Eu queria estar sob o sol, inerte, entregue, como se despejar sobre mim ondas de sua luz e calor fosse o único objetivo do astro-rei em toda sua existência de incontáveis milênios.
Estar olho no olho com um amigo, numa intimidade fresca de fim de tarde, apenas mediada por copos simples de cerveja gelada. E isso em alguma mesinha debaixo de uma amendoeira ordinária que marcasse o ritmo das conversas alheias com farfalhar de folhas entregues à brisa qualquer.
Após o úmido bom do teu beijo, me virar na cama desfeita pelo nosso amor e deixar que teu corpo junto ao meu, teu ressoar quase no sono, me desse a certeza de tudo.
Eu não tomo prozac, não faço uso de antidepressivos. Não tenho medo da dor. Mas quase entendo quem teme a vida. Porque se você não é um completo babaca, e talvez esta seja a opção mais fácil, a reiterada cotidianamente opção por ser um babaca, o fluxo constante de tudo, que é sim belo e inspirador, condição de possibilidade de todas as mudanças, mas também turbulento e inefável, imprevisível em seus movimentos, tudo isto extasia e cansa.
Tudo o que não sei, o que almejo, o que pretendo agora, as coisas que sinto e aquelas que gostaria de experimentar, aquilo que jurei “para sempre”, as que disse “só por hoje” e que no instante seguinte gritam horrorizadas em todas as instâncias do quer sou “Não mais!”; a vida em suas arestas e surpresas, amargos e calafrios. As encruzilhadas do que “poderia ter sido se” e daquilo que precisa ser decidido hoje, sem mais, tudo, subitamente, desperta e grita como uma comichão por todo o meu corpo. A coceira que pinica o ser, desde a superfície dita epiderme até o fluído onipresente e pastoso que alguém, um dia, chamou de “alma”.
E o que se faz com essa vida que pulsa bravia e louca? Eu gosto do fluxo, aprendi que desejar calmarias e estabilidades é construir sobre quimeras. O louco existir pode até se aquietar, esmagado pela solidez robusta das convicções, amuado pela certeza de tudo que desponta infalível das mentes dos pequenos e orgulhosos grãos de nada que somos nós, ela se aquieta, a vida, e deixa que pensemos que, finalmente, descobrimos o segredo de seu movimento. Permite que lhe tracemos margens seguras, digamos com autoridade de animais racionais, de sujeitos controlados e sábios, de crentes em deuses que detém a chave: “Vais até aqui” ou “Não ultrapasses este ponto. Aqui cessa o furor de tuas ondas”. E então, cenas de mares calmos e cândidas espumas brancas a se estender em areias de fim de dias perfeitos. Até que a garganta seca, o peito acelera e irrompe o inaudito.
O “quanto se pode”, “se fez”, os sonhos perdidos flutuam em meio à fúria das águas como destroços inúteis a que basta ao náufrago tocar, como última esperança de salvação com a ponta dos dedos, para desaparecer como inúteis quimeras.
Não nos enganemos: A vida, aquela de verdade, é para os fortes.
9 comentários:
a vida, não me engano, é para os mortos. só quem já sabe que não há nada a perder, pode tudo gozar.
Mas nem ligue, há setembros e eu celebro: avida é para os amados.
Senti uma pegada Kunderiana aí!
Caramba, amei o comentário da Luciana!!
E para os loucos.
Devo estar no rol dos loucos pois amo a vida com todos os seus paradoxos ... seja nos instantes de calmaria seja nas tormentas ...
impressão minha ou cada parágrafo é um texto diferente, cada vez mais intenso?
Nossa, esse texto tem uma gama de emoções bem peculiares. Cada vez que venho aqui fico mais extasiado com o que você escreve...
Bjs
Falar sobre a vida sempre me dói, mas recentemente é uma dor inquietante, uma dor que tem desejos de sabê-la, senti-la. Não importando com metade, vazio ou inteiro.
Mas tendo a completa certeza de que se é, não apenas existe.
Esplêndido!
Posso matar uma curiosidade? Duas aliás.
Queria saber pra que área você se direcionou na faculdade.
E queria pedir sugestão de um livro que você tenha realmente gostado. Alguma coisa assim, que pareça com os seus textos, que me transportam pra um outro lugar, que é perto e longe ao mesmo tempo.Se não for muito abuso, ou for pouco a ponto de não incomodar.
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