quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

O deus das minhas incertezas

Não sei se são as cinzas dessa Quarta, ou algum efeito deletério da leitura de Proust, mas assim, sem mais nem menos, depois do café pós-almoço me encheu a boca a letra de uma antiga canção religiosa. Sem nem perceber comecei a cantarolar, abriu-se o portal e eu me vi transportado a um mundo de afetos pungentes, tantas vezes experimentado em momentos de oração, tardes de partilha, encontros com aqueles que experimentavam a mesma fé, o mesmo desejo, a mesma vida que eu.

Mundo esse que não é mais possível. Algo assim como o encanto de uma infância doce, de uma tarde no sítio do avô. Passando por uma estrada de interior qualquer, súbito um cheiro fresco de fruta te lança aos pés da imensa mangueira onde a gurisada azucrinava o juízo de todos, com pés de barro e sorriso fácil; um ínfimo daqueles sons, cheiros, desaguam uma emoção revisitada e quente em seu peito, ainda que com o selo do irreversível, do que já foi.

Foi isso que senti. Espasmos de um cristianismo bom onde a fé era amor e esse tinha a concretude de pessoas queridas nas lidas diárias, as minhas e as delas que eram, ainda que de formas tão diferentes, as mesmas batalhas. Saudades de um deus sem mistério, à mão que organizava um mundo pronto, feito, lúcido. Deus ou alegre criação das minhas inseguranças não importa, para mim, que caminhava então ainda mais trôpego que agora, ele era certeza e aconchego.

Agora sei que não há garantias. Que qualquer arrumação feita está à espera da próxima ventania. E que isso não é mau, é só mesmo a vida e, sendo assim, há de se encontrar a poesia possível em meio a tudo. Nascentes e poentes, risos amigos e mãos estendidas, mas também a sombra, a dor e o sem-sentido. Talvez deus esteja mais pra lá, seja essa espécie de insistência que faz brotar gramíneas verdes em dobras de cimento, uma certa teimosia da vida diante do imponderável que nos faz, sem saber muito bem o porquê, nem o como, simplesmente seguir adiante. Não um deus-à-mão, mas o princípio-esperança de que no derradeiro fim, e antes disso pouco a pouco nas pequenas delicadezas dos dias, se dê a completude do nosso mais humano desejo.

Será?

8 comentários:

Paulo Roberto Figueiredo Braccini - Bratz disse...

Belíssima reflexão querido ... O seu SERÁ traduz a minha eterna esperança de que a nossa completude, apesar de tudo e de todos poderá ser atingida.

bjão querido

Anônimo disse...

Que lindo Rafa!
Seu texto me pegou em cheio hoje.
Imagino cada cena que você contou. Assim também tive um Deus do amor, mas que por algum motivo me roubaram.
Fiquei anos longe dele, sem entender suas razões. Mas hoje me reaproximo dele. Um novo olhar sobre Deus. Um Deus de amor verdadeiro. E incertezas também. Mas tenho fé nas pessoas. Tenho fé em cada momento mágico da vida e vivo. Sem medo. Porque minha única preocupação é ser feliz. E tenho certeza que a dele também.
Saudade de você e obrigado pelo carinho de sempre.
E as melhores energias para você meu amigo.

Daniel Henrique

Luciana Nepomuceno disse...

eu nunca tive a espiritualidade, a entrega, o conforto. Mas tive sonhos, amigos, lutas. E beleza. E amor. E sinto essa saudade assim, feita não da vontade de viver de novo, mas pela ternura pelo que foi.

Fred disse...

Só digo uma coisa depois "disso tudo": Rafa para Papa! Papa Coração de Leão. Juro que me convertia... e até ajoelhava... pra rezar, claro... hahaha!
Maravilha de texto. Saudades de tu! Beijos. Fui!

FOXX disse...

não entendi... o senhor foi padre, pq se surpreendeu tanto com esse afloramento?

Fred disse...

O marido me despreza, o Rafão me despreza... que me resta? Hahahaha! Vem cá que te incluo na minha dieta somente à base de "coq" - sem "vin"... hahahahaha! Bjos!

Anônimo disse...

Rafa !
Bem legal o texto, me identifiquei também ...
Bom finde !! Super abraço !!

Fred disse...

Isso! Me "xera"... mas me xera todo que faz tempo que não ganho atenção do meu Rafão! #sentido! Hahahahaha! Bjos, gatão! Procede a fofoc... ops, digo, informação de que estás solteiro, HEIN????? Hehehe!