nasceram depois de 1990, muito estranho isso, também não consigo entender como, por exemplo, quando estourou a segunda guerra mundial que é uma das várias coisas que a gente vê em livros e filmes sobre o passado, D. Madalena na ocasião já estivesse na flor de seus 23 anos.
Quem a vê, respeitável senhora de cabelos pintados à castanho, de uns anos pra cá com uma elegante bengala, e, depois de décadas de Brasil, ainda um forte sotaque lusitano, não imagina as peripécias de Madá. Não só a beira do fogão, de onde, Domingo ao cair da tarde surgiam deliciosos pastéis de queijo, nem da incansável colher cheia de comida que, à menor distração dos pobres netos, punha mais um bocado no prato. Afinal, tudo isto são coisas de avó.
Descobriu-se recentemente, e isto é uma daqueles segredos que pairam constrangedores e silenciosos sobre as ceias de natal, sendo sussurrados em conversas esporádicas na cozinha, que D. Madalena, cansada de esperar pela decisão de ser desposada pelo Senhor Augusto, resolver meter o pé na porta e apelar para a velha tática portuguesa do “ou vai, ou racha, ora pois”. E sendo assim, engravidou antes de noivar, em 1946. Seria perdoada pelos anais da história, um caso clássico de baby boom pós-guerra, deve ter premeditado a auspiciosa e, até então, senhorita. Deus certo, Seu Augusto, português e boêmio inveterado, casou.
Perdi meus dois avôs com pouco tempo entre um e outro. D. Elvira ficou arrasada, teve depressão e veio morar conosco. D. Madalena pintou as unhas de vermelho, mudos os móveis da\sala e queria saber de todos, na missa de sétimo dia, o que acharam da blusa nova que tinha comprado para a ocasião. Tem gente que pára, tem gente que olha pra frente e vai como pode.
No último Natal, D. Madalena decidiu que vai comprar um Ipad. Ficou encantada com o aplicativo do gatinho que repete o que se fala e pode ser alimentado com leite da Apple. Eu olhava pra ela e pensava o que esta mulher já não viu surgir ao longo da sua vida! E ela ali, no sofá, girando o Ipad e rindo de se engasgar com o gatinho virtual.
Sábia que só, vai ao seu jeito, driblando o inexorável tempo. Marca eventos depois dos quais até pode, feliz, partir dessa pra melhor. Primeiro era a minha consagração na vida religiosa, depois, uma semana antes desta, o casório da minha irmã, agora o primeiro bisneto.
D. Madalena me olha desconfiada e pergunta se, agora que não sou mais religioso, não vou casar. Ela é a única pessoa no mundo inteiro para quem eu não faço questão nenhuma de sair do armário, vovós nonagenárias definitivamente não precisam saber de tudo.
Meu único bom propósito para o ano que se avizinha é visitar mais D. Madalena, afinal, sabe-se lá até quando a velhinha vai conseguir passar a perna no carrancudo Sr. Tempo.
Quem a vê, respeitável senhora de cabelos pintados à castanho, de uns anos pra cá com uma elegante bengala, e, depois de décadas de Brasil, ainda um forte sotaque lusitano, não imagina as peripécias de Madá. Não só a beira do fogão, de onde, Domingo ao cair da tarde surgiam deliciosos pastéis de queijo, nem da incansável colher cheia de comida que, à menor distração dos pobres netos, punha mais um bocado no prato. Afinal, tudo isto são coisas de avó.
Descobriu-se recentemente, e isto é uma daqueles segredos que pairam constrangedores e silenciosos sobre as ceias de natal, sendo sussurrados em conversas esporádicas na cozinha, que D. Madalena, cansada de esperar pela decisão de ser desposada pelo Senhor Augusto, resolver meter o pé na porta e apelar para a velha tática portuguesa do “ou vai, ou racha, ora pois”. E sendo assim, engravidou antes de noivar, em 1946. Seria perdoada pelos anais da história, um caso clássico de baby boom pós-guerra, deve ter premeditado a auspiciosa e, até então, senhorita. Deus certo, Seu Augusto, português e boêmio inveterado, casou.
Perdi meus dois avôs com pouco tempo entre um e outro. D. Elvira ficou arrasada, teve depressão e veio morar conosco. D. Madalena pintou as unhas de vermelho, mudos os móveis da\sala e queria saber de todos, na missa de sétimo dia, o que acharam da blusa nova que tinha comprado para a ocasião. Tem gente que pára, tem gente que olha pra frente e vai como pode.
No último Natal, D. Madalena decidiu que vai comprar um Ipad. Ficou encantada com o aplicativo do gatinho que repete o que se fala e pode ser alimentado com leite da Apple. Eu olhava pra ela e pensava o que esta mulher já não viu surgir ao longo da sua vida! E ela ali, no sofá, girando o Ipad e rindo de se engasgar com o gatinho virtual.
Sábia que só, vai ao seu jeito, driblando o inexorável tempo. Marca eventos depois dos quais até pode, feliz, partir dessa pra melhor. Primeiro era a minha consagração na vida religiosa, depois, uma semana antes desta, o casório da minha irmã, agora o primeiro bisneto.
D. Madalena me olha desconfiada e pergunta se, agora que não sou mais religioso, não vou casar. Ela é a única pessoa no mundo inteiro para quem eu não faço questão nenhuma de sair do armário, vovós nonagenárias definitivamente não precisam saber de tudo.
Meu único bom propósito para o ano que se avizinha é visitar mais D. Madalena, afinal, sabe-se lá até quando a velhinha vai conseguir passar a perna no carrancudo Sr. Tempo.
segunda-feira, 20 de dezembro de 2010
Rio de Dezembro
Então você vira a esquina e ele está lá: em seu deslumbramento matinal cercado de montanhas e sob si, o oceano todo.
É um suplício e uma dádiva morar numa cidade como o Rio no verão. Se você precisa se trancafiar num escritório, consultório ou similar é o verdadeiro inferno de pás de ventilador girando inúteis sobre a sua cabeça. O máximo que se consegue é pagar por um paraíso artificial de frio entrecortado por temperaturas do Saara: ao sair do carro, de casa, ao ir almoçar no Centro, de terno.
Mas se, como eu esta semana, tem-se a oportunidade de, cedinho, dar uma boa caminhada no calçadão, parar um instante com os pés bem firmados na areia fofa e inspirar na brisa o sal novo que queima as narinas, sal de além-mar, de outras terras, onde outros homens e mulheres procuram, como você, ganhar a vida em escritórios abafados a maior parte do ano e uma vez, ao menos uma vez, em Dezembro, vêm à beira d’água para perder de vista o horizonte no sem fim do mar, então, a vida se torna outra.
Os escritórios, consultórios, preocupações e moléstias são as mesmas, a estreiteza da vida. Mas, de repente, esta se faz larga e você carrega toda a infinitude do mundo nesse olhar moreno, olhar de praia que colore o cinza e faz lembrar que há sempre, sempre horizonte.
É um suplício e uma dádiva morar numa cidade como o Rio no verão. Se você precisa se trancafiar num escritório, consultório ou similar é o verdadeiro inferno de pás de ventilador girando inúteis sobre a sua cabeça. O máximo que se consegue é pagar por um paraíso artificial de frio entrecortado por temperaturas do Saara: ao sair do carro, de casa, ao ir almoçar no Centro, de terno.
Mas se, como eu esta semana, tem-se a oportunidade de, cedinho, dar uma boa caminhada no calçadão, parar um instante com os pés bem firmados na areia fofa e inspirar na brisa o sal novo que queima as narinas, sal de além-mar, de outras terras, onde outros homens e mulheres procuram, como você, ganhar a vida em escritórios abafados a maior parte do ano e uma vez, ao menos uma vez, em Dezembro, vêm à beira d’água para perder de vista o horizonte no sem fim do mar, então, a vida se torna outra.
Os escritórios, consultórios, preocupações e moléstias são as mesmas, a estreiteza da vida. Mas, de repente, esta se faz larga e você carrega toda a infinitude do mundo nesse olhar moreno, olhar de praia que colore o cinza e faz lembrar que há sempre, sempre horizonte.
sexta-feira, 17 de dezembro de 2010
Post musicado
Pra ler ouvindo...
Tudo eu tenho que jogar fora. Por sua causa.
Agora você permanece em tudo que era meu, em todas as coisas que eram eu.
Sabe aquela música preferida que disse ser perfeita para fins de tarde e que desde então ouvíamos sempre no carro, voltando de viagens quando, na serra, o sol de punha esplêndido? Fora.
Letras cheias de sentido, melodias que, por si só, tornavam o meu dia muito melhor, bem antes de você, agora estão plenas de ti, contaminadas pelas vezes em que as ouvimos, minha cabeça no teu colo, tua boca na minha.
Os dvd’s já pus no lixo. Em dias de frio com uma boa taça de vinho na mão e seu abraço quente, seu corpo rijo, filmes que nunca acabamos nessas noites.
Tudo pleno de você e eu cheio da sua ausência.
Preciso de tudo novo, virgem, intacto: roupas, móveis, país e músicas. Preciso de uma outra vida.
Pra esquecer mesmo que o que eu preciso é você.
P.S. Atenção, eu estou bem! Acordei com esta música na cabeça. Acho a voz do cantor melancolicamente linda e o post surgiu dela. Bjs e ótimo fim-de-semana!
Tudo eu tenho que jogar fora. Por sua causa.
Agora você permanece em tudo que era meu, em todas as coisas que eram eu.
Sabe aquela música preferida que disse ser perfeita para fins de tarde e que desde então ouvíamos sempre no carro, voltando de viagens quando, na serra, o sol de punha esplêndido? Fora.
Letras cheias de sentido, melodias que, por si só, tornavam o meu dia muito melhor, bem antes de você, agora estão plenas de ti, contaminadas pelas vezes em que as ouvimos, minha cabeça no teu colo, tua boca na minha.
Os dvd’s já pus no lixo. Em dias de frio com uma boa taça de vinho na mão e seu abraço quente, seu corpo rijo, filmes que nunca acabamos nessas noites.
Tudo pleno de você e eu cheio da sua ausência.
Preciso de tudo novo, virgem, intacto: roupas, móveis, país e músicas. Preciso de uma outra vida.
Pra esquecer mesmo que o que eu preciso é você.
P.S. Atenção, eu estou bem! Acordei com esta música na cabeça. Acho a voz do cantor melancolicamente linda e o post surgiu dela. Bjs e ótimo fim-de-semana!
quarta-feira, 15 de dezembro de 2010
A Piriguete e o Cafuçú diliça
Trabalho numa micro-editora. No escritório somos oito, ao todo. E estamos sem office-boy, por isto é comum que, quando a secretária sai pra realizar alguma tarefa os outros se responsabilizem por atender a porta e o telefone.
Ontem foi uma situação destas. Ao abrir a porta, lá estava ela: Loira à força, de top bem colante e uma calça vestida à vácuo.
- Oi, eu vim pegar um documento pra Dra. Mariângela
- Você pode esperar um minuto que a responsável está acabando uma reunião e já vem falar contigo.
- Tá bom.
Vou até a copa fazer um café e quando volto, vejo a piriguete coçando desesperadamente o cofrinho.
- Ai, acho que algum bicho me mordeu.
Sorrio, o meu melhor sorriso “E eu com isso?”
Foi quando se deu o inusitado:
-Dá uma olhada pra mim..
Então, no meio da recepção de uma respeitada editora de música clássica, a piriguete se vira, aponta o traseiro na minha direção e abaixa despudoradamente o cós da calça, deixando quase á mostra o famigerado derrière.
- E aí, tem alguma coisa?
Bem, alguma coisa tinha, mas nada que se parecesse com uma picada de inseto.
Minha sorte é que fui recompensado da triste visão, com um mulato 1,85m, forte, aquela cara de homem que sabe o que faz e sorriso encantador. Técnico da manutenção de computadores. Ficou ao lado da baia onde trabalho quase duas horas. Eu suava, apesar do ar condicionado.
Em algum momento ao desligar o celular ele se vira para mim e diz:
- Ih.. eu hein! O cara me mandou beijo ao desligar. Sai fora – e sorriu
Eu sorri também e disse:
- Que isso... cada um se diverte como quer.
Hum... sabe que meu computador de casa não está funcionando muito bem?
Ontem foi uma situação destas. Ao abrir a porta, lá estava ela: Loira à força, de top bem colante e uma calça vestida à vácuo.
- Oi, eu vim pegar um documento pra Dra. Mariângela
- Você pode esperar um minuto que a responsável está acabando uma reunião e já vem falar contigo.
- Tá bom.
Vou até a copa fazer um café e quando volto, vejo a piriguete coçando desesperadamente o cofrinho.
- Ai, acho que algum bicho me mordeu.
Sorrio, o meu melhor sorriso “E eu com isso?”
Foi quando se deu o inusitado:
-Dá uma olhada pra mim..
Então, no meio da recepção de uma respeitada editora de música clássica, a piriguete se vira, aponta o traseiro na minha direção e abaixa despudoradamente o cós da calça, deixando quase á mostra o famigerado derrière.
- E aí, tem alguma coisa?
Bem, alguma coisa tinha, mas nada que se parecesse com uma picada de inseto.
Minha sorte é que fui recompensado da triste visão, com um mulato 1,85m, forte, aquela cara de homem que sabe o que faz e sorriso encantador. Técnico da manutenção de computadores. Ficou ao lado da baia onde trabalho quase duas horas. Eu suava, apesar do ar condicionado.
Em algum momento ao desligar o celular ele se vira para mim e diz:
- Ih.. eu hein! O cara me mandou beijo ao desligar. Sai fora – e sorriu
Eu sorri também e disse:
- Que isso... cada um se diverte como quer.
Hum... sabe que meu computador de casa não está funcionando muito bem?
segunda-feira, 13 de dezembro de 2010
Que Woody Allen é você?
É claro que os dois filmes mais recentes do celebrado cineasta tem, como não poderia deixar de ser, sua assinatura. No entanto, são dois filmes diametralmente opostos, quase um Yin-Yang, ou os dois pólos dialéticos da vida (será que o próximo filme é uma síntese?)
Em “Whatever Works” (Tudo pode dar certo) temos um cético e rabugento velho que não só casa com a jovem linda e loira como, quando esta o abandona, cai, literalmente, em cima do verdadeiro amor da sua vida. Esta, ao invés de lhe processar, enquanto ainda está toda alquebrada no hospital, lhe dá uma cantada. Há ainda personagens encontrando a verdadeira vocação artística e fazendo muito sucesso depois dos sessenta anos, outros, na mesma faixa etária, saindo do armário e logo arranjando um companheiro e uma festa de ano-novo que reúne os ex-casados com seus atuais cônjuges num clima de total harmonia, enfim, tudo pode dar certo.
O filme que está em cartaz, “You Will Meet a Tall Dark Stranger”, poderia ter sido traduzido como “Tem tudo pra dar errado”, ainda que o título no Brasil tenha ficado como “Você vai conhecer o homem dos seus sonhos”. Nele, uma série de situações mostram que a vida é um jogo de azar no qual, quase sempre, o cruel destino, no sentido bem grego do termo, nos vence. Paixões desfeitas, golpes de sortes que se desmancham no ar e coisas nobres e pelas quais vale a pena viver, como o amor, a família e os sonhos profissionais encarados como uma enorme ilusão. Não vou além para evitar spoler, ok? Já deu pra sentir o clima do filme, pessimismo sarcástico típico do diretor americano.
Enfim, qual dos Woody Allen, é você?
Eu? Acho até que tudo pode dar certo, eventualmente, mas o mais sensato é contar que, como diz a paráfrase de Skakespeare que abre o filme: “A vida é cheia de som e fúria, e, no final, isso não significa quase nada”.
Em “Whatever Works” (Tudo pode dar certo) temos um cético e rabugento velho que não só casa com a jovem linda e loira como, quando esta o abandona, cai, literalmente, em cima do verdadeiro amor da sua vida. Esta, ao invés de lhe processar, enquanto ainda está toda alquebrada no hospital, lhe dá uma cantada. Há ainda personagens encontrando a verdadeira vocação artística e fazendo muito sucesso depois dos sessenta anos, outros, na mesma faixa etária, saindo do armário e logo arranjando um companheiro e uma festa de ano-novo que reúne os ex-casados com seus atuais cônjuges num clima de total harmonia, enfim, tudo pode dar certo.
O filme que está em cartaz, “You Will Meet a Tall Dark Stranger”, poderia ter sido traduzido como “Tem tudo pra dar errado”, ainda que o título no Brasil tenha ficado como “Você vai conhecer o homem dos seus sonhos”. Nele, uma série de situações mostram que a vida é um jogo de azar no qual, quase sempre, o cruel destino, no sentido bem grego do termo, nos vence. Paixões desfeitas, golpes de sortes que se desmancham no ar e coisas nobres e pelas quais vale a pena viver, como o amor, a família e os sonhos profissionais encarados como uma enorme ilusão. Não vou além para evitar spoler, ok? Já deu pra sentir o clima do filme, pessimismo sarcástico típico do diretor americano.
Enfim, qual dos Woody Allen, é você?
Eu? Acho até que tudo pode dar certo, eventualmente, mas o mais sensato é contar que, como diz a paráfrase de Skakespeare que abre o filme: “A vida é cheia de som e fúria, e, no final, isso não significa quase nada”.
sábado, 11 de dezembro de 2010
Nouvelle Vague
Musiquinha que adoro e tem a cara de final de semana ao cair da tarde com amigos em casa e vinho branco gelado. (Pra espantar o clima ruim do post-bêbado anterior)
sexta-feira, 10 de dezembro de 2010
Merda acontece
Eu acabei de chegar de um show que eu deveria ter curtido.
Ela é uma cantora que eu vi, uma vez na Lapa e gostei.
Se você marca o seu primeiro quase-grande show às 22h, não pode não começar até 23h45.
Esta é uma merda, não a maior. Pela primeira vez, em muito tempo, não trabalho amanhã, e por isso fui ao show. Amigos me convidaram e meia hora antes desistiram, mas eu pensei: "Uhuu! Vamos ver o que há! Bora viver!".
E quando eu cheguei, encontrei o meu ex-alguma-coisa-por-quem-eu-achei-não-estar-mais-apaixonado beijando um cara, horrível, diga-se de passagem e que ficou me olhando(!) enquanto, bêbado, meu ex-alguma coisa-... foi ao banheiro.
E, agora, eu estou aqui, meio bêbado também, completamente insone e desejando, do mais fundo de mim que ele morra de câncer, lenta e dolorasamente, além de sozinho.
Desculpem, o texto não é bem-escrito, nem belo.
Merda acontece
Tomara que o mineirin (do post anterior) me ligue amanhã, só pra eu ouvir seu sotaque (só isso já me faria bem...)
De novo: Merda acontece.
Bom final-de-semana
Ela é uma cantora que eu vi, uma vez na Lapa e gostei.
Se você marca o seu primeiro quase-grande show às 22h, não pode não começar até 23h45.
Esta é uma merda, não a maior. Pela primeira vez, em muito tempo, não trabalho amanhã, e por isso fui ao show. Amigos me convidaram e meia hora antes desistiram, mas eu pensei: "Uhuu! Vamos ver o que há! Bora viver!".
E quando eu cheguei, encontrei o meu ex-alguma-coisa-por-quem-eu-achei-não-estar-mais-apaixonado beijando um cara, horrível, diga-se de passagem e que ficou me olhando(!) enquanto, bêbado, meu ex-alguma coisa-... foi ao banheiro.
E, agora, eu estou aqui, meio bêbado também, completamente insone e desejando, do mais fundo de mim que ele morra de câncer, lenta e dolorasamente, além de sozinho.
Desculpem, o texto não é bem-escrito, nem belo.
Merda acontece
Tomara que o mineirin (do post anterior) me ligue amanhã, só pra eu ouvir seu sotaque (só isso já me faria bem...)
De novo: Merda acontece.
Bom final-de-semana
quarta-feira, 8 de dezembro de 2010
Soft Sex
L. me ligou empolgado:
- Fui convidado pra uma festa que nós temos que ir, agora que você está solteiro de novo.
- ... (Hã?)
- É assim, uma versão soft da festa do apê.
Nessa hora comecei a rir. A festa do apê é um bacanal no qual todo mundo fica nú obrigatoriamente. Começou no apartamento de um dos organizadores para pequenos grupos e hoje em dia é feita em saunas. Eu não sou santo, nem tenho muitos pudores no sexo, mas ficar pelado junto a um monte de gente desconhecida andando e se esbarrando pra lá e pra cá é uma das coisas menos eróticas que consigo imaginar.
- Vamos, vai. É soft porque na sala, quem quiser pode ficar vestido, só a partir do corredor é que a galera tira a roupa. É na casa de um cara que eu conheço, pouca gente e bebida boa.
