Não sei se são as cinzas dessa Quarta, ou algum efeito deletério da leitura de Proust, mas assim, sem mais nem menos, depois do café pós-almoço me encheu a boca a letra de uma antiga canção religiosa. Sem nem perceber comecei a cantarolar, abriu-se o portal e eu me vi transportado a um mundo de afetos pungentes, tantas vezes experimentado em momentos de oração, tardes de partilha, encontros com aqueles que experimentavam a mesma fé, o mesmo desejo, a mesma vida que eu.
Mundo esse que não é mais possível. Algo assim como o encanto de uma infância doce, de uma tarde no sítio do avô. Passando por uma estrada de interior qualquer, súbito um cheiro fresco de fruta te lança aos pés da imensa mangueira onde a gurisada azucrinava o juízo de todos, com pés de barro e sorriso fácil; um ínfimo daqueles sons, cheiros, desaguam uma emoção revisitada e quente em seu peito, ainda que com o selo do irreversível, do que já foi.
Foi isso que senti. Espasmos de um cristianismo bom onde a fé era amor e esse tinha a concretude de pessoas queridas nas lidas diárias, as minhas e as delas que eram, ainda que de formas tão diferentes, as mesmas batalhas. Saudades de um deus sem mistério, à mão que organizava um mundo pronto, feito, lúcido. Deus ou alegre criação das minhas inseguranças não importa, para mim, que caminhava então ainda mais trôpego que agora, ele era certeza e aconchego.
Agora sei que não há garantias. Que qualquer arrumação feita está à espera da próxima ventania. E que isso não é mau, é só mesmo a vida e, sendo assim, há de se encontrar a poesia possível em meio a tudo. Nascentes e poentes, risos amigos e mãos estendidas, mas também a sombra, a dor e o sem-sentido. Talvez deus esteja mais pra lá, seja essa espécie de insistência que faz brotar gramíneas verdes em dobras de cimento, uma certa teimosia da vida diante do imponderável que nos faz, sem saber muito bem o porquê, nem o como, simplesmente seguir adiante. Não um deus-à-mão, mas o princípio-esperança de que no derradeiro fim, e antes disso pouco a pouco nas pequenas delicadezas dos dias, se dê a completude do nosso mais humano desejo.
Será?