sexta-feira, 21 de maio de 2010

Conto inútil de Outono

Ele sempre enxergou a vida torta. Como se fosse acometido de uma patologia única, que não dói, não progride, apenas não oferece nenhum descanso, nenhuma consolação. Um vírus que lhe faz saltar aos olhos a infinita distância entre desejo e realidade. Por, também olhar torto para as pessoas, percebia-lhes as incongruências, adivinhando suas mesquinharias.

Um olhar de raio X capaz de se infiltrar por todas as camadas de maquiagem, posição social, alegadas boas intenções e captar-lhes só o humano: mofado, verminoso, fétido lá dentro, seja onde fosse este “lá”. Por isto não tinha esperanças, não se congratulava em copas do mundo, não dava pêsames em enterros. Vivia uma vida como planta, respirando, alimentando-se, se fosse possível, faria até fotossíntese. Sem desejo, sem aspirações, total e completamente entregue ao momento, sem esperar futuro, nem recordar passado. Quase um budista sem meditação, dharma ou karma. Muito menos nirvana, ao qual experimentava, no entanto, em fragmentos esporádicos, ao lhe, finalmente, sair o cocô do cú, à primeira mordida que satisfaz a fome, ao enfiar o pau em qualquer coisa ou pessoa. Sensações, eis o nirvana. O mesmo do cão sedento diante do pote d’água ou do doente que começa a sentir o efeito analgésico do remédio.

Viveu anos assim, até que, num dia de Maio, levantou-se. Urinou em fortes jatos, nirvana. E aproximando-se da janela, percebeu como a luz incidia oblíqua sobre tudo àquela hora. Ouviu um piar, soprou alguma leve brisa. Teve o conhecimento exato de que ninguém no mundo inteiro percebera. As pessoas passavam indiferentes, ocupadas, com sacolas, chegavam rarefeitas suas vozes ao terceiro andar. Ninguém soubera. Foi então que, estremeceu e com o olhar embaçado, não torto, aceitou: a vida.

6 comentários:

RAFAEL disse...

Fala xará...

Pretendo chegar daqui a 20 magro...rs rs rs...

Muito bom seu texto...conheço alguem muito parecido com oq descreveu...mas o pior que não aceita a vida, nem as pessoas...vive sozinha.

abração e bom fim de semana.

Lobo Cinzento disse...

Acho que todo mundo conhece alguém meio assim... as vezes é até um pouco assim e não se dá conta.

A vida é feita de pequenos nirvanas... mas nem por isso abstrair de todo o resto resolve alguma coisa.

Beijos Rafa!

Guy Franco disse...

Vida? Preguiça de vida. Como é o nome daquela mulher? Aquela que tinha preguiça da vida também, a ucraniana? Me lembrei dela.

S.A.M disse...

Sera que o Guy esta falando de Clarice acima?

a POPROSITO adoro ela!

Tem muita gente assim por ai...

P.S.: Quando estiver ok o DC me avisa viu?
Abração! ^^

Mulher Asterísco disse...

;-)

Supimpático como diria o Edu!

Bora pra festa da Hello?
bjs

Anônimo disse...

Olha que coincidência! moro no 3 andar! e como ainda tenho alguns dias de Maio pela frente, vou prestar mais atenção quando for ao banheiro...

Ótima semana para tí.