A saída era sinuosa, uma escarpa, a montanha. No entanto, o dia estava claro, eu não estava só, vozes atrás de mim me confirmavam que outros estavam prontos a começar o caminho. Os primeiros metros foram vencidos facilmente, nenhuma dificuldade a mais do que as já esperadas. Pelo contrário, o senso de aventura, o vento no rosto me davam uma sensação boa de desbravador intrépido.
Não sei quando, em nenhum limite visível, a escarpa se fez mais e mais estreita, os desfiladeiros à direita abissais e o paredão de pedra do entorno à esquerda intransponível. O sol continuava a se refletir na pedra em tons entre azuis e cinzas discretos que seriam bonitos de se ver, se o pé, a mão, o corpo todo não sentisse, a despeito da visão do belo colorido, uma crescente aflição. Como se a pedra crescesse em volume e arestas, o caminho inventado por entre impossibilidades se afinasse mais e mais e as vozes humanas, já por isso solidárias em meio a tanta aridez mineral, fossem ecoando cada vez mais fracas.
Um pequeno mirante me fez perceber que a subida tinha chegado ao fim. Ou se fica parado numa imobilidade contagiante que, do formigamento nos pés, rouba o ar dos pulmões, cessa sístoles e diástoles e, um dia, finalmente te sufoca em pedra ou se inventa uma descida tornada possível simplesmente porque se quer assim.
Lá em baixo, construções testemunhavam que outros fizeram o mesmo. Edifícios abandonados, de portões entreabertos e janelas batendo ao vento mostravam que tais corajosos foram poucos e antigos. Eu, parado sob o sol, agora inclemente, a sentir o formigamento pétreo já na ponta dos pés; querendo descobrir uma coragem que brotasse sabe-se lá de que entranhas. Das vísceras ou dos músculos, dos ossos em atrito, de qualquer parte, menos do que via à minha frente: um desfiladeiro impossível. Então, de repente, algo se moveu.
Algo humano passou correndo entre os prédios, sem som, sem barulhos de nada: passos, respiração, grito. Um vulto, cabelos e roupas ao vento. Logo atrás, um imenso urso marrom. Soube então: não apenas a imobilidade férrea como ameaça aos que param; mas a fúria selvagem aos que ousam.
Eu soube, mas, o que senti foi: Há algo humano. E isso basta. Então, comecei a descida.
10 comentários:
dois posts hoje?
nossa!
não sei o que comentar porque achei tão forte....
beijo
Parabéns pelo blog e pela sensibilidade e intensidade desse post. Criei um blog recentemente para me ajudar a lidar com minha soropositividade (para HIV) e descobri o quanto esse mundo é interessante. Voltarei mais vezes!
É como no Xadrez. As vezes até o melhor jogador tem que saber a hora de se render. ;)
Bjs
Nossa! Estranho mundo de rafa mesmo! Entendi nada, mas sonhos são isso mesmo :p
E nem desistir nem tentar, agora tanto faz. Mas ao contrário. :-)
a DARPA foi onde nasceu a internet. :-)
Rafa de Deus... hahaha! Conta mais... hahaha! Óteeeeemo!
Oie tudo bem? Dá uma chegadinha no Lua essa semana. Consegui uma entrevista muito bacana com Luiz André Moresi o primeiro gay a casar-se depois da aprovação da lei pelo STF que concede aos gays o direito a união estável. O casamento repercutiu no mundo inteiro. Bjssss e linda semana.
Postar um comentário