domingo, 6 de maio de 2012
...
A raspa, os restos de cristianismo em putrefação pendentes das arestas de mim, insistem em dizer que é aprendizado, ensaio pro que virá. Em meios às névoas e clarões sobressaltados de vida e morte cotidiana, insinua um sentido, o sentido. Mas eu não ouço. Calo-me bebendo. E na minha taça, o vinho espesso é também amargo. Finjo que só os fortes podem sorvê-lo, mas não. Sou frágil, quebradiço, natimorto nesse mundo de luzes infindáveis e pessoas que tudo sabem. Não adoço mais o viscoso líquido que desce agarrando-se à minha garganta, quase num sufocamento, mão rubra e densa enfiando-se por minha goela abaixo. Falta-me o ar, meus olhos enchem-se, um aperto lá, onde uma vez pulsou qualquer coisa de nome besta como "coração". E, no entanto, continuo. Vivo; só o novo morreu. A possibilidade de uma redenção qualquer, a fé em alguma forma de começo. Em minha mão, a taça. Outro gole.
quinta-feira, 26 de abril de 2012
Mel-ancolia
Névoa quase imperceptível enquanto se faz a vida no dia-a-dia. Apenas um sintoma bobo aqui e ali: certo pesar entre coisas tão cotidianas, um amargo no canto da boca, um "E se" quando o pensamento escapa da sua obrigação de dar conta das tarefas de sempre.
Quando se é metido a pensador, a saber-se, logo escrutinamos todas as possibilidades para este sentimentozinho tão fino porém insistente. E com facilidade se acham razões muito boas. Explica-se a melancolia e então ela some... por um minuto ou dois.
Espécie de sentido interno aflorado. Você se comporta como de costume, interage bem com as pessoas, mas tudo isto é experimentado como exterior, como camadas epidérmicas deste núcleo morno e pastoso que de fato se é. Uma dimensão para além do que se pode comunicar, que não se entrega ao pensamento lógico coerente, à solução mágica da causa-efeito.
é o danado do sentir.
segunda-feira, 23 de abril de 2012
Curte aí
Goffman iria adorar o Facebook. Fico imaginando os 15 volumaços sobre o tema que iria escrever. A obra que, de fato, ele chegou a escrever, A representação do eu na vida cotidiana, versa sobre a interação social a partir de papéis simbólicos desempenhados pelas pessoas que interagem e que, em linhas gerais são determinados em suas possibilidades pela sociedade.
Na relação cliente-empregado, marido-mulher as possibilidades de interação são dadas pelo estatuto da sociedade, do grupo social, da época em que tais papéis são desempenhados, cabendo aos indivíduos interpretá-los, mais ou menos conscientemente, a partir deste repertório disponível.
No FB a gente só pode ser feliz. Esta semana duas queridas amigas postaram coisas que mereceriam um comentário animador e depois, um telefonema e um bom abraço real o quanto antes. Mas qual não foi minha surpresa ao ver que um monte de gente havia "curtido" aquele status?! "Estou mal", "A vida não vale a pena", se eu postar isto, as pessoas vão curtir?!
O fato de só haver, pelo menos "oficialmente", um botão que não seja o "comentar/compartilhar" e que a função deste seja justamente "curtir" me parece uma mensagem bastante clara. Aqui é o reino das Happiest faces ever, por isto, esconda sua tristeza, vá cuidar de seus problemas sozinho, não incomode as pessoas com sua dor. Ficar triste, vez por outra, não é de bom tom, não é educado, as pessoas não precisam saber, mesmo que, graças a outro recurso do site, eu possa determinar quem lerá aquela minha publicação.
O FB é o retrato fiel da nossa sociedade: Além de ser magro, lindo e loiro, há de se ser feliz, sempre. Tristeza é brega, uma coisa assim tão 1998. Vá dançar um pouco de axé, fazer uma comprinha ou ler um bom livro que te dê o segredo do universo e o sentido da vida por R$ 42,99.
E viva o Fakebook!
Curtiu?
sexta-feira, 20 de abril de 2012
quinta-feira, 19 de abril de 2012
Numa esquina da Av. Rio Branco
Eu tinha a mais plácida certeza que mudei muito. As fotos antigas me mostram um garoto que se encontrou aí pela vida, de algumas das muitas formas nas quais é possível fazê-lo, mesmo em meio aos tropeções e trapalhadas do caminho e é claro, continua perdido de outras tantas formas, ainda que diferentes daquelas de antes.
Achei que este itinerário longo, conflituoso, mas também libertador, estivesse impresso na forma do meu maxilar, no contorno dos músculos, na distância entre meus olhos. De tal maneira que entre aquele garoto perdido e eu, restava apenas uma memória social, uma identidade exterior que me assegurava sermos, eu e ele, de fato, um só.
Ontem, porém, numa das avenidas mais insuportavelmente cheias de pedestres, na hora do almoço, me chamam. E o rosto me traz 20 anos num instante. Aquele papinho rápido de como está, o que faz, quem sabe um chope; e a pergunta pula: Como você me reconheceu? Acho que nem eu me reconheceria...