Domingo ao cair da tarde lá fomos eu e L. para o apê em Botafogo: espaçoso, bem decorado, com uma iluminação indireta perfeita para um bacanal. O público convidado era bastante eclético: ursos, barbies, novos e coroas, comedores ativos compulsivos, passivos no cio máximo. Lá pelas 20h30 aparecia um ou outro peladão na sala, alguns com o pau em riste, felizes, suados, do banquinho do bar onde eu estava sentado, praticamente desde que cheguei, pensava como o sexo pode ser algo completamente broxante. Eu já fui a saunas, fiz ménages, e algumas coisitas em grupo, mas num clima bem diferente daquele ar de sofreguidão desesperada que agitava o lugar.
Sentou ao meu lado um cara que só não estava mais sem graça porque não saberia como. Marcos, se apresentou, estendendo a mão. Estava de férias e tinha vindo para “ver como era” disse ele. Mas não se animou. Mineiro, mas mora há tempos em Vitória. Ele tomando cerveja, eu absolut. Conversa vai, papo vem, aquele sotaque gostoso das gerais roçando no meu ouvido, minha língua roçando na dele. Olhamos em volta Os peladões agora já na sala e tudo acontecendo ali diante dos olhos, bastava estender a mão e entrar na dança. Ele me abraçou mais forte.
- Vamos embora?
Ele me beijou com vontade e fomos. Nem procurei meu amigo. Horas depois passando a mão pelo corpo trigueiro do mineirinho fiquei feliz. Sexo.
Há muitas boas possibilidades. Mas a gente pode escolher a melhor. Pelo menos pra mim, pelo menos naquela madrugada quente de Segunda-feira.
- Fui convidado pra uma festa que nós temos que ir, agora que você está solteiro de novo.
- ... (Hã?)
- É assim, uma versão soft da festa do apê.
Nessa hora comecei a rir. A festa do apê é um bacanal no qual todo mundo fica nú obrigatoriamente. Começou no apartamento de um dos organizadores para pequenos grupos e hoje em dia é feita em saunas. Eu não sou santo, nem tenho muitos pudores no sexo, mas ficar pelado junto a um monte de gente desconhecida andando e se esbarrando pra lá e pra cá é uma das coisas menos eróticas que consigo imaginar.
- Vamos, vai. É soft porque na sala, quem quiser pode ficar vestido, só a partir do corredor é que a galera tira a roupa. É na casa de um cara que eu conheço, pouca gente e bebida boa.
Domingo ao cair da tarde lá fomos eu e L. para o apê em Botafogo: espaçoso, bem decorado, com uma iluminação indireta perfeita para um bacanal. O público convidado era bastante eclético: ursos, barbies, novos e coroas, comedores ativos compulsivos, passivos no cio máximo. Lá pelas 20h30 aparecia um ou outro peladão na sala, alguns com o pau em riste, felizes, suados, do banquinho do bar onde eu estava sentado, praticamente desde que cheguei, pensava como o sexo pode ser algo completamente broxante. Eu já fui a saunas, fiz ménages, e algumas coisitas em grupo, mas num clima bem diferente daquele ar de sofreguidão desesperada que agitava o lugar.
Sentou ao meu lado um cara que só não estava mais sem graça porque não saberia como. Marcos, se apresentou, estendendo a mão. Estava de férias e tinha vindo para “ver como era” disse ele. Mas não se animou. Mineiro, mas mora há tempos em Vitória. Ele tomando cerveja, eu absolut. Conversa vai, papo vem, aquele sotaque gostoso das gerais roçando no meu ouvido, minha língua roçando na dele. Olhamos em volta Os peladões agora já na sala e tudo acontecendo ali diante dos olhos, bastava estender a mão e entrar na dança. Ele me abraçou mais forte.
- Vamos embora?
Ele me beijou com vontade e fomos. Nem procurei meu amigo. Horas depois passando a mão pelo corpo trigueiro do mineirinho fiquei feliz. Sexo.
Há muitas boas possibilidades. Mas a gente pode escolher a melhor. Pelo menos pra mim, pelo menos naquela madrugada quente de Segunda-feira.
segunda-feira, 6 de dezembro de 2010
Imprensa: Acredite se quiser
Uma imprensa livre é, sem dúvida alguma, uma das prerrogativas irrenunciáveis da verdadeira democracia. A liberdade de investigação, de expressão e o direito à informação ajudam a sociedade a estar mais atenta ao que nela acontece, especialmente nos âmbitos mais impenetráveis dos jogos políticos e das grandes decisões econômicas, possibilitando o debate a respeito das questões que em última instância afetam a todos.
Em nome desta prerrogativa tem se construído e alimentado, no entanto, um mito vergonhoso, o de que a mídia é imparcial e expressa por si só a opinião pública brasileira, funcionando como a consciência ética nacional.
A imprensa não é observadora isenta das disputas pela hegemonia da verdade dos fatos na sociedade, mas ela mesma atua no sentido de fazer prevalecer sua interpretação, ela também tem uma posição específica e demarcada na luta por produzir o que é a verdade. E quanto a isto não há problema algum, desde que esta posição não fosse ocultada pelo recurso à imparcialidade, à uma objetividade inexistente, não há fatos, só interpretações.
Neste sentido, por exemplo, fiquei envergonhado em duas ocasiões recentemente. Na semana do segundo turno das eleições, a revista Veja, publicou uma “pesquisa fotográfica” com a qual queria evidenciar por uma série de paralelos fotográficos entre Fidel Castro e o Presidente Lula que este último copia o primeiro, deixando implícito que há um mesmo desejo de perpetuação no poder. Os paralelos fotográficos são forçadíssimos, para se ter idéia, um deles são os dois de óculos escuros e a legenda denunciando: “Fidel Castro põe um par de óculos escuros em 1999, dez anos depois, o presidente Lula faz o mesmo” (!). Num quadro à parte a reportagem fala que os grandes gestos ensaiados na política contemporânea começaram com Hitler e que este alcançou 90% de aprovação dos alemães no início. Ou seja: Cuidado com toda esta aprovação popular ao governo Lula que é a base para o sucesso da então candidata Dilma. Isto sem falar na capa da edição que trazia a pergunta: “Ele sairá da presidência, mas a presidência sairá dele?”. Seria bem mais honesto por parte da referida publicação fazer como a revista Carta Capital que, logo no início da campanha, declarara seu apoio à Dilma explicando suas razões para tal.
O outro episódio no qual fiquei escandalizado com a reação da imprensa foi a recente operação das forças policial e militar no Complexo do Alemão. A imprensa tratou a questão como se fosse a batalha apocalíptica final, saudando uma re-fundação da cidade do Rio, com fotos breguíssimas de moradores fazendo o símbolo do coração com as mãos e como se, naquele dia, todos os problemas de violência na cidade estivessem resolvidos.
É sem dúvida nenhuma uma vitória importantíssima o que aconteceu, mas a questão é que as comunidades ocupadas pelo poder público representam 3% de todas as 1.000 comunidades existentes no Estado do Rio de Janeiro. 47% destas são dominadas pelas milícias num esquema onde é muito mais difícil separar “mocinhos de bandidos” como se fez no Complexo do Alemão, porque as milícias são formadas pela banda podre da própria polícia.
O combate a violência no Rio passa pela reestruturação da forças policiais, com punição dos corruptos e valorização, inclusive dos salários, dos policiais, pelo combate ao contrabando de armas e drogas e pela constatação de que o traficante do morro é o elo mais baixo da cadeia da droga. As mansões do tráfico, com certeza, não são as mostradas no Alemão com piscina e hidromassagem,as que mais importam se encontram em áreas bem mais nobres da cidade do Rio e do Brasil.
Em nome desta prerrogativa tem se construído e alimentado, no entanto, um mito vergonhoso, o de que a mídia é imparcial e expressa por si só a opinião pública brasileira, funcionando como a consciência ética nacional.
A imprensa não é observadora isenta das disputas pela hegemonia da verdade dos fatos na sociedade, mas ela mesma atua no sentido de fazer prevalecer sua interpretação, ela também tem uma posição específica e demarcada na luta por produzir o que é a verdade. E quanto a isto não há problema algum, desde que esta posição não fosse ocultada pelo recurso à imparcialidade, à uma objetividade inexistente, não há fatos, só interpretações.
Neste sentido, por exemplo, fiquei envergonhado em duas ocasiões recentemente. Na semana do segundo turno das eleições, a revista Veja, publicou uma “pesquisa fotográfica” com a qual queria evidenciar por uma série de paralelos fotográficos entre Fidel Castro e o Presidente Lula que este último copia o primeiro, deixando implícito que há um mesmo desejo de perpetuação no poder. Os paralelos fotográficos são forçadíssimos, para se ter idéia, um deles são os dois de óculos escuros e a legenda denunciando: “Fidel Castro põe um par de óculos escuros em 1999, dez anos depois, o presidente Lula faz o mesmo” (!). Num quadro à parte a reportagem fala que os grandes gestos ensaiados na política contemporânea começaram com Hitler e que este alcançou 90% de aprovação dos alemães no início. Ou seja: Cuidado com toda esta aprovação popular ao governo Lula que é a base para o sucesso da então candidata Dilma. Isto sem falar na capa da edição que trazia a pergunta: “Ele sairá da presidência, mas a presidência sairá dele?”. Seria bem mais honesto por parte da referida publicação fazer como a revista Carta Capital que, logo no início da campanha, declarara seu apoio à Dilma explicando suas razões para tal.
O outro episódio no qual fiquei escandalizado com a reação da imprensa foi a recente operação das forças policial e militar no Complexo do Alemão. A imprensa tratou a questão como se fosse a batalha apocalíptica final, saudando uma re-fundação da cidade do Rio, com fotos breguíssimas de moradores fazendo o símbolo do coração com as mãos e como se, naquele dia, todos os problemas de violência na cidade estivessem resolvidos.
É sem dúvida nenhuma uma vitória importantíssima o que aconteceu, mas a questão é que as comunidades ocupadas pelo poder público representam 3% de todas as 1.000 comunidades existentes no Estado do Rio de Janeiro. 47% destas são dominadas pelas milícias num esquema onde é muito mais difícil separar “mocinhos de bandidos” como se fez no Complexo do Alemão, porque as milícias são formadas pela banda podre da própria polícia.
O combate a violência no Rio passa pela reestruturação da forças policiais, com punição dos corruptos e valorização, inclusive dos salários, dos policiais, pelo combate ao contrabando de armas e drogas e pela constatação de que o traficante do morro é o elo mais baixo da cadeia da droga. As mansões do tráfico, com certeza, não são as mostradas no Alemão com piscina e hidromassagem,as que mais importam se encontram em áreas bem mais nobres da cidade do Rio e do Brasil.
sábado, 4 de dezembro de 2010
O poder de si
Todos nós temos de lidar com inúmeros desafios ao longo da vida. A cada dia, um leão pra abater. Provar seu valor no trabalho, construir uma rica vida afetiva, encontrar a realização pretendida na complexa dinâmica dos relacionamentos. Construir, aparar, cortar, tentar, de novo e de novo. Desistir ou insistir.
Há tanto a ser feito, em tantas áreas que podemos passar a vida distraidamente tentando atender as demandas de cada uma delas, resolvendo o urgente, que nem sempre é sinônimo do fundamental. No entanto, para além desta intrincada rede de obrigações que constitui os múltiplos focos que exigem nossa atenção e energia vital, há um mais primário, o mais básico sobre o qual se erguem todos os outros: o cuidado de si.
O “si”, “self”, “eu”, “essência”, ou qualquer nome que se dê, talvez seja mesmo, como apontam os pós-modernos, uma invenção ocidental. De qualquer modo, se o inventamos é porque temos em nós uma exigência de unidade, de não-dispersão absoluta, de ir às coisas, mas voltar delas para algo que seja nós mesmos, de não nos identificarmos com a nossa mera práxis, como se tudo o que fôssemos se reduzisse ao que fizemos, o quanto realizamos ou deixamos de fazer.
Eu tenho pensado sobre este poder de si, de decisão sobre a vida, de construir uma existência que seja bela, boa, na qual você possa se reconhecer apesar de tudo. Isto se chama espiritualidade, esta compreensão geral, numa única tomada sobre a vida. Não é religião, credo, doutrina ou outra coisa, mas espiritualidade.
O quanto se tem poder sobre a vida? Qual o peso da nossa vontade e do imponderável, daquilo não-escolhido na existência?
Que, para além do pensar, “aconteça”, como pressinto. Não num milagre, iluminação ou coisa sobre-humana, mas no mais simples, real e cotidiano da minha humanidade.
Há tanto a ser feito, em tantas áreas que podemos passar a vida distraidamente tentando atender as demandas de cada uma delas, resolvendo o urgente, que nem sempre é sinônimo do fundamental. No entanto, para além desta intrincada rede de obrigações que constitui os múltiplos focos que exigem nossa atenção e energia vital, há um mais primário, o mais básico sobre o qual se erguem todos os outros: o cuidado de si.
O “si”, “self”, “eu”, “essência”, ou qualquer nome que se dê, talvez seja mesmo, como apontam os pós-modernos, uma invenção ocidental. De qualquer modo, se o inventamos é porque temos em nós uma exigência de unidade, de não-dispersão absoluta, de ir às coisas, mas voltar delas para algo que seja nós mesmos, de não nos identificarmos com a nossa mera práxis, como se tudo o que fôssemos se reduzisse ao que fizemos, o quanto realizamos ou deixamos de fazer.
Eu tenho pensado sobre este poder de si, de decisão sobre a vida, de construir uma existência que seja bela, boa, na qual você possa se reconhecer apesar de tudo. Isto se chama espiritualidade, esta compreensão geral, numa única tomada sobre a vida. Não é religião, credo, doutrina ou outra coisa, mas espiritualidade.
O quanto se tem poder sobre a vida? Qual o peso da nossa vontade e do imponderável, daquilo não-escolhido na existência?
Que, para além do pensar, “aconteça”, como pressinto. Não num milagre, iluminação ou coisa sobre-humana, mas no mais simples, real e cotidiano da minha humanidade.
segunda-feira, 29 de novembro de 2010
Musiquinha de segunda
Então queridos, vamos usar a velha e combalida tática de preencher de música o espaço vazio do blog.
Com vocês, Soko
Com vocês, Soko
sexta-feira, 26 de novembro de 2010
Bom apetite!
Escritório fechado por causa da guerra civil que acontece no Rio desde Domingo e as condições afetivas nubladas deste blogueiro que vos escreve, ora raios límpidos de sol, ora prenúncios de chuvinha fina e irritante, clamavam por uma atitude.
Por isto fiz uma paella express que, se não enche de orgulho os antepassados espanhóis, tambén não cobre Barcelona de vergonha. Antes, durante e agora, depois do almoço, um bom vinho branco chileno e só pra variar o clima hispânico: jazz.
Agora só falta o bom café: forte e sem açúcar.
A música está aí embaixo. O resto é com vocês.
Ótimo finde!
Por isto fiz uma paella express que, se não enche de orgulho os antepassados espanhóis, tambén não cobre Barcelona de vergonha. Antes, durante e agora, depois do almoço, um bom vinho branco chileno e só pra variar o clima hispânico: jazz.
Agora só falta o bom café: forte e sem açúcar.
A música está aí embaixo. O resto é com vocês.
Ótimo finde!
quinta-feira, 25 de novembro de 2010
Ainda afeto
O problema do afeto é puramente etimológico. Aquele com quem você flerta, deixa no ar e não passa disto, não te afeta. O teu fucky buddy, não te afeta. Os caras que surgem na alta noite e desaparecem à luz da manhã, tampouco. Os que te desestruturam, te fazem suspirar à toa e deixam linda qualquer coisa antes sem sentido: afeto. Esta é a questão.
Depois da minha conversa com Alê, achei mesmo que tinha resolvido tudo, que estava ótimo, despi a camiseta enrolado-comprometido e voltei à antiga “Uhuu! Solteiro no Rio!”, isto até receber um torpedo dele no dia seguinte, perguntando como eu estava e pedindo perdão pelo sumiço dele no final-de-semana.
Respondi que estava ótimo, que não tinha nada para ser desculpado e que era bom que tivéssemos conversado. E, desde então, não paro mais de pensar nele.
O fato é que só dá pra eu continuar esta história minimamente preparado para não estar tão próximo, tão presente, como eu gostaria. E se for assim, vale a pena?
Estar com ele sem pensar no futuro. Sem me fechar a outras possibilidades (afinal estou solteiro), sem enquadrar esta relação em moldes conhecidos.
A questão é saber o que se quer. E até onde se está disposto a ir.
O problema do afeto é que ele te afeta.
Depois da minha conversa com Alê, achei mesmo que tinha resolvido tudo, que estava ótimo, despi a camiseta enrolado-comprometido e voltei à antiga “Uhuu! Solteiro no Rio!”, isto até receber um torpedo dele no dia seguinte, perguntando como eu estava e pedindo perdão pelo sumiço dele no final-de-semana.
Respondi que estava ótimo, que não tinha nada para ser desculpado e que era bom que tivéssemos conversado. E, desde então, não paro mais de pensar nele.
O fato é que só dá pra eu continuar esta história minimamente preparado para não estar tão próximo, tão presente, como eu gostaria. E se for assim, vale a pena?
Estar com ele sem pensar no futuro. Sem me fechar a outras possibilidades (afinal estou solteiro), sem enquadrar esta relação em moldes conhecidos.
A questão é saber o que se quer. E até onde se está disposto a ir.
O problema do afeto é que ele te afeta.
terça-feira, 23 de novembro de 2010
O que deve ser dito
Até onde se estende o afeto? Em dois meses aprendi muito sobre os limites do meu. Sempre fora explosivo, fogos de artifício, tão lindo e mobilizador quanto muito breve.
Em dois meses, descobri a alegria e o suportar estar junto. Um problema nos lábios dele me roubou seu beijo nos últimos quinze dias e com ele seu desejo. O meu estava aqui se agüentando firme, o que ardia não era a falta de seu corpo no meu, mas a dúvida. Ele quer passar mais tempo comigo, como eu quero com ele? O que afinal nós temos? O que não é uma mera questão de classificações, mas equivale a pensar sobre o quanto você se entrega.
A duras penas entendi que o máximo que se pode fazer é entender o que eu sinto, o que eu quero com ele e lhe dizer. Imaginar o mundo que é o outro é desbravar profundezas abissais, chegando a lugar algum e ser tragado de dúvida em dúvida, num mar infindo de suposições. O que se tem a fazer: Eu sinto assim. E esperar que como espada afiada, isto rompa a capa de mistério que envolve o outro.
No Sábado, pela primeira vez, desde o início não nos vimos, não nos falamos: torpedos. A minha medrosa afetividade teria se conformado assim. Mas algo em mim, e fora de mim em amigas queridas, disse: Há coisas que precisam ser ditas. Não se pode viver uma história e deixá-la suspensa em mensagens ambíguas, em projeções do que se acha que o outro quer dizer.
Domingo, se disse o que era necessário. Ele me quer na inexatidão do que temos. Eu o quero mais, e por isto, não sei se posso me contentar. Senti-me orgulhoso e quase triste. Pela dignidade e transparência com que tudo se deu e pela ausência que em algum pensamento furtivo me assalta: numa música, numa risada, em algum momento tolo vivido de maneira absurdamente gratificante com ele.
Continuar? Sinceramente não sei, o que me embalava ultimamente era o desejo de uma presença que eu pensava me querer em constância, o ocasional, talvez, e se frise bem este advérbio, não me baste.
Em dois meses, descobri a alegria e o suportar estar junto. Um problema nos lábios dele me roubou seu beijo nos últimos quinze dias e com ele seu desejo. O meu estava aqui se agüentando firme, o que ardia não era a falta de seu corpo no meu, mas a dúvida. Ele quer passar mais tempo comigo, como eu quero com ele? O que afinal nós temos? O que não é uma mera questão de classificações, mas equivale a pensar sobre o quanto você se entrega.
A duras penas entendi que o máximo que se pode fazer é entender o que eu sinto, o que eu quero com ele e lhe dizer. Imaginar o mundo que é o outro é desbravar profundezas abissais, chegando a lugar algum e ser tragado de dúvida em dúvida, num mar infindo de suposições. O que se tem a fazer: Eu sinto assim. E esperar que como espada afiada, isto rompa a capa de mistério que envolve o outro.
No Sábado, pela primeira vez, desde o início não nos vimos, não nos falamos: torpedos. A minha medrosa afetividade teria se conformado assim. Mas algo em mim, e fora de mim em amigas queridas, disse: Há coisas que precisam ser ditas. Não se pode viver uma história e deixá-la suspensa em mensagens ambíguas, em projeções do que se acha que o outro quer dizer.
