Depois de perder a conta das figuras estranhas no sofá, Dalva passou a tentar identificar as armas que cuspiam fogo ininterruptamente. Conhecia-as quase todas, só pelo som do disparo, pelo intervalo entre um e outro. Além dos tiros, as pisadas firmes e um número cada vez maior de comandos gritados asperamente, indicavam que Beto Crack e seu bando estavam em apuros.
Dalva não podia negar que o chefe do morro era um moreno atraente. Apesar do corpo esguio de miséria, tinha músculos definidos e um olhar muito firme de quem não pode vacilar um minuto. Olhar de quem sempre espreita algo improvável, mas nem por isso menos perigoso, que conversa vendo fundo nos olhos do outro, mas sem nunca deixar de estar atento ao derredor; além disso, a fama de bom-de-cama, insaciável diziam, e maludo mexia mesmo com Dalva, ela não podia negar. Mas claro que não era louca, nem jovem o suficiente, nem mocinha viciada do asfalto para ir além desse ponto.
Como antes do tiroteio ninguém soltou fogos, a guerra não era contra a polícia, devia ser a facção rival do morro vizinho, agora contíguo à favela. Dalva tinha uma comadre que morava naquela área, chamada pelos jornais de “Faixa de Gaza”, mas que o povo chamava mesmo era de “Faixa de Gases”. Levantando a cabeça por cima do sofá-barricada, riu em meio ao tiroteio: “Pobre é fogo mesmo! Ri até da própria desgraça”.
Pertinho da janela, avistou, de pé, e impassível como sempre, a negrinha. Havia a colocado ali, num oratoriozinho de papel-machê feito pela sobrinha, para que ela pudesse ver o mar. Lembrou-se da outra Nossa Senhora Aparecida, que ficava na cozinha da patroa. Dalva a tinha dado de presente para D. Beth quando foi numa peregrinação ao santuário. A madame adorou, mas como havia já uma Nossa Senhora branca de olho azul na sala, deixou a negrinha nos fundos, talvez para fazer companhia à Dalva e Damiana.
-Dalva, cadê você? Esta Doriana é uma tonta!
-Daminana, D. Beth
-Quê?
-O nome da menina é Damiana
-Ah, pois é... uma tonta. Preciso de você urgente. Você sabe onde colocamos aqueles copos de cristal ?
-Estão no armário da dispensa, na segunda porta.
- E os vasos para as orquídeas, aqueles cumpridinhos? A florista já está vindo e eu disse que tinha os vasos.
-Olha D. Beth, um quebrou.
-Quebrou?Ai e agora?
-Têm dois, além daquele maiorzinho que a senhora colocou o arranjo de copos-de-leite na semana passada. Tá no móvel da copa, embaixo, na terceira porta.
-Dalva, eu preciso de você. Venha já pra cá. Vou desligar que a Doriana pegou as bandejas erradas! Ai ! Estou te esperando.
Quinze minutos depois, o tiroteio cessou. Dalva ajeitou novamente a cabeleira para sair. Ao abrir a porta deu com Quinzinho, na escada, fumando um baseado.
- Já falei que não quero ninguém fumando esta porcaria na minha porta!
- Colé tia?! Fumando um bagulhinho só para relaxar depois do estresse. Os cara fugiram, mas o caveirudo levou ferro, tá mauzão.
-Não me interessa, vamos, sai!
Quinzinho desocupou o degrau e ia saindo, um pivete, doze, treze anos. Já no último degrau se vira bruscamente e tira um revólver, encosta na cara de Dalva.
-Que isso menino! Pelo amor de Deus!
-Tá pensando o quê tia?! Ninguém me esculacha não. Dô logo dois tiro, leva logo ferro na cara
-Washington, eu conheço sua mãe, te vi na barriga!
-Me viu na barriga, me viu na barriga?! Foda-se !! O Caralho! Não vem tirar onda comigo não. Pede desculpa anda, anda porra!
Balbuciando as desculpas em meio às lágrimas, na dificuldade da boca seca e o cheiro da maconha nauseante, Dalva não pode acreditar quando Quinzinho disparou contra a janela. Sem saber o que fazer, já voltando para casa a fim de verificar o estrago, dá meia-volta e segue adiante. Se voltasse, morreria. Não baleada, mas de desgosto. O abrigo intransponível do seu barraco! Seu refúgio, um lar, apesar da loucura de tudo. A casa feita, pintada, mobiliada com tanto trabalho e sonho, foi violada; em algum lugar havia uma bala.
7 comentários:
gostei do final!
=D
Foxx, ainda não é o final... Mas que bom que vc gostou (rs)
E são tantas Dalvas nesta terra, não? Torcendo e aguardando a próxima parte!
hmm. to gostando, to gostando...
CARALEO!!!
Volta Dalva! Amando, sério mesmo! Só não gostei do nome do traficante, Beto Crack, achei meio forçado.
De resto, manda logo os proximos!! VAI VAI VAI!!!!!!!!!!!!!!!!!!
Nao vejo a hora do próximo capitulo....
Sabe o que me aflige. Isso me ser tão familiar...
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