domingo, 8 de maio de 2011

A fonte

Você se acostuma às paisagens desérticas; com a prática, chega a vislumbrar os diferentes tons de vermelho escalonados em paredões íngremes, encontra a poesia no vento que sibila revolvendo areias, e percebe que, mesmo lá, há um pôr do sol fantástico, vez por outra.

Pelas trilhas percorridas vai se livrando de bugigangas inúteis àquela realidade como o que outrora foram grandes sonhos, agora levados em potes mínimos, também já descartados por aí. A aridez que castiga sua pele em chicotadas ásperas é só o normal desde a algum momento, o coração em febres que nem mornas são, mas inventadas para o momento, para durarem nada, só pra se saber ainda vivo é a sua melhor tática de sobrevivência.

E então o que acontece? Abrigado a uma passageira sombra, suficiente para um frescor momentâneo, sentado o tempo exato para recobrar as energias e feliz, porque na verdade, o deserto agora é a sua casa, o seu habitat, orgulhoso pela desenvoltura com que você se move nele, eis a fonte: límpida, suave, refrescante que renova a vida . O que fazer senão, mãos em concha, se aproximar com gratidão e cuidado da fonte, sentindo, subitamente, toda a sede esquecida, o ardor de séculos na garganta: o primeiro gole.

Que água é esta? Que propriedades contém? De que minerais é feita? Bebe-se mais e mais e as mãos em concha se estendem ininterruptas. Bebe-se uma noite inteira com desejo e de tal forma que parece que não o corpo apenas, mas qualquer coisa de mais íntima pudesse se nutrir dessa água, como se ao contato dela, as camadas todas de pó, pedras e granitos sem fim revelassem o úmido, o vivo que ainda reside em você. Bebe-se com vontade e sempre mais na noite, agora fresca, mas não com sofreguidão como um sedento esturricado e ensandecido bebendo aquilo que acabará por matá-lo. Bebe-se desta fonte à semelhança de vinhos, degusta-se, descobrem-se sutis sabores, se possível fosse, temperos, e isto a noite toda.

Será mero filete? Alguma precipitação passageira, logo evaporada pelas absurdas condições climáticas do deserto, como tantas outras poças efêmeras? Ou apenas se começou a sorver a água da vida? Filete ou aqüífero, não importa, porque, por ora, a água corre, livre e benfazeja e é a prova de que há vida no deserto.

8 comentários:

Luciana Nepomuceno disse...

Ou eu vivo mesmo de miragens.

Wans disse...

Bom texto para começar uma semana que já vejo ser difícil.

Atitude do pensar disse...

No final, viver é o que importa.

Paulo Roberto Figueiredo Braccini - Bratz disse...

Viver! Viver! Viver! plena e abundantemente ... um mote de vida q deveria ser de todos ...

S.A.M disse...

Aproveite a fonte, a vida é feita dos momentos de aridez e dos momentos de bonança. Os meus eu entrego ao Tempo e nas minhas preces peço que se possível multiplique as bonanças.

Beijao, boa semana!

Fred disse...

Rafão é tesão! Orgasmo literário da minha segundona!!!! Bjzz!

Alexandre Willer Melo disse...

olha, cadê seu editor? vamos abrir aí uma editora? te publico, me publicas, sem segundas intenções...

Lobo disse...

Oasis não duram muito tempo mesmo. Mesmo que os encontremos, o melhor a fazer é tirar o máximo proveito sem se esquecer que você pode viver sem aquilo, como viveu muito bem até então.

Esse sou eu.

Beijo Rafa!