Eu já quis você em meus braços em tardes de domingo embaladas com sol, cerveja e amigos quando, aqui e ali, riríamos bobos de coisas que só nós saberíamos.
Já te quis como o ombro que não falta, o abraço que aquece e as mãos sempre dadas no cinema.
Quis te levar em almoços de família, em churrascos de colegas, te desejei expor em públicas manifestações, porque nosso amor seria motivo suficiente para desafiar todas as nossas próprias covardias, pelo menos, as mais complacentes com a caretice absurda do mundo.
Eu também já te quis apenas esta noite, enquanto a música está alta e a bebida faz efeito. Te desejei em fogos breves, na exata duração da tua boca em minha nuca, meu peso sobre o teu, enquanto minha sede não se encontrasse satisfeita em teu corpo másculo, no teu pau rijo.
Eu te amei de longe e no mais perto, para sempre e só por um instante ao saber de tuas belezas e medos mais sutis e sem nem ouvir teu nome.
E agora?
Falta-me disposição para me encantar contigo. Em cinco minutos de conversa me vêem trezentas opções melhores para se fazer àquela hora do que estar em teus braços.
Tudo que te interessa me parece já visto: teus sussurros são ecos de tantos outros, tuas percepções de mundo, compradas em bancas de jornal em qualquer esquina.
Teu amor reciclado me dá ânsias de vômito e tuas promessas e declarações se desfazem no ar, são um sopro, duram a medida exata da mesma voz que as pronunciou e depois, o vazio.
O que fazer num mundo de desertos? Pegar o que é seu, pôr ao ombro seu fardo e continuar caminhando. Estender o abraço aos amigos, perfurar com dificuldade e obstinação seu próprio poço e beber da sua água, satisfazendo-se, dando-a aos outros, saciando sedes, mas sem dar-se.
Até que você apareça, até que surjas tu que me capte num sorriso e vença meu olhar experiente de tudo já ter visto, com um brilho novo.
Até que as palavras se calem, as lógicas sejam vencidas e, num gesto absolutamente consciente e livre, eu abra a minha porta e, sereno, diga: Sê bem-vindo.
Por ora, meu ceticismo pergunta: Acaso você existe?
14 comentários:
Tomara que exista! Adoro quando o ceticismo quebra a cara :) Brincadeira !!
Não existe. Mas a gente inventa. Que bom te ler, meu amor. Você me diz de uma forma tão perfeita que dá até preguiça de escrever-me. Acho que vou viver de Ctrl+C...
PS. Já é setembro?
"nosso amor seria motivo suficiente para desafiar todas as nossas próprias covardias"
atualmente a covardia vem daquele que quer e nega, daquele que vai além e recua, daquele cujos medos estão atrelados a péssima atitude de não acreditar!
pois sim... lendo seus relatos você demonstrar querer acreditar e assim sendo, ele existirá.
Bjo imenso e feliz de ler-te hoje!
"...pois já não vales nada, és página virada, descartada do meu folhetim!"
Como sempre um texto irrepreensível!
já te disse que adoro esses recortes que fazes?
Existir existe. A verdadeira questão é: Será que isso tudo é preciso? As vezes conseguirmos encontrar felicidade e satisfação nas coisas mais simples e sutis, não nas mais intensas. Mas devo concordar que um pouco de intensidade, como a descrita, não faria mal a ninguém. XD
Bjs
Em parte de seu texto lembrei da música "Avesso", de Jorge Vercillo.
Mas, realmente, percepções de mundo compradas em banca de jornal é deprimente.
Não há amor que resista. Ou exista.
www.meioameioblog.blogspot.com
Amores são quase todos iguais... Com o tempo perdem a graça, se a gente não fuçar bem, e encontrar algo novo contido naquele lugar ainda não visitado, vagarosamente ele deixa de existir!
Muito bem Descrito!
Abç!
Rafa, doeu aqui dentro. É tão minha alma.
Agora, se existe, quem sou eu para saber - mera mortal. E por isso cabe a mim apenas acreditar que os sorrisos, mãos e abraços chegaram...em outro corpo, outro tempo. E quem sabe até num outro eu.
Beijocas,
ah! tenho certeza q vc ainda vai quebrar a cara ... e como!
Para todo ser existe alguém assim. Espere e verá.
bjaço
Hellooooooooooooooou!!!
Sim. Existo.
Tô bem aqui.
Hahahahahahahaa!!!!
Feliz Páscoa, gatucho! Bjs na ponta... do nariz!!!!
As-tu dejá aimé? (Tradução)
Você já amou pela beleza do gesto?Você já mordeu a maçã com todos os dentes?Pelo sabor do fruto,a sua doçura e seu gesto Já se perdeu algumas vezes?
Sim, eu já amei Pela beleza do gesto.Mas a maçã era dura,e quebrei os dentes.Essas paixões imaturas,esses amores indigestos Deixaram-me mal disposto algumas vezes.
Mas os amores que duram Tornam os amantes exaustos E o beijo deles demasiado maduro,Apodrece-nos a língua.
Os amores passageiros,têm febres fúteis E o beijo demasiado verdeesfola-nos os lábios
Porque ao querer amar pela beleza do gesto,O verme da maçã escorrega-nos entre os dentes Ele roe-nos o coração,o cérebro e o resto. Esvazia-nos lentamente.
Mas quando ousamos amar pela beleza do gesto,Esse verme na maçã que nos escorrega entre os dentes Toca-nos o coração, o cérebro e deixa-noso seu perfume lá dentro
Os amores passageiros,Fazem esforços inúteis. As suas carícias efêmeras,Cansa-nos o corpo.
Os amores que duram
Tornam os amantes menos belos.As suas carícias usadas
Dão cabo de nós.
claro que sim... né possivel, né amor?
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