Meus olhos passam pela vitrine e brilham, através delas, um mundo inteiro. Aguça-se meu sentido de expert e logo percebo que para variar, o mais bem contruído mostruário é o que menos importa, holofotes e glitter sobre merdas fáceis de se digerir para sentir-se um pouco menos culpado pela banalidade da vida, afinal, ainda que o título, o tema e a escrita seja pavorosa, é ainda, assim um livro. Há status.
Basta reparar no metrô lotado enquanto duas mocinhas riem imbecis, o senhor com olhar vago amarga o passado e uma multidão está em sua própria festa particular com seus mp3's. Sentado, comprimida entre tipos quaisquer de usuários, está não mais do que um rapaz, de óculos e barbicha que é quase apenas um prenúncio do homem que será, lê um livro. Ou uma senhorinha com roupas de eficiente secretária, ar cansado de hirearquias e corporações, mas que, no entanto, ali em pé, com bolsa e sacolas sobre os braços, segura desajeitadamente um livro. Há status.
O que me levou ali naquela manhã foi uma necessidade absoluta, uma obra sobre a formação identitária do Brasil para um trabalho da faculdade. Mas basta entrar em um lugar de livros para se perder. Deve-se passar, como dito, direto pelos grandes mostruários e bizarrices de best-sellers, e esmiuçar com sofreguidão e de maneira discreta, para não chamar a atenção de outros experts, as estantes laterais, as prateleiras mais inacessíveis, onde se encontram os verdadeiros tesouros. Folhear, ler a primeira página, cheirar um pouquinho o livro.
Outra delícia das livrarias é traçar os perfis psicológicos a partir do que as pessoas lêem, que livros seguram, a partir de que orelhas se interessam. Nesse sentido é importante nunca se aproximar da estante de auto-ajuda, dê a volta, faça salto com vara, vai que alguém te flagra perto da edição comemorativa dos 25 anos do "Diário de um mago", ou do best-seller "Como influenciar pessoas e fazer amigos". Aff...Não há outra saída então, corte os pulsos.
Afinal, não tinha o livro de que precisava. Saí com outros dois de que não tinha a menor necessidade. Mas o amor é assim: gratuito e livre.
domingo, 25 de março de 2012
sexta-feira, 23 de março de 2012
Fazer a hora ou esperá-la?
Hoje entra no ar o site www.casamentociviligualitario.com.br. A iniciativa visa angariar apoio da opinião pública para o projeto de emenda constitucional apresentada pelo deputado federal Jean Wyllys que almeja garantir por lei a casais gays a instituição do casamento civil, com os mesmos direitos e deveres dos casais héteros.
Acho admirável qualquer iniciativa que vise retirar-nos da situação de sub-cidadania em que, ainda, vivemos. O termo “casamento” ou “matrimônio” sempre gera bastante polêmica, como se tais palavras fossem de uso exclusivamente religioso, o que é uma bobagem. O “casamento civil” está aí, justamente, para secularizar a sagrada instituição do matrimônio.
Agora não sei se, estrategicamente, é a hora para insistirmos nesta nomenclatura. Pode parecer um detalhe insignificante a princípio, mas “união civil gay” e “casamento civil gay” repercutem de modo bastante diferente na sociedade brasileira.
Se não me engano, na maioria dos lugares em que as uniões gays ganharam a nomenclatura de “casamento” foi em um momento subsequente ao do estatuto da união civil, que me parece um primeiro passo para a sociedade perceber que reconhecer, pelo direito, as uniões de fato entre pessoas do mesmo sexo não representa nenhuma ameaça real à sociedade. A não ser é claro que a heterossexualidade seja um mito e, imediatamente depois de reconhecida legalmente a união gay, todos os maridos larguem suas esposas e arranjem um bofe prometendo casa, comida e ingressos para o próximo show da Madonna.
*****
E... Ótimo Fim de Semana!
Acho admirável qualquer iniciativa que vise retirar-nos da situação de sub-cidadania em que, ainda, vivemos. O termo “casamento” ou “matrimônio” sempre gera bastante polêmica, como se tais palavras fossem de uso exclusivamente religioso, o que é uma bobagem. O “casamento civil” está aí, justamente, para secularizar a sagrada instituição do matrimônio.
Agora não sei se, estrategicamente, é a hora para insistirmos nesta nomenclatura. Pode parecer um detalhe insignificante a princípio, mas “união civil gay” e “casamento civil gay” repercutem de modo bastante diferente na sociedade brasileira.