Domingo, se disse o que era necessário. Ele me quer na inexatidão do que temos. Eu o quero mais, e por isto, não sei se posso me contentar. Senti-me orgulhoso e quase triste. Pela dignidade e transparência com que tudo se deu e pela ausência que em algum pensamento furtivo me assalta: numa música, numa risada, em algum momento tolo vivido de maneira absurdamente gratificante com ele.
Continuar? Sinceramente não sei, o que me embalava ultimamente era o desejo de uma presença que eu pensava me querer em constância, o ocasional, talvez, e se frise bem este advérbio, não me baste.
sexta-feira, 19 de novembro de 2010
O viado e o pastor
Nós já havíamos tido uma discussão. Foi sobre a questão da PLC 122, que criminaliza a homofobia. Ele argumentou que era uma “conspiração” gay, um atentado contra a liberdade de expressão... me deu vontade de rir, ah se nós gays tivéssemos este nível de organização e esta união! Depois da discussão que acabou tomando boa parte da aula, um colega me segredou: “Liga não, ele é pastor batista”.
O fato é que ontem eu apresentei numa aula de Antropologia um trabalho de campo sobre a experiência de se descobrir gay na Igreja católica. Como se dá a articulação da identidade religiosa e orientação homossexual neste primeiro momento e como se pode ressignificar a pertença ao catolicismo a partir do momento em que se “sai do armário”. Como amostragem entrevistei alguns membros do grupo Diversidade Católica que se destina justamente a este público.
E não é que o pastor prestou uma atenção incrível à minha apresentação! E não senti da parte dele uma postura intransigente, condenatória, mas um real interesse. Tanto foi assim que ele estava responsável por controlar o tempo de cada seminário e se esqueceu completamente de fazer isto no meu.
Num período de tantas notícias ruins para nós gays, atentados absurdos no Rio e em São Paulo, numa sala de aula de uma universidade carioca, dois mundos, a princípio hostis se encontraram e com honestidade, dirigiram um olhar aberto e interessado um ao outro
O fato é que ontem eu apresentei numa aula de Antropologia um trabalho de campo sobre a experiência de se descobrir gay na Igreja católica. Como se dá a articulação da identidade religiosa e orientação homossexual neste primeiro momento e como se pode ressignificar a pertença ao catolicismo a partir do momento em que se “sai do armário”. Como amostragem entrevistei alguns membros do grupo Diversidade Católica que se destina justamente a este público.
E não é que o pastor prestou uma atenção incrível à minha apresentação! E não senti da parte dele uma postura intransigente, condenatória, mas um real interesse. Tanto foi assim que ele estava responsável por controlar o tempo de cada seminário e se esqueceu completamente de fazer isto no meu.
Num período de tantas notícias ruins para nós gays, atentados absurdos no Rio e em São Paulo, numa sala de aula de uma universidade carioca, dois mundos, a princípio hostis se encontraram e com honestidade, dirigiram um olhar aberto e interessado um ao outro
quinta-feira, 11 de novembro de 2010
O perigo de Novembro
Eu não sei mais escrever. É por isto que o blog está parado. Se ele agnoniza? Acho que não, nem eu tampouco. A agonia é aguda. E esses dias tem sido todos graves. Solo de violoncelo. De trabalhos acadêmicos, gasturas afetivas. Continuar ou não? Continuar o que? Há tanto para isto?
Toda manhã então, junto ao café que passando, espalha seu odor pelo dia, eu tento me convencer: terminar o período na faculdade, fazer alguma porra de exercício porque se é um corpo e não mandar ir à merda o lindão faz sentido, deve fazer algum.
Há momentos assim: caminha-se pela beirada, tudo morno e cinza num céu sem trovoadas ou sol, algo agosto da vida em pleno novembro do calendário. E não é dor, nem tristeza, É só o que tem que se fazer para evitar o... que?
Nessas, e em todas as outras horas, a salvação é sempre música. E para mim, muitas vezes ela: Nina.
Então, com vocês: To love Somebody
Toda manhã então, junto ao café que passando, espalha seu odor pelo dia, eu tento me convencer: terminar o período na faculdade, fazer alguma porra de exercício porque se é um corpo e não mandar ir à merda o lindão faz sentido, deve fazer algum.
Há momentos assim: caminha-se pela beirada, tudo morno e cinza num céu sem trovoadas ou sol, algo agosto da vida em pleno novembro do calendário. E não é dor, nem tristeza, É só o que tem que se fazer para evitar o... que?
Nessas, e em todas as outras horas, a salvação é sempre música. E para mim, muitas vezes ela: Nina.
Então, com vocês: To love Somebody
quinta-feira, 28 de outubro de 2010
Aleatoriedades de quinta...
Minha vida acadêmica anda uma merda. Depois de ter encarado semestre passado 7 matérias, além da academia, trabalho na editora e como professor, achei que este período seria uma maravilha. Só quatro matérias, 2 dias na semana, paz e tranqüilidade, além, é claro de matérias em dia e dez em tudo como gosta o bom nerd que sou.
Ledo engano! Pilhas de leituras atrasadas, ânimo zero para trabalhos, provas e afins e um número considerável de faltas nas duas matérias que começam às 7h50.
Quinta-feira passada eu dormindo na aula, ouvi ao longe “Rafael.. Rafael”, seria minha mãe? Um coro de anjos? Não, claro que não. Era, literalmente, a turma toda me chamando porque o professor pediu que eu lesse um texto. Hoje, filme etnográfico chaaato na aula de Antropologia visual. Só acordei quando derrubei sobre mim mesmo um copo d’água cheio que eu, antes de dormir, segurava, pretendendo matar minha sede que, pelo visto, não era maior que meu sono.
****
Eu identifiquei o ponto exato em que, numa relação, normalmente, eu pulo fora. É na passagem do ideal para o real. Quando o homem que você pensa ter encontrado se torna aquele que, efetivamente, você encontrou. E se é assim, as coisas não serão tão fáceis, nem tão mágicas e nem serão as coisas que você sonhou.
Mas, sinceramente, uma relação precisa ser o que a gente determina? O outro é efetivamente sujeito desta relação, parceiro? Um namoro, or whatever, não é mais do que as aspirações e desejos de um pólo apenas, ainda que seja o seu?
Por isto eu decidi ficar, permanecer. Claro, não só por isto. Há tantas outras razões, mas sobre estas eu me calo. Vivo-as, abraço-as, nelas me perco e me encontro, mas não falo.
****
ATENÇÃO MAD MEN 4° TEMPORADA – SPOILER
Como uma série que já era ótima, consegue ficar ainda melhor? A criação da nova agência que reuniu meus personagens prediletos e o delicioso Don Draper, agora divorciado, mais sombrio e perdido do que nunca dinamizaram de forma deliciosa Mad Men.
Pena que no último capítulo da temporada o gostosão fica noivo.. prefiro ele solteiro. Ah se eu morasse em NY nos anos 60!
Ledo engano! Pilhas de leituras atrasadas, ânimo zero para trabalhos, provas e afins e um número considerável de faltas nas duas matérias que começam às 7h50.
Quinta-feira passada eu dormindo na aula, ouvi ao longe “Rafael.. Rafael”, seria minha mãe? Um coro de anjos? Não, claro que não. Era, literalmente, a turma toda me chamando porque o professor pediu que eu lesse um texto. Hoje, filme etnográfico chaaato na aula de Antropologia visual. Só acordei quando derrubei sobre mim mesmo um copo d’água cheio que eu, antes de dormir, segurava, pretendendo matar minha sede que, pelo visto, não era maior que meu sono.
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Eu identifiquei o ponto exato em que, numa relação, normalmente, eu pulo fora. É na passagem do ideal para o real. Quando o homem que você pensa ter encontrado se torna aquele que, efetivamente, você encontrou. E se é assim, as coisas não serão tão fáceis, nem tão mágicas e nem serão as coisas que você sonhou.
Mas, sinceramente, uma relação precisa ser o que a gente determina? O outro é efetivamente sujeito desta relação, parceiro? Um namoro, or whatever, não é mais do que as aspirações e desejos de um pólo apenas, ainda que seja o seu?
Por isto eu decidi ficar, permanecer. Claro, não só por isto. Há tantas outras razões, mas sobre estas eu me calo. Vivo-as, abraço-as, nelas me perco e me encontro, mas não falo.
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ATENÇÃO MAD MEN 4° TEMPORADA – SPOILER
Como uma série que já era ótima, consegue ficar ainda melhor? A criação da nova agência que reuniu meus personagens prediletos e o delicioso Don Draper, agora divorciado, mais sombrio e perdido do que nunca dinamizaram de forma deliciosa Mad Men.
Pena que no último capítulo da temporada o gostosão fica noivo.. prefiro ele solteiro. Ah se eu morasse em NY nos anos 60!
segunda-feira, 25 de outubro de 2010
quinta-feira, 21 de outubro de 2010
Esse tal de "Namoro"
Quem quer encontrar alguém que seja significativo o suficiente para habitar, realmente, em um lugar especial do coração, tem muito trabalho.
A dinâmica de encontros e tentativas tem como resultado normal desencontros. A expectativa é sempre o elemento primordial para a frustração. Ser bonito, ter um bom papo, querer de fato estar numa relação não significa que ela irá se realizar. Pelo menos não de forma realmente significativa.
Pode-se começar mil “namoros” com trocentos caras legais. Mas isto não basta. Namorar por que se quer, é namorar pela metade. Lindo, loiro, inteligente e com grana é como ter ovos leite, farinha à mão: parece excelente pra fome, mas não significa que desta mistura sairá necessariamente um bolo inesquecível.
O melhor é não querer namorar. Ou, pelo menos, não contar com isso como algo certo. Porque, estranhamente, viver o que significa, de fato, namorar não depende das partes envolvidas. Não provém da vontade de um e de outro.
Namorar é da ordem da Graça. É um desejo que nasce em sei lá que instâncias: o de estar junto, e mais e mais junto àquele que se ama. É ter a boca cheia de sorriso que ninguém na rua entende, que os colegas do trabalho não sabem o porquê, só de lembrar da última vez em que os dois enamorados estiveram juntos. É ficar louco pra contar a coisa engraçada do dia, sentir uma vontade imediata de abraçá-lo quando o esperado não acontece e saber que logo mais tudo estará melhor, só porque ele estará presente.
Não se decide, não se escolhe, não se persegue o namorar. Ele acontece. É claro que é preciso estar atento e forte, e se enfrentar e enfrentar o medo. Todos os tremores e covardias que estão implicadas em se pôr assim, de forma tão entregue a outro ser humano. Mas é definitivamente a vida, a fluidez da relação, o rasgar da saudade que te mostrarão quem é merecedor da dádiva do seu melhor afeto.
A dinâmica de encontros e tentativas tem como resultado normal desencontros. A expectativa é sempre o elemento primordial para a frustração. Ser bonito, ter um bom papo, querer de fato estar numa relação não significa que ela irá se realizar. Pelo menos não de forma realmente significativa.
Pode-se começar mil “namoros” com trocentos caras legais. Mas isto não basta. Namorar por que se quer, é namorar pela metade. Lindo, loiro, inteligente e com grana é como ter ovos leite, farinha à mão: parece excelente pra fome, mas não significa que desta mistura sairá necessariamente um bolo inesquecível.
O melhor é não querer namorar. Ou, pelo menos, não contar com isso como algo certo. Porque, estranhamente, viver o que significa, de fato, namorar não depende das partes envolvidas. Não provém da vontade de um e de outro.
Namorar é da ordem da Graça. É um desejo que nasce em sei lá que instâncias: o de estar junto, e mais e mais junto àquele que se ama. É ter a boca cheia de sorriso que ninguém na rua entende, que os colegas do trabalho não sabem o porquê, só de lembrar da última vez em que os dois enamorados estiveram juntos. É ficar louco pra contar a coisa engraçada do dia, sentir uma vontade imediata de abraçá-lo quando o esperado não acontece e saber que logo mais tudo estará melhor, só porque ele estará presente.
Não se decide, não se escolhe, não se persegue o namorar. Ele acontece. É claro que é preciso estar atento e forte, e se enfrentar e enfrentar o medo. Todos os tremores e covardias que estão implicadas em se pôr assim, de forma tão entregue a outro ser humano. Mas é definitivamente a vida, a fluidez da relação, o rasgar da saudade que te mostrarão quem é merecedor da dádiva do seu melhor afeto.
segunda-feira, 18 de outubro de 2010
Hiato das palavras.. Ah, não! Segunda-feira...
Eu iria escrever sobre como as palavras se tornaram muralhas para mim, indevassáveis que nem 7 voltas em 7 dias derrubariam, Jericó perde. Em geral, elas são minhas amigas, minhas chaves para o mundo, minhas armas. Em minha vida, quando sentir era um problema eu pensava, racionalizava, inventava teorias, idealizava. E ficava bem, em paz. Finalmente o mundo tinha uma explicação e eu não precisava submergir no sentimento, este sim indomável, denso, desconhecido.
Enfim, eu iria mesmo escrever sobre isto. Aí me lembrei que, às vezes, meus posts assustam e desanimam os leitores incautos (eu ouvi isto no encontro de blogueiros!), mais do que tudo eu percebi que é uma segunda chuvosa no Rio de Janeiro. Começo de semana, com chuva, já é “denso” o suficiente para ainda se escrever um post como este. Portanto, seguindo a recente dica do querido Dan, fiquemos com Soko.
Enfim, eu iria mesmo escrever sobre isto. Aí me lembrei que, às vezes, meus posts assustam e desanimam os leitores incautos (eu ouvi isto no encontro de blogueiros!), mais do que tudo eu percebi que é uma segunda chuvosa no Rio de Janeiro. Começo de semana, com chuva, já é “denso” o suficiente para ainda se escrever um post como este. Portanto, seguindo a recente dica do querido Dan, fiquemos com Soko.
quinta-feira, 14 de outubro de 2010
2º Turno: A Hora do Espanto
O espanto de todos nós com o segundo turno é por percebermos como a religião ainda é uma força poderosíssima no Brasil, capaz de coagir candidatos a assinar termos de compromisso, “cartas abertas” nas quais prometem se alinhar às posições daqueles que se julgam os detentores da verdade moral sobre toda a nação. Em troca? Votos, a promessa de milhões de votos.
E a situação ficará pior! Os segmentos neo-pentecostais, de moral conservadora, são os que mais crescem atualmente quer no meio evangélico, quer na igreja católica, nesta sendo conhecida como “Renovação carismática”.
Aqui e ali se reage. “O Brasil é um país laico”! “A constituição assegura a separação entre Estado e Religião”! Formalmente muito correto e bonito. A questão é que a política, ainda mais a eleitoral, não se rege inteiramente por princípios, nem pelos constitucionais muitas vezes, mas pelas circunstâncias.
A política, a “arte do bem gerir”, se faz a partir de demandas específicas de grupos. O jogo político é aquele no qual cada segmento social procura se fazer representativo e às suas propostas, angariando o favor dos políticos em troca de apoio, de voto.
É preciso gritar sim nessa hora, apelar para os princípios constitucionais. Mas, sobretudo, é preciso que tenhamos (nós, os gays) uma identidade política, uma voz alta e clara no cenário eleitoral para que não apenas falem de nós (os evangélicos, os candidatos, a mídia), mas que sejamos sujeitos reconhecidos do nosso próprio discurso, um dos muitos segmentos sociais a exigir reconhecimento e representatividade.
Avançamos em muitas áreas a passos largos, menos na política. Beijar à vontade na boate, ser retratado de maneira “fofa” (argh!) na mídia não nos garante direitos políticos, não nos livra de ter de lutar, politicamente, para deixarmos de ser pseudo-cidadãos neste país.
E a situação ficará pior! Os segmentos neo-pentecostais, de moral conservadora, são os que mais crescem atualmente quer no meio evangélico, quer na igreja católica, nesta sendo conhecida como “Renovação carismática”.
Aqui e ali se reage. “O Brasil é um país laico”! “A constituição assegura a separação entre Estado e Religião”! Formalmente muito correto e bonito. A questão é que a política, ainda mais a eleitoral, não se rege inteiramente por princípios, nem pelos constitucionais muitas vezes, mas pelas circunstâncias.
A política, a “arte do bem gerir”, se faz a partir de demandas específicas de grupos. O jogo político é aquele no qual cada segmento social procura se fazer representativo e às suas propostas, angariando o favor dos políticos em troca de apoio, de voto.
É preciso gritar sim nessa hora, apelar para os princípios constitucionais. Mas, sobretudo, é preciso que tenhamos (nós, os gays) uma identidade política, uma voz alta e clara no cenário eleitoral para que não apenas falem de nós (os evangélicos, os candidatos, a mídia), mas que sejamos sujeitos reconhecidos do nosso próprio discurso, um dos muitos segmentos sociais a exigir reconhecimento e representatividade.
Avançamos em muitas áreas a passos largos, menos na política. Beijar à vontade na boate, ser retratado de maneira “fofa” (argh!) na mídia não nos garante direitos políticos, não nos livra de ter de lutar, politicamente, para deixarmos de ser pseudo-cidadãos neste país.
segunda-feira, 11 de outubro de 2010
Explicação nenhuma isso requer
Há conquistas que se quer exibir. Troféus a ostentar. Cabeças de animais caçados pelas paredes, diplomas emoldurados em consultórios. Homens bonitos também se exibe. Por isso, poderia eu escrever longamente sobre o Alê. Ele é grande, forte, de uma barba irresistível.
Mas tudo o que ele é de fora, está envolto num sentimento tão genuíno, num encontro tão inusitado e belo que se tem medo que, ao ser dito, se desfaça o laço, se desalinhe alguma trama que vem sendo costurada, dia a dia, com palavras, o silêncio entre estas e a certeza paulatinamente experimentada que se encontrou, de fato, alguém especial.
Daí a vontade de “falar sobre” some. Como quando a gente é criança e ganha um doce e não quer dividir, ou vive algo muito bom e quer deixar quieto, na bruma, porque assim, parece que cada mensagem, beijo e amasso rendem mais, se impregnam suavemente na memória, no afeto, na vida.
Eu entendi que isto é bom. Hoje. Que paixão não é uma semana, um mês, um ano. Não há cronômetro. Paixão é o eterno que rasga o instante. Aqui. Agora. E deixa, indelével, a sua marca. Que a tenhamos, na carne, na alma, no furor da noite e na tranqüilidade de acordar lado a lado.
Mas tudo o que ele é de fora, está envolto num sentimento tão genuíno, num encontro tão inusitado e belo que se tem medo que, ao ser dito, se desfaça o laço, se desalinhe alguma trama que vem sendo costurada, dia a dia, com palavras, o silêncio entre estas e a certeza paulatinamente experimentada que se encontrou, de fato, alguém especial.
Daí a vontade de “falar sobre” some. Como quando a gente é criança e ganha um doce e não quer dividir, ou vive algo muito bom e quer deixar quieto, na bruma, porque assim, parece que cada mensagem, beijo e amasso rendem mais, se impregnam suavemente na memória, no afeto, na vida.
Eu entendi que isto é bom. Hoje. Que paixão não é uma semana, um mês, um ano. Não há cronômetro. Paixão é o eterno que rasga o instante. Aqui. Agora. E deixa, indelével, a sua marca. Que a tenhamos, na carne, na alma, no furor da noite e na tranqüilidade de acordar lado a lado.
sexta-feira, 1 de outubro de 2010
Errata (Ai que vergonha....)
Eh.. então, queridos, peço que desconsiderem o post-desabafo-relâmpago abaixo. Foi tudo um mal-entendido.. (minha ansiedade é uma merda!)
Ontem o moço veio aqui pra casa, preparou o jantar e.. bem ambos perdemos a hora hoje de manhã.
Viva a paixão!
(aiai... = suspiros)
P.S. Na segunda, minha vida volta ao normal no trabalho, o que significa que volto a visitar os blogs amados e atualizo de maneira decente este aqui
Ótimo Final-de-semana!!!!!!!!!!
Ontem o moço veio aqui pra casa, preparou o jantar e.. bem ambos perdemos a hora hoje de manhã.
Viva a paixão!
(aiai... = suspiros)
P.S. Na segunda, minha vida volta ao normal no trabalho, o que significa que volto a visitar os blogs amados e atualizo de maneira decente este aqui
Ótimo Final-de-semana!!!!!!!!!!
quinta-feira, 30 de setembro de 2010
terça-feira, 28 de setembro de 2010
Paixão...(?)
Eu iria fazer um post bonitinho sobre paixão. Mas percebi que talvez, este alardeado sentimento seja só uma fantasia mais aceitável, mais nobre, fundada na inquestionável força do Romantismo para dizer algo que pode ser, no fundo, só carência.
