domingo, 20 de março de 2011

Post do fim do dia

A luminosidade que nunca é abundante se faz sombra àquela hora. Tudo parece ser sugado lentamente pela escuridão que se espraia em ondas e submerge todo o até então visível. Se eu posso acompanhar o crepúsculo acho lindo e paro qualquer coisa pra ver o sol descer preguiçoso ao seu esconderijo. Mas, de casa isto é impossível, só o que acontece é a noite invadindo tudo num degradée lúgubre.

Se é Domingo este espetáculo desolador atinge o ápice. Está decretado: Acabou o final-de-semana. Eu, normalmente, acendo as luzes, ligo o som, vou tomar um café com amigos. Mas não hoje. Enquanto a escuridão, dentro e fora, se fazia, não fugi. Postei-me de pé, de frente à janela, sem pensar em nada. Os pés firmes no momento. Os olhos só vendo o desaparecer gradual de tudo, os ouvidos no silêncio. Aceitei. O declinar do dia, a ferrugem dos sonhos, a corrosão do Domingo. Como um tecido que fosse a partir do interior se esgarçando, soltando sua trama, libertando seus fios complexos e unidos em pontas soltas. Buracos. É assim que a escuridão vence o dia. É assim que noite desfaz os sonhos, aqueles que se tem acordado.

E eu não tive medo e nem fiquei triste por ser assim. Aceitei. Porque, de algum modo, o que se desfaz não é tudo. O que se desfaz é o convite à nossa persistência, ao labor, à maturação do dia-a-dia.

Enquanto a escuridão lá fora grassa, permaneço de pé. E se já não vejo os passos dados, lá trás, por força de abismos e me é desconhecido o porvir, sinto que, pelo menos, estou com os pés bem firmes no chão que piso e que este é todo o necessário por agora. Ainda sem as amplidões desejadas, quiçá alcançáveis, e os campos para se correr livremente, tudo o que preciso e tenho no momento é a terra firme bem debaixo dos meus pés.

No escuro eu estou só. Sem um corpo quente junto ao meu num abraço, sem mãos amigas às minhas, mas permaneço ereto, a coluna pronta, a cabeça erguida, mesmo que sinta em meus joelhos, vez por outra, o cansaço dos anos e das despedidas.

Eu permaneço no escuro como só um homem pode fazer. Consciente de si, sabedor da noite, mas ainda com um coração em fogo, basta que se soprem as cinzas.

11 comentários:

D.a.v.i.d disse...

Comecei a acompanhar seu blog a pouco tempo, sempre que vejo um blog novo coloco-o numa espécie de quarentena, observo por um tempo se gostar passo para meus favoritos se não esqueço... Gostei muito do seu blog, acho que vc tem o dom da escrita (eu não), consegue passar para o papel coisa simples de uma maneira poética sem pieguice. Parabéns!!! Vou virar fã.
Sabia que vc ficaria muito bem (não que não seja) de cavanhaque... abraços

Luciana Nepomuceno disse...

Fuuuuuuuuuu!!!!

Meu amor, há momentos que penso que você me descasca, sabe? Me desnuda, me desvela, me revela. Cada palavra que li aqui, eu as desejaria ter escrito. Porque eu tenho aprendido a aceitar. E aceitar me trouxe meus abismos, meus escuros, minhas tormentas mas, nem sempre, trouxe a coragem. A coragem eu preciso redescobri-la nos intervalos da respiração. Ler-te é um destes intervalos. Saber-te. Amar-te. E isto já está enorme, quando eu ia só dizer: lindo post, lindo como você, plantado, firme, na janela da vida. Pronto.

Rodrigo disse...

caramba, Rafa, que sincronia.

Dan disse...

o por do sol no domingo sempre me trouxe uma depressãozinha.
Mas a partir de agora vou seguir seu exemplo e aceitá-lo como o anuncio de uma nova semana.


lindo texto!
bj

cubcub disse...

O pôr-do-sol de domingo é sempre mais lúgubre mesmo. Aqui em casa nem consigo vê-lo. Normalmente o indicador do final do fim de semana é minha mãe dizendo "acabou o Fantástico e o fim de semana...". haha

Bjo e abraço, o/~

Anônimo disse...

Esse pôr do sol me traz melancolia... E me faz ficar pensativo... Queria poder fazer como vc.

Abração! Boa Semana!

Anônimo disse...

Esse pôr do sol me traz melancolia... E me faz ficar pensativo... Queria poder fazer como vc.

Abração! Boa Semana!

Atitude do pensar disse...

Não deveria a noite ser responsável pelo nascimento dos sonhos??
Eles se casam tão sublimamente: Noite e sonho.
Meus pés já não estão firmes, e aquela velha sensação de um estado de perda faz-se presente, mas não culpo ao entardecer de um domingo de outono. Não culpo a mim. Apenas um desejo: De ter um desejo e sabê-lo.
Quem sabe para em seguida, aceitá-lo.
Bju, Rafa.
K.

Paulo Roberto Figueiredo Braccini - Bratz disse...

Passando para dizer q voltei e agradecer o carinho de todos durante a minha ausência em viajem ... volto com calma para ver as postagens ... bjux

;-)

Fred disse...

Perdeu o quiz mas nunca perde a mão para escrever coisas bacanas assim, né?
Congratzzzzzz!!!!!
Bjzzzzzzz!

Lobo disse...

Sou mais fã dos nasceres... o que não tira a beleza do fim de cada dia...

E você vai pro inferno por querer asfaltar o mundo e trancafiar os pobres bichinhos! hahaha

Beijo Rafa!