
- “Mais um dia de sofrimento”.
Encostada à mureta, entre os gritinhos escandalosos das alunas que passam o portão, ela fuma, mal completados dez minutos desde que cheguei, seu segundo cigarro. Às 7:00h da manhã.
Suas carnes estão sempre esparramadas em roupas absolutamente casuais e monótonas e ela fala palavrões não com naturalidade ou raiva, mas como se fossem apenas lamentos.
Desde o início do ano, convivo toda segunda com tão brochante criatura, e devo confessar que, já no primeiro dia fiquei fascinado por ela. F. parece dizer com cada poro e fio de cabelo do seu corpo o quanto as coisas podem dar realmente errado. Imagino-a abrindo a porta de uma kitinete lúgubre, após mais um dia de palavrões ditos como se fossem “ais”, baforadas e hidorcarbonetos.
- “Temos que aturar os merdas desses alunos, não é meu filho?” Repete seu mantra semanal para mim, me olhando com desânimo e um pouco de pena, como se, por trás de minha aparência tão balzaquiana, pudesse me adivinhar seu sucessor daqui a umas duas décadas, acabado e triste, reclamando de futuros alunos, também eles “uns merdas”.
Às vezes, no entanto, na forma como F. joga os cabelos para trás, quase inocente, percebo o que ela foi um dia, o que talvez tenha sido, ou será só um resquício do que ela sonhara ser? Há qualquer coisa de natural e feliz, na maneira como balança a cabeça, sentindo os cabelos lhe bater às costas. Pode-se suspeitar do prazer com que se dedicava a decorar a tabela periódica. É nítido, por instantes, a volúpia crescente da universitária por todos aqueles hidrocarbonetos saturados de cadeia aberta, o clímax a que chegava diante de uma figura de ácido carboxílico em um livro qualquer.
Será que acreditava em mudar o mundo pela educação? Em trabalhar em escolas públicas de áreas carentes? Em escrever um musical tendo como personagens os elementos químicos? Não sei. Enquanto os últimos alunos chegam, ouve-se o sinal de entrada. F., por sua vez, acende outro cigarro.
Encostada à mureta, entre os gritinhos escandalosos das alunas que passam o portão, ela fuma, mal completados dez minutos desde que cheguei, seu segundo cigarro. Às 7:00h da manhã.
Suas carnes estão sempre esparramadas em roupas absolutamente casuais e monótonas e ela fala palavrões não com naturalidade ou raiva, mas como se fossem apenas lamentos.
Desde o início do ano, convivo toda segunda com tão brochante criatura, e devo confessar que, já no primeiro dia fiquei fascinado por ela. F. parece dizer com cada poro e fio de cabelo do seu corpo o quanto as coisas podem dar realmente errado. Imagino-a abrindo a porta de uma kitinete lúgubre, após mais um dia de palavrões ditos como se fossem “ais”, baforadas e hidorcarbonetos.
- “Temos que aturar os merdas desses alunos, não é meu filho?” Repete seu mantra semanal para mim, me olhando com desânimo e um pouco de pena, como se, por trás de minha aparência tão balzaquiana, pudesse me adivinhar seu sucessor daqui a umas duas décadas, acabado e triste, reclamando de futuros alunos, também eles “uns merdas”.
Às vezes, no entanto, na forma como F. joga os cabelos para trás, quase inocente, percebo o que ela foi um dia, o que talvez tenha sido, ou será só um resquício do que ela sonhara ser? Há qualquer coisa de natural e feliz, na maneira como balança a cabeça, sentindo os cabelos lhe bater às costas. Pode-se suspeitar do prazer com que se dedicava a decorar a tabela periódica. É nítido, por instantes, a volúpia crescente da universitária por todos aqueles hidrocarbonetos saturados de cadeia aberta, o clímax a que chegava diante de uma figura de ácido carboxílico em um livro qualquer.
Será que acreditava em mudar o mundo pela educação? Em trabalhar em escolas públicas de áreas carentes? Em escrever um musical tendo como personagens os elementos químicos? Não sei. Enquanto os últimos alunos chegam, ouve-se o sinal de entrada. F., por sua vez, acende outro cigarro.
3 comentários:
Definitivamente, não uma visão muito animadora para uma segunda feira!!
Hmmm... clímax com hidrocarbonetos... ainda não atingi esse nível, hehehe!!
abraço!
Eu tenho essa mania de ficar imaginando o passado das pessoas, o que as trouxeram até onde estão, hehehe
Hey,
Vim retribuir os coments q vc me deixou hehe...
Ando meio ausente dos blogs, mas aos poucos to voltando á normalidade rsrs.
Obrigado pelo desejo de sorte, acho que tem surtido efeito :D mas nao vou cantar vitória antes do tempo. Então aguarde as proximas novidades hehe
Abraçao pra voce!
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