terça-feira, 11 de novembro de 2008

Crônica de F.


- “Mais um dia de sofrimento”.
Encostada à mureta, entre os gritinhos escandalosos das alunas que passam o portão, ela fuma, mal completados dez minutos desde que cheguei, seu segundo cigarro. Às 7:00h da manhã.
Suas carnes estão sempre esparramadas em roupas absolutamente casuais e monótonas e ela fala palavrões não com naturalidade ou raiva, mas como se fossem apenas lamentos.
Desde o início do ano, convivo toda segunda com tão brochante criatura, e devo confessar que, já no primeiro dia fiquei fascinado por ela. F. parece dizer com cada poro e fio de cabelo do seu corpo o quanto as coisas podem dar realmente errado. Imagino-a abrindo a porta de uma kitinete lúgubre, após mais um dia de palavrões ditos como se fossem “ais”, baforadas e hidorcarbonetos.
- “Temos que aturar os merdas desses alunos, não é meu filho?” Repete seu mantra semanal para mim, me olhando com desânimo e um pouco de pena, como se, por trás de minha aparência tão balzaquiana, pudesse me adivinhar seu sucessor daqui a umas duas décadas, acabado e triste, reclamando de futuros alunos, também eles “uns merdas”.
Às vezes, no entanto, na forma como F. joga os cabelos para trás, quase inocente, percebo o que ela foi um dia, o que talvez tenha sido, ou será só um resquício do que ela sonhara ser? Há qualquer coisa de natural e feliz, na maneira como balança a cabeça, sentindo os cabelos lhe bater às costas. Pode-se suspeitar do prazer com que se dedicava a decorar a tabela periódica. É nítido, por instantes, a volúpia crescente da universitária por todos aqueles hidrocarbonetos saturados de cadeia aberta, o clímax a que chegava diante de uma figura de ácido carboxílico em um livro qualquer.
Será que acreditava em mudar o mundo pela educação? Em trabalhar em escolas públicas de áreas carentes? Em escrever um musical tendo como personagens os elementos químicos? Não sei. Enquanto os últimos alunos chegam, ouve-se o sinal de entrada. F., por sua vez, acende outro cigarro.

3 comentários:

Paulo disse...

Definitivamente, não uma visão muito animadora para uma segunda feira!!

Hmmm... clímax com hidrocarbonetos... ainda não atingi esse nível, hehehe!!


abraço!

Anônimo disse...

Eu tenho essa mania de ficar imaginando o passado das pessoas, o que as trouxeram até onde estão, hehehe

Anônimo disse...

Hey,
Vim retribuir os coments q vc me deixou hehe...
Ando meio ausente dos blogs, mas aos poucos to voltando á normalidade rsrs.
Obrigado pelo desejo de sorte, acho que tem surtido efeito :D mas nao vou cantar vitória antes do tempo. Então aguarde as proximas novidades hehe

Abraçao pra voce!