“É evidente, portanto, que alguns homens são livres por natureza, enquanto outros são escravos, e que para estes últimos a escravidão é conveniente e justa”.
Este é um trecho da obra Política de Aristóteles, no qual a cabeça que fundou o Ocidente como o conhecemos, justifica como natural a escravidão. Haveria uma ordem de coisas que submete o inferior ao superior em tudo, inclusive na humanidade. Na própria obra, ele cita que outros entendem que haja uma dignidade fundamental e igual para todos os homens, mas não, esta não é a posição dele.
A partir daí toda a justificação histórica da escravidão teve que apelar para alguma forma de justiça que estaria impregnada nesta prática: os índios seriam escravizados porque se questionava se tinham alma ou não, os negros porque seriam de uma raça tão inferior que se aproximariam muito mais dos animais que dos seres humanos, leia-se, europeus.
Nas formas de escravidão contemporâneas, bem mais sutis, ainda que também extremamente cruéis, o pobre, muitas vezes, é visto como alguém que não teve criatividade e força de vontade o suficiente para progredir. São preguiçosos, acomodados, sem perspectiva, dizem muitos. Os ávidos consumidores do lixo comercial que se transmite nas rádios e tv’s são desta forma porque não tem “cultura”, tem mal gosto.
Mas o que me impactou no momento que eu li, foi este “livres por natureza”. Nós somos livres por natureza? Há pessoas com espírito livre e outras que, nauseadas com a vertigem da possibilidade de escolher se agarram a ferros, teorias, valores... para não precisar ser livre?
Fiquei pensando em mim mesmo. Fazia parte da ficção que eu durante anos teci para cobrir minha incômoda nudez, a certeza de que eu era livre, absolutamente livre e libertador! Mas no fundo, isto era só uma alegoria desesperada de um carnaval de anos feita para esconder a cara, tampar o rosto de quem se experimentava, para além das camadas superficiais, muito frágil para lidar com o árduo de estar no mundo, de ser parte da vida. E tanta energia era gasta neste desfile de trajes surpreendentes que eu mesmo tomei muito pouco contato com a minha força autêntica, na tentativa de sustentar a inventada que escondesse o agudo senso de estranheza que eu tinha em relação a tudo.
Esta falsa-força, força-fake, força-loira-de-farmácia, se dava em jatos. Era como uma multidão de mulheres a segundos de uma liquidação irresistível ou um jejum de anos diante de um buffet de comida a quilo. Tudo rápido, intenso, absorvente, para se esgotar, se extinguir, até que num outro salto e espasmo se produzisse de novo.
Tem uns quatro anos que comecei de verdade, a despir a fantasia. E tirar a maquiagem me fez ver um rosto muito mais belo que imaginava em meus temores, um corpo que vai se tornando robusto porque é experimentado em provas e olhos que sabem que chorar de medo, de vez em quando, até que as pernas se realinhem para continuar a caminhar, não tem problema nenhum.
A gente não nasce livre por natureza, a gente se torna livre. Por opção e teimosia.
8 comentários:
[Complexo este seu texto! pode haver várias interpretações e talvez não seja o que eu tenha entendido abaixo, mais é uma licença poética da sua escrita.]
Bjs.
Será que existem "espiritos livres por natureza" independente de credos, todos trazemos arraigados no DNA que devemos algo a alguma coisa superior por termos sidos criados. E este sentimento de obrigação do nosso espírito já nos tornam escravos. Uma forma de submissão, escravidão a algo superior. Claro que não se nasce ateu, se torna ateu! Talvez seja esta a única forma de libertação do espírito, mais mesmo em se tornando um ateu sempre haverá uma camada de maquiagem que o demaquilante não consegue remover.
Eu concordo, existe muita coisa na sociedade atual que nos prende mas que não percebemos na correria do dia a dia.
Abração.
sensacional o texto rafa.
a verdade eh libertadora!
beeeijo
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confesso...
tenho medo de ser livre porem desempregado
adorei!
Valeu o coment lá no blog, Rafa.
Adorei a cara do seu blog.
Já tô seguindo.
bjão!
Agradecendo e retribuindo o carinho e a atenção da visita lá no meu blog. De há muito vejo seus comentários em blogs amigos mas nunca havia passado por aqui ... acho ... mas nunca é tarde não é? Que surpresa das mais agradáveis poder me deparar com um texto tão empolgante e tão cheio de verdades qto este sobre a LIBERDADE. Sua contextualização foi perfeita ... sua conclusão preciosa ... "Não nascemos livres por natureza, nos tornamos livres com o tempo e a maturidade. Por opção e teimosia."
#Fato ... para sermos livres temos que ter esta consciência e atitude para nos desmascararmo-nos por inteiro, um processo longo e sofrido mas fundamental para que alcancemos em plenitude, nossa real dimensão de SER.
Seguindo e linkando para voltar sempre ...
bjux
;-)
Liberdade é algo tão subjetivo...
Sempre gritava pela minha liberdade e mostrava minha felicidade por ser livre, mas hoje em dia consigo enxergar bem melhor as coisas...
Sou um escravo da vida, escravo dos meus desejos, escravo das minhas responsabilidades.
Isso é frustrante...
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