Se não me engano, na maioria dos lugares em que as uniões gays ganharam a nomenclatura de “casamento” foi em um momento subsequente ao do estatuto da união civil, que me parece um primeiro passo para a sociedade perceber que reconhecer, pelo direito, as uniões de fato entre pessoas do mesmo sexo não representa nenhuma ameaça real à sociedade. A não ser é claro que a heterossexualidade seja um mito e, imediatamente depois de reconhecida legalmente a união gay, todos os maridos larguem suas esposas e arranjem um bofe prometendo casa, comida e ingressos para o próximo show da Madonna.
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E... Ótimo Fim de Semana!
quarta-feira, 21 de março de 2012
Oi??
Domingo passado foi dia de? Tirar férias de fogão. Cantei para “Maria” sair deste corpitcho e resolvi fazer a rica com o marido e almoçar fora. O plano era depois ir à uma exposição do Modigliani no Museu Nacional de Belas Artes e concluir com um bom café no nosso local favorito num centro cultural ali na Cinelândia.
Mas amigo solitário com marido viajando ligou carente, convidando-nos para um risoto. Fomos. Batemos um papinho, tomamos um vinho, comemos o risoto e fomos atacados pelo cão do amigo. O dente do bichano mal tocou em nós, mas tirou sangue de mim e do marido.
Ontem fomos tomar a primeira dose da vacina anti-rábica, marido de manhã e eu à tarde. Marido comenta: “- Você viu o epidemologista? Super gentil, todo sarado me deu uma aula sobre os perigos de se contrair raiva”. Eu lembrei na hora da enfermeira suarenta e com ar de cansada há dez anos, loira à força e de buço que me fez meia dúzia de perguntas de praxe. Na hora de preencher a ficha:
-Profissão?
-Professor
-Ihhh... cachorro adora morder professor. É carteiro e professor, nunca vi.
Oi?
Então é isto Brasil: Salário baixo, turmas lotadas e vítima preferencial dos cachorros.
Todo mundo tem seus dias de Lobo, né não?
Aff....
Mas amigo solitário com marido viajando ligou carente, convidando-nos para um risoto. Fomos. Batemos um papinho, tomamos um vinho, comemos o risoto e fomos atacados pelo cão do amigo. O dente do bichano mal tocou em nós, mas tirou sangue de mim e do marido.
Ontem fomos tomar a primeira dose da vacina anti-rábica, marido de manhã e eu à tarde. Marido comenta: “- Você viu o epidemologista? Super gentil, todo sarado me deu uma aula sobre os perigos de se contrair raiva”. Eu lembrei na hora da enfermeira suarenta e com ar de cansada há dez anos, loira à força e de buço que me fez meia dúzia de perguntas de praxe. Na hora de preencher a ficha:
-Profissão?
-Professor
-Ihhh... cachorro adora morder professor. É carteiro e professor, nunca vi.
Oi?
Então é isto Brasil: Salário baixo, turmas lotadas e vítima preferencial dos cachorros.
Todo mundo tem seus dias de Lobo, né não?
Aff....
terça-feira, 20 de março de 2012
A grande questão
Crescer é auto-aceitar-se. É libertação do que se deve ser, fazer, parecer, de como agir. È matar todas as instâncias “pai” e provar a doçura e o amargor de ser quem se é e/ou empreender a longa jornada noite adentro para se tornar quem se quer ser.
Nisso tudo tem algo de que, volta e meia, me ressinto.
Escolhas. Aquele primeiro substrato de quem se é, mais determinado por outros, pela época, por tantos contextos nos quais se vem a este mundo não passa por nós mesmos. As escolhas que se dão a partir disto, como uma “reação à”, ainda não são totalmente nossas. Chega uma hora, no entanto, que ou a gente veste o manto maltrapilho da mágoa que mal nos cobre e passamos a vida numa cantilena monótona a lamentar o que fizeram de nós, ou, assumimos que agora é conosco. E o que se faz, quem a gente se torna, passa a ser responsabilidade nossa.
Eu preciso tomar uma decisão. Não exatamente agora. Daqui a cerca de um ano, termino a graduação e tenho a chance de regulamentar esta minha estranha vida profissional. Eu sei bem o que quero fazer, o ideal a ser alcançado. O real, porém, me diz: Não agora. Há ainda, quase insuspeita, uma porta, à esquerda, no fim do corredor, pela qual posso, talvez, passar.
A grande questão é achar o ponto de equilíbrio, a justa medida entre a realização do meu desejo e as possibilidades reais do momento. Eu não tenho mais quinze anos, os sonhos tem a medida necessária da comida no prato; também não fui vencido ainda, atropelado pelo rolo compressor da vida para achar que só o pão de cada dia nos daí hoje.
