Morro de vergonha da exploração da miséria alheia. Hucks, Gugus e parasitas da vida que transformam a carência do mínimo necessário em audiência a ser conquistada nos confortáveis lares da classe média nas tardes de fim de semana.
Tenho conflitos em dar o que se pede pelas ruas, ajuda de fato alguém ou apenas confirma a falência ridícula da nossa sociedade?
Nunca dou dinheiro. Mas hoje neguei comida. Tomando meu café-da-manhã na padoca, o menino se aproxima de mim e me pede. Automaticamente o polegar pra baixo diz: “- Ta ruim, meu amigo.” E ele afirma que não quer dinheiro, mas comida. E eu disse não.
Assim que ele se afastou, lembrei-me do “tive fome e me destes de comer”, das oportunidades que eu tive, da merda que deve ser a vida deste garoto. Envergonhei-me pela náusea sentida por seu cheiro ocre, o desvio do meu olhar, a minha cômoda posição.
Quando saí, o menino estava lá e nos seus olhos, evidente, a fome. Paguei o salgado e o refresco. Isto muda alguma coisa? Não sei. Provavelmente nada. Mas, às vezes, todo o universo e uma vida inteira se decidem em um único gesto.
Um comentário:
Hoje tive conversas que, embora não tenham mudado minhas convicções, me fizeram refletir coisas.
E esse teu post.
Jung diria que é sincronicidade.
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