E eu estou aqui, apenas uma narina entupida quase todo final de semana. É estranho sentir tão diversamente dois lados do que sou. O meio-nariz entupido faz doer uma parte apenas da cabeça e eu me surpreendo que, só porque as pessoas são diferentes corpos no espaço, elas possam apreender o mundo de mil maneiras. Não é só a formação que se teve, os livros que se leu, o tipo de pais que te criaram. É essa coisa de que seu nariz é diferente do meu: puxa o ar e devolve o CO2 em outro ritmo, de outra forma. E este oxigênio circula por tuas veias em trajetos pessoais, distribuindo de forma desigual as proteínas e sais minerais.
Fica mais fácil para mim entender assim tantas coisas. Se uma narina entupida acaba com a ilusão de uma unidade orgânica, quer do indivíduo quer da conclamada e inexistente humanidade, serve ainda para me pensar como fenômeno absolutamente único nesta fração do tempo que chamamos hoje. Eu fui o menino deslocado e só, da minha infância, o religioso certeiro e de convicções absolutas e hoje sou a metamorfose de tudo o que eu fui.
Alimento-me das sobras do que um dia reservei de melhor para o sacrifício em solenes altares, percorro o terreno baldio do meu passado catando as pérolas do que perdi em todas vezes que pude, com coragem, e isto nunca me faltou, destruir tudo o que já não mais me cabia. E entre mosaicos preciosos e alimentos que devoro esquecendo-me dos deuses sou “agora”. O que é melhor do que “antes” e, espero, ainda não tão bom quanto o indizível amanhã.
No fim os trinta anos te presenteiam mesmo um mimo. Você continua sendo tão ansioso, inseguro, ou o que seja, mas sabe se distanciar disto. Vai ali numa esquina imaginária, se olha e percebe que você é aquilo, mas há mais. Assim você dá a mão para seus defeitos e os circunscreve de maneira a só permitir que falem quem é você até um certo ponto e muito de vez em quando. E, aqui e ali, é até mesmo capaz de rir um pouquinho da situação.
segunda-feira, 12 de março de 2012
sexta-feira, 9 de março de 2012
quinta-feira, 8 de março de 2012
O amargo e o doce
Ouvi uma vez que, de certo modo, todos nós sobrevivemos à infância. E acredito nisto. Grande parta da minha vida até os vinte e oito foi sentindo-me um outsider, alguém que, simplesmente não se encaixava. E isso era amargo e triste. Hoje acho ótimo, celebro certa estranheza e acho o tal do “não se encaixar” uma das coisas mais saudáveis na vida de um ser humano.
Há medo, mágoa e fragilidades em mim que foram terminantemente negadas, exorcizadas, maquiadas de todas as formas durante anos. E agora, eu as abraço. Dizendo a mim mesmo que ficará tudo bem, que sou forte, que os eventuais dias ruins não são os primeiros e nem serão os últimos. Eu agora posso fazer isto. Antes não, antes de uma certa maturidade adquirida, ninguém pode. Devem ser outros a nos envolver e acalentar em seus braços. E isso eu não tive.
Não cobro, não baseio minha relação com ninguém a partir disto. Simplesmente os tenho próximos, mas na teia mais íntima das minhas relações devo reconhecer que eles não estão. Sei que me amam à sua maneira. Sei para que e de que forma posso contar com eles, mas há uma gap afetivo que dá o tom na forma como convivemos.
Para mim há duas compreensões esclarecedoras: Não há culpados, o que significa que eu não sou responsável pela situação, idéia que me acompanhou boa parte da infância e adolescência; e eu posso, agora cuidar de mim e contar com o afeto daqueles que me amam, porque a gente cresce e passa a ter vida própria e não apenas o reflexo da forma como se é ou não amado no início de tudo.
Mas ainda é perturbador ouvir que, na infância, foi recomendado que me levassem a um psicólogo num momento bastante delicado da vida e que após algumas visitas, o tratamento foi interrompido porque era caro. Na hora, eu disse um “deixa para lá, faz tanto tempo”. Mas a pergunta que ficou na minha cabeça foi “E quantas vezes vocês trocaram de carro neste mesmo período?”.