O que eu queria era acreditar que o tempo sempre nos dá sabedoria e discernimento, mas não é verdade. A gente pode morrer velho e tão estúpido quanto sempre foi. Na minha vida profissional o tempo de responder demandas sempre urgentes, de recuperar o perdido está chegando ao fim. Eu só preciso agora saber que passo dar.
Nisso tudo tem algo de que, volta e meia, me ressinto.
Escolhas. Aquele primeiro substrato de quem se é, mais determinado por outros, pela época, por tantos contextos nos quais se vem a este mundo não passa por nós mesmos. As escolhas que se dão a partir disto, como uma “reação à”, ainda não são totalmente nossas. Chega uma hora, no entanto, que ou a gente veste o manto maltrapilho da mágoa que mal nos cobre e passamos a vida numa cantilena monótona a lamentar o que fizeram de nós, ou, assumimos que agora é conosco. E o que se faz, quem a gente se torna, passa a ser responsabilidade nossa.
Eu preciso tomar uma decisão. Não exatamente agora. Daqui a cerca de um ano, termino a graduação e tenho a chance de regulamentar esta minha estranha vida profissional. Eu sei bem o que quero fazer, o ideal a ser alcançado. O real, porém, me diz: Não agora. Há ainda, quase insuspeita, uma porta, à esquerda, no fim do corredor, pela qual posso, talvez, passar.
A grande questão é achar o ponto de equilíbrio, a justa medida entre a realização do meu desejo e as possibilidades reais do momento. Eu não tenho mais quinze anos, os sonhos tem a medida necessária da comida no prato; também não fui vencido ainda, atropelado pelo rolo compressor da vida para achar que só o pão de cada dia nos daí hoje.
O que eu queria era acreditar que o tempo sempre nos dá sabedoria e discernimento, mas não é verdade. A gente pode morrer velho e tão estúpido quanto sempre foi. Na minha vida profissional o tempo de responder demandas sempre urgentes, de recuperar o perdido está chegando ao fim. Eu só preciso agora saber que passo dar.
segunda-feira, 12 de março de 2012
Reflexões entupidas
E eu estou aqui, apenas uma narina entupida quase todo final de semana. É estranho sentir tão diversamente dois lados do que sou. O meio-nariz entupido faz doer uma parte apenas da cabeça e eu me surpreendo que, só porque as pessoas são diferentes corpos no espaço, elas possam apreender o mundo de mil maneiras. Não é só a formação que se teve, os livros que se leu, o tipo de pais que te criaram. É essa coisa de que seu nariz é diferente do meu: puxa o ar e devolve o CO2 em outro ritmo, de outra forma. E este oxigênio circula por tuas veias em trajetos pessoais, distribuindo de forma desigual as proteínas e sais minerais.
Fica mais fácil para mim entender assim tantas coisas. Se uma narina entupida acaba com a ilusão de uma unidade orgânica, quer do indivíduo quer da conclamada e inexistente humanidade, serve ainda para me pensar como fenômeno absolutamente único nesta fração do tempo que chamamos hoje. Eu fui o menino deslocado e só, da minha infância, o religioso certeiro e de convicções absolutas e hoje sou a metamorfose de tudo o que eu fui.
Alimento-me das sobras do que um dia reservei de melhor para o sacrifício em solenes altares, percorro o terreno baldio do meu passado catando as pérolas do que perdi em todas vezes que pude, com coragem, e isto nunca me faltou, destruir tudo o que já não mais me cabia. E entre mosaicos preciosos e alimentos que devoro esquecendo-me dos deuses sou “agora”. O que é melhor do que “antes” e, espero, ainda não tão bom quanto o indizível amanhã.
No fim os trinta anos te presenteiam mesmo um mimo. Você continua sendo tão ansioso, inseguro, ou o que seja, mas sabe se distanciar disto. Vai ali numa esquina imaginária, se olha e percebe que você é aquilo, mas há mais. Assim você dá a mão para seus defeitos e os circunscreve de maneira a só permitir que falem quem é você até um certo ponto e muito de vez em quando. E, aqui e ali, é até mesmo capaz de rir um pouquinho da situação.
Fica mais fácil para mim entender assim tantas coisas. Se uma narina entupida acaba com a ilusão de uma unidade orgânica, quer do indivíduo quer da conclamada e inexistente humanidade, serve ainda para me pensar como fenômeno absolutamente único nesta fração do tempo que chamamos hoje. Eu fui o menino deslocado e só, da minha infância, o religioso certeiro e de convicções absolutas e hoje sou a metamorfose de tudo o que eu fui.
