A Gafieira Elite resiste bravamente ao tempo. Não tão famosa quanto a Estudantina, tem, porém, um público fiel entre aqueles que gostam de arrasta-pé de salão. Inaugurada em 1930, fica no segundo andar do prédio que nos tempos do império, pertenceu ao sogro de Duque de Caxias.
A Elite, como em geral todo salão de dança antigo, é um ambiente bastante conservador, cheio de regras. Escândalo atual é a mania das senhoras desacompanhadas pagarem para dançar com jovens que, vindo de aulas de dança, encontraram nas sem par, uma fonte de renda. Os mais tradicionalistas torcem o nariz para a prática, ainda que o contrário, ou seja, dançarinas de aluguel seja comum nas gafieiras desde os anos trinta.
Pode-se imaginar então o apelo do pink money para que um salão tão tradicional se transforme no baile carnavalesco gay mais inusitado do Rio. Durante os dias da folia, só dá homens sem camisa pulando, se esfregando e beijando-se ao som de marchinhas e sambas-enredo.
As condições são precárias, o calor é infernal – ou seja quase todo mundo sem camisa – o chão de madeira range tanto que parece que a qualquer momento vai ceder, providencial que, no primeiro andar, funcione uma funerária. Além disso, o mezanino, escuro nos dias de baile, serve para práticas que deixariam escandalizadas as senhoras mais avançadinhas dos dias normais de gafieira.
O público é composto por uma ampla fauna: gente mais pobre em geral, os turistas que adoram e acham tudo exótico, os melhores cafuçús do Rio e é claro, os apreciadores da espécime macho-rústica.
Para sobreviver a um baile carnavalesco no elite você precisa de algumas habilidades fundamentais:
1) Não ser claustrofóbico, a escada de acesso é apertadíssima.
2) Não ser tímido pra mijar, só há uma latrina e o resto é um imenso mictório conjunto no banheiro.
3) Conseguir distinguir no breu os cafuçú-diliça da gente muito, muito feia que abunda (com trocadilho) no local.
4) Não ficar muito obcecado com substâncias que, porventura, venham a te atingir se você fizer a burrada de estar embaixo do mezanino de madeira.
Enfim, eu, como bom estudante de ciências sociais que sou, fui Terça de carnaval fazer uma experiência antropológica no local e garanto a vocês: se forem usadas todas as habilidades acima descritas, a diversão é garantida.
9 comentários:
Muita informação,acho que minha dislexia poderia atrapalhar na minha diversão, mas ainda sim valeria o risco, já ouvi falar bastante do estabelecimento!!!
MInha chopada da faculdade foi lá!!! E o chão já tremia, isso em 1999. Se não caiu até hoje, não cai mais.
E (cof cof) eu também já fui em baile de carnaval no Elite. Carnaval é a época em que eles jogam fora todas as rígidas regras de comportamento deles. Mas o mais bizarro é a banda. como é o nome? Raio de Sol? Tocando marchinhas de carnaval enquanto o povo se sodomiza no mezanino.
tbem já ouvi falar. achei meio bizarro.
pegação não faz muito meu estilo não...
bj
Esse foi o Lugar que você o Daniel falaram naquele dia no Nova América? Gente, que medo, só de ouvir a palavra "calor" já me dá agonia...
Beijo Rafa!
Ei, me leva? Posso ser considerada uma senhora avançadinha?
PS. Tanta Coisa também é cultura e ciência, olha a antropologia, aí, gente, grita o puxador do samba, rsrs.
Acho que é por isso que eu nunca mais fui num baile de carnaval. Mas seria ótimo ter um lugar pra ver os cafuçus diliça.
Achei interessante, e o manual vale pra colega não se cagar toda na visita!
P.S.: Fui na primeira reuniao do DC de SP.
Depois te conto.
Beijao!
Não tenho problema com nenhum tipo de lugar. Inclusive, são os mais estranhos que mais me apetecem. Talvez pela semelhança do olhar antropológico...
Não conheço o Rio muito bem. Quem sabe quando eu visitá-lo novamente não apareça lá, no intuito de curtir e constatar suas palavras.
Bjin, Rafa.
K.
P.S. Desde que nesta data de visitação não seja forró, sou péssima.
Não me considero preconceituoso, de forma alguma.
Mas na única vez em que fui tentar conhecer, fiquei um pouco na porta e, confesso: a bagunça que vi la fora não me animou nem um pouco a entrar. Me diverti um pouco lá fora e fui embora.
Nunca me arrependi. E, pelo seu relato, acho que fiz bem. Cada um na sua. Assim é que é bom!
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