quinta-feira, 29 de março de 2012

Das pequenas rebeliões

A vida anda tão corrida como quase sempre. Compromissos de trabalho e estudo se estendendo desaforadamente pelas sagradas horas de ócio; sábado já numa versão light de qualquer dia-feira. Mas eu tenho minhas pequenas rebeliões: no meio de tudo paro e leio um livro por puro gosto. Preparando uma aula sobre a ética em Aristóteles, vejo dois episódios de Smash. Aos sábados, troco o café por tequila, afinal não hei de me submeter assim tão fácil.

Foi por isso que ontem inventei uma tradição de séculos: O cinema das Quartas. Toda semana agora, desde há muito tempo, irei dar a escapadinha. A idéia passou por minha cabeça em meio ao nada que fiz no trabalho. E imediatamente um frisson começou a me percorrer. Quase a delícia de uma coisa poibida, ilícita. Não falei a ninguém, nenhuma palavra aos colegas de trabalho. Olhava-os e num sorrisinho quase indisfarçável:"Eu não sou quem voçês pensam, tá? Vou no cinema, há séculos, em plena quarta-feira".

Vi "Shame". O filme não é exatamente sobre compulsão sexual. É sobre a incapacidade de se comunicar, de estabelecer laços com os outros. Se o sexo é um sintoma, uma válvula de escape da situação, esta poderia se dar sob qualquer outra forma onde haja interação: o jogo ou a bebida, por exemplo. Há o perigo de se interpretar o filme de uma maneira moralista. Como se toda a pessoa com uma intensa vida sexual de múltiplos (as) parceiros (as) tivesse um sério problema psicológico. Como se a sanidade mental tivesse como corolário a vida monogâmiga e fiel. Eu acho que a pessoa pode dar mais que "chuchu na serra" (alguém me explica esta expressão?), não querer viver algo nem próximo de um "casamento" e, nem por isso, representar um caso patológico.

Gostei do filme. As cenas são fortes mas nada que não se tenha visto antes no cinema. Destaque para a trilha sonora que eleva os momentos de tensão e lança outra compreensão para as cenas de sexo, muito interessante. Ah... e o comentário de George Clooney no Oscar é real: Michael Fassbender pode jogar golfe, pelado, sem usar as mãos...

quarta-feira, 28 de março de 2012

Isto náo é um post

Hoje é um dos raros dias que eu não tenho absolutamente nada para fazer no trabalho, mas só devo sair daqui, pontualmente, às seis horas. Já li todos os blogs possíveis, passei pelos sites minimamente aceitáveis em horário de trabalho e ...ainda tenho três horas.

Por que não escrever? Já fiz muitos posts corridos, por inspiração súbita e compromissos mil agendados. Hoje que eu estou calmamente de frente para o computador...nada.

Pensei em escrever um pequeno conto, partilhar alguma experiência estética, uma mensagem profunda sobre a brevidade da vida, mas nada me vem.

Livros, filmes, a velha tática de encher com boa música um post vazio? Nem isso.
Então fica aqui registrado: Um Não-post

domingo, 25 de março de 2012

Volúpia

Meus olhos passam pela vitrine e brilham, através delas, um mundo inteiro. Aguça-se meu sentido de expert e logo percebo que para variar, o mais bem contruído mostruário é o que menos importa, holofotes e glitter sobre merdas fáceis de se digerir para sentir-se um pouco menos culpado pela banalidade da vida, afinal, ainda que o título, o tema e a escrita seja pavorosa, é ainda, assim um livro. Há status.

Basta reparar no metrô lotado enquanto duas mocinhas riem imbecis, o senhor com olhar vago amarga o passado e uma multidão está em sua própria festa particular com seus mp3's. Sentado, comprimida entre tipos quaisquer de usuários, está não mais do que um rapaz, de óculos e barbicha que é quase apenas um prenúncio do homem que será, lê um livro. Ou uma senhorinha com roupas de eficiente secretária, ar cansado de hirearquias e corporações, mas que, no entanto, ali em pé, com bolsa e sacolas sobre os braços, segura desajeitadamente um livro. Há status.

