Uma imprensa livre é, sem dúvida alguma, uma das prerrogativas irrenunciáveis da verdadeira democracia. A liberdade de investigação, de expressão e o direito à informação ajudam a sociedade a estar mais atenta ao que nela acontece, especialmente nos âmbitos mais impenetráveis dos jogos políticos e das grandes decisões econômicas, possibilitando o debate a respeito das questões que em última instância afetam a todos.
Em nome desta prerrogativa tem se construído e alimentado, no entanto, um mito vergonhoso, o de que a mídia é imparcial e expressa por si só a opinião pública brasileira, funcionando como a consciência ética nacional.
A imprensa não é observadora isenta das disputas pela hegemonia da verdade dos fatos na sociedade, mas ela mesma atua no sentido de fazer prevalecer sua interpretação, ela também tem uma posição específica e demarcada na luta por produzir o que é a verdade. E quanto a isto não há problema algum, desde que esta posição não fosse ocultada pelo recurso à imparcialidade, à uma objetividade inexistente, não há fatos, só interpretações.
Neste sentido, por exemplo, fiquei envergonhado em duas ocasiões recentemente. Na semana do segundo turno das eleições, a revista Veja, publicou uma “pesquisa fotográfica” com a qual queria evidenciar por uma série de paralelos fotográficos entre Fidel Castro e o Presidente Lula que este último copia o primeiro, deixando implícito que há um mesmo desejo de perpetuação no poder. Os paralelos fotográficos são forçadíssimos, para se ter idéia, um deles são os dois de óculos escuros e a legenda denunciando: “Fidel Castro põe um par de óculos escuros em 1999, dez anos depois, o presidente Lula faz o mesmo” (!). Num quadro à parte a reportagem fala que os grandes gestos ensaiados na política contemporânea começaram com Hitler e que este alcançou 90% de aprovação dos alemães no início. Ou seja: Cuidado com toda esta aprovação popular ao governo Lula que é a base para o sucesso da então candidata Dilma. Isto sem falar na capa da edição que trazia a pergunta: “Ele sairá da presidência, mas a presidência sairá dele?”. Seria bem mais honesto por parte da referida publicação fazer como a revista Carta Capital que, logo no início da campanha, declarara seu apoio à Dilma explicando suas razões para tal.
O outro episódio no qual fiquei escandalizado com a reação da imprensa foi a recente operação das forças policial e militar no Complexo do Alemão. A imprensa tratou a questão como se fosse a batalha apocalíptica final, saudando uma re-fundação da cidade do Rio, com fotos breguíssimas de moradores fazendo o símbolo do coração com as mãos e como se, naquele dia, todos os problemas de violência na cidade estivessem resolvidos.
É sem dúvida nenhuma uma vitória importantíssima o que aconteceu, mas a questão é que as comunidades ocupadas pelo poder público representam 3% de todas as 1.000 comunidades existentes no Estado do Rio de Janeiro. 47% destas são dominadas pelas milícias num esquema onde é muito mais difícil separar “mocinhos de bandidos” como se fez no Complexo do Alemão, porque as milícias são formadas pela banda podre da própria polícia.
O combate a violência no Rio passa pela reestruturação da forças policiais, com punição dos corruptos e valorização, inclusive dos salários, dos policiais, pelo combate ao contrabando de armas e drogas e pela constatação de que o traficante do morro é o elo mais baixo da cadeia da droga. As mansões do tráfico, com certeza, não são as mostradas no Alemão com piscina e hidromassagem,as que mais importam se encontram em áreas bem mais nobres da cidade do Rio e do Brasil.
11 comentários:
Menino, que beleza de post: MA-RA-VI-LHA! Fico toda paba de dizer assim: tá vendo isso aí que o Rafa escreveu? E ele é meu amigo (porque, né não posso colocar no lattes mas posso me gabar). Aliás, fofo, minha caixa de correio vai morrer de inanição...mas se por caso tiver pensando em uma cartinha de Natal (sutil, não? pareço um elefante) me avisa que vou te dar outro endereço. Bjs
Rafa, eu não dô a mínima atenção para o que a veja escreve. Ela á partidária e maniqueísta. Prefiro ler outras coisas.
bjs
Pois é! Que bom que existem os blogs e afins pra gente tentar se esclarecer de verdade. Mas e quem não tem acesso? Esses, pelo jeito, têm o feeling... e já não se enganam tão fácil.
#Vergonhaalheia ... Imprensa de um modo geral é tão somente um negócio ... comprometida até os tampos com o poder do capital ... entonces ...
Imprensa para mim é o q vc faz aqui ... parabéns ...
;-)
a Veja realmente força a barra! aquilo não é jornalismo, aquilo não é uma revista, é um pasquim, um tablóide, um fanzine.
O lugar das liberdades, de expressão, de imprensa, será a grande discussão que ainda teremos que travar.
é por isso que eu só leio a Vogue
hahahahahahaa
Narcisa Feelings
bejos, gatão
Quando eu sonhei em ser jornalista, eu tinha a vontade de ser imparcial e dizer apenas os fatos como são. Foi então que eu aprendi que a imprensa vende o que os anunciantes querem, ou o que os "donos do poder político e econômico ditam". E como diz o Braccini, o jornalismo real é este que vc está fazendo. Eu já havia conversado com alguns amigos, o Lobo inclusive, e ele havia me dito que não era aquilo tudo que a mídia mostrava.
Bjs
É! A Veja, em matéria de política, não merece nenhuma credibilidade. Realmente é partidária e nem se preocupa em esconder isso.
Como profissional de comunicação, vejo isso acontecer em veículos menores aqui no interior, descaradamente... Triste!
Sou completamente a favor da liberdade de imprensa, óbvio, mas que o jornalismo seja tbém imparcial e idôneo.
bjo rafa! sempre adoro vir aqui!
Mto pertinente sua postagem! Há qto tempo assistimos passivamente à manipulação das informações? As pessoas precisam desenvolver um senso apurado e depurar a informação, extrair dela aquilo q mais parecer próximo da verdade. Infelizmente a isenção da informação esbarra nos interesses de gdes empresas e gdes negociatas. Quem mais perde é o povo q sempre é manipulado. Ótima semana e abraço!
sinceramente? acho que os receptores andam muito inocentes. acreditam em tudo que leem e ouvem.
a culpa não é só da imprensa. ela não pode ser imparcial - ninguém é! a função dela é deixar clara sua posição para que o público tire suas conclusões.
mas o público é burro demais.
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