Apesar de nem ser pensado, de não ser a conclusão de um raciocínio lógico, ou a meta de algum plano minuciosamente elaborado por mim, eu havia desistido da paixão. Resolvi aceitar que há pessoas que nascem com um dom para isto, uma habilidade específica para esta questão do amor, de relacionamentos. Eu sou um ótimo amigo, mas um péssimo amante.
Porque, na verdade, a paixão me tira do eixo, me joga num mundo de ânsias, de desejos, numa vontade de estar perto se longe e mais perto se perto, como já dizia Vinícius. E isto é bem desestruturador. Nunca é pra mim, se há paixão de verdade, o que não é freqüente, algo calmo, plácido. A vida é melhor sem paixão.
Mas aí você conhece, numa sexta de noite, num bar da Lapa, um cara lindo com beijos apimentados, papo bom, um corpo tão no ritmo do seu que parece algo previamente ensaiado. Você pensa: “Ah, que legal por esta noite. Vamos aproveitar!” Ele diz que quer vê-lo de novo, você põe em suspenso essa frase na sua cabeça, tão surrada, tão maltrapilha no mundo gay. Mas ele te manda mensagem ao chegar em casa e vocês se vêem no dia seguinte. A sintonia é a mesma, os beijos, ainda melhores e os seus braços, você percebe, tem o molde perfeito para intermináveis abraços.
Domingo você só não lhe vai ao encontro porque tem um compromisso familiar. Segunda você acorda com um torpedo, dizendo que ele te quer, que pensa em ti.
Como resistir? Mesmo agarrado ao último destroço das minhas péssimas convicções formadas em relacionamentos recentes, mesmo consciente que não sei amar de forma tranqüila e sem ânsia, passei o dia de ontem louco, entre o céu das lembranças e o inferno das ausências.
O que sobrou em mim de racional, de adulto, tenta me resguardar. Dizer um sábio “Vai com calma, você acabou de conhecer o cara e já encontrou malucos antes...” e eu sigo assim tão.. tão que nem consegui falar ao telefone com ele ontem direito, palavras fugindo (poxa e eu sou bom com elas!), coração batendo, desejo tomando tudo.
Exagerado? Eu sei.. eu sei, porém, eu nunca disse que não era...
Apesar de nem ser pensado, de não ser a conclusão de um raciocínio lógico, ou a meta de algum plano minuciosamente elaborado por mim, eu havia desistido da paixão. Resolvi aceitar que há pessoas que nascem com um dom para isto, uma habilidade específica para esta questão do amor, de relacionamentos. Eu sou um ótimo amigo, mas um péssimo amante.
Porque, na verdade, a paixão me tira do eixo, me joga num mundo de ânsias, de desejos, numa vontade de estar perto se longe e mais perto se perto, como já dizia Vinícius. E isto é bem desestruturador. Nunca é pra mim, se há paixão de verdade, o que não é freqüente, algo calmo, plácido. A vida é melhor sem paixão.
Mas aí você conhece, numa sexta de noite, num bar da Lapa, um cara lindo com beijos apimentados, papo bom, um corpo tão no ritmo do seu que parece algo previamente ensaiado. Você pensa: “Ah, que legal por esta noite. Vamos aproveitar!” Ele diz que quer vê-lo de novo, você põe em suspenso essa frase na sua cabeça, tão surrada, tão maltrapilha no mundo gay. Mas ele te manda mensagem ao chegar em casa e vocês se vêem no dia seguinte. A sintonia é a mesma, os beijos, ainda melhores e os seus braços, você percebe, tem o molde perfeito para intermináveis abraços.
Domingo você só não lhe vai ao encontro porque tem um compromisso familiar. Segunda você acorda com um torpedo, dizendo que ele te quer, que pensa em ti.
Como resistir? Mesmo agarrado ao último destroço das minhas péssimas convicções formadas em relacionamentos recentes, mesmo consciente que não sei amar de forma tranqüila e sem ânsia, passei o dia de ontem louco, entre o céu das lembranças e o inferno das ausências.
O que sobrou em mim de racional, de adulto, tenta me resguardar. Dizer um sábio “Vai com calma, você acabou de conhecer o cara e já encontrou malucos antes...” e eu sigo assim tão.. tão que nem consegui falar ao telefone com ele ontem direito, palavras fugindo (poxa e eu sou bom com elas!), coração batendo, desejo tomando tudo.
Exagerado? Eu sei.. eu sei, porém, eu nunca disse que não era...
segunda-feira, 27 de setembro de 2010
Pra você guardei o amor...
"Achei
vendo em você,
E explicação
nenhuma isso requer
Se o coração bater forte e arder
No fogo o gelo vai queimar"
Calor... Calor...
vendo em você,
E explicação
nenhuma isso requer
Se o coração bater forte e arder
No fogo o gelo vai queimar"
Calor... Calor...
quinta-feira, 23 de setembro de 2010
Quarta-feira, simples assim
Se eu fosse um pouquinho mais exagerado poderia dizer que o gosto delicado do sashimi se depreendia em ondas da fina lâmina de peixe e se espalhava gradativamente pela minha boca. Talvez fosse isso mesmo, ou só o muito tempo que não provava de uma das minhas iguarias favoritas.
Coisa boa, de surpresa, não mais que de repente, sair do trabalho numa Quarta-feira e ir jantar. Apesar de ser num shopping, ambiente que acho breeegga! seja qual for, a vista do restaurante é uma das mais lindas do Rio. Se fosse um pouquinho mais cedo, poderia ver o sol se pôr, jogando reflexos incríveis na baía e recortando de forma ainda mais bela o Pão-de-áçucar do horizonte acinzentado do fim de tarde.
Só não tomei o saquê. Muito caro. Iria extrapolar minhas pretensões de gastos para a noite, ainda que a alma estivesse em festa, o corpo bem, o coração repleto, por aquela quebra na rotina. Sair na Quarta pra algo que se curte muito e que não se faz a um bom tempo ainda que seja tão simples, como o cinema, logo depois do jantar, é motivo de júbilo singelo, mas sorvido em grandes goles, em festa.
O Unibanco Arteplex é uma graça. Local das intelectuais nos finais de semana, leia-se barbinha cuidadosamente desalinhada e óculos de aros grossos, estava quase vazio ontem. Tomei um café, expresso, forte e sem açúcar, como eu gosto e abri a minha nova aquisição literária: Em busca do tempo perdido, de Proust. Em alguma ocasião, alguém muito querido, ainda que não me lembre quem, apesar de sabê-lo por mim amado, disse-me, em um tom entre o solene e o maroto que se precisa ler toda esta obra, composta por sete volumes até os 35 anos. Eu não vou conseguir. 33 recém-completos e até agora, só a introdução ao primeiro livro: No Caminho de Swan. Mas eu tinha que começar. É um projeto que tenho há tempos. O título me é absolutamente irresistível, atrai-me de forma suave mas certeira, ecoando em nem sei que instâncias: Em busca do tempo perdido.
E não é que o filme fala de tempo! Giuseppe Tornatore: Baaria, a porta do vento. O diretor é o mesmo de Cinema Paradiso. Fotografia linda, retratos de épocas pintados em pinceladas de gostosa nostalgia e a vida que passa, corre, como um menino. Porque, afinal, o tempo é, antes de tudo, uma coordenada qualitativa. É assim que se mede a vida, não é mesmo?
Coisa boa, de surpresa, não mais que de repente, sair do trabalho numa Quarta-feira e ir jantar. Apesar de ser num shopping, ambiente que acho breeegga! seja qual for, a vista do restaurante é uma das mais lindas do Rio. Se fosse um pouquinho mais cedo, poderia ver o sol se pôr, jogando reflexos incríveis na baía e recortando de forma ainda mais bela o Pão-de-áçucar do horizonte acinzentado do fim de tarde.
Só não tomei o saquê. Muito caro. Iria extrapolar minhas pretensões de gastos para a noite, ainda que a alma estivesse em festa, o corpo bem, o coração repleto, por aquela quebra na rotina. Sair na Quarta pra algo que se curte muito e que não se faz a um bom tempo ainda que seja tão simples, como o cinema, logo depois do jantar, é motivo de júbilo singelo, mas sorvido em grandes goles, em festa.
O Unibanco Arteplex é uma graça. Local das intelectuais nos finais de semana, leia-se barbinha cuidadosamente desalinhada e óculos de aros grossos, estava quase vazio ontem. Tomei um café, expresso, forte e sem açúcar, como eu gosto e abri a minha nova aquisição literária: Em busca do tempo perdido, de Proust. Em alguma ocasião, alguém muito querido, ainda que não me lembre quem, apesar de sabê-lo por mim amado, disse-me, em um tom entre o solene e o maroto que se precisa ler toda esta obra, composta por sete volumes até os 35 anos. Eu não vou conseguir. 33 recém-completos e até agora, só a introdução ao primeiro livro: No Caminho de Swan. Mas eu tinha que começar. É um projeto que tenho há tempos. O título me é absolutamente irresistível, atrai-me de forma suave mas certeira, ecoando em nem sei que instâncias: Em busca do tempo perdido.
E não é que o filme fala de tempo! Giuseppe Tornatore: Baaria, a porta do vento. O diretor é o mesmo de Cinema Paradiso. Fotografia linda, retratos de épocas pintados em pinceladas de gostosa nostalgia e a vida que passa, corre, como um menino. Porque, afinal, o tempo é, antes de tudo, uma coordenada qualitativa. É assim que se mede a vida, não é mesmo?
quarta-feira, 22 de setembro de 2010
Adooro!! - Literatura

Xinguem-me, lancem sobre mim as mais pontudas pedras, risquem meu nome do Livro da Vida, mas a verdade é que eu não lia literatura há muito tempo. Para vocês terem uma idéia, estou há meses avançando a ritmo de criança semi-alfabetizada na leitura de “A Descoberta do mundo”, e olha que é da mais querida de todas as escritoras: Clarice Lispector!
Antes que o desprezo de vocês torne este espaço um blog fantasma, abandonado por todos aqueles de bom-senso e amor aos livros, convém esclarecer que tenho lido, muito, exaustivamente: sociologia, antropologia e, vez por outra, um furtivo jornal, mas literatura (que é bom mesmo), nada.
Por isto foi com um verdadeiro frisson que me apoderei do recém comprado por meu pai “A elegância do Ouriço” a fim de passar as longas esperas em aeroportos da maneira mais confortável possível. Livros, como eu os venero!
Acabei a leitura ontem. Há partes que me tocaram profundamente, arranjos literários belíssimos tirados de situações cotidianas de um prédio de luxo em Paris, sendo personagens principais a conciérge e uma menina intelectualmente precoce e que planeja o próprio suicídio se não descobrir até a data prevista um sentido real para a vida.
O que me incomodou no livro foi um tom didático demais, mas que é próprio desta linha: “vamos tirar lições existenciais da filosofia e da arte”. Como se a literatura, independente de ser usada para este fim de forma intencional, como no livro, não tivesse esta dimensão por si só. Parece que o (a) autor (a) quer entregar a quem lê o trabalho feito, a reflexão mastigada. Gosto, eu mesmo de realizar isto, à medida que vou lendo, senão, soa quase (eu disse quase!) como uma auto-ajuda rebuscada.
Enfim, um bom livro, apesar de longe dos meus preferidos.
terça-feira, 21 de setembro de 2010
As derradeiras impressões porteñas
Eu estava todo motivado para fazer uma série de postagens sobre a viagem pra Buenos Aires. Sabe como é, pobre quando viaja um pouquinho mais pra longe e fica mais tempo, quer espremer até o último gomo da laranja. Por isto, no único post publicado havia a indicação “Impressãoes portenhas – I”.
Desisti do meu plano maravilhoso pro blog. Vai ficar tudo aqui, em mim mesmo, naquele estilo “quem viveu, viveu”. Nada de entornar o caldo, vou deixar fervilhando a cabeça e o coração com o visto, sentido, vivido, quem sabe dura mais? As percepções, afeições, risos e todo o resto permanecerão incrustadas em mim, protegidas, como um alento de vida, o derradeiro prazer dos dias de total ócio, nos quais flanar pelas calles portenhas eram a minha única obrigação. Vou usar as lembranças em dias de fúria contra o computador à minha frente, leituras interminavelmente tediosas e ódios repentinos aos patrões.
Portanto, eis aí em tópicos as últimas “Impressões porteñas”:
Os argentinos são realmente muito bonitos. Mas tem cabelos estranhos, variações escrotinhas dos terríveis mullets dos anos 80.
Cadê os negros? Em uma semana vi, no máximo, uns sete e descobri, depois, que pelo menos três eram estrangeiros.
Restaurante tipicamente italiano: Comida deliciosa, garçons afáveis, ambiente familiar: Brocolino na rua Esmeralda. Vale uma visita.
Tanto na feira de San Telmo quanto em Palermo há lojas de multimarcas argentinas. Atenção pras camisetas! Achei umas muito bonitas e por preços inacreditáveis.
Definitivamente um bom castelhano sussurrado ao ouvido por um típico representante portenho é uma das melhores experiências de imersão cultural em Buenos Aires.
E pra terminar, uma cena portenha:
A noite escura é ainda mais fria devido a insistente chuva que cai, sem pressa, desde o crepúsculo. Você caminha lento, em contraste, com os vultos que passam por você, apressados a caminho de casa. É uma segunda-feira. Homens e mulheres em capas de chuva de diversos tamanhos, cores e tecidos. Quase uma unanimidade nacional pelo visto: a elegância, em dias de chuva então, salta aos olhos! Você tem a sua, comprada no mesmo dia. Na esquina um táxi. Abre a porta de trás do veículo preto e amarelo. O calor de dentro embaça os vidros. “Corrientes otcho trinta” diz ao motorista que parte. Luzes passam, apesar de lento, o trânsito flui quase ao ritmo de Gardel que, não por acaso, é o que toca, neste momento, no rádio. Você sorri. Buenos Aires.
Desisti do meu plano maravilhoso pro blog. Vai ficar tudo aqui, em mim mesmo, naquele estilo “quem viveu, viveu”. Nada de entornar o caldo, vou deixar fervilhando a cabeça e o coração com o visto, sentido, vivido, quem sabe dura mais? As percepções, afeições, risos e todo o resto permanecerão incrustadas em mim, protegidas, como um alento de vida, o derradeiro prazer dos dias de total ócio, nos quais flanar pelas calles portenhas eram a minha única obrigação. Vou usar as lembranças em dias de fúria contra o computador à minha frente, leituras interminavelmente tediosas e ódios repentinos aos patrões.
Portanto, eis aí em tópicos as últimas “Impressões porteñas”:
Os argentinos são realmente muito bonitos. Mas tem cabelos estranhos, variações escrotinhas dos terríveis mullets dos anos 80.
Cadê os negros? Em uma semana vi, no máximo, uns sete e descobri, depois, que pelo menos três eram estrangeiros.
Restaurante tipicamente italiano: Comida deliciosa, garçons afáveis, ambiente familiar: Brocolino na rua Esmeralda. Vale uma visita.
Tanto na feira de San Telmo quanto em Palermo há lojas de multimarcas argentinas. Atenção pras camisetas! Achei umas muito bonitas e por preços inacreditáveis.
Definitivamente um bom castelhano sussurrado ao ouvido por um típico representante portenho é uma das melhores experiências de imersão cultural em Buenos Aires.
E pra terminar, uma cena portenha:
A noite escura é ainda mais fria devido a insistente chuva que cai, sem pressa, desde o crepúsculo. Você caminha lento, em contraste, com os vultos que passam por você, apressados a caminho de casa. É uma segunda-feira. Homens e mulheres em capas de chuva de diversos tamanhos, cores e tecidos. Quase uma unanimidade nacional pelo visto: a elegância, em dias de chuva então, salta aos olhos! Você tem a sua, comprada no mesmo dia. Na esquina um táxi. Abre a porta de trás do veículo preto e amarelo. O calor de dentro embaça os vidros. “Corrientes otcho trinta” diz ao motorista que parte. Luzes passam, apesar de lento, o trânsito flui quase ao ritmo de Gardel que, não por acaso, é o que toca, neste momento, no rádio. Você sorri. Buenos Aires.
quinta-feira, 16 de setembro de 2010
Impressões porteñas - I
O avião ou “A melhor forma de viajar é sentir” (Fernando Pessoa)
Um avião não é um avião. Ele começa por ser um paradoxo. Não entendo como aquele trambolhão voa. É também um exercício de fé. Quantas mil possibilidades de dar algo errado cercam um simples pouso e decolagem? Mas acima de tudo, um avião é a encarnação metálica e metafórica do sentido mais próprio de viajar.
Normalmente você é só alguém entre quatro paredes, entre muitos andares, circulando por um sem número de prédios. Tudo maior que você: edifícios, obrigações, a vida a ser dominada, domesticada.
No avião tudo vai ficando pequeno, distante a ponto de se pensar que, se fosse permitido pôr um pé pra fora, você esmagaria todos aqueles pontinhos brilhantes, como um Godzilla descuidado.
Deslocar-se no espaço é redimensionar a própria vida. Enquanto normalmente a gente se entende pela profissão que exerce, por quanto se ganha e pelo inexorável dia-a-dia, uma viagem te dá a possibilidade de ser. Só. Não isto e aquilo. Ser.
Um lugar diferente, uma não-rotina nos dias e horas antes de afazeres tão habituais, desperta o ânimo e a percepção de que nem tudo o que é, precisa continuar sendo da mesma forma. Dá pra fazer diferente, ou, pelo menos, fazer o mesmo, com outras amplitudes.
Viajar te descola da sua vida habitual e você acaba percebendo, de forma bastante palpável, que é ainda mais vasto do que aquilo que se tornou até então.
Um avião não é um avião. Ele começa por ser um paradoxo. Não entendo como aquele trambolhão voa. É também um exercício de fé. Quantas mil possibilidades de dar algo errado cercam um simples pouso e decolagem? Mas acima de tudo, um avião é a encarnação metálica e metafórica do sentido mais próprio de viajar.
Normalmente você é só alguém entre quatro paredes, entre muitos andares, circulando por um sem número de prédios. Tudo maior que você: edifícios, obrigações, a vida a ser dominada, domesticada.
No avião tudo vai ficando pequeno, distante a ponto de se pensar que, se fosse permitido pôr um pé pra fora, você esmagaria todos aqueles pontinhos brilhantes, como um Godzilla descuidado.
Deslocar-se no espaço é redimensionar a própria vida. Enquanto normalmente a gente se entende pela profissão que exerce, por quanto se ganha e pelo inexorável dia-a-dia, uma viagem te dá a possibilidade de ser. Só. Não isto e aquilo. Ser.
Um lugar diferente, uma não-rotina nos dias e horas antes de afazeres tão habituais, desperta o ânimo e a percepção de que nem tudo o que é, precisa continuar sendo da mesma forma. Dá pra fazer diferente, ou, pelo menos, fazer o mesmo, com outras amplitudes.
Viajar te descola da sua vida habitual e você acaba percebendo, de forma bastante palpável, que é ainda mais vasto do que aquilo que se tornou até então.
sexta-feira, 3 de setembro de 2010
Nas alturas

Faltam 58 minutos para começar algo que eu não faço a incontáveis tempos: ficar 11 dias sem trabalhar. Sou freela, o que significa que sem trampo, no dim-dim. Desta vez eu resolvi me dar umas férias.
O mais incrível é como isto tem mexido comigo. Como já escrevi no último post, vou pra Buenos Aires na próxima terça. Faz dez anos que não viajo pra fora do país, uns cinco que não tiro uma folga de mais de 3 dias. Resultado: estou todo em festa. Não consigo mais fazer nada direito, concentração zero, blog semi-abandonado.
Feriadão eu quero: chope, sol, amigos. Na Argentina? Eu quero tudo o que eu tenho direito. E olha que é coisa pra caramba (rs). Mas eu volto, o blog volta também ao normal. Até lá: sonho e delírio. Porque, às vezes, é tudo o que a gente precisa.
Inté mais!
segunda-feira, 30 de agosto de 2010
Móbile
As perspectivas para o fim de semana eram as mais modestas possíveis. Muita coisa para ler e a situação bancária típica dos últimos dias do mês. Mas se, a princípio, isto soa desanimador, era sentido por mim como algo pouco abaixo do paraíso. Tudo o que eu queria, depois de uma semana corrida, na qual nem na faculdade consegui ir era ficar entre o sofá e a cama, entre os livros e as minhas séries de tv (“Mad Men” cada vez melhor!).
Li muita coisa na sexta e sábado durante quase o dia inteiro. Até um momento em que as palavras giram na sua cabeça, e o silêncio do apartamento em volta começa a pesar toneladas, vai se adensando ao ponto de se tornar próximo o momento no qual, por condições anormais de pressão, você será esmagado. O milagre salvador numa hora destas é sempre a aparição de um rosto humano amado. No sábado foram dois: Jú e Cris. Dando voltas pela redondeza se lembraram de passar lá em casa para um café. Numa intimidade típica de amigos.
