terça-feira, 19 de julho de 2011

O sonho

A saída era sinuosa, uma escarpa, a montanha. No entanto, o dia estava claro, eu não estava só, vozes atrás de mim me confirmavam que outros estavam prontos a começar o caminho. Os primeiros metros foram vencidos facilmente, nenhuma dificuldade a mais do que as já esperadas. Pelo contrário, o senso de aventura, o vento no rosto me davam uma sensação boa de desbravador intrépido.

Não sei quando, em nenhum limite visível, a escarpa se fez mais e mais estreita, os desfiladeiros à direita abissais e o paredão de pedra do entorno à esquerda intransponível. O sol continuava a se refletir na pedra em tons entre azuis e cinzas discretos que seriam bonitos de se ver, se o pé, a mão, o corpo todo não sentisse, a despeito da visão do belo colorido, uma crescente aflição. Como se a pedra crescesse em volume e arestas, o caminho inventado por entre impossibilidades se afinasse mais e mais e as vozes humanas, já por isso solidárias em meio a tanta aridez mineral, fossem ecoando cada vez mais fracas.

Um pequeno mirante me fez perceber que a subida tinha chegado ao fim. Ou se fica parado numa imobilidade contagiante que, do formigamento nos pés, rouba o ar dos pulmões, cessa sístoles e diástoles e, um dia, finalmente te sufoca em pedra ou se inventa uma descida tornada possível simplesmente porque se quer assim.

Lá em baixo, construções testemunhavam que outros fizeram o mesmo. Edifícios abandonados, de portões entreabertos e janelas batendo ao vento mostravam que tais corajosos foram poucos e antigos. Eu, parado sob o sol, agora inclemente, a sentir o formigamento pétreo já na ponta dos pés; querendo descobrir uma coragem que brotasse sabe-se lá de que entranhas. Das vísceras ou dos músculos, dos ossos em atrito, de qualquer parte, menos do que via à minha frente: um desfiladeiro impossível. Então, de repente, algo se moveu.

Algo humano passou correndo entre os prédios, sem som, sem barulhos de nada: passos, respiração, grito. Um vulto, cabelos e roupas ao vento. Logo atrás, um imenso urso marrom. Soube então: não apenas a imobilidade férrea como ameaça aos que param; mas a fúria selvagem aos que ousam.

Eu soube, mas, o que senti foi: Há algo humano. E isso basta. Então, comecei a descida.

10 comentários:

FOXX disse...

dois posts hoje?

Bruno Etílico disse...

nossa!
não sei o que comentar porque achei tão forte....

beijo

Alguem por ai disse...

Parabéns pelo blog e pela sensibilidade e intensidade desse post. Criei um blog recentemente para me ajudar a lidar com minha soropositividade (para HIV) e descobri o quanto esse mundo é interessante. Voltarei mais vezes!

Alguem por ai disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Rapha disse...

É como no Xadrez. As vezes até o melhor jogador tem que saber a hora de se render. ;)

Bjs

Lobo disse...

Nossa! Estranho mundo de rafa mesmo! Entendi nada, mas sonhos são isso mesmo :p

Unknown disse...

E nem desistir nem tentar, agora tanto faz. Mas ao contrário. :-)

Unknown disse...

a DARPA foi onde nasceu a internet. :-)

Fred disse...

Rafa de Deus... hahaha! Conta mais... hahaha! Óteeeeemo!

Edilson Cravo disse...

Oie tudo bem? Dá uma chegadinha no Lua essa semana. Consegui uma entrevista muito bacana com Luiz André Moresi o primeiro gay a casar-se depois da aprovação da lei pelo STF que concede aos gays o direito a união estável. O casamento repercutiu no mundo inteiro. Bjssss e linda semana.