sábado, 18 de junho de 2011

Com vista para o mar - Final

Vinte minutos depois, estava na Av. Atlântica. Os prédios enormes, o saguão da portaria tão amplo e dourado. Cobertura. Antes da porta ser aberta, Dalva, pela janelinha do elevador, vê uma Daminana atordoada e de olhos muito vermelhos. Pobre moça! D. Beth, pelo que percebera ao telefone estava impossível e a escolhida da vez, já que Dalva não tinha chegado ainda foi Damiana que morria de medo da patroa. Para ela, saída da pobreza extrema de uma cidade perdida em Alagoas e vindo parar num subúrbio longínquo do Rio de Janeiro, toda aquela gente situada à beira-mar era quase que de outra espécie. Um outro tipo de ser, muito distante do que ela mesma era.

Dalva não. A negra abusada na sua pouca condição financeira, sabia que gente era realmente tudo gato do mesmo balaio, quer coma vieiras cozidas ao vapor com redução de balsâmico, quer feijão com farinha. Às vezes, Dalva conseguia num olhar, preciso e vingativo, “suspender” o efeito no rosto de D. Beth dos milhões de potes com letras em francês do seu banheiro, do cabeleireiro de toda semana, da plástica nas pálpebras, queixo e lipoaspiração. Via então uma mulher bem comum, dessas que se encontram nos ônibus e atravessando os viadutos das estações de trem. Pelo contorno do nariz e as rugas inexistentes, em sua maioria, D. Beth deveria ser bem parecida com Marinalva, uma vizinha sua, lá no morro.

-Ai, que bom que você chegou! Já estava ficando braba hein?! - E balançou o indicador igualzinho como a via fazer com Samy, a poodle cor-de-rosa, que naquele dia de festa tinha ainda horrorosos laços brancos.

Pontualmente atrasadas cerca de meia-hora, começaram a chegar as convidadas. Sempre as mesmas mulheres a ocupar o tempo numa sucessão interminável de chás e almoços, enquanto os maridos empresários, ganhavam muito dinheiro. Muitas loiras, muito mais ainda vestidas de terninho, tailleur. Sempre educadíssimas, comendo as pequenas porções com fome de passarinho. Dalva se divertia imaginando-as chegar em casa e fazer um pratão, não é possível que aquelas comidinhas mirradas em porções mínimas sustentassem alguém de verdade.

Desvencilhando-se um pouco da louça na pia, a “soberana da copa à área de serviço da casa” foi até o quarto de Rodrigo, que como sempre berrou lá de dentro que não queria lanchar. Dalva sentiu, de repente, o coração disparar e um suor frio lhe escorrer pela face. A mesma sensação da manhã com o revólver de Quinzinho na cara lhe percorreu a espinha. Dalva se deu conta, então, do mesmo cheiro, saindo por debaixo da porta do filho da madame. Rodrigo estava fumando.

Numa hora não combinada previamente, mas que surtia um efeito impressionante nas madames, todas foram se retirando, de tal modo que, o cair da tarde encontrou a casa quase vazia. Rodrigo saíra e D. Beth estava com uma terrível dor de cabeça. Na verdade, estava muito chateada pela ausência de Augusta Pires Leal, o que diminuía em muito as chances de ver seu “evento” na coluna social da Hilde.

A única movimentação era dos garçons, já despidos do avental do uniforme preto, para ser moderno, e de Damiana retirando as coisas, as duas sem os solenes e ridículos adereços de cabelo para domésticas de endinheirados.

A luz tão oblíqua e morna, própria daquela hora, causava sombras no imenso salão de tanto mármore e cristais. Dalva achava que o mar fazia questão de ser o único a brilhar em prata, e o sol, nem que fosse por alguns instantes, antes de partir, satisfazia este capricho, deixando para ele o resplandecer final do dia. Ou então era Iemanjá que se vestia com seu manto prateado, mais rico que os anéis e brincos de todas as peruas do mundo.

