segunda-feira, 13 de junho de 2011

Manhã preguiçosa

A greve dos professores da rede estadual me liberou do estágio hoje. Nada de acordar as seis da matina. Tempo pra fazer o café do namorado e manhã livre. Arrumo um pouquinho a casa, faço mais uma garrafa de café e sabe o que "encontro"? Um baú cheio de meus textos: coisas curtas para o blog, contos, outros contos ainda maiores, coisas inacabadas, páginas revisadas e em estado bruto.

Este brevíssimo aí em baixo foi uma das primeiras coisas que postei no blog. E tem tanta coisa mais! Ah, se eu pudesse, se meu dinheiro desse, eu queria ser mesmo era escritor.

"Prezada A.
Ontem, enquanto o estrondo da porta batida ainda ecoava pelas paredes brancas e nuas do apartamento, tive o impulso de correr atrás de você. Mas não fiz. Descer os dois lances de escada, ofegante, tonto, com a sua última e certeira frase a girar em mim como num looping interminável, e ir procurar-te assim, não nos faria bem. Pensei que hoje, talvez te achasse no metrô, estação Carioca, de blusa azul e cabelo num corte que ficaria esquisito para o seu rosto, como da primeira vez. Ou em qualquer outro lugar que nesses quatro anos freqüentamos religiosamente. Mas também decidi não ir.

Estou aqui, sentado à mesa posta para dois, esperando o empadão de que tanto gostas assar e acompanhado só pela flor que detestastes, mesmo com o meu argumento invencível à época: “é de plástico, não morre.”.

Resolvi escrever-te. Não mandar um email que é coisa muito comercial e moderna, como somos ambos. Mas mandar-te minhas palavras, nossos momentos, com a minha letra. Eu mesmo numa caligrafia, impresso num papel de carta. Nem sabia que ainda existiam, desci agora a pouco e comprei um bloco. Mas escreverei esta única carta, talvez numa única folha. A verdade é que não sei se quero que voltes. Ontem quando a porta bateu era tudo o que eu mais queria na vida, que voltasses, arrependida, carinhosa, humilhada e depois de uma trepada nervosa e rápida instalar-se-ia novamente o cotidiano das coisas, aquele tão próprio de nós dois. Mas ter passado a noite só, iluminado porcamente pelo Néon do bar aqui em frente, já que a porra da persiana emperrou mais uma vez, me fez pensar.

Por que nos agarramos um ao outro de forma tão desesperada e inútil? Pelas ilhas de descanso aos Domingos à tarde quando todas as ofensas, injúrias e mesquinharias já foram ditas ao longo da semana? Vale a pena morrer de sede de ti para saciar-me em oásis repentinos e breves quando a tua amargura adormece e o meu cinismo e cansaço de tudo se distrai? 

Não sei se reflexões etílicas, a meia garrafa de um uísque vagabundo, feitas ao ritmo de uma música incompreensível qualquer vinda da rua, mas suficientemente ruim para ser percebida logo como tal, são confiáveis. Mas a questão é que, quando tudo começou a perder seu aspecto soturno, porque sempre me parece que a noite nunca vai acabar, e eu vi as primeiras claridades, pensei que, de fato, nós precisamos um do outro, mas não ficaremos juntos.

É injusto precisar desesperadamente de alguém só para confirmar o quanto a vida pode ser sem sentido e o quanto estamos certos em não nutrir mais nenhum sonho. Você me recorda a todo instante, não pelo que diz ou faz, mas por ser isso que você é, que não vale a pena mesmo muita expectativa, que o melhor é se acostumar, viver uma vida em horário comercial, pedir uma comida qualquer por delivery, e se emputecer com as atendentes de telemarketing ao telefone.

No entanto, caramba, o sol nasceu de uma forma tão absurda e original esta manhã que me fez pensar que algo novo pode estar prestes a irromper. Não é que não te queira mais, mas acho que não podemos fazer isso um com o outro. Vou tomar um banho, sair, ver o mar. Se esta carta chegar até você, amanhã ou depois - estás na casa da tua mãe, né? – te peço, por favor, não voltes.

Com Carinho, N.

11 comentários:

Fred disse...

Beijos no "meu" namorado?!!!! Sua bisca filosófica... hahahahaha!!! Se te pego... grrrrr... vais ter que usar o fio dental que te comprei, tzá????? Hahahahahaha!!!

Jean Borges disse...

A carta é linda, mas, os dois últimos parágrafos resumiram bem o que preciso dizer para uma pessoa que tb não qro q volte...Abraços!

S. disse...

ai, vc devia mesmo, como devia... ser escritor.

FOXX disse...

eu já disse que os textos que eu mais adoro qndo fala sobre namorados são esses que narram coisas do dia-a-dia a dois? =D

Unknown disse...

Queria um livro de você + Melo, intercalados. Ah, como eu queria! Até lá, agradeço pelos textos "di grátis"!

Luciana Nepomuceno disse...

Você passou lá e disse que estamos em sintonia. Eu diria mais: sintonia fina, simbiose, sei lá quê mais que faz com que tau caneta escreva minhas letras. te amo, tanto. Você já escreveu (inscreveu-se) no meu coração. Bjs

Fred disse...

Porra, Rafa... tirei as fotos, de manhã ainda com direito a ereção/tesão do mijo e na hora de te enviar... PUTZ... não tenho teu mail. Foimalz!!!! Hahahaha!

Lobo disse...

Penso que deve ser legal encontrar essas coisas perdidas no tempo. Mas e a preguiça de fazer um baú para essas coisas? É tudo papel, muito papel, perco tudo hahaha

Beijo Rafa!

Leandro Faria disse...

Tão bom acharmos coisas esquecidas em páginas, pastas e baús, né?
Que bom que compartilhou!
www.confissoesaesmo.com

Dan disse...

namorado?!?!

adorei o final querido. como sempre!
bj

Alexandre Willer Melo disse...

já disse: vamo abrir nossa editora com apoio dos habitantes de BV....que achas?

não quero ser, como você, eu sou escritor!