quinta-feira, 26 de abril de 2012

Mel-ancolia

Névoa quase imperceptível enquanto se faz a vida no dia-a-dia. Apenas um sintoma bobo aqui e ali: certo pesar entre coisas tão cotidianas, um amargo no canto da boca, um "E se" quando o pensamento escapa da sua obrigação de dar conta das tarefas de sempre. Quando se é metido a pensador, a saber-se, logo escrutinamos todas as possibilidades para este sentimentozinho tão fino porém insistente. E com facilidade se acham razões muito boas. Explica-se a melancolia e então ela some... por um minuto ou dois. Espécie de sentido interno aflorado. Você se comporta como de costume, interage bem com as pessoas, mas tudo isto é experimentado como exterior, como camadas epidérmicas deste núcleo morno e pastoso que de fato se é. Uma dimensão para além do que se pode comunicar, que não se entrega ao pensamento lógico coerente, à solução mágica da causa-efeito. é o danado do sentir.

segunda-feira, 23 de abril de 2012

Curte aí

Goffman iria adorar o Facebook. Fico imaginando os 15 volumaços sobre o tema que iria escrever. A obra que, de fato, ele chegou a escrever, A representação do eu na vida cotidiana, versa sobre a interação social a partir de papéis simbólicos desempenhados pelas pessoas que interagem e que, em linhas gerais são determinados em suas possibilidades pela sociedade. Na relação cliente-empregado, marido-mulher as possibilidades de interação são dadas pelo estatuto da sociedade, do grupo social, da época em que tais papéis são desempenhados, cabendo aos indivíduos interpretá-los, mais ou menos conscientemente, a partir deste repertório disponível. No FB a gente só pode ser feliz. Esta semana duas queridas amigas postaram coisas que mereceriam um comentário animador e depois, um telefonema e um bom abraço real o quanto antes. Mas qual não foi minha surpresa ao ver que um monte de gente havia "curtido" aquele status?! "Estou mal", "A vida não vale a pena", se eu postar isto, as pessoas vão curtir?! O fato de só haver, pelo menos "oficialmente", um botão que não seja o "comentar/compartilhar" e que a função deste seja justamente "curtir" me parece uma mensagem bastante clara. Aqui é o reino das Happiest faces ever, por isto, esconda sua tristeza, vá cuidar de seus problemas sozinho, não incomode as pessoas com sua dor. Ficar triste, vez por outra, não é de bom tom, não é educado, as pessoas não precisam saber, mesmo que, graças a outro recurso do site, eu possa determinar quem lerá aquela minha publicação. O FB é o retrato fiel da nossa sociedade: Além de ser magro, lindo e loiro, há de se ser feliz, sempre. Tristeza é brega, uma coisa assim tão 1998. Vá dançar um pouco de axé, fazer uma comprinha ou ler um bom livro que te dê o segredo do universo e o sentido da vida por R$ 42,99. E viva o Fakebook! Curtiu?

sexta-feira, 20 de abril de 2012

Que delícia!

Descobrindo agora e A-DO-RAN-DO!! PoUvo querido de Blogsville excelente feriadão...

quinta-feira, 19 de abril de 2012

Numa esquina da Av. Rio Branco

Eu tinha a mais plácida certeza que mudei muito. As fotos antigas me mostram um garoto que se encontrou aí pela vida, de algumas das muitas formas nas quais é possível fazê-lo, mesmo em meio aos tropeções e trapalhadas do caminho e é claro, continua perdido de outras tantas formas, ainda que diferentes daquelas de antes.

Achei que este itinerário longo, conflituoso, mas também libertador, estivesse impresso na forma do meu maxilar, no contorno dos músculos, na distância entre meus olhos. De tal maneira que entre aquele garoto perdido e eu, restava apenas uma memória social, uma identidade exterior que me assegurava sermos, eu e ele, de fato, um só.

Ontem, porém, numa das avenidas mais insuportavelmente cheias de pedestres, na hora do almoço, me chamam. E o rosto me traz 20 anos num instante. Aquele papinho rápido de como está, o que faz, quem sabe um chope; e a pergunta pula: Como você me reconheceu? Acho que nem eu me reconheceria...
Ela achou graça e me disse que continuo o mesmo, sem óculos, de barba, mas o mesmo.
Eu olhei em seus olhos e sorri.
Ao retomar meu caminho, uma espécie de alegria estranha: a vida passando.

terça-feira, 17 de abril de 2012

Retrô

Relendo o blog me assusto: como se pode mudar tanto e não mudar nada. Há textos que ainda sou, outros uma encarnação qualquer que se desfez pelos dias, meses, anos até o "hoje". E há aqueles, meus ou não, que são palavra de salvação. Amén.

