terça-feira, 26 de abril de 2011

Farmacon

A sua loucura, ela punha-a em potes. Em épocas de tensões hormonais, reuniões de avaliação, prazos de entrega: grandes baldes que se espalhavam pela casa toda, sempre respingando e, por isto, não podia mesmo evitar shots de cachaça às segundas, noites insones com homens que sabia não valer a pena nas quartas. Mas tudo bem, o excesso estava mesmo contido em baldes, panelas e vasilhames por toda a a casa.

Normalmente, no entanto, pequenos potes de requeijão, de antigos perfumes, de outros tantos conteúdos lhe bastavam. E assim passava por uma mulher independente, culta e que já chegou a orgasmos inúmeras vezes na vida, uma mulher “Cláudia” ou, até mesmo, uma fêmea “Marie Claire”.

Até bem pouco tempo tampava com força cada pote, a fim de evitar qualquer emanação de loucura. Queria prendê-la, negá-la, tampando-a à vácuo. No entanto aqui e ali, o cabelo tão amansado de secador e escova rebelava-se em cacho, misteriosamente a saia comportada se abria em fendas e ela em confraternizações de trabalho e happy hours para networking se via dando mole de forma horrorosamente vulgar para os mais reprováveis tipos. A loucura havia escapado.

Hoje, a carrega em ampolas na bolsa. Quando o trânsito vai mal, abre suavemente o vidrinho e aspira: aumenta o som e balança a cabeça como num derradeiro show de Metal. No meio da reunião, metas a serem atingidas, capital a ser conquistado; para escapar à carranca de tédio absoluto que ameaça se formar, passa um pouquinho de loucura no pulso e a cheira como um perfume; então, enquanto se decifram os balancetes do ano anterior, desce a mão discretamente, apalpa as próprias cochas, vasculha o interior da saia sentindo a suavidade do tecido que roça sua pele em arrepio e chega, em brevíssimas investidas, na fonte úmida de seu prazer.

Ontem bebeu um vidrinho inteiro e, diante das preocupações do chefe sisudo, riu solta e deliberadamente, pegou suas coisas e, antes de bater a porta com estrondo, jogou, como uma bóia a um náufrago, um pote médio de loucura no colo do patrão com o rótulo: Consumir todo. Acredite, você precisa.

13 comentários:

Anônimo disse...

Legal !! Em doses assim, seria ótimo !!

Fred disse...

Preciso?
Será?
Hahahaha!
Ótimo isso, Rafão!
E a cueca era só pra ti.
Juro.
Hahahaha!

Wans disse...

Caralho, Rafa. Estais me saindo um ótimo contista.

Bj, na boca.

Edilson Cravo disse...

Maravilhosoooooooooooo...amei.
Linda semana. Abraços.
Obs: Vc escreve coisas deliciosas.

Luciana Nepomuceno disse...

Medo muito medo deve seu dom adivinhatório. Esqueceu dos saquinhos tipo zip-lock, também muito em gosto...

Unknown disse...

Realmente um conto delicioso. E tá distribuindo beijo na boca é?

Alexandre Willer Melo disse...

disse e repito: amo esses comprimidos de realidade desenhada seus!

FOXX disse...

vende onde essas ampolas?

=D

Lobo disse...

Queria poder guardar a minha loucura em potes.

A minha vida e a de muita gente ia ser muito mais feliz.

Beijo Rafa!

Dan disse...

que delícia rafa!
otimo texto.
vende onde essas ampolas?²

Paulo Roberto Figueiredo Braccini - Bratz disse...

Fantástico! e o Rafa vai se revelando um grande contista ... amei amei amei!!!

Atitude do pensar disse...

Estava me lendo nas linhas, no trânsito minha imagem coloriu em suas palavras, mas quando cheguei no final...ops, isso não.
A loucura tem sido "boa" companheira.
Boa, no sentido de acompanhar-me a tempos...

Unknown disse...

Por que só o Wans ganha beijo na boca, tb? Tb quero!!! :-)