sexta-feira, 17 de outubro de 2008

Sobre Exus e Erês - I

Reconheço sempre o primeiro instante da sua aparição. É um frêmito que me percorre o peito indo alojar-se na barriga que, em rápidos movimentos, me confirma sua chegada. Sou eu o seu “cavalo”, e o nome da entidade não é Maria Padilha, Zé Pilintra ou Preto Velho, talvez, no máximo, uma prima distante da Pomba Gira.
O fato é que quando ela chega, o sorriso se abre, o mundo contabiliza mil oportunidades de felicidade imediata, orgiástica ou no modelo de “para sempre” a cada esquina. Mas o “para sempre” aí, dura apenas os instantes do copo, do corpo, ou da primeira percepção de que o príncipe não é tão encantado assim. Ele é chato, feio e só sabe falar trivialidades, ou pior, faz cara de intelectual e ajeita os óculos, enquanto discorre sobre a falta de erudição dos nossos tempos... aff!
E por isto a busca segue: a noite parece estar sempre só começando e afinal, o que viemos fazer neste mundo se não nos divertir? Dançar todas as músicas, tomar todas as doses, puxar papo com todos os estranhos da noite cheia da Lapa fervida com todas as tribos, numa seqüência interminável de cabeças a serem exploradas e corpos a desfrutar. Eu quero tudo, eu quero mais. Sempre.
Até que me aconteça um encontro tão arrebatador que me catapulte do meio de tudo. Ele é inteligente, lindo, beija-me como se eu fosse o único, o primeiro, o definitivo. Os corpos metade da mesmíssima laranja se encaixam, ele conhece meus segredos, eu adivinho seus mistérios. E tudo está resolvido: não há recessão econômica no mundo, o capitalismo não ruiu, eu não ganho pouco e trabalho muito. Não há mais fome nem feiúra em nenhuma parte do vasto globo terrestre. Pelo menos até amanhã de manhã. Pelo menos até que o dia nasça e lance sobre tudo, também sobre mim, a sua reveladora e terrível luz.

3 comentários:

Kazé disse...

Olha.
Nunca dantes havia visto certas coisas por esse prisma ao qual fui apresentado por você.
Só me resta agradecer.
E mandar beijos.

Anônimo disse...

Ah, e a busca procura.
Sempre.
Uma hora ele surge.
Bjos

O insustentável peso de ser disse...

seu texto me deixou impressionada.
muito bom!
saudações.