sexta-feira, 18 de junho de 2010

Descompasso... Desatino

O menino percebeu cedo que não se encaixava. Diferente dos seus brinquedos de montar, o módulo que era não se acoplava em nenhuma peça até então conhecida. E sabia como peças soltas se perdiam facilmente. Telhados triangulares de fábricas de tijolinhos, uma parte do nariz de palhaço do quebra-cabeça sumiram, para nunca mais voltar. Não era possível haver coisa pior do que não se encaixar.

Vez por outra, viu seu pai fazer força, muita força até que a hélice finalmente compusesse parte integrante do helicóptero. Também sua mãe forçava, de quando em vez, uma parte qualquer de um eletrodoméstico, até que este funcionasse como prova irrefutável de sua bem encaixada inteireza. E assim, o menino foi se forçando pela vida.

E o melhor de tudo é que havia sempre situações, esquemas, propostas pedindo novas peças. E se era para se acoplar que fosse a algo grande, definitivo, eterno. Assim o fez. Diferente de qualquer lego que um esbarrão derruba, pensou que se encaixar em Deus era a melhor coisa a fazer. Aquilo que garantiria para a eternidade a sensação reconfortante de “fazer parte”. E aí, o menino sorriu sorrisos ensaiados, repassou teorias prontas, tinha a resposta para qualquer pergunta, porque o universo inteiro, todas as ambivalências, sonhos e afetos tinham um lugar, um escaninho rotulado e perfeito para ser transmitido com a naturalidade de quem conseguiu decifrar em fórmulas tudo o que a vida pode ser.

O menino não era medíocre, nem falso. Realmente ser conhecedor dos códigos e detentor do segredo da existência foi sua salvação durante anos. Até mesmo o desconforto, a sensação de não pertencimento, que o acompanhara desde sempre, ganhavam nomes pomposos e honras celestiais. O menino então vestia-se como se esperava, falava o que condizia com o que era e parecia ser a encarnação perfeita da função que desempenhava. E isto lhe dava um lugar no mundo, um ponto no tempo-espaço a partir do qual olhava o universo inteiro calculando geometricamente distâncias, régua e compasso para tudo.

Um dia, batem à sua porta. E ele que sempre desmascarara o inesperado nos outros, cobrindo-o de nomes conhecidos e teorias familiares percebeu que não era um outro que ali estava. Atrás da porta, estava ele mesmo, mas não etiquetado, não confortável. O incômodo descompasso continuou batendo até que seu som foi, aos poucos, arruinando as harmonias serenas de tudo na vida do menino. E o que eram as altas paredes, os janelões de toalhas ao vento em dias de sol aprazível, revelou-se cenário, realidade fake de filme ou novela, dos piores.

O menino sabia que seu mundo acabara ali. Que não mais haveria possibilidade de uma realidade inventada, mas crida como verdadeira. Seria preciso vender beleza a quem olhasse para ele, enquanto no seu interior, tudo estaria em ruínas.

E foi então que, por sua conta e risco, o menino aceitou sua estranheza e descompasso em relação ao que, ordinariamente, chamam “vida”.

E neste momento, o menino tornou-se homem.

****
I MEDDIETOPEBCS - É AMANHÃ UHUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUU !!!!
Dia: 19/06 (Sábado)
Horário: 16h
Local: Cafeína (R. Farme de Amoedo - Ipanema)

12 comentários:

Mauri Boffil disse...

Mauri acendendo um cigarro, cruzando as pernas, tragando e olhando para o menino ao lado da porta.
Mauri:"Então, você virou um homem".
(Desculpa a desconexão, mas a última frase tinha que remeter aquele filme da Kathleen Turner)
Ai, é amanhã... e nem vou -sad

FOXX disse...

parabéns ao menino !

=D

Paulo Roberto Figueiredo Braccini - Bratz disse...

Menino Rafa ... este seu post me levou a fazer uma retrospectiva de toda a minha vida e como me identifiquei com o seu "menino" ...

"O menino não era medíocre, nem falso. Realmente ser conhecedor dos códigos e detentor do segredo da existência foi sua salvação durante anos. E isto lhe dava um lugar no mundo, um ponto no tempo-espaço a partir do qual olhava o universo inteiro calculando geometricamente distâncias, régua e compasso para tudo. Um dia, batem à sua porta.Atrás da porta, estava ele mesmo, mas não etiquetado, não confortável. O menino sabia que seu mundo acabara ali.E foi então que, por sua conta e risco, o menino aceitou sua estranheza e descompasso em relação ao que, ordinariamente, chamam “vida”."

O que comentar mais disto a não ser aplaudir de pé por este primor de reflexão ... assim foi a minha vida e sou grato a ela por isto e, claro, também a vc, por ter me proporcionado este momento de grande emoção e auto reconhecimento ...

bjux querido

#inveja absoluta de vcs amanhã ... mas em outro eu irei ... palavra de bloGAYro [rs]

;-)

Dan disse...

Virar homem tinha mesmo que ser difícil. E penoso. Aceitações e despreendimento fazem parte.
bjo Rafa!

Dan disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Anônimo disse...

E que homem!
E que homem!
Hugzzzzzzzzzzz!

Non je ne regrette rien: Ediney Santana disse...

nem medícre e nem falso ...era um menino

Visão disse...

Esse menino poderia ser eu. Estava me elndo em cada palavra. profundo e interessante. E fico feliz que o menino tenha se tornado um HOMEM.
Bjs

AD disse...

Verdades codificadas são o refúgio para todos aqueles que têm medo e transpor esta barreira é com certeza a prova de tornar-se homem.

Rodrigo disse...

Cara, que texto, hein...

Pena não estar no Rio, adoro o Cafeína e adoraria discutir mais sobre esse texto e muitos outros contigo.

Bom final de semana e aproveite bem teu sabado!

beijo pra ti.

O+* disse...

Perfeito e delicioso com o conhecimento dos detalhes.

;-)

Don Diego De La Vega disse...

Tornar-se um homem é difícil até pros caras héteros. Maturidade, segurança, saber lidar com sentimentos....

Pra nós então, naturalmente mais sensíveis...

Ainda bem q esse menino se encarou logo, e não quando já tinha 63 anos de idade e o peso dessa descoberta poderia ser pior do q ele imaginava....