O que me levou ali naquela manhã foi uma necessidade absoluta, uma obra sobre a formação identitária do Brasil para um trabalho da faculdade. Mas basta entrar em um lugar de livros para se perder. Deve-se passar, como dito, direto pelos grandes mostruários e bizarrices de best-sellers, e esmiuçar com sofreguidão e de maneira discreta, para não chamar a atenção de outros experts, as estantes laterais, as prateleiras mais inacessíveis, onde se encontram os verdadeiros tesouros. Folhear, ler a primeira página, cheirar um pouquinho o livro.

Outra delícia das livrarias é traçar os perfis psicológicos a partir do que as pessoas lêem, que livros seguram, a partir de que orelhas se interessam. Nesse sentido é importante nunca se aproximar da estante de auto-ajuda, dê a volta, faça salto com vara, vai que alguém te flagra perto da edição comemorativa dos 25 anos do "Diário de um mago", ou do best-seller "Como influenciar pessoas e fazer amigos". Aff...Não há outra saída então, corte os pulsos.

Afinal, não tinha o livro de que precisava. Saí com outros dois de que não tinha a menor necessidade. Mas o amor é assim: gratuito e livre.

sexta-feira, 23 de março de 2012

Fazer a hora ou esperá-la?

Hoje entra no ar o site www.casamentociviligualitario.com.br. A iniciativa visa angariar apoio da opinião pública para o projeto de emenda constitucional apresentada pelo deputado federal Jean Wyllys que almeja garantir por lei a casais gays a instituição do casamento civil, com os mesmos direitos e deveres dos casais héteros.

Acho admirável qualquer iniciativa que vise retirar-nos da situação de sub-cidadania em que, ainda, vivemos. O termo “casamento” ou “matrimônio” sempre gera bastante polêmica, como se tais palavras fossem de uso exclusivamente religioso, o que é uma bobagem. O “casamento civil” está aí, justamente, para secularizar a sagrada instituição do matrimônio.

Agora não sei se, estrategicamente, é a hora para insistirmos nesta nomenclatura. Pode parecer um detalhe insignificante a princípio, mas “união civil gay” e “casamento civil gay” repercutem de modo bastante diferente na sociedade brasileira.

Se não me engano, na maioria dos lugares em que as uniões gays ganharam a nomenclatura de “casamento” foi em um momento subsequente ao do estatuto da união civil, que me parece um primeiro passo para a sociedade perceber que reconhecer, pelo direito, as uniões de fato entre pessoas do mesmo sexo não representa nenhuma ameaça real à sociedade. A não ser é claro que a heterossexualidade seja um mito e, imediatamente depois de reconhecida legalmente a união gay, todos os maridos larguem suas esposas e arranjem um bofe prometendo casa, comida e ingressos para o próximo show da Madonna.

*****

E... Ótimo Fim de Semana!

quarta-feira, 21 de março de 2012

Oi??

Domingo passado foi dia de? Tirar férias de fogão. Cantei para “Maria” sair deste corpitcho e resolvi fazer a rica com o marido e almoçar fora. O plano era depois ir à uma exposição do Modigliani no Museu Nacional de Belas Artes e concluir com um bom café no nosso local favorito num centro cultural ali na Cinelândia.

Mas amigo solitário com marido viajando ligou carente, convidando-nos para um risoto. Fomos. Batemos um papinho, tomamos um vinho, comemos o risoto e fomos atacados pelo cão do amigo. O dente do bichano mal tocou em nós, mas tirou sangue de mim e do marido.

Ontem fomos tomar a primeira dose da vacina anti-rábica, marido de manhã e eu à tarde. Marido comenta: “- Você viu o epidemologista? Super gentil, todo sarado me deu uma aula sobre os perigos de se contrair raiva”. Eu lembrei na hora da enfermeira suarenta e com ar de cansada há dez anos, loira à força e de buço que me fez meia dúzia de perguntas de praxe. Na hora de preencher a ficha:
-Profissão?
-Professor
-Ihhh... cachorro adora morder professor. É carteiro e professor, nunca vi.
Oi?
Então é isto Brasil: Salário baixo, turmas lotadas e vítima preferencial dos cachorros.
Todo mundo tem seus dias de Lobo, né não?
Aff....

terça-feira, 20 de março de 2012

A grande questão

Crescer é auto-aceitar-se. É libertação do que se deve ser, fazer, parecer, de como agir. È matar todas as instâncias “pai” e provar a doçura e o amargor de ser quem se é e/ou empreender a longa jornada noite adentro para se tornar quem se quer ser.
Nisso tudo tem algo de que, volta e meia, me ressinto.