“E tem o seguinte, meus senhores: não vamos enlouquecer, nem nos matar, nem desistir. Pelo contrario: vamos ficar ótimos e incomodar bastante ainda"

"Não se preocupe, não vou tomar nenhuma medida drástica, a não ser continuar, tem coisa mais auto destrutiva do que insistir sem fé nenhuma? Ah, passa devagar a tua mão na minha cabeça, toca meu coração com teus dedos frios, eu tive tanto amor um dia."["Os sobreviventes" in Morangos mofados]

"E para que não doesse demais quando não era capaz de, apenas esperando, evitar o insuportável, fazia a si próprio perguntas como: se a vida é um circo, serei eu o palhaço?"

"Num deserto de almas também desertas, uma alma especial reconhece de imediato a outra." (Cartas)

quinta-feira, 12 de abril de 2012

Gênesis

Combinamos então que é agora?
Pronto. O dia um, a hora primeira e boa parte deste peso aqui no peito fica na pré-história, no caos primordial sem registro, nem memória. Decidimos que tudo está fresco, tinindo de novo, o mundo estreia e nós com ele.
O cansaço não existe porque ainda não é possível. Ele é o fruto de longos itinerários e nós aqui no primeiro passo, agora o segundo.
Arrependimentos, dúvidas, traços da nossa história agregados à pele, marcados em carne-viva por aí, sumiram.
Novo, o mundo te espera, se estreia tudo diante dos olhos maravilhados da primeira vez e a brisa da tarde se inaugura constante em seus cabelos.
"Bereshit" proclama a vida em seu frescor crepitante e nada é ainda amargo, velho nem triste. No horizonte infinito de possibilidades, "inventar-se" é a palavra, nesse nosso faz-de-conta tão sério.

sexta-feira, 6 de abril de 2012

O que está por trás (ui!) do Império Homossexual?

Os ataques dos políticos contrários ao PLC 122 são perigosos e risíveis. Fico me perguntando se alguém, de fato, concorda que há orquestrado um plano para a criação de um Império homossexual no Brasil. E para além do desgosto com estes tais políticos, na minha humilde posição de quase-sociólogo e gay, tento entender a lógica simbólica que sustenta tais devaneios.

A polêmica em torno da homossexualidade, todos os ódios e mobilizações que suscita me instiga; por que alguém se dá ao trabalho de agredir pessoas que nada tem a ver consigo em plena rua, por estarem de mãos dadas com outra? Pegar um carro, uma arma e no meio de uma madrugada escura e fria atirar numa travesti que nem se conhece, perdida num local ermo de uma rodovia brutal em qualquer saída de grande cidade do país?

Apesar de ridícula, a expressão usada pelo senador em questão nos dá uma pista. "Império" é um símbolo de poder; que para além da dimensão política pertence, ainda hoje, ao homem branco, de classe média, heterossexual. O poder simbólico de um mundo construído para ele, o poder de acessar como naturais e simplesmente dadas, todas as lógicas que governam as relações, todos os mecanismos que localizam um ser humano na cultura, na história, na sociedade. É para conservar o homem branco heterossexual de classe média no topo dos tipos sociais que existe a homofobia, o racismo e o machismo. Já chega o que se perdeu com a liberação feminina e a nova consciência negra. Além disto agora, não se poderá mais afirmar o privilégio da própria identidade a partir do viado desviante? Sobre o que se afirmar superior senão em relação ao mais fraco?

E aqui reside a astúcia atual na lógica discursiva heterocêntrica: negar o desnível social, o privilégio heterossexual. Todas as atitudes ridículas do "Dia do orgulho hétero", da denúncia do "império homossexual" partem da falácia de que as identidades hétero e homo se dão nas mesmas condições de igualdade. Se assim fosse, reconhecer legislações específicas para os gays, seria, de fato, privilégio, um plus em relação à identidade hetero. Mas o fato é que legislações se fazem necessárias justamente porque há um desnível social entre gays e héteros, uma redução absurda no acesso a recursos próprios da cidadania para os primeiros. Desenvolve-se políticas específicas para grupos no sentido de possibilitar a estes iguais condições em relação ao restante dos cidadãos, isto é próprio da democracia já que a igualdade de todos perante a lei não é algo de fato dado, mas um objetivo a ser conquistado, também pela política.

A mesma falsa ideologia da igualdade de condições como pressuposto é usada, por exemplo, para explicar porque certos setores da sociedade avançam e outros nãos, ou porque países se desenvolvem e outros permanecem miseráveis. Negar as posições específicas dos atores sociais em relação à possibilidade de acessar os recursos democráticos é criar a base para se enxergar em qualquer tentativa de inclusão gay na cidadania plena um privilégio e não uma reparação devida. Estejamos atentos.