Qual o limite da nossa agência? Da nossa capacidade de fazer diferente, de realizar algo de próprio, expressão do pessoal, sem bula, receita ou amarra? Ou somos só repetidores de fórmulas e regras sociais iludidos por um toque de tempero qualquer que chamamos de “autenticidade” e não passa de um: “Parabéns! Você tá reproduzindo direitinho o que tá aí à mão”. Dá para a gente pegar essas estruturas todas que nos conduzem pela vida que nem gado na fila do abatedouro e revirá-las, distorcê-las, usá-las a serviço do nosso desejo? Desejo é autêntico ou só uma naturalização do condicionamento? A gente dá o nome bonito de pulsão para algo que nos foi enfiado goela abaixo?
Essa questão tem me rondado nos últimos tempos. Volta e meia encarna-se em diferentes perguntas, espraia-se em inúmeras conversas, emerge de múltiplas áreas da vida. No campo profissional, eu decidi há alguns anos bancar o meu desejo e vivo as delícias e agruras disso, com aquela sensação de que, no entanto, tudo tem valido a pena, sim, a alma não é pequena, não é, meus caros.
As relações. Tenho clareza absoluta que as mais incríveis pessoas da minha vida são os amigos. Amo minha família, reconciliei-me com nossa história, mas aqueles que podem partilhar o pão do dia-a-dia, andar ao seu lado pela longa estrada, mesmo com pés cansados e fôlego arrastado, mas ali, lado a lado, são os poucos e bons amigos. A esses, devoção incondicional e cervejas em mesas de bar, quer nas noites sombrias ou em tardes cheias gargalhadas.
Agora, quanto a isso que inadvertidamente, chamamos simplesmente de “amor” e que supõe o outro, ou a outra, que, de um estranho em ato se vai transformando em pessoa privilegiada de sua intimidade física e existencial, aquele a quem você permite os acessos não abertos de tantas instâncias e esferas ou que ele as toma na paixão, ou se lhe é dado na confiança ou carência, quanto a esse não sei. Desconfio, e cada vez mais, que o modelo que prescreve o fechamento sentimental, sexual, da vida, exclusivamente em par, a dois,, é feito para não dar certo, fábrica transloucada de neurose e culpa. Onde ao final se pergunta “Quem errou? Quanto?”, talvez, o errado seja contar com o “para sempre” implícito como promessa, ainda que não dita, em tal modelo.
A questão é: Dá para fazer diferente? Qual a nossa capacidade em construir relações nas quais o amor, o sexo, o desejo não sejam cercas dispostas a furtar o melhor do outro em proveito próprio, sobre a desculpa de também se furtar à vida, aos outros? Chamamos isso de “amor” e continuamos a habitar suas fronteiras, a habitar dentro, sem nunca deixar de espiar o “lá fora” como perigo ou promessa? Ou dá pra fazer diferente?
Não sei, mas essas coisas tão aqui: borboletando, borboletando...
3 comentários:
Gente, não esperava que esse texto terminasse discutindo monogamia... olha, na minha opinião, acordos precisam ser cumpridos, se duas pessoas acordam que serão exclusivas, ok, mas se elas chegam a um consenso de que podem haver outras pessoas na relação também está tudo bem. Cada um sabe o que pode lidar, não é? Ser monogâmico somente porque a sociedade impõe, repetindo um modelo sem pensar sobre ele é que é errado
belo texto, mesmo com o fim surpreendente! fiquei com vontade de ler mais reflexões! abs
Querido, meu livro saiu. Você me ajuda a divulgar? http://vidaeaids.blogspot.com.br/2014/11/lancamento-o-segundo-armario-diario-de.html
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