Escolhas. Aquele primeiro substrato de quem se é, mais determinado por outros, pela época, por tantos contextos nos quais se vem a este mundo não passa por nós mesmos. As escolhas que se dão a partir disto, como uma “reação à”, ainda não são totalmente nossas. Chega uma hora, no entanto, que ou a gente veste o manto maltrapilho da mágoa que mal nos cobre e passamos a vida numa cantilena monótona a lamentar o que fizeram de nós, ou, assumimos que agora é conosco. E o que se faz, quem a gente se torna, passa a ser responsabilidade nossa.

Eu preciso tomar uma decisão. Não exatamente agora. Daqui a cerca de um ano, termino a graduação e tenho a chance de regulamentar esta minha estranha vida profissional. Eu sei bem o que quero fazer, o ideal a ser alcançado. O real, porém, me diz: Não agora. Há ainda, quase insuspeita, uma porta, à esquerda, no fim do corredor, pela qual posso, talvez, passar.

A grande questão é achar o ponto de equilíbrio, a justa medida entre a realização do meu desejo e as possibilidades reais do momento. Eu não tenho mais quinze anos, os sonhos tem a medida necessária da comida no prato; também não fui vencido ainda, atropelado pelo rolo compressor da vida para achar que só o pão de cada dia nos daí hoje.

O que eu queria era acreditar que o tempo sempre nos dá sabedoria e discernimento, mas não é verdade. A gente pode morrer velho e tão estúpido quanto sempre foi. Na minha vida profissional o tempo de responder demandas sempre urgentes, de recuperar o perdido está chegando ao fim. Eu só preciso agora saber que passo dar.

segunda-feira, 12 de março de 2012

Reflexões entupidas

E eu estou aqui, apenas uma narina entupida quase todo final de semana. É estranho sentir tão diversamente dois lados do que sou. O meio-nariz entupido faz doer uma parte apenas da cabeça e eu me surpreendo que, só porque as pessoas são diferentes corpos no espaço, elas possam apreender o mundo de mil maneiras. Não é só a formação que se teve, os livros que se leu, o tipo de pais que te criaram. É essa coisa de que seu nariz é diferente do meu: puxa o ar e devolve o CO2 em outro ritmo, de outra forma. E este oxigênio circula por tuas veias em trajetos pessoais, distribuindo de forma desigual as proteínas e sais minerais.

Fica mais fácil para mim entender assim tantas coisas. Se uma narina entupida acaba com a ilusão de uma unidade orgânica, quer do indivíduo quer da conclamada e inexistente humanidade, serve ainda para me pensar como fenômeno absolutamente único nesta fração do tempo que chamamos hoje. Eu fui o menino deslocado e só, da minha infância, o religioso certeiro e de convicções absolutas e hoje sou a metamorfose de tudo o que eu fui.

Alimento-me das sobras do que um dia reservei de melhor para o sacrifício em solenes altares, percorro o terreno baldio do meu passado catando as pérolas do que perdi em todas vezes que pude, com coragem, e isto nunca me faltou, destruir tudo o que já não mais me cabia. E entre mosaicos preciosos e alimentos que devoro esquecendo-me dos deuses sou “agora”. O que é melhor do que “antes” e, espero, ainda não tão bom quanto o indizível amanhã.

No fim os trinta anos te presenteiam mesmo um mimo. Você continua sendo tão ansioso, inseguro, ou o que seja, mas sabe se distanciar disto. Vai ali numa esquina imaginária, se olha e percebe que você é aquilo, mas há mais. Assim você dá a mão para seus defeitos e os circunscreve de maneira a só permitir que falem quem é você até um certo ponto e muito de vez em quando. E, aqui e ali, é até mesmo capaz de rir um pouquinho da situação.