Cris é das minhas, examinou os livros da estante. Tocou-os. Eu também preciso senti-los. Tê-los entre as mãos, porque, como diz Caetano, livros são objetos transcendentes, mas que podem ser amados com amor tátil. Jú continua desejando o melhor pra mim, o que na cabeça e coração de uma romântica que encontrou de forma incrível a mulher amada só pode ser: o amor da vida. Desta vez, porém eu refutei religiosamente seus argumentos contra minha insistida, ainda que não pretendida em absoluto, solteirice. Disse-lhe que, talvez, Deus tenha me escolhido para levar alegria a muitos homens. E eu mesmo me convenci de minha vocação.
Depois do café continuei, só, minha jornada intelectual/ televisiva até que lá pelas 22h30 ou eu saía de casa ou endoidecia. Fui à Lapa. Num barzinho novo, meia-boca toda vida: no primeiro andar música nas alturas ao vivo, MPB pra lésbicas, no segundo uma pista de dança muito suspeita. Mas a noite foi ótima. No meio da multidão que enchia o bar, entre uma música e outra da Ana Carolina (argh...argh...) olho pra trás e encontro me olhando um cara: grande, na idade que gosto (quarentão) e com uma cara de safado que causou-me arrepios. Fui lá: beijo incrível e papo.. tão bom quanto! Vocês imaginem o que é encontrar um cara que ao falar sobre música boa cita o nome de vários álbuns de Nina Simone! Justo para mim! Se eu ainda fosse um romântico incurável ou um religioso fiel encararia definitivamente como um sinal. Ficamos beijando e batendo papo até de manhã. Telefones trocados. Nem fiz mais o meu discursinho piegas de “se você me der seu número, eu vou realmente te ligar blá..blá..blá..” Um regalo pra alma e pros lábios só durante a noite de sábado? Ótimo, alguém lá em cima viu como eu andava precisando aquele dia.
E ainda teve o Domingo! Cafajestaço ligando pra amiga e eu a orientando, por meio de mil torpedos, a esnobá-lo. Outro café surpresa com mais gente boa e, não mais que de repente, uma viagem do nada para Buenos Aires. Dia 7! Sabem há quanto tempo não tiro férias e viajo mais que 3 dias? E agora Argentina: Boa, bonita e barata, com amigos queridos. Coro por favor: Ele merece! Ele merece!...
Li muita coisa na sexta e sábado durante quase o dia inteiro. Até um momento em que as palavras giram na sua cabeça, e o silêncio do apartamento em volta começa a pesar toneladas, vai se adensando ao ponto de se tornar próximo o momento no qual, por condições anormais de pressão, você será esmagado. O milagre salvador numa hora destas é sempre a aparição de um rosto humano amado. No sábado foram dois: Jú e Cris. Dando voltas pela redondeza se lembraram de passar lá em casa para um café. Numa intimidade típica de amigos.
Cris é das minhas, examinou os livros da estante. Tocou-os. Eu também preciso senti-los. Tê-los entre as mãos, porque, como diz Caetano, livros são objetos transcendentes, mas que podem ser amados com amor tátil. Jú continua desejando o melhor pra mim, o que na cabeça e coração de uma romântica que encontrou de forma incrível a mulher amada só pode ser: o amor da vida. Desta vez, porém eu refutei religiosamente seus argumentos contra minha insistida, ainda que não pretendida em absoluto, solteirice. Disse-lhe que, talvez, Deus tenha me escolhido para levar alegria a muitos homens. E eu mesmo me convenci de minha vocação.
Depois do café continuei, só, minha jornada intelectual/ televisiva até que lá pelas 22h30 ou eu saía de casa ou endoidecia. Fui à Lapa. Num barzinho novo, meia-boca toda vida: no primeiro andar música nas alturas ao vivo, MPB pra lésbicas, no segundo uma pista de dança muito suspeita. Mas a noite foi ótima. No meio da multidão que enchia o bar, entre uma música e outra da Ana Carolina (argh...argh...) olho pra trás e encontro me olhando um cara: grande, na idade que gosto (quarentão) e com uma cara de safado que causou-me arrepios. Fui lá: beijo incrível e papo.. tão bom quanto! Vocês imaginem o que é encontrar um cara que ao falar sobre música boa cita o nome de vários álbuns de Nina Simone! Justo para mim! Se eu ainda fosse um romântico incurável ou um religioso fiel encararia definitivamente como um sinal. Ficamos beijando e batendo papo até de manhã. Telefones trocados. Nem fiz mais o meu discursinho piegas de “se você me der seu número, eu vou realmente te ligar blá..blá..blá..” Um regalo pra alma e pros lábios só durante a noite de sábado? Ótimo, alguém lá em cima viu como eu andava precisando aquele dia.
E ainda teve o Domingo! Cafajestaço ligando pra amiga e eu a orientando, por meio de mil torpedos, a esnobá-lo. Outro café surpresa com mais gente boa e, não mais que de repente, uma viagem do nada para Buenos Aires. Dia 7! Sabem há quanto tempo não tiro férias e viajo mais que 3 dias? E agora Argentina: Boa, bonita e barata, com amigos queridos. Coro por favor: Ele merece! Ele merece!...
quarta-feira, 25 de agosto de 2010
Paradoxos ou Sobre a Importância de não foder no primeiro encontro
Hoje eu vi um cara loiro no metrô. E eu não gosto de loiros. Mas era uma espécie de loiro com um charme cafuçu. Parecia um agricultor, rústico, como se nem tivesse lavado as mãos ao acabar de arar a terra e entrasse no metrô. Mas uma terra da Eslováquia, porque ele era loiro. A vida está cheia de paradoxos.
Esta visão do agricultor loiro cafuçú da Eslováquia me fez lembrar uma coisa. Você aprende com muita dificuldade as regras básicas da existência. Aquelas que vão te oferecer uma margem considerável de segurança, o passaporte pra você caminhar por aí sem se oferecer todo, por intero, em cada esquina, num espetáculo grosseiro: civilidade , eis o nome para “conter-se”.
Quem transa no primeiro encontro não respeita isto. Não sabe que a gente deve se despir lentamente numa conversa, em sinais delicados: olhares, piscadelas, sorrisos tímidos. Resguardar-se em ânsias crescentes de um sempre mais, de chegar um pouco mais além do que se foi até então. Mil e uma noites.
Quem fode no primeiro encontro desespera as boas intenções do mundo gay. Aquele que entende de moda e decoração, é bem-sucedido, organiza sua casa segundo o Feng-shui e “não sou, nem curto efeminado”.
Fazer sexo no primeiro encontro é não perceber a importância do contexto, da pessoa legal e bem-intencionada que ele é, significa sobrevalorizar paus rijos, suores e bocas que querem se perder sempre no momento em que uma língua toca a outra, passa pelos lábios e lhes morde o canto esquerdo.
Foder no primeiro encontro é ser exigente demais ainda que muito, extremamente, imoralmente fácil.
Meus amigos: Eu trepo quando eu quero. Inclusive no primeiro encontro.
Esta visão do agricultor loiro cafuçú da Eslováquia me fez lembrar uma coisa. Você aprende com muita dificuldade as regras básicas da existência. Aquelas que vão te oferecer uma margem considerável de segurança, o passaporte pra você caminhar por aí sem se oferecer todo, por intero, em cada esquina, num espetáculo grosseiro: civilidade , eis o nome para “conter-se”.
Quem transa no primeiro encontro não respeita isto. Não sabe que a gente deve se despir lentamente numa conversa, em sinais delicados: olhares, piscadelas, sorrisos tímidos. Resguardar-se em ânsias crescentes de um sempre mais, de chegar um pouco mais além do que se foi até então. Mil e uma noites.
Quem fode no primeiro encontro desespera as boas intenções do mundo gay. Aquele que entende de moda e decoração, é bem-sucedido, organiza sua casa segundo o Feng-shui e “não sou, nem curto efeminado”.
Fazer sexo no primeiro encontro é não perceber a importância do contexto, da pessoa legal e bem-intencionada que ele é, significa sobrevalorizar paus rijos, suores e bocas que querem se perder sempre no momento em que uma língua toca a outra, passa pelos lábios e lhes morde o canto esquerdo.
Foder no primeiro encontro é ser exigente demais ainda que muito, extremamente, imoralmente fácil.
Meus amigos: Eu trepo quando eu quero. Inclusive no primeiro encontro.
terça-feira, 24 de agosto de 2010
Cotidianamente...
Muita correria em Agosto. Manhãs, tardes e noites ocupadas de um jeito absurdo com trabalho. E também os fins de semana. Nestes, fora um curso esquizóide de “Sociologia da Mentira” nas manhãs de Sábado, o resto todo é muita cerveja ou pinga e amigos, muitos amigos para o café da manhã, almoço ou jantar. Porque quanto mais cansado, menos em casa eu fico quando tenho tempo.
Conclusões até aqui:
N. 1.O mundo administrativo não é o bicho de sete cabeças que parecia no início.
N. 2. Não adianta ganhar a mais por um serviço extra se o estresse acumulado nele te leva a sair (e gastar) mais.
Enquanto no mundo-fora o triatlon que tem sido Agosto me deixa esbaforido (adoro esta palavra!) no aqui-dentro vai tudo bem. Uma alegria e disposição, aquela satisfação com quem se é ou com o como se está, sem muita pressa, ou cobrança. Vamos morrer obra imperfeita, desapareceremos no hiato entre o real e o pretendido, o desejado e o alcançável, por isto, um bom lema é:”Tortura: Nunca Mais”.
É tão sério isto que beijo longamente, abraço-o como se o pudesse proteger de tudo, queimo-me, consumindo-me em seu fogo sem amanhã, nem perguntas, tenho deixado os rótulos para as embalagens de maionese que nunca compro. O que é? O que será?É bom o suficiente? São perguntas... inexistentes.
Um Setembro mais frequente virá, aqui e nos blogs amados, já-já Agosto termina.
Conclusões até aqui:
N. 1.O mundo administrativo não é o bicho de sete cabeças que parecia no início.
N. 2. Não adianta ganhar a mais por um serviço extra se o estresse acumulado nele te leva a sair (e gastar) mais.
Enquanto no mundo-fora o triatlon que tem sido Agosto me deixa esbaforido (adoro esta palavra!) no aqui-dentro vai tudo bem. Uma alegria e disposição, aquela satisfação com quem se é ou com o como se está, sem muita pressa, ou cobrança. Vamos morrer obra imperfeita, desapareceremos no hiato entre o real e o pretendido, o desejado e o alcançável, por isto, um bom lema é:”Tortura: Nunca Mais”.
É tão sério isto que beijo longamente, abraço-o como se o pudesse proteger de tudo, queimo-me, consumindo-me em seu fogo sem amanhã, nem perguntas, tenho deixado os rótulos para as embalagens de maionese que nunca compro. O que é? O que será?É bom o suficiente? São perguntas... inexistentes.
Um Setembro mais frequente virá, aqui e nos blogs amados, já-já Agosto termina.
quarta-feira, 18 de agosto de 2010
Onde o Rio é mais carioca
Borboleta andou batendo suas asas multicloriodas e apressadas por estas terras. Mas foi um pouso tão rápido que mal deu tempo de jorrar sobre ela a imensa vasão das minhas palavras. Conversa de amigos, pra mim, dura horas, tulipas e tulipas de chope. Mas ainda não foi desta vez.
Em tão breve estadia, onde levá-la? Sugeri o local onde o Rio, é mais ele mesmo, onde eu sou mais carioca, aquele que em poucas quadras reúne, na sexta à noite, gentes tão diversas, tribos distintas que vão de patricinhas a undergrounds, a Lapa.
Todo mundo tem espaço, quer nos reformados casarões que apresentam noites de samba a ingressos cada vez mais caros ou no meio da rua, comprando a cerveja de ambulantes enquanto se observa o vai-e-vém interminável da multidão. A Lapa é atração para todos os bolsos.
Gosto de saltar do ônibus logo depois da Igreja de Nss. da Conceição e admirar de longe o imponente e triste aqueduto, o maior símbolo do bairro. Ultimamente o estão pintando, tanto melhor. Mas o entorno, em meio à uma fachada ou outra bem cuidada, ainda exibe um ar desleixado e melancólico, de tempos idos que deixaram marcas, como se rugas, cicatrizes de épocas distantes, fossem inevitáveis também no casario antigo das cidades.
Devo confessar, de uma forma esquisita, que esta decadência que é tão visível em certos pontos, com suas travestis mal disfarçadas de mulher em frente a hotéis baratos, não me desagrada. A mistura com o fervilhante novo que surge, sempre mais um bar, restaurante, ou casa de samba, as gentes tão diferentes que pelas ruas circulam sem pressa, esta celebração ao fim de semana nas risadas que ecoam pelos tijolos dos antigos casarões, nos copos de cerveja e olhares de paquera, são a própria expressão da boêmia carioca que também é, ao mesmo tempo, uma tradição e uma novidade no bairro.
A Lapa foi o lugar dos míticos malandros cariocas, de incontáveis cabarés, da loucura fascinante e homicida de uma Madame Satã até os anos 40. E quando tudo isto parecia morto, eis que a vida na Lapa ressurge, lentamente, a partir de meados dos anos 90. Por ação da iniciativa privada, sem qualquer incentivo do poder público. As primeiras intervenções do governo municipal se fizeram a pouquíssimo tempo, fechando, por exemplo, o tráfego de veículos nas noites de sexta e sábado, o que consagrou a rua definitivamente como passarela.
Quase como uma fênix carioquíssima, o bairro rasgou seu atestado de óbito e tá por aí, esbanjando malandragem, suor e cerveja nas lindas noites do Rio.
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Em tão breve estadia, onde levá-la? Sugeri o local onde o Rio, é mais ele mesmo, onde eu sou mais carioca, aquele que em poucas quadras reúne, na sexta à noite, gentes tão diversas, tribos distintas que vão de patricinhas a undergrounds, a Lapa.
Todo mundo tem espaço, quer nos reformados casarões que apresentam noites de samba a ingressos cada vez mais caros ou no meio da rua, comprando a cerveja de ambulantes enquanto se observa o vai-e-vém interminável da multidão. A Lapa é atração para todos os bolsos.
Gosto de saltar do ônibus logo depois da Igreja de Nss. da Conceição e admirar de longe o imponente e triste aqueduto, o maior símbolo do bairro. Ultimamente o estão pintando, tanto melhor. Mas o entorno, em meio à uma fachada ou outra bem cuidada, ainda exibe um ar desleixado e melancólico, de tempos idos que deixaram marcas, como se rugas, cicatrizes de épocas distantes, fossem inevitáveis também no casario antigo das cidades.
Devo confessar, de uma forma esquisita, que esta decadência que é tão visível em certos pontos, com suas travestis mal disfarçadas de mulher em frente a hotéis baratos, não me desagrada. A mistura com o fervilhante novo que surge, sempre mais um bar, restaurante, ou casa de samba, as gentes tão diferentes que pelas ruas circulam sem pressa, esta celebração ao fim de semana nas risadas que ecoam pelos tijolos dos antigos casarões, nos copos de cerveja e olhares de paquera, são a própria expressão da boêmia carioca que também é, ao mesmo tempo, uma tradição e uma novidade no bairro.
A Lapa foi o lugar dos míticos malandros cariocas, de incontáveis cabarés, da loucura fascinante e homicida de uma Madame Satã até os anos 40. E quando tudo isto parecia morto, eis que a vida na Lapa ressurge, lentamente, a partir de meados dos anos 90. Por ação da iniciativa privada, sem qualquer incentivo do poder público. As primeiras intervenções do governo municipal se fizeram a pouquíssimo tempo, fechando, por exemplo, o tráfego de veículos nas noites de sexta e sábado, o que consagrou a rua definitivamente como passarela.
Quase como uma fênix carioquíssima, o bairro rasgou seu atestado de óbito e tá por aí, esbanjando malandragem, suor e cerveja nas lindas noites do Rio.
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sexta-feira, 13 de agosto de 2010
Rapidinhas
É mentira esta história de que uma amizade com o ex é absolutamente como as outras. Fui brincar com ele:
“-Nunca mais te perdoarei na vida porque vc não me apresentou Nina Simone! Que voz é aquela? Caraca.. maravilhoso é pouco!”
Ele: “Você não me deu tempo...” Com um jeito de quem não estava brincando.
***
Por falar nisso, eu já postei uma canção dela aqui. Mas, então, estava apenas descobrindo, iniciando minha paixão. Hoje, ando completamente vidrado em Nina Simone.
Não entendo nada de técnica, mas ela tem uma voz absolutamente original, um timbre único que parece que nasce não sei de que entranhas, lá das profundezas. Impactante e sublime.
Nina passeou por várias gêneros musicais e além de intérprete poderosa foi exímia pianista e compositora. Lutou pelos direitos dos negros nos E.U.A, e chegou a cantar no velório de Marther Luther King.
Poderia colocar mil músicas que adoro, mas eis 2 de estilos bastante diferentes. I Put a spell on you, bem jazz e uma das primeiras gravadas por ela e Here comes the sun, dos Beatles numa versão bastante diferente da original.
***
Eu definitvamente tô achando um saco a noite gay do Rio. Parece que muda o cenário, mas as figuras, atitudes e tudo o mais é o mesmo. Ainda bem que há uma profusão de festas moderninhas rolando: gente bonita, descolada, som fora do óbvio. Amanhã tem Gambiarra no MAM!
***
Preciso parar de tomar meu delicioso café pós-almoço no “Armazém do café”. Já gasto quase o dobro do que ganho para almoçar só com a comida. Mais o cafezinho, um dos mais caros (e saborosos) do Rio, não dá.
Pobreza é foda!
***
Nota de esclarecimento sobre o último post: Minha relação de amizade com mulheres passa longe daquele tipo de relação celebrada ultimamnete entre gays e as representantes do sexo feminino. Não sou fashion, não entendo nada de decoração, nasci viado sem estes ítens de fábrica. Ah, mas sobre homens, a gente fala, sim. (rs). Bj
Ótimo finde!
“-Nunca mais te perdoarei na vida porque vc não me apresentou Nina Simone! Que voz é aquela? Caraca.. maravilhoso é pouco!”
Ele: “Você não me deu tempo...” Com um jeito de quem não estava brincando.
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Por falar nisso, eu já postei uma canção dela aqui. Mas, então, estava apenas descobrindo, iniciando minha paixão. Hoje, ando completamente vidrado em Nina Simone.
Não entendo nada de técnica, mas ela tem uma voz absolutamente original, um timbre único que parece que nasce não sei de que entranhas, lá das profundezas. Impactante e sublime.
Nina passeou por várias gêneros musicais e além de intérprete poderosa foi exímia pianista e compositora. Lutou pelos direitos dos negros nos E.U.A, e chegou a cantar no velório de Marther Luther King.
Poderia colocar mil músicas que adoro, mas eis 2 de estilos bastante diferentes. I Put a spell on you, bem jazz e uma das primeiras gravadas por ela e Here comes the sun, dos Beatles numa versão bastante diferente da original.
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Eu definitvamente tô achando um saco a noite gay do Rio. Parece que muda o cenário, mas as figuras, atitudes e tudo o mais é o mesmo. Ainda bem que há uma profusão de festas moderninhas rolando: gente bonita, descolada, som fora do óbvio. Amanhã tem Gambiarra no MAM!
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Preciso parar de tomar meu delicioso café pós-almoço no “Armazém do café”. Já gasto quase o dobro do que ganho para almoçar só com a comida. Mais o cafezinho, um dos mais caros (e saborosos) do Rio, não dá.
Pobreza é foda!
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Nota de esclarecimento sobre o último post: Minha relação de amizade com mulheres passa longe daquele tipo de relação celebrada ultimamnete entre gays e as representantes do sexo feminino. Não sou fashion, não entendo nada de decoração, nasci viado sem estes ítens de fábrica. Ah, mas sobre homens, a gente fala, sim. (rs). Bj
Ótimo finde!
terça-feira, 10 de agosto de 2010
As meninas
A parte mais significativa das minhas amizades é de mulheres. Hoje me dei conta disto, porque, as três figuras femininas que povoam largamente meu afeto se manifestaram.
Helô é a mais antiga. Aquela amizade que recebe o título, a honra e os louvores todos porque é, sem dúvida, a realização nobre do que este substantivo significa. O uso vulgar de “amizade” encobre uma multidão de relações em diferentes graus de afeto e intimidade: conhecidos, colegas, gente que já foi e não é mais, todos sob o guarda-chuva amplo e pouco real do nome “amigos”. Helô é provada no fogo do tempo, dos anos. Uma amizade perpassada por lágrimas e risos, em intimidades cotidianas e certas distâncias que não abalaram nunca o bem-querer mútuo. Foi ela quem me acompanhou na transformação mais radical da minha vida, na qual eu tinha medo de me perder e mesmo aí sempre a encontrei: pronta, solícita, de braços abertos. Hoje, ela me deu uma cachaça com gosto de “Amo você”.