Alimento-me das sobras do que um dia reservei de melhor para o sacrifício em solenes altares, percorro o terreno baldio do meu passado catando as pérolas do que perdi em todas vezes que pude, com coragem, e isto nunca me faltou, destruir tudo o que já não mais me cabia. E entre mosaicos preciosos e alimentos que devoro esquecendo-me dos deuses sou “agora”. O que é melhor do que “antes” e, espero, ainda não tão bom quanto o indizível amanhã.
No fim os trinta anos te presenteiam mesmo um mimo. Você continua sendo tão ansioso, inseguro, ou o que seja, mas sabe se distanciar disto. Vai ali numa esquina imaginária, se olha e percebe que você é aquilo, mas há mais. Assim você dá a mão para seus defeitos e os circunscreve de maneira a só permitir que falem quem é você até um certo ponto e muito de vez em quando. E, aqui e ali, é até mesmo capaz de rir um pouquinho da situação.
sexta-feira, 9 de março de 2012
quinta-feira, 8 de março de 2012
O amargo e o doce
Ouvi uma vez que, de certo modo, todos nós sobrevivemos à infância. E acredito nisto. Grande parta da minha vida até os vinte e oito foi sentindo-me um outsider, alguém que, simplesmente não se encaixava. E isso era amargo e triste. Hoje acho ótimo, celebro certa estranheza e acho o tal do “não se encaixar” uma das coisas mais saudáveis na vida de um ser humano.
Há medo, mágoa e fragilidades em mim que foram terminantemente negadas, exorcizadas, maquiadas de todas as formas durante anos. E agora, eu as abraço. Dizendo a mim mesmo que ficará tudo bem, que sou forte, que os eventuais dias ruins não são os primeiros e nem serão os últimos. Eu agora posso fazer isto. Antes não, antes de uma certa maturidade adquirida, ninguém pode. Devem ser outros a nos envolver e acalentar em seus braços. E isso eu não tive.
Não cobro, não baseio minha relação com ninguém a partir disto. Simplesmente os tenho próximos, mas na teia mais íntima das minhas relações devo reconhecer que eles não estão. Sei que me amam à sua maneira. Sei para que e de que forma posso contar com eles, mas há uma gap afetivo que dá o tom na forma como convivemos.
Para mim há duas compreensões esclarecedoras: Não há culpados, o que significa que eu não sou responsável pela situação, idéia que me acompanhou boa parte da infância e adolescência; e eu posso, agora cuidar de mim e contar com o afeto daqueles que me amam, porque a gente cresce e passa a ter vida própria e não apenas o reflexo da forma como se é ou não amado no início de tudo.
Mas ainda é perturbador ouvir que, na infância, foi recomendado que me levassem a um psicólogo num momento bastante delicado da vida e que após algumas visitas, o tratamento foi interrompido porque era caro. Na hora, eu disse um “deixa para lá, faz tanto tempo”. Mas a pergunta que ficou na minha cabeça foi “E quantas vezes vocês trocaram de carro neste mesmo período?”.
Há medo, mágoa e fragilidades em mim que foram terminantemente negadas, exorcizadas, maquiadas de todas as formas durante anos. E agora, eu as abraço. Dizendo a mim mesmo que ficará tudo bem, que sou forte, que os eventuais dias ruins não são os primeiros e nem serão os últimos. Eu agora posso fazer isto. Antes não, antes de uma certa maturidade adquirida, ninguém pode. Devem ser outros a nos envolver e acalentar em seus braços. E isso eu não tive.
Não cobro, não baseio minha relação com ninguém a partir disto. Simplesmente os tenho próximos, mas na teia mais íntima das minhas relações devo reconhecer que eles não estão. Sei que me amam à sua maneira. Sei para que e de que forma posso contar com eles, mas há uma gap afetivo que dá o tom na forma como convivemos.
Para mim há duas compreensões esclarecedoras: Não há culpados, o que significa que eu não sou responsável pela situação, idéia que me acompanhou boa parte da infância e adolescência; e eu posso, agora cuidar de mim e contar com o afeto daqueles que me amam, porque a gente cresce e passa a ter vida própria e não apenas o reflexo da forma como se é ou não amado no início de tudo.
Mas ainda é perturbador ouvir que, na infância, foi recomendado que me levassem a um psicólogo num momento bastante delicado da vida e que após algumas visitas, o tratamento foi interrompido porque era caro. Na hora, eu disse um “deixa para lá, faz tanto tempo”. Mas a pergunta que ficou na minha cabeça foi “E quantas vezes vocês trocaram de carro neste mesmo período?”.
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