Dalva não via conflito nenhum entre seu amor à Nossa Senhora Aparecida e sua admiração por Iemanjá. Para ela, uma era mais quietinha e bondosa, também Dalva se assemelhava à negrinha quando pensava na mãe e nos sobrinhos do interior. Já “a das águas” era mais altiva e não deixava que abusassem de seus domínios era a Dalva dos namorados e das patroas. Talvez mesmo, Iemanjá e Aparecida fossem uma só, em dias calmos e outros de tempestade.

-Vai ficar olhando aí o mar, é? A senhora não é madame não, querida. Olha a vassoura na mão parada.
-Ah, Damiana já to indo, vem ver que espetáculo este fim de dia.
-Eu tô é doida pra ver o fim do serviço e ainda tem um montão de louça na pia.
-Ihh... Você tá parecendo o povo dessa casa que mora em frente a este marzão e nunca pára na janela. Por mim não precisava de nenhum desses quadros caros aí pelas paredes, bastava colocar uma moldura neste janela da sala e tava pendurada a imagem mais linda do mundo.
-Vamô, Dalva. Chegue de conversa.
-Eu acho que D. Beth só mora aqui por que é chique. Se chique fosse morar em Caxias, ou de frente para um paredão de concreto, lá estaria ela, tomando champagne e convidando a Augusta Pires Leal para um “evento” em Xerém – e voltando a impunhar a vassoura ria gostosamente.

Ao se aproximar de casa, já na escuridão da noite, sentiu um medo inédito ao se deparar com a escadinha que levava à porta do seu barraco, graças a Deus não havia ninguém. Recuperando-se ainda das palpitações, a luz acesa lhe provoca um novo susto, a bala atingiu a santinha que, espatifada, a cabeça ainda coroada ao lado da TV, se espalhara em pedaços pelo chão. O oratório e a parede furados à bala eram um estranho elemento na pequena sala cor de amarelo, para dar alegria, lembrou-se Dalva.

Naquela noite colocou o colchão no chão da sala. Da janela do seu quarto via um pedaço ainda existente de mata, bem no alto do morro e muitos barracos vizinhos. Se esticasse a mão poderia mesmo cumprimentar D. Cleyde em sua janela.

Sempre que queria sonhar dormia na sala, debaixo da janela. Não era possível ouvir o barulho do mar, mas o imaginava enquanto as ondas iam e vinham em sua memória. De manhã seria despertada pelo sol e tudo ficaria bem.
Onde estaria, àquela hora, o barquinho?

10 comentários:

Luciana Nepomuceno disse...

Tudo de encher os olhos, tudo de doer o lábio que muitas vezes mordi, tudo de tocar com intensa beleza e verdade. Como você consegue descortinar o (ir)real assim?

FOXX disse...

super tendência nos blogs agora, postagem com parte 1, 2... né?

Paulo Roberto Figueiredo Braccini - Bratz disse...

adoro sua vertente de contista ... #fato

Rodrigo disse...

òtimo ponto

Edilson Cravo disse...

Maravilhoso o conto Rafa, parabéns belo retrato (real) do Rio e suas vertentes. Abraços e linda semana.

Unknown disse...

Maravilhoso mesmo. Queria tecer uma crítica mais construtiva, mas fazer o quê? Achei irretocável e sou seu fã babão! :-)

Fred disse...

Você é delícia!!! Bonito, maludo, maconheiro e escreve bem???!! Covardia, né? Hahahahaha! Bjz, Rafón!!!

Dan disse...

ahahaha
pronto. um monte de rótulo novo (ou nem tanto) pra vc ai em cima.
ahahah
só o fred mesmo!

ah! to adorando o conto!
=)

Alexandre Willer Melo disse...

maludo? como assim? me diz!!

cara, sem rasgação de seda, tem gente que tem mesmo dom e você, meu amigo, é um deles.

não gostei muito da parte meio 'crítica social' tipo peruas e maridos endinheirados, nem sei se era a intenção mas a mim ficou estranho.

mas isso não remove o brilho desse cotidiano todo seu, que eu amei ter lido!

alguém ae não quer bancar a gente não?

Fred disse...

Agora tô me sentindo naked na tua frente... como faço???? Matamosamagia?????? Hahahahaha!!!! Bjz, maludão!