Ela achou graça e me disse que continuo o mesmo, sem óculos, de barba, mas o mesmo.
Eu olhei em seus olhos e sorri.
Ao retomar meu caminho, uma espécie de alegria estranha: a vida passando.
Achei que este itinerário longo, conflituoso, mas também libertador, estivesse impresso na forma do meu maxilar, no contorno dos músculos, na distância entre meus olhos. De tal maneira que entre aquele garoto perdido e eu, restava apenas uma memória social, uma identidade exterior que me assegurava sermos, eu e ele, de fato, um só.
Ontem, porém, numa das avenidas mais insuportavelmente cheias de pedestres, na hora do almoço, me chamam. E o rosto me traz 20 anos num instante. Aquele papinho rápido de como está, o que faz, quem sabe um chope; e a pergunta pula: Como você me reconheceu? Acho que nem eu me reconheceria...
Ela achou graça e me disse que continuo o mesmo, sem óculos, de barba, mas o mesmo.
Eu olhei em seus olhos e sorri.
Ao retomar meu caminho, uma espécie de alegria estranha: a vida passando.
terça-feira, 17 de abril de 2012
Retrô
Relendo o blog me assusto: como se pode mudar tanto e não mudar nada. Há textos que ainda sou, outros uma encarnação qualquer que se desfez pelos dias, meses, anos até o "hoje". E há aqueles, meus ou não, que são palavra de salvação. Amén.
“E tem o seguinte, meus senhores: não vamos enlouquecer, nem nos matar, nem desistir. Pelo contrario: vamos ficar ótimos e incomodar bastante ainda"
"Não se preocupe, não vou tomar nenhuma medida drástica, a não ser continuar, tem coisa mais auto destrutiva do que insistir sem fé nenhuma? Ah, passa devagar a tua mão na minha cabeça, toca meu coração com teus dedos frios, eu tive tanto amor um dia."["Os sobreviventes" in Morangos mofados]
"E para que não doesse demais quando não era capaz de, apenas esperando, evitar o insuportável, fazia a si próprio perguntas como: se a vida é um circo, serei eu o palhaço?"
"Num deserto de almas também desertas, uma alma especial reconhece de imediato a outra." (Cartas)
“E tem o seguinte, meus senhores: não vamos enlouquecer, nem nos matar, nem desistir. Pelo contrario: vamos ficar ótimos e incomodar bastante ainda"
"Não se preocupe, não vou tomar nenhuma medida drástica, a não ser continuar, tem coisa mais auto destrutiva do que insistir sem fé nenhuma? Ah, passa devagar a tua mão na minha cabeça, toca meu coração com teus dedos frios, eu tive tanto amor um dia."["Os sobreviventes" in Morangos mofados]
"E para que não doesse demais quando não era capaz de, apenas esperando, evitar o insuportável, fazia a si próprio perguntas como: se a vida é um circo, serei eu o palhaço?"
"Num deserto de almas também desertas, uma alma especial reconhece de imediato a outra." (Cartas)
quinta-feira, 12 de abril de 2012
Gênesis
Combinamos então que é agora?
Pronto. O dia um, a hora primeira e boa parte deste peso aqui no peito fica na pré-história, no caos primordial sem registro, nem memória. Decidimos que tudo está fresco, tinindo de novo, o mundo estreia e nós com ele.
O cansaço não existe porque ainda não é possível. Ele é o fruto de longos itinerários e nós aqui no primeiro passo, agora o segundo.
Arrependimentos, dúvidas, traços da nossa história agregados à pele, marcados em carne-viva por aí, sumiram.
Novo, o mundo te espera, se estreia tudo diante dos olhos maravilhados da primeira vez e a brisa da tarde se inaugura constante em seus cabelos.
"Bereshit" proclama a vida em seu frescor crepitante e nada é ainda amargo, velho nem triste. No horizonte infinito de possibilidades, "inventar-se" é a palavra, nesse nosso faz-de-conta tão sério.
Pronto. O dia um, a hora primeira e boa parte deste peso aqui no peito fica na pré-história, no caos primordial sem registro, nem memória. Decidimos que tudo está fresco, tinindo de novo, o mundo estreia e nós com ele.
O cansaço não existe porque ainda não é possível. Ele é o fruto de longos itinerários e nós aqui no primeiro passo, agora o segundo.
Arrependimentos, dúvidas, traços da nossa história agregados à pele, marcados em carne-viva por aí, sumiram.
Novo, o mundo te espera, se estreia tudo diante dos olhos maravilhados da primeira vez e a brisa da tarde se inaugura constante em seus cabelos.
"Bereshit" proclama a vida em seu frescor crepitante e nada é ainda amargo, velho nem triste. No horizonte infinito de possibilidades, "inventar-se" é a palavra, nesse nosso faz-de-conta tão sério.
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