Bia eu conheço a pouco tempo. Mas isto não quer dizer nada. Ou quer, a intensidade da nossa identificação desde o início, contada aqui, era sinal de que ela entrava na minha vida de um modo totalmente original. Bia tem o sorriso mais incrível que já vi: o mais franco, o mais largo, o mais querido. Bia é livre e isto com uma força que vibra tudo à sua volta e ecoa lá dentro, onde ainda estão meus grilhões. Sinto-me tão à vontade com ela que posso falar de coisas solenes e graves sobre a vida ou rir e beber despreocupadamente com a mesma satisfação. Bia está sumida: trabalho, mas me mandou um torpedo e deixou um comentário no último post que se fez sol em mim em plena noite de terça.
Borboleta eu conheço virtualmente, isto até a próxima sexta. Mas desde a primeira vez que li um post seu, entendi: estava eu, o que me falta e é meu anseio, o que não compreendo porque me ultrapassa, tudo ali. E nos sucessivos posts desde então, adivinho uma espécie de revelação, de vida, mal suas palavras começam a ecoar em mim. Escrevi-lhe uma carta. Isto mesmo, não torpedo, email, conversa no msn. Uma carta: papel, esferográfica, envelope e cep. Mas ela se perdeu ao que parece. Agora, estou eu mesmo aí, perdido, em algum lugar do território nacional, tudo o que sou, e todo o afeto que dedico ao que amo. Apesar de trágico (?), isto tem me encantado de alguma forma engraçada. Borboleta me disse, hoje, que a carta não chegou.
Será a amizade, feminina?
Helô é a mais antiga. Aquela amizade que recebe o título, a honra e os louvores todos porque é, sem dúvida, a realização nobre do que este substantivo significa. O uso vulgar de “amizade” encobre uma multidão de relações em diferentes graus de afeto e intimidade: conhecidos, colegas, gente que já foi e não é mais, todos sob o guarda-chuva amplo e pouco real do nome “amigos”. Helô é provada no fogo do tempo, dos anos. Uma amizade perpassada por lágrimas e risos, em intimidades cotidianas e certas distâncias que não abalaram nunca o bem-querer mútuo. Foi ela quem me acompanhou na transformação mais radical da minha vida, na qual eu tinha medo de me perder e mesmo aí sempre a encontrei: pronta, solícita, de braços abertos. Hoje, ela me deu uma cachaça com gosto de “Amo você”.
Bia eu conheço a pouco tempo. Mas isto não quer dizer nada. Ou quer, a intensidade da nossa identificação desde o início, contada aqui, era sinal de que ela entrava na minha vida de um modo totalmente original. Bia tem o sorriso mais incrível que já vi: o mais franco, o mais largo, o mais querido. Bia é livre e isto com uma força que vibra tudo à sua volta e ecoa lá dentro, onde ainda estão meus grilhões. Sinto-me tão à vontade com ela que posso falar de coisas solenes e graves sobre a vida ou rir e beber despreocupadamente com a mesma satisfação. Bia está sumida: trabalho, mas me mandou um torpedo e deixou um comentário no último post que se fez sol em mim em plena noite de terça.
Borboleta eu conheço virtualmente, isto até a próxima sexta. Mas desde a primeira vez que li um post seu, entendi: estava eu, o que me falta e é meu anseio, o que não compreendo porque me ultrapassa, tudo ali. E nos sucessivos posts desde então, adivinho uma espécie de revelação, de vida, mal suas palavras começam a ecoar em mim. Escrevi-lhe uma carta. Isto mesmo, não torpedo, email, conversa no msn. Uma carta: papel, esferográfica, envelope e cep. Mas ela se perdeu ao que parece. Agora, estou eu mesmo aí, perdido, em algum lugar do território nacional, tudo o que sou, e todo o afeto que dedico ao que amo. Apesar de trágico (?), isto tem me encantado de alguma forma engraçada. Borboleta me disse, hoje, que a carta não chegou.
Será a amizade, feminina?
sexta-feira, 6 de agosto de 2010
De tudo o que eu não sei
Eu não sei se haverá alguém com braços realmente abertos, palavras que se encontrem com as minhas e um olhar que me instigue, o suficiente.
Não sei quando, como, nem onde.
Não sei o que é a vida, qual seu sentido, e mesmo se há algum.
Não sei se atingirei meus objetivos, quer pessoais quer profissionais.
O todo que eu não sei se constitui em algo tão vasto que me mostra, por contraste, o ínfimo do que, de fato, conheço.
Sei que o dia amanheceu num azul incrível hoje e que o sol desafiando os renitentes pingos da ainda chuva da noite, triunfou, robusto, sobre eles.
Sei que a amizade é sagrada e deve ser cultuada com todos os incensos possíveis em qualquer altar da vida.
Sei que a gente não deve esperar por ninguém e nem, desesperar por nada. A não ser aquele justo desespero quando a nossa envergadura humana, forte mas limítrofe à nossa condição de criatura, se rende ao peso do inevitável.
Sei que o beijo é bom, que o dia é único e que chegar em casa e ter um honesto cálice de vinho para tomar, enquanto se pensa com carinho em alguém, é a recompensa da dura jornada.
O todo que eu não sei é o espaço, o vão, a altura, a abrangência e profundidade sobre o qual se lança o meu desejo. É a garantia de que não estou morto, nem frio e nada do que importa está distante. De tudo o que eu não sei me resta a mesma certeza de Santo Inácio de Loyola:
"Não é o muito saber que sacia e satisfaz a alma, mas o sentir e saborear as coisas internamente".
Boa Sexta-feira!
P.S.: “honesto cálice de vinho” é do querido Rodrigo do Lambe-Lambe.
Não sei quando, como, nem onde.
Não sei o que é a vida, qual seu sentido, e mesmo se há algum.
Não sei se atingirei meus objetivos, quer pessoais quer profissionais.
O todo que eu não sei se constitui em algo tão vasto que me mostra, por contraste, o ínfimo do que, de fato, conheço.
Sei que o dia amanheceu num azul incrível hoje e que o sol desafiando os renitentes pingos da ainda chuva da noite, triunfou, robusto, sobre eles.
Sei que a amizade é sagrada e deve ser cultuada com todos os incensos possíveis em qualquer altar da vida.
Sei que a gente não deve esperar por ninguém e nem, desesperar por nada. A não ser aquele justo desespero quando a nossa envergadura humana, forte mas limítrofe à nossa condição de criatura, se rende ao peso do inevitável.
Sei que o beijo é bom, que o dia é único e que chegar em casa e ter um honesto cálice de vinho para tomar, enquanto se pensa com carinho em alguém, é a recompensa da dura jornada.
O todo que eu não sei é o espaço, o vão, a altura, a abrangência e profundidade sobre o qual se lança o meu desejo. É a garantia de que não estou morto, nem frio e nada do que importa está distante. De tudo o que eu não sei me resta a mesma certeza de Santo Inácio de Loyola:
"Não é o muito saber que sacia e satisfaz a alma, mas o sentir e saborear as coisas internamente".
Boa Sexta-feira!
P.S.: “honesto cálice de vinho” é do querido Rodrigo do Lambe-Lambe.
quarta-feira, 4 de agosto de 2010
Le ménage
O contraste com o bucólico fim de tarde que caía sobre Ipanema era quase tangível. Enquanto em derredor, tudo se amainava, ao efeito de uma luz que sumia como sob as ordens de um fantástico diretor de fotografia, no bar, o clima era exaltado: conversas, brindes e olhares, sobretudo, olhares.
Por força de não se poder explicitar socialmente em muitas circunstâncias nosso desejo, nosso flerte, nós, gays, desenvolvemos um puta olhar expressivo, ou um olhar puto, quando, desejamos alguém. E eram esses que riscavam a atmosfera do “To nem aí” na Farme de Amoedo, ingenuamente pretendido bar “hétero” no meio da rua mais cor-de-rosa do Rio.
Atraído pelo frisson, entrei. Dois chopes depois, passou por mim, em direção ao toalete no segundo andar, ele: por volta de seus 38, grisalho, com uma barriguinha deliciosa de macho. Cravou-me um olhar tão decidido e safado que me segurei no copo de chope pra não me levantar e lhe dar ali mesmo o desejado beijo, amassado, fogoso que era, afinal, toda a minha vontade depois da maneira como me olhou.
Na volta, fui eu a olhar e sorri. Ele parou, pediu uma cerveja e conversamos. Trivialidades: adivinhou minha ascendência italiana, falamos do que fazemos pra viver, do dia incrível e do vento que, agora, agitava as folhas dispersas na calçada.
Foi quando o desejo se tornou tão explícito que já dispensava qualquer palavra, quando meus olhos o pediram com urgência a qual, também eu, reconhecia em seu olhar, que ele me disse que tinha um namorado. A forma como revelou isto, porém, me pareceu um convite e não um obstáculo.
Edu era seu nome, o do namorado. Chegou alguns minutos depois. Moreno claro, barba por fazer. Uma graça de menino, ainda que tivesse 26 anos. Conversamos os três mais um pouco e eu sentia que tudo ficou ainda mais interessante, não a conversa em si, mas o jogo. Renato seduz pela robustez, a gravidade, o olhar decidido de quem sabe o que quer e deixa isto claro. Edu é encantado, gentil, menino, tenro. E o meu desejo agora encontrava em dois uma única vontade, um único sobre o qual me lançar, como se ambos fossem só os vértices opostos, mas complementares do tesão que se encontrava todo aflorado em mim.
Saímos do bar e fomos caminhando até a casa deles. Loucura eu sei, mas nada a que eu pudesse resistir. Impossível blefar, deixar pra depois, para o dia seguinte. E assim, toda a tensão que nos percorria, o desejo dos olhares, se fez: beijos ardentes em bocas tão diversas e ricas em sabores, corpos que encontram a justaposição de formas nunca antes experimentadas, tríplices posições, prazeres ocultos agora revelados. Ofegantes e felizes... três homens, enquanto a noite escura reinava sobre Ipanema.
Por força de não se poder explicitar socialmente em muitas circunstâncias nosso desejo, nosso flerte, nós, gays, desenvolvemos um puta olhar expressivo, ou um olhar puto, quando, desejamos alguém. E eram esses que riscavam a atmosfera do “To nem aí” na Farme de Amoedo, ingenuamente pretendido bar “hétero” no meio da rua mais cor-de-rosa do Rio.
Atraído pelo frisson, entrei. Dois chopes depois, passou por mim, em direção ao toalete no segundo andar, ele: por volta de seus 38, grisalho, com uma barriguinha deliciosa de macho. Cravou-me um olhar tão decidido e safado que me segurei no copo de chope pra não me levantar e lhe dar ali mesmo o desejado beijo, amassado, fogoso que era, afinal, toda a minha vontade depois da maneira como me olhou.
Na volta, fui eu a olhar e sorri. Ele parou, pediu uma cerveja e conversamos. Trivialidades: adivinhou minha ascendência italiana, falamos do que fazemos pra viver, do dia incrível e do vento que, agora, agitava as folhas dispersas na calçada.
Foi quando o desejo se tornou tão explícito que já dispensava qualquer palavra, quando meus olhos o pediram com urgência a qual, também eu, reconhecia em seu olhar, que ele me disse que tinha um namorado. A forma como revelou isto, porém, me pareceu um convite e não um obstáculo.
Edu era seu nome, o do namorado. Chegou alguns minutos depois. Moreno claro, barba por fazer. Uma graça de menino, ainda que tivesse 26 anos. Conversamos os três mais um pouco e eu sentia que tudo ficou ainda mais interessante, não a conversa em si, mas o jogo. Renato seduz pela robustez, a gravidade, o olhar decidido de quem sabe o que quer e deixa isto claro. Edu é encantado, gentil, menino, tenro. E o meu desejo agora encontrava em dois uma única vontade, um único sobre o qual me lançar, como se ambos fossem só os vértices opostos, mas complementares do tesão que se encontrava todo aflorado em mim.
Saímos do bar e fomos caminhando até a casa deles. Loucura eu sei, mas nada a que eu pudesse resistir. Impossível blefar, deixar pra depois, para o dia seguinte. E assim, toda a tensão que nos percorria, o desejo dos olhares, se fez: beijos ardentes em bocas tão diversas e ricas em sabores, corpos que encontram a justaposição de formas nunca antes experimentadas, tríplices posições, prazeres ocultos agora revelados. Ofegantes e felizes... três homens, enquanto a noite escura reinava sobre Ipanema.
terça-feira, 3 de agosto de 2010
Sumiço
Muita correria... função acumulada no trabalho, reinício das aulas na facul, início dos cursos que ministro.. mas eu volto. Enquanto isto, os deixo em ótima companhia!
terça-feira, 27 de julho de 2010
Doidivanas
Há tempos que parei de brigar com minha urgência de tudo. Às vezes ela me castiga, estala às costas duras, verdades impróprias. Faz desabar sobre mim como escombros de uma demolição, o fazer-se lento de tudo e eu me acuso. Sei que ela quer velocidades impossíveis, frutos maduros que não passam pelo verde, soluções onde nem sempre se entendeu direito os problemas.
Mas ela é também um brado, um grito que rompe as cadeias, e lança pra fora o que quer me subtrair ao movimento da vida. No fundo, eu sei, é a vida que grita urgente em mim, por tudo e sempre desejosa de mais, como se a consciência do privilégio de se estar vivo, porque logo depois a morte espreita, fizesse qualquer coisa pequena demais diante do que pode ser, ainda, existir.
Eu demorei a aceitar o grito da vida em mim. E ainda hoje, tento encobrí-lo, sufocá-lo. Apelo a pensamentos ponderados, busco psicologicamente sua origem, finjo desmascará-lo em sua loucura inútil. Mas ele está aqui, em mim. É como se após uma briga qualquer com palavras certeiras de separação e abandono, seu homem pousasse a mão dele sobre suas coxas,e só ao contato áspero, ao toque quente, você soubesse que fugir é inútil. Que entregar-se é o mais burro e o melhor a se fazer.
Minha urgência sonha ser artista, acha que é no escrever como única salvação, no rir com amigos como a maior prova de amor que alguém oferece e em todo vinho veritas que está o sentido de fato. E eu que tento ganhar dinheiro, organizar minha agenda, fazer meu projeto de doutorado e votar consciente nas eleições, deixo minha urgência solta, distraída, de peruca e livros na mão, fones no ouvido, sorvendo cálices e cálices, até que ela me tome novamente, até que, de novo, ela me lembre que em meio a tudo, o que importa, é viver.
Mas ela é também um brado, um grito que rompe as cadeias, e lança pra fora o que quer me subtrair ao movimento da vida. No fundo, eu sei, é a vida que grita urgente em mim, por tudo e sempre desejosa de mais, como se a consciência do privilégio de se estar vivo, porque logo depois a morte espreita, fizesse qualquer coisa pequena demais diante do que pode ser, ainda, existir.
Eu demorei a aceitar o grito da vida em mim. E ainda hoje, tento encobrí-lo, sufocá-lo. Apelo a pensamentos ponderados, busco psicologicamente sua origem, finjo desmascará-lo em sua loucura inútil. Mas ele está aqui, em mim. É como se após uma briga qualquer com palavras certeiras de separação e abandono, seu homem pousasse a mão dele sobre suas coxas,e só ao contato áspero, ao toque quente, você soubesse que fugir é inútil. Que entregar-se é o mais burro e o melhor a se fazer.
Minha urgência sonha ser artista, acha que é no escrever como única salvação, no rir com amigos como a maior prova de amor que alguém oferece e em todo vinho veritas que está o sentido de fato. E eu que tento ganhar dinheiro, organizar minha agenda, fazer meu projeto de doutorado e votar consciente nas eleições, deixo minha urgência solta, distraída, de peruca e livros na mão, fones no ouvido, sorvendo cálices e cálices, até que ela me tome novamente, até que, de novo, ela me lembre que em meio a tudo, o que importa, é viver.
quinta-feira, 22 de julho de 2010
Lerê..Lerê...
“Do trabalho de tuas mãos hás de viver”. Esta é uma frase bíblica. Não sei exatamente de qual livro, em qual contexto está escrita, mas, para mim, parece uma benção. Que cada ser humano possa viver do que faz. O verbo usado não é “sobreviver” nem há uma locução adverbial de modo qualificando a vida como, por exemplo: “Do trabalho de tuas mãos hás de viver mal e porcamente”.
Trabalho numa editora pequena e além da minha função sou o quebra-galho, quando posso, para assumir funções que originalmente, pertencem a outros. A assistente administrativa terá que passar por uma cirurgia no início de Agosto e, por um acréscimo no meu salário, aceitei substituí-la no período. É um trabalho muito detalhista, cheio de papéis, senhas, notas fiscais. Coisas que passam longe de qualquer coisa que já tenha feito na vida.
Mas para, além disto, eu fiquei pensando como seria infeliz se aquilo fosse o meu trabalho há mais de dez anos, como é o caso desta funcionária. Sei que as pessoas são diferentes, com diferentes gostos, mas não é possível que ficar numa salinha isolada de todos, organizando toda a burocracia que envolve uma pequena empresa no Brasil seja muito realizador para ninguém. Junte-se isto o salário magro e a distância enorme de casa ao trabalho e a referência com que passei a tratar esta funcionária, quase que inclinando-me diante de um nobre, se explica totalmente.
Eu ainda não tenho o trabalho da minha vida, aquele que para além de ser algo que eu faça, é o que realizo de mais pessoal, minha máxima contribuição, expressão mesma do que acredito. Mas eu estou buscando isto e, graças aos deuses, posso me dar este luxo de perseguir não só o que paga minhas contas, mas aquilo que verdadeiramente quero.
Uma das coisas mais legais que já ouvi sobre esta coisa de trabalho como realização pessoal e não só financeira foi numa aula que tive sobre Hegel. Para este filósofo alemão no trabalho o ser humano sai de si mesmo e se lança sobre o mundo, sobre a matéria, o objeto de seu trabalho e quando volta a si, o faz sempre de maneira mais rica, mais profunda, porque neste processo experimenta sua capacidade, explora e desenvolve seus dons, cresce em autoconfiança.
O fruto do trabalho é muito mais que o salário.. mas isto, infelizmente, não é pra todos.
Trabalho numa editora pequena e além da minha função sou o quebra-galho, quando posso, para assumir funções que originalmente, pertencem a outros. A assistente administrativa terá que passar por uma cirurgia no início de Agosto e, por um acréscimo no meu salário, aceitei substituí-la no período. É um trabalho muito detalhista, cheio de papéis, senhas, notas fiscais. Coisas que passam longe de qualquer coisa que já tenha feito na vida.
Mas para, além disto, eu fiquei pensando como seria infeliz se aquilo fosse o meu trabalho há mais de dez anos, como é o caso desta funcionária. Sei que as pessoas são diferentes, com diferentes gostos, mas não é possível que ficar numa salinha isolada de todos, organizando toda a burocracia que envolve uma pequena empresa no Brasil seja muito realizador para ninguém. Junte-se isto o salário magro e a distância enorme de casa ao trabalho e a referência com que passei a tratar esta funcionária, quase que inclinando-me diante de um nobre, se explica totalmente.
Eu ainda não tenho o trabalho da minha vida, aquele que para além de ser algo que eu faça, é o que realizo de mais pessoal, minha máxima contribuição, expressão mesma do que acredito. Mas eu estou buscando isto e, graças aos deuses, posso me dar este luxo de perseguir não só o que paga minhas contas, mas aquilo que verdadeiramente quero.
Uma das coisas mais legais que já ouvi sobre esta coisa de trabalho como realização pessoal e não só financeira foi numa aula que tive sobre Hegel. Para este filósofo alemão no trabalho o ser humano sai de si mesmo e se lança sobre o mundo, sobre a matéria, o objeto de seu trabalho e quando volta a si, o faz sempre de maneira mais rica, mais profunda, porque neste processo experimenta sua capacidade, explora e desenvolve seus dons, cresce em autoconfiança.
O fruto do trabalho é muito mais que o salário.. mas isto, infelizmente, não é pra todos.
terça-feira, 20 de julho de 2010
Rapidinhas

Em primeiro lugar devo esclarecer que há certo blog cuja autora é uma bovina muito conhecida em Blogsville que ROUBOU o nome da minha seção. Sim, eu uso “Rapidinhas” desde 29/01/2009 e já entrei com um processo no Juizados de Pequenas e Ridículas Causas.. quero uma enorme indenização e paga em favores sexuais!
