terça-feira, 24 de maio de 2011

Des-costura

As coisas não são, elas se fazem. No princípio era o vácuo. E, então, alguém inventou: homem, mulher, moral, sexo, normal, correto. A partir do primeiro contorno rarefeito de cada uma destas coisas se viu que era necessário mais formas, definir, moldar: mulher-dócil-materna, homem-ativo-provedor, sexo-homem/mulher; a cada laço se reforçava como o “é assim” o que se inventava apenas a cada vez que se contavam casos, histórias, teorias científicas, narrativas sagradas. Cada laço, moldando, ajustando, formando o que, depois, se vê como a identidade sólida e perene de algo. Porque tudo é performance.

Formar-se per, através de, insistindo-se perenemente, e em laços sempre outros a respeito do mesmo. Costura-se, amarra-se de todas as maneiras possíveis, a única exigência é que o tecido seja inteiro, de alto a baixo sem linhas, junturas ou justaposições. É preciso que a costura se perca para deixar que as coisas apenas “sejam”, numa identidade que se produz a cada instante e instância.

Daí o medo dos incautos. Como desafiar um mundo de certezas? Ser homem e gostar de homem? Ser mulher e não jogar as tranças esperando alguma espécie de salvação? Os covardes dirão que é tudo muito difícil e cruel, que as coisas são como são e ponto. O que eles não sabem, ou não querem enxergar, é que as coisas não são, elas se fazem.

A natureza inscrita numa espécie de código imutável a se repetir perenemente, a sociedade como instância que precisa de bases sólidas e homogêneas, protegidas como o interesse maior da humanidade, sancionada pela benção divina que criou homem e mulher. Filmes, livros, discos, “desde que o mundo é mundo é assim” transmitem certezas absolutas e contam com manicómios, exorcismos, alguma permissão temporária no carnaval, normal/anormal e lâmpadas na cara em plena avenida para ajustar os desviantes. Tudo para que o que se faz reiteradamente como condição de se manter, desponte apenas como a obviedade do “desde sempre foi assim”.

O que não se percebeu de antemão é que, cada laço que afirma não se encaixa completamente no anterior, a costura não é perfeita, há espaços, vazios, volumes e fendas não previstas. Porque sendo performance, ser homem e mulher, nunca pode ser exatamente a mesma coisa. Não sabiam disso, não contavam comigo e tantos outros.

Aqui e ali, alargamos as brechas, vemos oportunidades na folga de laços, atrapalhamos, com apurado senso de espetáculo, o fazer-se repetitivo da trama. Retiramos da invisível sombra, o tecer constante do “normal”. Ser homem, ser mulher não é de forma alguma destino natural, mas é o que se inventa disso, e nisso falaremos mais e mais, para escândalo dos opressores e glória dos que sabem ser a vida o que, afinal de contas, importa. Então porque não fazê-la mais ampla e colorida?

10 comentários:

Luciana Nepomuceno disse...

Eu não sei jogar as tranças...

Paulo Roberto Figueiredo Braccini - Bratz disse...

eu a muito tempo já jogo as tranças e tenho dito ...

Rafa! vc anda super inspirado eim? vc tem o dom com as palavras ...

Dan disse...

inspiradíssimo mesmo! Adoro!
bjo

Unknown disse...

Supinspiradíssimo! Eita, que orgulho que eu tenho desses amigos(as) que escrevem (e sentem) desse jeito! Minha total admiração! E meus sapatos desamarrados. Sempre!

Fred disse...

Por que não, né?
Me passa uma dose disso que andas bebendo, please!!!!!
Hahahahahaa!!!!

Atitude do pensar disse...

Ampla e colorida... Posso ficar somente com o colorida?

Alexandre Willer Melo disse...

quando leio aqui, me sinto amplo e colorido..

estás com a inspiração na pele esses dias hein?

FOXX disse...

gente, seu blog não tá atualizando direito ou vc q tem esquecido de mudar o horário e dia q vc escreve os rascunhos? isso confunde o blogroll.

Fred disse...

Gostei que o senhor gostou. Hahahaha!

Lobo disse...

Li umas 3 vezes e ainda me sinto confuso e desorientado. Acho que é algo sobre desafiar a norma social. Acertei? XD

Beijo Rafa! Poxa, fez falta no encontro você!