terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Na tela da TV, no meio deste povo, a gente vai se ver...#NOT

Há uns anos atrás, recém-saído da vida religiosa, o que eu mais queria era folia, confete e serpentina e, claro, bocas, muitas. Carnaval era época de complexas estratégias para realizar meus planos de sair de um bloco e imediatamente cair em outro. Começava cedinho no, então, bucólico “Céu na terra”, em Santa Tereza no qual os músicos tocavam no bondinho e terminava o dia, ou começava a madruga, em alguma coisa mega populosa como a Banda de Ipanema.

Com o passar do tempo fui restringindo o meu carnaval à interesses exclusivamente acadêmicos, digamos assim, pesquisa antropológica. Meu programa de então era o mal-falado, com toda a razão, baile de carnaval gay de Gafieira centenária chamada “Elite”, no centro do Rio. Local super tradicional durante o ano todo que resolve descolar algum money em cima das bibas no carnaval. É um salão velho, sem ar condicionado, com mil e quinhentos cafuçus se espremendo sem camisa, e tantos mais admiradores do tipo, embalados por marchinhas carnavalescas de priscas eras. O chão de madeira treme como se um terremoto estivesse prestes a começar, a sorte é que a gafieira funciona no segundo andar de um casarão e, no térreo do mesmo, há uma funerária, o que me dava uma espécie de paz sempre que eu lembrava disto. Pensando bem, quem liga? Com samba, suor e cafuçus que o mundo se exploda.

Pois bem, neste carnaval tudo o que eu quero é a trilha sonora, a tranqüilidade e o não ziriguidum do conforto do meu lar. Que sejam alegres bem longe de mim. Deixem-me com meus livros, filmes e amigos anti-foliões como eu. Marido disse que gosta de um bloco ou outro, pois que vá com seus amigos fervidos, né não?

O problema é que o carnaval é algo de que, muitas vezes, não se pode escapar. De alguma forma, numa força coerciva absurdamente penetrante ele acaba na sua sala, nos seus ouvidos, rasgando seu descanso anti-folia. São amigos bêbados que te telefonam de blocos barulhentos, sua mão que te liga para dizer como a Portela está linda este ano, jatos de serpentina que te pegam desprevenido enquanto se vai comprar dois pães franceses e um croissant.

Domingo passado, por exemplo, que nem carnaval era, saímos eu e marido para ir ao cinema Odeon, há dez minutos de casa pensando em tomar um café e ver “Millenium: O homem que não amava as mulheres” e no meio do caminho havia o bloco da Preta Gil. Chegamos atrasados no cinema, não tomamos o café – tudo fechado – e eu, cheiroso e limpinho, passei maus-bocados no meio de um povo xexelento, mal-lavado e bêbado...

Aff.. “O carnaval é um verdadeiro matadouro para uma pessoa phynnah”

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Cena carioca

6h15. Você bota o pé fora de casa já no ritmo da música que pulsa no seu ipod. Os primeiros metros são vencidos desviando-se de pedestres, gente parada no ponto de ônibus, trabalhadores com pesados carrinhos de mão. Finalmente diante de você, só o calçadão quase livre que se estende pra lá dos arcos da Lapa. Uma única mesa do bar "Só kana" ainda resiste aos primeiros raios da manhã. Três senhoras. Quase desisto da corrida, ao passar por elas e ouvir a mais velha, cabelo acajú, lá pelos sessenta, gritar pro garçom sonolento: - Meu filho, traz a saideira!

Há! Essa é das minhas...

Excelente final-de-semana em Blogsville!

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

Brasilidades

Esses dias li coisas que detesto. Elitismos de classe, de gente que se acha in, bem acima da média dos demais pobres, da “nova classe C”. E se tais privilegiados tem Facebook, e todos tem, lançam logo status com o mote infalível da “orkutização do FB”. Este antes era reduto de gente diferenciada, quase uma Higienópolis ou um Leblon virtual. E é claro, afirma outro, são todos brasileiros os responsáveis. Um terceiro reclama em inglês do calor que faz no Rio, inveja das nevascas européias, onde se pode usar casacos e botas e não quase andar de tanga nestes trópicos do inferno.