****
Dislexia ou ninfomania?
Quando era criança, acho que lá pela terceira ou quarta série, deram-me um texto para ler em voz alta. Ele começava assim: “Por aqui... por ali”. Na hora, eu simplesmente disse: “Porra aqui, porra ali” E fui mandado para a diretoria, a professora não acreditou que foi sem querer de jeito nenhum.
Trabalho revisando conteúdo editorial de música clássica. Já por duas vezes ao invés de “Concerto grosso em fá maior”, escrevi: “Como é gosto em fá maior”.. será um obsessão inconsciente por coisas grossas e gostosas?
Subindo no elevador do prédio onde trabalho, esta semana. Há um monitor no qual são veiculadas diversas propagandas. Qual não foi minha surpresa ao ler numa delas, do KFC uma oferta de “Boquete parmeggiano”?! Como assim? Escandalizado olhei para a cara de todos os estranhos do elevador que estavam com aquela mesma cara que todos os estranhos de elevador possuem, até que li de novo a oferta: “Banquete parmeggiano”
Serei eu um tarado ou um anafalbeto?
****
Sobre o dia do amigo, nada falarei pra aqueles que me são próximos. Dar-lhes-ei meu melhor abraço, aquele que nem é da família, nem da paixão voluptuosa, aquele que só se dá mesmo nos verdadeiros amigos. Acompanhado de olhos úmidos e cafunés furtivos como se o corpo todo tentasse exprimir o indizível: o quanto vale um amigo de verdade.
Para vocês, quero dizer que, mesmo sendo a nossa amizade (ainda) virtual, meu afeto por todos que fazem parte de Blogsville é, de fato, real.
****
Não me sai da cabeça, Versão maravilhosa da música dos Beatles e olha que clipe lindo!
segunda-feira, 19 de julho de 2010
Por entre caminhos e veredas
Se o terreno pelo qual se caminha é desconhecido, é preciso sempre confiar nas sinalizações. Alguém passou por ali e dispôs as placas para que os transeuntes não percam tempo e energia tentando orientar-se: siga a seta, dobre à direita. Ma se você sabe onde pisa, se acha que pode antever as curvas e tem um senso geral de orientação, apesar de não desprezar as placas, você vez por outra, entra por atalhos, encurta distâncias, trilha veredas mais aprazíveis em fortes tardes de calor e, você pode tudo isto, porque é um iniciado.
Em conversas despretensiosas, em diferentes momentos do Domingo, senti que só eu mesmo posso fazer meu caminho e que há algumas estradas amplas e largas, bem sinalizadas por onde transitam multidões que me são completamente estranhas e sinistras.
Almocei com amigos queridos, dentre os quais se inclui J., mulher balzaquiana elegante, prendada e articulada que descobriu, num encontro hollywoodiano, o amor da sua vida em C., e confirmando o que, antes eu achava ser uma lenda urbana sobre o amor lésbico, em um mês se mudou para a casa desta, vivendo as duas felizes até o dia de hoje. J. possui muitas e reconfortantes certezas, daquelas que aplainam o escarpado caminho da vida e uma das mais fundamentais é a de que alguém só pode ser realmente feliz se casar.
E adivinhem qual tem sido o tema recorrente de nossas conversas? O assunto que sempre reaparece? Sobre o que, basicamente, J. se preocupa em relação a mim? Claro, o fato de eu estar solteiro.
À tardinha, fui tomar um chope com uns amigos, dois deles de Campinas que estavam aqui. Todos homens, gays, sendo um casal e um solteiro. Contaram-me das duas baladas que tinham ido na sexta e no sábado, de como o solteiro bebeu e beijou mil bocas em cada noite. E eu espantei-me pela sofreguidão do relato. Não foi um espanto moralista, que reivindicasse “certo” ou “errado”, mas fruto de uma percepção muito nítida de que, para mim, se você beija cinco numa noite, você não saboreou de verdade nenhum beijo. E este não é o meu caminho.
Que J. e o solteiro sejam felizes em suas trilhas, que cheguem onde querem, ou a lugar algum, se esse for seu desejo. Eu, porém, sigo pela vida no meu ritmo, na minha andança, que às vezes acho cansativa demais, demorada demais, mas que na qual, sem dúvida alguma, reconheço meus passos, os meus próprios passos pelo caminho.
Em conversas despretensiosas, em diferentes momentos do Domingo, senti que só eu mesmo posso fazer meu caminho e que há algumas estradas amplas e largas, bem sinalizadas por onde transitam multidões que me são completamente estranhas e sinistras.
Almocei com amigos queridos, dentre os quais se inclui J., mulher balzaquiana elegante, prendada e articulada que descobriu, num encontro hollywoodiano, o amor da sua vida em C., e confirmando o que, antes eu achava ser uma lenda urbana sobre o amor lésbico, em um mês se mudou para a casa desta, vivendo as duas felizes até o dia de hoje. J. possui muitas e reconfortantes certezas, daquelas que aplainam o escarpado caminho da vida e uma das mais fundamentais é a de que alguém só pode ser realmente feliz se casar.
E adivinhem qual tem sido o tema recorrente de nossas conversas? O assunto que sempre reaparece? Sobre o que, basicamente, J. se preocupa em relação a mim? Claro, o fato de eu estar solteiro.
À tardinha, fui tomar um chope com uns amigos, dois deles de Campinas que estavam aqui. Todos homens, gays, sendo um casal e um solteiro. Contaram-me das duas baladas que tinham ido na sexta e no sábado, de como o solteiro bebeu e beijou mil bocas em cada noite. E eu espantei-me pela sofreguidão do relato. Não foi um espanto moralista, que reivindicasse “certo” ou “errado”, mas fruto de uma percepção muito nítida de que, para mim, se você beija cinco numa noite, você não saboreou de verdade nenhum beijo. E este não é o meu caminho.
Que J. e o solteiro sejam felizes em suas trilhas, que cheguem onde querem, ou a lugar algum, se esse for seu desejo. Eu, porém, sigo pela vida no meu ritmo, na minha andança, que às vezes acho cansativa demais, demorada demais, mas que na qual, sem dúvida alguma, reconheço meus passos, os meus próprios passos pelo caminho.
quinta-feira, 15 de julho de 2010
Eu quero saborear os frutos!
Eu acho mesmo que estamos no alvorecer de uma lenta, trabalhosa, mas real mudança sobre a questão gay no mundo. Apesar das resistências que são inúmera vemos, cada vez mais, os Estados reconhecerem legalmente os direitos homossexuais seja sob a modesta figura jurídica da “união civil”, seja na forma plena do “casamento”.
Emocionei-me com os argentinos que esperavam em vigília pelo resultado da votação no Senado e que, às 4h da manhã, celebraram a aprovação do casamento gay no país. Eles já tinham a união estável em Buenos Aires e em alguns outros estados e agora podem adotar crianças, ter garantido o direito de herança e tantos outros que fazem com que um cidadão seja, de fato, reconhecido como tal, independente de com quem ele se deita.
Aqui, tudo permanece evasivo e medroso. Basta ver como se pronunciam a respeito da questão os nossos presidenciáveis. Marina Silva é contra, e nem poderia ser diferente, sendo da Assembléia de Deus. Dilma ficou completamente em cima do muro, apesar do governo Lula ter avançado muito em algumas questões sobre a cidadania gay, pelo menos, organizando e reconhecendo fóruns de discussão em todos os níveis municipal, estadual e federal. Sobre o Serra eu realmente estou desinformado.
Meu voto este ano será bem utilitário e o critério será a questão do reconhecimento dos direitos LGBT. Não gosto muito da atuação política do Sérgio Cabral aqui no Rio. Mas tenho que reconhecer que, desde de que ele foi presidente da Assembléia Legislativa ele vem trabalhando em prol dos nossos direitos. Voto nele.
É vergonhoso que enquanto nos congratulamos com nossos hermanos pela possibilidade legal do casamento gay, enquanto o Uruguai e Chile aprovaram a união civil, o máximo que temos em termos legais no Brasil é uma brecha ridícula na legislação: registrar a união como uma parceria, quase um contrato comercial.
Estamos mesmo num momento de transição, se pararmos e olharmos para trás, cinqüenta, sessenta anos atrás veremos o quanto avançamos, mas que eu quero ver esses brotos mudados em frutos, todos maduros, pendentes dos cachos, os ramos verdes abertos em flor, ah! Eu quero.
Emocionei-me com os argentinos que esperavam em vigília pelo resultado da votação no Senado e que, às 4h da manhã, celebraram a aprovação do casamento gay no país. Eles já tinham a união estável em Buenos Aires e em alguns outros estados e agora podem adotar crianças, ter garantido o direito de herança e tantos outros que fazem com que um cidadão seja, de fato, reconhecido como tal, independente de com quem ele se deita.
Aqui, tudo permanece evasivo e medroso. Basta ver como se pronunciam a respeito da questão os nossos presidenciáveis. Marina Silva é contra, e nem poderia ser diferente, sendo da Assembléia de Deus. Dilma ficou completamente em cima do muro, apesar do governo Lula ter avançado muito em algumas questões sobre a cidadania gay, pelo menos, organizando e reconhecendo fóruns de discussão em todos os níveis municipal, estadual e federal. Sobre o Serra eu realmente estou desinformado.
Meu voto este ano será bem utilitário e o critério será a questão do reconhecimento dos direitos LGBT. Não gosto muito da atuação política do Sérgio Cabral aqui no Rio. Mas tenho que reconhecer que, desde de que ele foi presidente da Assembléia Legislativa ele vem trabalhando em prol dos nossos direitos. Voto nele.
É vergonhoso que enquanto nos congratulamos com nossos hermanos pela possibilidade legal do casamento gay, enquanto o Uruguai e Chile aprovaram a união civil, o máximo que temos em termos legais no Brasil é uma brecha ridícula na legislação: registrar a união como uma parceria, quase um contrato comercial.
Estamos mesmo num momento de transição, se pararmos e olharmos para trás, cinqüenta, sessenta anos atrás veremos o quanto avançamos, mas que eu quero ver esses brotos mudados em frutos, todos maduros, pendentes dos cachos, os ramos verdes abertos em flor, ah! Eu quero.
quarta-feira, 14 de julho de 2010
alegrias...
O que se procura com ardor, pelas estradas, não se acha. As fomes ancestrais que devoram os estômagos, corações e vidas de todos os homens só crescem. O desejo nunca saciado estala por todas as paragens, campos e seu uivo ecoa desde a rua aos últimos andares dos edifícios.
O homem, este mendicante. Pensar dói, desejar é loucura. Por isto nos distraímos. Precisamos de apetrechos, gadgets, fofoca, porque se nos concentramos sobre o que nos falta, então, nossos olhos se abrirão. Se ao menos chegássemos perto de agarrá-lo, ele simplesmente saltaria por sobre nossas cabeças e se tornaria, de novo, o inalcançável. Somos os eternos insatisfeitos, os nunca realizados por completo, aqueles que só precisam variar os motivos de sua carência, já que estes não faltam.
E isto nos faz estranhamente humanos. Nos dá a arte, esta mentira necessária de alguma plenitude, a técnica, para nos distrairmos construindo um mundo, o amor, a forma mais sublime de escapar do trágico destino que nos pervade a todos: nascer e morrer absolutamente só.
E nada disto quer dizer que a vida seja má. Mas que, sem desconsiderar a necessidade de um pouco de utopia para temperar sua rudeza, é preciso abraçá-la nua, como esta nos chega. Se não esperamos nada depois que dê sentido ao agora, nenhum fim redentor que aja retrospectivamente, o que nos resta? Agora.
Sol bom na pele fria, uma vista, café quente e amargo, antes o cheiro deste a se espalhar por tudo, qualquer coisa com amigos. Um amor quando em vez. Tudo o que se comunique a nós e sem palavras transmita a sensação certeira de se estar vivo. E isto é bom. As pequenas alegrias. Isto importa.
Quer mais?
Ouça aí embaixo...
O homem, este mendicante. Pensar dói, desejar é loucura. Por isto nos distraímos. Precisamos de apetrechos, gadgets, fofoca, porque se nos concentramos sobre o que nos falta, então, nossos olhos se abrirão. Se ao menos chegássemos perto de agarrá-lo, ele simplesmente saltaria por sobre nossas cabeças e se tornaria, de novo, o inalcançável. Somos os eternos insatisfeitos, os nunca realizados por completo, aqueles que só precisam variar os motivos de sua carência, já que estes não faltam.
E isto nos faz estranhamente humanos. Nos dá a arte, esta mentira necessária de alguma plenitude, a técnica, para nos distrairmos construindo um mundo, o amor, a forma mais sublime de escapar do trágico destino que nos pervade a todos: nascer e morrer absolutamente só.
E nada disto quer dizer que a vida seja má. Mas que, sem desconsiderar a necessidade de um pouco de utopia para temperar sua rudeza, é preciso abraçá-la nua, como esta nos chega. Se não esperamos nada depois que dê sentido ao agora, nenhum fim redentor que aja retrospectivamente, o que nos resta? Agora.
Sol bom na pele fria, uma vista, café quente e amargo, antes o cheiro deste a se espalhar por tudo, qualquer coisa com amigos. Um amor quando em vez. Tudo o que se comunique a nós e sem palavras transmita a sensação certeira de se estar vivo. E isto é bom. As pequenas alegrias. Isto importa.
Quer mais?
Ouça aí embaixo...
segunda-feira, 12 de julho de 2010
Não sabe, não sabe... Cabeça de burro, orelhas de E.T.
Eu faltei a aula. Aquela em que ensinam as pessoas normais que algo parecido com “namorar” significa ligar todo dia, mais de uma vez por dia, para o pretê. Devo ter perdido uma semana inteira da classe de “Alfabetização afetiva” já que não entendo o motivo pelo qual, só porque você teve um fim de semana ótimo com um cara legal: companhia agradável, intimidade real, sexo maravilhoso e, disto tudo, surgiu o recíproco desejo de se verem mais, de se conhecerem melhor, é necessário fazer um relatório ao final do dia das suas atividades.
Num antigo namoro, uma crise surgiu do nada porque não nos falamos dois dias. E eu, inocente que só, achava a coisa mais natural do mundo. O interessante é que todos os meus amigos pra quem relatei a discussão, acharam um absurdo também eu não ter ligado: 2 dias!
E isto não porque eu seja um cara frio, difícil de expressar sentimentos, não mesmo. Sou carinhoso, beijoqueiro, aquele tipo que pode passar agarrado horas e horas fazendo absolutamente nada que vai estar feliz só por estar junto ao outro. Ou seja, sou um bom pretê ao vivo. Fico em recuperação mesmo nesta coisa de “Como expressar seu interesse e carinho quando você não está com o outro”. Preciso dizer que comi rúcula hoje na salada? Fui duas vezes ao banheiro e bati o dedão na quina da porta? Digo que tenho saudades, isto sim. Ou melhor, na maioria das vezes, escrevo. Torpedeio meus sentimentos à distância, porque, no meio de uma reunião chata, no clima monótono de um elevador que sobe cheio de estranhos, o pretê recebe: “Pensando em você. Saudades, meu lindo. Bj”. Acho bem melhor do que ligar e: “Oi, lindão. Pensando em você. Saudades... Ah, comi rúcula hoje na salada... fui duas vezes ao banheiro e bati o dedão na quina da porta. Bj, tchau”.
Mas tudo bem, estou aqui pra aprender. Alguém tem anotado estas lições no caderno? Há um blogueiro com mestrado e doutorado em “Como manter a chama acesa demonstrando interesse pela vida do pretê enquanto se está longe”? Por favor, estou precisando, mesmo
Num antigo namoro, uma crise surgiu do nada porque não nos falamos dois dias. E eu, inocente que só, achava a coisa mais natural do mundo. O interessante é que todos os meus amigos pra quem relatei a discussão, acharam um absurdo também eu não ter ligado: 2 dias!
E isto não porque eu seja um cara frio, difícil de expressar sentimentos, não mesmo. Sou carinhoso, beijoqueiro, aquele tipo que pode passar agarrado horas e horas fazendo absolutamente nada que vai estar feliz só por estar junto ao outro. Ou seja, sou um bom pretê ao vivo. Fico em recuperação mesmo nesta coisa de “Como expressar seu interesse e carinho quando você não está com o outro”. Preciso dizer que comi rúcula hoje na salada? Fui duas vezes ao banheiro e bati o dedão na quina da porta? Digo que tenho saudades, isto sim. Ou melhor, na maioria das vezes, escrevo. Torpedeio meus sentimentos à distância, porque, no meio de uma reunião chata, no clima monótono de um elevador que sobe cheio de estranhos, o pretê recebe: “Pensando em você. Saudades, meu lindo. Bj”. Acho bem melhor do que ligar e: “Oi, lindão. Pensando em você. Saudades... Ah, comi rúcula hoje na salada... fui duas vezes ao banheiro e bati o dedão na quina da porta. Bj, tchau”.
Mas tudo bem, estou aqui pra aprender. Alguém tem anotado estas lições no caderno? Há um blogueiro com mestrado e doutorado em “Como manter a chama acesa demonstrando interesse pela vida do pretê enquanto se está longe”? Por favor, estou precisando, mesmo
sábado, 10 de julho de 2010
Post excessivamente teórico de auto-ajuda chinfrim numa tarde morna de sábado
Sem dúvida alguma as grandes crises não se dão por causa da desvalorização da bolsa, do déficit na balança comercial ou das onipotentes ameaças ecológicas. Não se deflagram quando países como o Irã ou a Coréia do Norte tem o know-how pra a bomba atômica, ou se você, blogueiro querido e maludo, não ganhou o concurso que a Vaca Jersey bolou só para renovar o estoque de fotos de machos de cueca a serem postadas em breve no Pelo Tesão do Boi Zebu.
A maior crise planetária se dá no campo das relações. Temos inteligência, vontade, dizem que, somos seres sociáveis, logo, deveria ser natural, fácil, quase indolor pôr-se em relação, seja familiar, de amizade, ou algo que eu chamaria de “romântica”. Mas não é. E eu descobri uma coisa importante a respeito do porquê disto.
Não é a solução para este problema ancestral e onipresente. Se fosse, ao invés de divulgá-la de graça aqui no blog, escreveria um livro e chamaria a Ana Maria Braga e o Cid Moreira para um áudio-book. Mas, de qualquer modo, talvez seja uma importante percepção a respeito de mim.
É preciso estar centrado. Tranqüilo, minimamente satisfeito consigo próprio e ir às pessoas como quem se dirige a um passeio turístico, sabendo que por mais que você vislumbre minimamente o que vai encontrar, esta expectativa não condiz, muitas e muitas vezes, com a realidade, para o bem e para o mal.
Sei que é o óbvio lulante, escrito num livro não venderia nada (hum... se bem que “O Segredo” vendeu horrores e Paulo Coelho é um Best-seller), mas quando de alguma maneira isto passa do plano das idéias para a vida prática o que ocorre é uma sensação de confiança e empoderamento bem interessantes.
Os episódios reais que motivaram este post excessivamente teórico de auto-ajuda chinfrim numa tarde morna de sábado ainda se desenrolam, por isto, antes de me referir factualmente a eles, aguardo seu grand finale ou ao menos, as cenas dos próximos capítulos.
P.S. De volta, galera! Pra falar a verdade, nem sei o porquê do sumiço. Foi a semana mais tranqüila do ano. Além da única obrigação de dar as últimas aulas dos cursos no semestre, o que fiz foi dormir horrores. Por volta de umas onze, doze horas, coisa que não fazia a séculos.
A maior crise planetária se dá no campo das relações. Temos inteligência, vontade, dizem que, somos seres sociáveis, logo, deveria ser natural, fácil, quase indolor pôr-se em relação, seja familiar, de amizade, ou algo que eu chamaria de “romântica”. Mas não é. E eu descobri uma coisa importante a respeito do porquê disto.
Não é a solução para este problema ancestral e onipresente. Se fosse, ao invés de divulgá-la de graça aqui no blog, escreveria um livro e chamaria a Ana Maria Braga e o Cid Moreira para um áudio-book. Mas, de qualquer modo, talvez seja uma importante percepção a respeito de mim.
É preciso estar centrado. Tranqüilo, minimamente satisfeito consigo próprio e ir às pessoas como quem se dirige a um passeio turístico, sabendo que por mais que você vislumbre minimamente o que vai encontrar, esta expectativa não condiz, muitas e muitas vezes, com a realidade, para o bem e para o mal.
Sei que é o óbvio lulante, escrito num livro não venderia nada (hum... se bem que “O Segredo” vendeu horrores e Paulo Coelho é um Best-seller), mas quando de alguma maneira isto passa do plano das idéias para a vida prática o que ocorre é uma sensação de confiança e empoderamento bem interessantes.
