Então, a coisa funciona mais ou menos assim: Você sente vergonha, ou medo, acha-se frágil e não amado o suficiente, e para se proteger da dor, empurra esta experiência original desagradável para um lugar fundo, tão fundo em você que nem um proctologista laureado com um Nobel é capaz de encontrar.
Ao invés desta experiência você cria uma versão de você mesmo que tem como única função olhar a realidade de maneira incólume, distorcendo-a, criando uma ficção sobre si mesmo, há proteção, você parece ser inatingível.
Você passa a agir naquela área da sua vida, a partir desta ótica e acredita-se mesmo como esse ser fake, este ego band-aid, esta persona “deixa-eu-pôr-um-blush-aqui-pra-disfarçar”. E todo este processo passa bem longe do seu desconfiômetro, até que uma coisinha de nada começa a te incomodar, uma vez, duas, de novo e você, desconfortável suspeita que aquela bobeira está se tornando um padrão. O que você faz? Procura uma terapia e na primeira sessão, circunscreve cautelosamente só aquilo que te trouxe ali, o incômodo, você tem a certeza que rapidinho tudo se resolve.
E percebe que aquilo tão bobinho, tão pequenininho, mas a ponto de te pôr em movimento, de te fazer procurar um especialista, é só o salto inicial, o pulo do trampolim, lá em baixo estão as águas mais profundas.
É neste mergulho que se percebe o quanto se é mais vasto, largo e interessante do que supunha, o quanto seus medos e carências não são você substancialmente, apesar de moldarem sua vida de uma forma muito mais decisiva do que se está disposto a admitir.
É incômodo porque mesmo a distorção da realidade que a gente cria para se defender traz equilíbrio e funciona até certo ponto e perder esta bengala, aprender a pôr os pés no chão e dar passos cuidadosos e cheios de uma cautela quase medrosa não é fácil. Mas sentir por entre os pés o solo fofo e a areia morna, nos dá a certeza de que o caminho não é nem tão pedregoso nem frio como supúnhamos na nossa mais inadmitida covardia.
P.S. Depois de me explicar esta questão da distorção da realidade que cria um modo de agir viciado e uma falsa visão sobre si mesmo, minha terapeuta resumiu tudo isto numa palavra: “Neurose”. Olhos arregalados, lhe fitei surpreso: “Eu sou neurótico, então?” e ela como quem dissesse a coisa mais trivial do mundo, ajeitou o cabelo e sorriu: “Como quase todos somos”.
5 comentários:
Ela disse certo: todos nós temos nosso lado neurótico rs
ninguém é totalmente racional.
Pois é, e quem não tem sua neurose?? Eu sou maluco por limpeza... não posso ver nada sujo ou desarrumado que já saio correndo pra arrumar! Também tenho uma neuras enorme com horários. Fico completamente maluco quando me atraso ou alguém se atrasa para algum compromisso comigo!
Ai... minha terapeuta falou a mesma coisa há uns meses atrás. Grazadeus (sotaque mineiro) esse band-aid ta caindo aos poucos.
Um mega abraço e, realmente, nada como um fim de semana na praia.
Minha neurose é fazer blog, postar feito maluco e depois deletar tudo.... afffffff.. Hahahaha!!!!! Hugz, man!
todos somos neoróticos.. todos!
Postar um comentário