Compraremos um casarão abandonado em algum quase subúrbio da cidade. Sei do sinal: uma mangueira na frente, com cipós que se lançam ao chão e ficam por lá, relaxados e distraídos. Há de se fazer algumas reformas: cada cômodo de uma cor, precisaremos urgentemente de piso de madeira que ressoe gostoso, como nas casas felizes de antigamente.
Na sala apenas um sofá para amigos mais velhos e muitas almofadas, para que, ao chegarem, aqueles que vem sintam-se em casa desde o primeiro minuto, porque só os muito queridos entrarão. Haverá uma senha secreta e boba a ser dita no portão e só depois de ouví-la o vira-latas que tomará conta da casa e se chamará Lico, Princesa, Florzinha ou Cão, permitirá a entrada.
Aqueles que vierem serão recebidos pela gargalhada vibrante de S., receberão o brilho dos olhos de Borboleta num chamego todo especial e o meu melhor e mais terno abraço. Poderão deixar de lado as pastas, gravatas, mochilas, as roupas todas e dançaremos nús e completamente fora do ritmo durante a noite inteira. Exatamente as 2h37 pararemos a música, nos sentaremos em roda e cada um contará a história de uma paixão fracassada diante do absoluto silêncio dos demais. Ouviremos então Dolores ou Maysa ou Anthony and the johnsons ou mesmo Adele. Pode-se chorar um pouquinho, Mas logo haverá mais cerveja, outros abraços, diferentes músicas e nos lembraremos que estamos vivos e que isto é, por si só, um imenso privilégio.
Pela manhã acordarei S. e Borboleta com o cheiro inebriante do meu café invencível. Leremos os jornais desconfiando da seriedade de tudo e trocaremos as flores por outras novas, emocionados por a vida ser assim, bela e voraz. A vida consome tudo: o tempo, os planos, as reservas, os bons propósitos só o que fica é a beleza e esta será tudo nesta nossa casa. Duvida? A prova é que ao entardecer sentaremos os três em grandes poltronas, impactados pela maneira como o sol lança os últimos reflexos dourados sobre as cortinas de retalhos multicoloridos.
Beberemos vinho ouvindo Chet Baker e, revigorados, sairemos pelas ruas de mãos dadas sem deixar que percebam se somos um ménage a trois, umas virgens inocentes, velhas futriqueiras ou bando de loucos.
Teremos rasgado nossas identidades, jogado fora nossos CPF’s, feito o enterro ritual de tudo o que se exige de nós para ser alguma coisa e seremos, então, só e absolutamente o que desejarmos, o que a imaginação nos colorir, o que inflar em nós o santo e irriquieto desejo.
Amém.
12 comentários:
Amém, meu amor. Assim seja. Hoje a noite o lado B da idéia em um blog vermelho perto de você.
Só um reparo: meus olhos gargalham e abraçam. Te amo.
Eu quero. Muito. E um balanço na nossa mangueira para bem alto e nús? Vou entrar no clima e escrever um plano c. Te amo, noivinho.
Linda declaração de amor, Rafa.
Hoje essa Borboleta passou por aqui e lembrou-me do privilégio de estar viva.
De cá ouço Adele e fico até me despedir de Chet Baker. Ambos tem sido companhias agradáveis nesses dias.
Por que não plantar essas flores? As sementes irão gerar ainda mais vida...
Um beijo,
K.
Tive um orgasmo quando chegou no Chet Baker... affeeee...
E nem estressa que não ligo pros bundões, não... aliás bunda em Blogsville - pra mim - só tem uma que interessa: a tua!
Hahahahahahahaha!!!!
Xi, não vou ganhar declaração de amor. Olha o post aqui, ó.
Amém!
(só hoje pude ler o post sequestrado)
Lindoooooooooooooooooooo.
Amei.
Abraços Rafa.
Lindo fim de semana.
Agora sobre os Planos: doido pra visitar esse "cafofo" e sair pelas ruas com vocês!!
seria perfeito!
Enfim li o post!
Eu tb quero!
Rafa, quando li pela primeira vez, fiquei de cá imagiando esse mundo perfeito.
Essa perfeição que não cansa, pois é centrado no amor.
Graças ao bloguer, os comentários foram levados, mas a declaração de amor retornou.
O que disse lá e foi engolido, repito aqui, porém de forma mais clara, se quiser, planto as flores, assim poderão ter sementes que sempre permitirão mais vida.
Um beijo
Reli e me emocionei. Planos que foram descumpridos a risca e, ainda assim, vividos na sua essência. Sinto uma saudade imensa de você (s). De te saber mais cotidianamente. E, ao mesmo tempo, sinto que esse amor sempre é, sempre está.
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