Há medo, mágoa e fragilidades em mim que foram terminantemente negadas, exorcizadas, maquiadas de todas as formas durante anos. E agora, eu as abraço. Dizendo a mim mesmo que ficará tudo bem, que sou forte, que os eventuais dias ruins não são os primeiros e nem serão os últimos. Eu agora posso fazer isto. Antes não, antes de uma certa maturidade adquirida, ninguém pode. Devem ser outros a nos envolver e acalentar em seus braços. E isso eu não tive.
Não cobro, não baseio minha relação com ninguém a partir disto. Simplesmente os tenho próximos, mas na teia mais íntima das minhas relações devo reconhecer que eles não estão. Sei que me amam à sua maneira. Sei para que e de que forma posso contar com eles, mas há uma gap afetivo que dá o tom na forma como convivemos.
Para mim há duas compreensões esclarecedoras: Não há culpados, o que significa que eu não sou responsável pela situação, idéia que me acompanhou boa parte da infância e adolescência; e eu posso, agora cuidar de mim e contar com o afeto daqueles que me amam, porque a gente cresce e passa a ter vida própria e não apenas o reflexo da forma como se é ou não amado no início de tudo.
Mas ainda é perturbador ouvir que, na infância, foi recomendado que me levassem a um psicólogo num momento bastante delicado da vida e que após algumas visitas, o tratamento foi interrompido porque era caro. Na hora, eu disse um “deixa para lá, faz tanto tempo”. Mas a pergunta que ficou na minha cabeça foi “E quantas vezes vocês trocaram de carro neste mesmo período?”.
segunda-feira, 5 de março de 2012
Aiai...
AVISO: CÍNICOS E DIABÉTICOS NÃO LEIAM O POST ABAIXO - ELE É DOCE E MELADO :)
A verdade é que eu estou morrendo de saudades.
Sinto falta de coisas que eu nem sabia que conhecia de você: a maneira como você me olha concentrado quando fala algo importante, esta preguiça matinal que nunca te deixa levantar na hora do despertador, a forma como sinto teus braços ao meu redor quando, distraído, estou na cozinha preparando nosso jantar.
Eu quero que você volte para nunca acordarmos cedo nos finais de semana, permanecer na cama horas e horas depois que despertarmos, variando o peso de um sobre o do outro, agarrados num aconchego que nunca se finda.
Eu quero ouvir sua chave na porta e te ver lindo, de roupa social chegando do trabalho de novo. Suas múltiplas reclamações sobre o calor infernal que faz nesta cidade. Ter a geladeira sempre cheia da cerveja que você nunca deixa faltar.
Quero ficar meio brabo com sua mania de pôr pimenta em qualquer prato e quero que celebremos, com abraços e beijos, seus bolos cada vez mais gostosos.
Quero nossas noites animadas pelo shuffle de incrível bom gosto do Ipod mágico, e me zangar quando você sempre pula Antony and the johnsons
Quero afundar minha cabeça em seu peito quando tudo vai mal e sorver a cura de dias péssimos da sua língua quente e doce. Ir dormir feliz porque tenho, ao meu lado, o amor.
Eu quero você. Volta logo, porra! (rsrs...)
A verdade é que eu estou morrendo de saudades.
Sinto falta de coisas que eu nem sabia que conhecia de você: a maneira como você me olha concentrado quando fala algo importante, esta preguiça matinal que nunca te deixa levantar na hora do despertador, a forma como sinto teus braços ao meu redor quando, distraído, estou na cozinha preparando nosso jantar.
Eu quero que você volte para nunca acordarmos cedo nos finais de semana, permanecer na cama horas e horas depois que despertarmos, variando o peso de um sobre o do outro, agarrados num aconchego que nunca se finda.
Eu quero ouvir sua chave na porta e te ver lindo, de roupa social chegando do trabalho de novo. Suas múltiplas reclamações sobre o calor infernal que faz nesta cidade. Ter a geladeira sempre cheia da cerveja que você nunca deixa faltar.
Quero ficar meio brabo com sua mania de pôr pimenta em qualquer prato e quero que celebremos, com abraços e beijos, seus bolos cada vez mais gostosos.
Quero nossas noites animadas pelo shuffle de incrível bom gosto do Ipod mágico, e me zangar quando você sempre pula Antony and the johnsons
Quero afundar minha cabeça em seu peito quando tudo vai mal e sorver a cura de dias péssimos da sua língua quente e doce. Ir dormir feliz porque tenho, ao meu lado, o amor.