Os episódios reais que motivaram este post excessivamente teórico de auto-ajuda chinfrim numa tarde morna de sábado ainda se desenrolam, por isto, antes de me referir factualmente a eles, aguardo seu grand finale ou ao menos, as cenas dos próximos capítulos.
P.S. De volta, galera! Pra falar a verdade, nem sei o porquê do sumiço. Foi a semana mais tranqüila do ano. Além da única obrigação de dar as últimas aulas dos cursos no semestre, o que fiz foi dormir horrores. Por volta de umas onze, doze horas, coisa que não fazia a séculos.
segunda-feira, 5 de julho de 2010
O Pecado da carne
Durkheim, um dos sociólogos mais importantes da França, classificava a religião como um fato social total. Isto porque, classicamente, a religião não diz respeito apenas à uma dimensão da vida do indivíduo, mas é algo que o influencia em todas as áreas: na vida familiar, em sua visão política, em seus juízos morais sobre o mundo.
Hoje em dia, isto é bem discutível. Pode-se aderir parcialmente a um credo, ou mesmo, elaborar a sua própria espiritualidade, juntando elementos de religiões distintas. Mas não nos enganemos. Há redutos onde a religião é ainda a força que determina tudo na vida.
Aaron Fleishman herdou o açougue Kosher após o falecimento de seu pai. Kosher é o tipo de comida certificada como pura pelos rabinos para a alimentação dos judeus ortodoxos. Ele contrata como funcionário, Ezri, que chega em Jerusalém com a intenção de estudar numa escola de Rabinos.
O Pecado da carne, título original “Einaym Pkuhot” (alguém sabe hebraico, aí?) é um filme sobre o desejo. Mas um desejo escuro, sombrio, que se esconde sobre as pesadas roupas pretas, as longas barbas, os aparatos religiosos dos judeus ortodoxos. Uma paixão vivida como tormenta, que se espalha no corpo acelerando os batimentos cardíacos, formigando as mãos, provocando movimentos que são entendidos como os sintomas de um mal a ser combatido, recusado, vencido pela fé. O tesão como tentação, a capacidade de resistir vista não como covardia, mas amor a Deus. Quando uma parte de você clama e este grito ameaça estilhaçar tudo o que você tem, ruir as estruturas todas do mundo e te precipitar no nada, no vazio total onde só há o desejo: forte, desconhecido, imperioso, é preciso, desesperadamente sufocar este grito, calar sua voz.
Lembrei-me de outro filme judeu sobre o tema, o fofíssimo “The Buble”. Ainda que o final seja triste, a história consegue ser leve, colorida. Há espaço, vãos pelos quais o amor entre os personagens respira, cresce, se satisfaz. Tel-Aviv, a capital de Israel, tão mais moderna e ocidental que Meah Shearim, o bairro ultra-ortodoxo de Jerusalém. Em Meah Shearim o amor se confina a cubículos escuros, bagunçados e ao menor sinal de visibilidade, foge pelas ruas estreitas, cercadas por amplas muralhas de pedras.
O filme repercutiu em mim porque fiquei pensando na minha própria história, os conflitos todos entre minha sexualidade e a religião, e porque num vislumbre, entendi que é a realidade de milhares de pessoas neste momento. Não só lá em Israel mais aqui. Católicos, protestantes, e sabe-se lá em que outras religiões. O Amor, ainda mais o maior deles, o de Deus, não deveria ser uma libertação?
Deixo uma música que diz, como só Chico pode fazer, esta realidade toda aqui escrita, de forma belíssima: “Será que o deus que criou nosso desejo é tão cruel, mostra os vales onde corre o leite, o mel e estes vales são... de deus”.
Hoje em dia, isto é bem discutível. Pode-se aderir parcialmente a um credo, ou mesmo, elaborar a sua própria espiritualidade, juntando elementos de religiões distintas. Mas não nos enganemos. Há redutos onde a religião é ainda a força que determina tudo na vida.
Aaron Fleishman herdou o açougue Kosher após o falecimento de seu pai. Kosher é o tipo de comida certificada como pura pelos rabinos para a alimentação dos judeus ortodoxos. Ele contrata como funcionário, Ezri, que chega em Jerusalém com a intenção de estudar numa escola de Rabinos.
O Pecado da carne, título original “Einaym Pkuhot” (alguém sabe hebraico, aí?) é um filme sobre o desejo. Mas um desejo escuro, sombrio, que se esconde sobre as pesadas roupas pretas, as longas barbas, os aparatos religiosos dos judeus ortodoxos. Uma paixão vivida como tormenta, que se espalha no corpo acelerando os batimentos cardíacos, formigando as mãos, provocando movimentos que são entendidos como os sintomas de um mal a ser combatido, recusado, vencido pela fé. O tesão como tentação, a capacidade de resistir vista não como covardia, mas amor a Deus. Quando uma parte de você clama e este grito ameaça estilhaçar tudo o que você tem, ruir as estruturas todas do mundo e te precipitar no nada, no vazio total onde só há o desejo: forte, desconhecido, imperioso, é preciso, desesperadamente sufocar este grito, calar sua voz.
Lembrei-me de outro filme judeu sobre o tema, o fofíssimo “The Buble”. Ainda que o final seja triste, a história consegue ser leve, colorida. Há espaço, vãos pelos quais o amor entre os personagens respira, cresce, se satisfaz. Tel-Aviv, a capital de Israel, tão mais moderna e ocidental que Meah Shearim, o bairro ultra-ortodoxo de Jerusalém. Em Meah Shearim o amor se confina a cubículos escuros, bagunçados e ao menor sinal de visibilidade, foge pelas ruas estreitas, cercadas por amplas muralhas de pedras.
O filme repercutiu em mim porque fiquei pensando na minha própria história, os conflitos todos entre minha sexualidade e a religião, e porque num vislumbre, entendi que é a realidade de milhares de pessoas neste momento. Não só lá em Israel mais aqui. Católicos, protestantes, e sabe-se lá em que outras religiões. O Amor, ainda mais o maior deles, o de Deus, não deveria ser uma libertação?
Deixo uma música que diz, como só Chico pode fazer, esta realidade toda aqui escrita, de forma belíssima: “Será que o deus que criou nosso desejo é tão cruel, mostra os vales onde corre o leite, o mel e estes vales são... de deus”.
sábado, 3 de julho de 2010
Say NO To homofoby
Muito dos avanços que o segmento LGBT vem alcançando em termos de aceitação social se deve à maior visibilidade que sujeitos gays e lésbicas tem em muitas áreas da sociedade. De certa forma conquistamos boa parte da chamada “opinião pública” para nossa causa.
Olhando outros movimentos em prol do reconhecimento da dignidade humana podemos ter uma idéia de até onde é possível chegar. Das quartas=de-final até o último e decisivo jogo da copa, há um momento de campanha contra o racismo. Uma faixa é estendida e os capitães dos times lêem uma espécie de convocação incitando os torcedores a lutar contra a discriminação racial.
As piadas nas quais se ria dos negros desapareceram dos meios de comunicação e por mais que haja ainda muito preconceito contra negros, não é politicamente correto expressá-lo. Vai se construindo uma moralidade que reprime quem discrimina e por mais que cada um possa pensar o que quiser no âmbito privado o que interessa é que isto não se manifeste na dimensão pública. Há um cerceamento positivo de certa liberdade de expressão para proteger aqueles que são alvo histórico de atitudes racistas.
Uma das críticas levantadas contra o PLC 122 que criminaliza a homofobia é justamente que este cercearia a liberdade de expressão ao tornar passível de processo judicial quem exteriorize posturas discriminatórias em relação aos sujeitos LGBT. Troque “gay” no texto por “negro” ou “judeu” e todos o considerarão justo. A questão é que nós, os gays, ainda somos alvo explícito de discriminação, não só velada e individual, mas pública e ostensiva; não só na opinião privada mas nas instâncias legais do Estado.
Se o politicamente correto incomoda muita gente, para as minorias ela é a maneira de se construir resistências e de reagir contra preconceitos historicamente arraigados na sociedade.
Será que um dia veremos uma campanha contra a homofobia numa copa do mundo?
Olhando outros movimentos em prol do reconhecimento da dignidade humana podemos ter uma idéia de até onde é possível chegar. Das quartas=de-final até o último e decisivo jogo da copa, há um momento de campanha contra o racismo. Uma faixa é estendida e os capitães dos times lêem uma espécie de convocação incitando os torcedores a lutar contra a discriminação racial.
As piadas nas quais se ria dos negros desapareceram dos meios de comunicação e por mais que haja ainda muito preconceito contra negros, não é politicamente correto expressá-lo. Vai se construindo uma moralidade que reprime quem discrimina e por mais que cada um possa pensar o que quiser no âmbito privado o que interessa é que isto não se manifeste na dimensão pública. Há um cerceamento positivo de certa liberdade de expressão para proteger aqueles que são alvo histórico de atitudes racistas.
Uma das críticas levantadas contra o PLC 122 que criminaliza a homofobia é justamente que este cercearia a liberdade de expressão ao tornar passível de processo judicial quem exteriorize posturas discriminatórias em relação aos sujeitos LGBT. Troque “gay” no texto por “negro” ou “judeu” e todos o considerarão justo. A questão é que nós, os gays, ainda somos alvo explícito de discriminação, não só velada e individual, mas pública e ostensiva; não só na opinião privada mas nas instâncias legais do Estado.
Se o politicamente correto incomoda muita gente, para as minorias ela é a maneira de se construir resistências e de reagir contra preconceitos historicamente arraigados na sociedade.
Será que um dia veremos uma campanha contra a homofobia numa copa do mundo?
sexta-feira, 2 de julho de 2010
Adooro! – Séries
Iniciando mais uma (existe já alguma?) coluna no blog. A “Adooro!” vai falar sobre tudo o que eu.. hãn.. adoro no mundo do entretenimento, da cultura, da arte e é uma chance de eu dar uma de crítico no único espaço em que alguém (talvez) me leia nesta função: o meu próprio blog.
Começaremos com a melhor série de todos os tempos: Sixt Feet Under (No Brasil: A Sete Palmos). Resumo da Wikpédia: “Na série, criada por Alan Ball, Peter Krause é "Nathaniel ("Nate") Fisher Jr.", filho do dono de uma funerária que relutantemente se torna sócio do negócio da família com o seu irmão "David", estrelado por Michael C. Hall – agora em “Dexter”. A família "Fisher" também inclui a mãe "Ruth" (Frances Conroy) e a irmã "Claire" (Lauren Ambrose). Incluem-se em torno da família o assistente da funerária, o amigo "Federico Diaz" (Freddy Rodriguez), a namorada e eventual esposa de "Nate" chamada "Brenda Chenowith" (Rachel Griffiths – Agora em “Brothers and sisters”), e o namorado (e eventual marido) de "David", o polícial "Keith Charles" (Mathew St. Patrick). Toda a trama se desenvolve em torno do mundo da Fisher & Sons Funeral Home, uma fictícia empresa funerária nos dias atuais em Los Angeles, Califórnia”.
A série traz constantemente a questão da finitude humana e o quanto o se deparar com a morte modifica a maneira como vivemos, os laços que construímos. Pode-se dizer que o que os personagens tem em comum é um desamparo diante da vida, já que esta não tem sentido em si mesmo é preciso inventar algum ou simplesmente fugir desta tarefa, prendendo-se ao imediato.
O sem sentido da vida se evidencia na maneira banal como a morte acontece. Cada episódio começa com uma pequena história de como morreu a pessoa que terá seu funeral preparado pelos irmãos Fisher. A série é permeada por um humor ácido, mas não é seca ou mórbida, como poderia parecer à primeira vista. A identificação com os personagens se dá porque vamos percebendo que, eles e nós, estamos todos no mesmo barco: procurando viver o que realmente vale a pena, encontrar o melhor da existência mesmo em meio aos imprevistos, distrações e burradas, nossas e dos outros em relação a nós.
Os personagens são, em sua maioria, multifacetados e a relação entre eles muda muito ao longo das temporadas. É interessante acompanhar David e seus conflitos em relação à homossexualidade, a relação conturbada e abissal de Nate e Brenda e os trancos e barrancos que Claire enfrenta e provoca na difícil passagem para a vida adulta. O trabalho de Frances Conroy como Ruth é fenomenal. Uma mulher anulada pela vida familiar que, depois da morte do marido, tem de se redescobrir, se reiventar e faz isto em tãos variados estados de espírito, que vão da placidez à histeria, que é impossível não se apaixonar por Ruth.
Os últimos episódios, que não serão contados obviamente, são ousados e a seqüência final é belíssima. Apesar de tudo, a vida segue e se a gente não pode garantir que ela seja sempre como a gente projeta, nós podemos aprender a ficar com o melhor do que nos é oferecido. Fica a dica!
Começaremos com a melhor série de todos os tempos: Sixt Feet Under (No Brasil: A Sete Palmos). Resumo da Wikpédia: “Na série, criada por Alan Ball, Peter Krause é "Nathaniel ("Nate") Fisher Jr.", filho do dono de uma funerária que relutantemente se torna sócio do negócio da família com o seu irmão "David", estrelado por Michael C. Hall – agora em “Dexter”. A família "Fisher" também inclui a mãe "Ruth" (Frances Conroy) e a irmã "Claire" (Lauren Ambrose). Incluem-se em torno da família o assistente da funerária, o amigo "Federico Diaz" (Freddy Rodriguez), a namorada e eventual esposa de "Nate" chamada "Brenda Chenowith" (Rachel Griffiths – Agora em “Brothers and sisters”), e o namorado (e eventual marido) de "David", o polícial "Keith Charles" (Mathew St. Patrick). Toda a trama se desenvolve em torno do mundo da Fisher & Sons Funeral Home, uma fictícia empresa funerária nos dias atuais em Los Angeles, Califórnia”.
A série traz constantemente a questão da finitude humana e o quanto o se deparar com a morte modifica a maneira como vivemos, os laços que construímos. Pode-se dizer que o que os personagens tem em comum é um desamparo diante da vida, já que esta não tem sentido em si mesmo é preciso inventar algum ou simplesmente fugir desta tarefa, prendendo-se ao imediato.
O sem sentido da vida se evidencia na maneira banal como a morte acontece. Cada episódio começa com uma pequena história de como morreu a pessoa que terá seu funeral preparado pelos irmãos Fisher. A série é permeada por um humor ácido, mas não é seca ou mórbida, como poderia parecer à primeira vista. A identificação com os personagens se dá porque vamos percebendo que, eles e nós, estamos todos no mesmo barco: procurando viver o que realmente vale a pena, encontrar o melhor da existência mesmo em meio aos imprevistos, distrações e burradas, nossas e dos outros em relação a nós.
Os personagens são, em sua maioria, multifacetados e a relação entre eles muda muito ao longo das temporadas. É interessante acompanhar David e seus conflitos em relação à homossexualidade, a relação conturbada e abissal de Nate e Brenda e os trancos e barrancos que Claire enfrenta e provoca na difícil passagem para a vida adulta. O trabalho de Frances Conroy como Ruth é fenomenal. Uma mulher anulada pela vida familiar que, depois da morte do marido, tem de se redescobrir, se reiventar e faz isto em tãos variados estados de espírito, que vão da placidez à histeria, que é impossível não se apaixonar por Ruth.
Os últimos episódios, que não serão contados obviamente, são ousados e a seqüência final é belíssima. Apesar de tudo, a vida segue e se a gente não pode garantir que ela seja sempre como a gente projeta, nós podemos aprender a ficar com o melhor do que nos é oferecido. Fica a dica!
terça-feira, 29 de junho de 2010
iPraga

Meu combalido aparelho de som, após longa agonia, emitiu sua última nota. Aproveitando uma obrigatória passagem da minha irmã pelo Free Shop, lhe encomendei logo um iPod com respectivas caixas de som. Domingo passado ela voltou de viagem, mas me trouxe só a primeira parte da encomenda.
Depois do almoço de boas-vindas, lá fui eu zanzar por todas as lojas de produtos eletrônicos do gigantesco Barra Shopping. Não tinha visto nada que eu gostasse até que já cansado tive o que, parecia ser uma miragem: uma mega loja da Apple. Mas não! Era real! Inaugurada uma semana antes, a maior loja da Apple no Brasil, com vários modelos do que eu queria. As menores caixas tinham também um som bem pouco potente, a única que não testei foi uma em forma de porco, ah não, porco não dá, né?!
Escolhi uma na melhor relação potência/ tamanho/ preço e fui feliz pagar. Atrás de mim chegou uma tia. Devia ter seus sessenta e poucos, cabelos e sobrancelhas gritantemente tingidos de acaju e um porco nas mãos.
- Nossa que grande sua caixa.
-É.. (eu, sem vontade nenhuma de começar uma conversa)
- Vou levar o porquinho, é pequeno, mas tem um som ótimo.
-Legal...
Ufa! Chegara minha vez.
Enquanto pago, a tia me adverte:
-Não vai pedir pra testar? Olha que às vezes dá problema
Testar significava tirar do embrulho e conectar às duas caixas à base, esperar não sei qual funcionário chegar com o iPod dele, o único disponível em toda a loja já que eu não estava com o meu.
- Não vou não. Tô com pressa.
-Olha lá, hein...
Sem dar mais atenção pra tia, peguei minha sacola e saí.
Em casa conectei o iPod, ele funcionou, vi que estava carregando. Só que o som não saía de jeito nenhum! Reconectei as caixas, nada. Troquei-as de lado, nem um pio, nadinha da linda voz de Rufus Wainright. Agonia. Lembro então das sobrancelhas arqueadas e da voz da tia maldita que agora sai em lenta rotação: “Olha que às vezes dá problema”... inferno! Acho que a bruxa de Acaju me lançou uma iPraga.
Se tem alguma coisa que eu detesto é quando as coisas não dão certo. Semanas esperando meu novo som e agora, nada. Merda! Fiquei rogando várias pragas pra tia: que trocassem, na sua próxima ida ao salão, a tinta acaju por ácido sulfúrico, ou que as sobrancelhas caíssem, ou que o porco fosse na verdade uma bomba terrorista que se destinava à Apple dos E.U.A. e veio pra cá por engano. Quando já tinha desistido e pego de volta a caixa para guardar o aparelho, me dei conta de algo: tinha esquecido de ligá-lo na tomada.
A luz se acendeu nas caixas e o som começou a tomar toda a minha sala: Coldplay, cantando uma das minhas favoritas: Clocks. Vou tomar banho. Lá dentro do box, o som chega estranho, ruidoso. Fora também! Na verdade, tem uma caixa que está chiando pacas, saco! Me aparece de novo a figura da tia de acaju. Desta vez, torço para que ele, ao sair da loja, tenha tropeçado e o porco rolado para o meio da Av. das Américas, sendo triturado por um rolo-compressor que estivesse fazendo obras no local.
O jeito é ir até a Barra na manhã seguinte para trocar a porcaria.
Dia seguinte, acordo cedo e saio com a pesada sacola na mão: metrô até a estação Ipanema, ônibus para a Barra, longe, muito longe e engarrafado. Morte às tias de acaju! Já na loja uma recompensa, quem me atende é um vendedor gatinho, com aquele sotaque-delícia do Sul. Testamos o som, desta vez, a caixa que estava chiando, nem funciona. Pegamos outro aparelho, Ele já ia mandar embrulhar quando eu exijo que o abram para testar, Tia deve estar dando gargalhadas e repetindo mentalmente: “Eu te avisei, hahaha... Eu te disse...”.
Testamos o novo aparelho e... um canal de som não funciona! De novo! O gerente pergunta se eu não quero levar outro modelo. Digo que quero um som mais potente e aqueles que estavam ali não me satisfaziam. Foi quando o vendedor-gaúcho-gato me disse:
- O iPig é mais potente que este que você comprou.
O porco!
Contrariado, resolvo testá-lo. Impressionante a capacidade da coisa.
Reflexão mental: Hum... é um porco, não! É bem menor que o outro, sim! O som é ainda mais potente, Yes! e é R$ 200 mais caro, Puta que o pariu!
- Você só tem em amarelo?
Olhos verdes, além de tudo o cara tem olhos verdes.. aiai
- Não senhor, temos ele em branco e preto também.
(Putz, não me chama de “senhor” que eu já imagino uma coisa dominadora.. você preso a correntes, de sunga de couro.. e eu com uma chibata...)
-Senhor?
-Hum... – Olhei de novo pro porco, de repente, tive uma luz. Ele parece, parece... um extra-terrestre, sim! Uau!! Que legal uma caixa de som no formato de um E.T.!
Paguei os R$ 200 a mais e cá estou feliz e contente ouvindo “A menina dança” dos Novos Baianos no meu iE.T. enquanto escrevo este post.
Mas pensa que me arrependi das pragas contra a tia? Tsc... tsc... tsc... Não mesmo.
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