Eu quero você. Volta logo, porra! (rsrs...)
quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012
Palavras são só palavras
Escrever é um embuste. Porque se procura a palavra como se buscasse a partícula imaterial que desse sentido a tudo. Como se a palavra dissesse o querer, o penar, fosse o cristal perfeito onde brilha a alegria e a nota última, pendente no fim de toda a melodia amarga que é a tristeza.
Procuramos as palavras como se houvesse vida nelas mesmas, palavras que nos curem, arrebatem, transformem a nossa existência. Como se o escritor fosse um bruxo, sacerdote mágico de infinitos poderes e não um colecionador de tatis-bitatis.
A palavra é uma mentira, sua composição é fácil, onomatopéias primitivas sobre as quais se constroem sentidos. E, no entanto, se não há palavras, não vejo, não ouço, não sou.
Ainda procuro a palavra, aquela que me diga, me mostre ao outro e no qual eu possa, finalmente, saber o mundo como entregue e óbvio. Talvez esta não exista. Mas há: comichão, arenito, dendê, quiçá. E elas salvam o meu dia. Se monótono com horas se arrastando em rotinas de trabalho que ameaçam dissolver-me em tédio, eu ponho no meio de uma frase qualquer: quiçá. E sinto, de imediato, uma alegriazinha ordinária serpentear aqui dentro. É quase tão boa quanto o meu amor de criança: ornitorrinco. Tem coisa mais divertida do que or-ni-tor-rinco?
Procuramos as palavras como se houvesse vida nelas mesmas, palavras que nos curem, arrebatem, transformem a nossa existência. Como se o escritor fosse um bruxo, sacerdote mágico de infinitos poderes e não um colecionador de tatis-bitatis.
A palavra é uma mentira, sua composição é fácil, onomatopéias primitivas sobre as quais se constroem sentidos. E, no entanto, se não há palavras, não vejo, não ouço, não sou.
Ainda procuro a palavra, aquela que me diga, me mostre ao outro e no qual eu possa, finalmente, saber o mundo como entregue e óbvio. Talvez esta não exista. Mas há: comichão, arenito, dendê, quiçá. E elas salvam o meu dia. Se monótono com horas se arrastando em rotinas de trabalho que ameaçam dissolver-me em tédio, eu ponho no meio de uma frase qualquer: quiçá. E sinto, de imediato, uma alegriazinha ordinária serpentear aqui dentro. É quase tão boa quanto o meu amor de criança: ornitorrinco. Tem coisa mais divertida do que or-ni-tor-rinco?
segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012
O amor é uma coisa assim... ridícula
Eu me considero um pós-moderno. Entendo a gênese capitalista da obsessão pela monogamia no Ocidente, compreendo que quanto menos se importar modelos prontos, melhor será a relação. Cada casal deve, com tato e verdade, ir plasmando o que são junto um ao outro. Por isto sou contra a dissolução do ¨eu" em qualquer tipo de "nós". Há de ser "eu" "tu-outro eu" e então o que somos unidos.
Foi por isto que encarei tranquilamente a viagem de férias do marido. Ele lá 15 dias na Europa e eu aqui trabalhando e estudando, como de costume. Pensei ser bom para o cultivo das individualidades, para arejar a relação, achei maduro e chique.
Hoje é o dia da viagem e no último telefonema, ele já a caminho do aeroporto e eu da faculdade, houve um clarão que passou direto pelas minhas convicções, um estrondo lá no fundo desta coisa amorfa e quente que chamamos afeto: 15 dias sem ele.
Na sala a colega me pergunta se eu li o texto sobre a crise da cultura contemporânea. Eu viro para trás. os olhos cheios, e respondo:
-Sim. A Pós-modernidade é uma merda!
Foi por isto que encarei tranquilamente a viagem de férias do marido. Ele lá 15 dias na Europa e eu aqui trabalhando e estudando, como de costume. Pensei ser bom para o cultivo das individualidades, para arejar a relação, achei maduro e chique.
Hoje é o dia da viagem e no último telefonema, ele já a caminho do aeroporto e eu da faculdade, houve um clarão que passou direto pelas minhas convicções, um estrondo lá no fundo desta coisa amorfa e quente que chamamos afeto: 15 dias sem ele.
Na sala a colega me pergunta se eu li o texto sobre a crise da cultura contemporânea. Eu viro para trás. os olhos cheios, e respondo:
-Sim. A Pós-modernidade é uma merda!
sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012
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