Gente que fala mal do Brasil e de sua gente, não como resultado de real capacidade crítica que enxerga as mil deficiências do nosso país, mas fruto de um complexo de vira-lata que olha sempre para além-mar como se o Éden, o jardim paradisíaco, há tanto tempo perdido fosse lá. Pessoas que não saem de seus grandes centros urbanos e os enxergam como o negativo da metrópole idealizada: Nova York, Paris, Londres.

Eu quero um país onde a coisa pública seja tratada com imparcialidade, sem personalismos, uma burocracia estatal eficiente, as condições básicas para que a vida dos cidadãos transcorra em paz, saúde e segurança garantidas de verdade pelo Estado, afinal é sua obrigação.

Mas gosto da malemolência de nossas terras, deste sorriso frouxo da nossa gente, essa coisa de chegar fácil e iniciar uma conversa, os nossos sotaques encantados, nossa cultura solar. Gosto do meu Rio de mares e montanhas em paisagens de tirar o fôlego, de saber que São Paulo está aqui ao lado. Gosto da gente do Nordeste, de conversas em tardes de brisa depois da praia de águas mornas.

Ouço música estrangeira, detesto futebol e não sei sambar. Mas daí a pensar que o Brasil é só um poço de problemas, gente deselegante num forno a mil graus Celsius é muito colonialismo introjetado desses “caboclos querendo ser ingleses”, como diz o bom e velho Cazuza.

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

De tudo o que tenho e do que me falta

Tem frase mais verdadeira na música brasileira do que “Cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é”? Eu por exemplo. Acho um delícia aos 28 anos ter mandado tudo pro alto – tudo mesmo – e reinventado a vida.

Seis anos depois estou muito mais feliz, mais bonito, mais leve. Delícia!
Agora nem de longe, profissionalmente, estou onde desejo. E aí, nos piores dias, olho com invejinha para aqueles que encontraram o que fazer da vida lá pelos vinte e poucos. Aos trinta e quatro devem estar colhendo frutos bons de sua já longa trajetória, ou talvez, estejam mortalmente entediados.

O fato é que os freela que eu sempre reputei como provisórios, aquela coisa que você nem gosta tanto, mas que te garante o camembert de cada dia, acabaram se tornando toda minha vida profissional ao longo deste tempo.

O que eu quero mesmo é fazer doutorado, dar aula e fazer pesquisa. Mas o que vai acontecer é que me formarei ano que vem e vou arranjar um emprego no ensino médio, para ter um mínimo de estabilidade financeira - saber daqui a 3 meses o quanto vou receber de $ é um sonho para este freelancer que vos escreve – e aprender francês suficiente para a prova do doutorado.

Tenho muita coisa que amo. Mas, às vezes, o que não tenho fica aqui pesando no peito.
E aí é aquela coisa: Levanta, bate-o-cabelo e dá a volta por cima

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

Quinta. Entre 5 e 6 da tarde

-Por que a gente tem que perder tudo o que ama?

E o olho luziu numa provável lágrima. Eu ali, parado, absorto no instante deste quase choro. Mas o olho se fechou e a boca aberta procurou a minha. Por uma espécie de piedade chinfrim eu correspondi. A língua quente, aquele sabor de gente passando por poros e cantos, a língua com a língua. Sobre nós nenhum deus, nenhum céu, só as pás do ventilador numa sinfonia zumbida, sem vento. O suor empapando o lençol, meu corpo sobre, o dele em mim. Teso, a barba por fazer, seu cabelo negro nublando meus olhos irritados de suor. O corpo magro, a vida pouca, a idade em flor.

Então os derradeiros raios horizontais mal venciam a persiana torta, entravam, a custo no quarto, jogando-se sobre a parede num lento suicídio. O garoto me abraçava como a garantir qualquer coisa, a cabeça incômoda no meu peito, seu pau murcho a roçar minhas pernas vez em quando.

Afasto-o e começo a me vestir. Sem quase ter se mexido, meio submerso na bagunça de lençóis úmidos, seus grandes olhos me perscrutam:
- Me responde.

Camisa posta, olho-o imóvel na cama. A bunda boa e branca, as costas quase infantis, lisas de músculos e trabalhos. Só seu olhar.

- Por que a gente tem que perder tudo o que ama. E isso, é só o começo, garoto.

A porta bate. Detenho-me um instante, nenhum som, só o monótono zumbido de um ventilador inútil.

A lágrima cai em silêncio.

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

O retrato do artista quando...velho (?)


Vi a pouco a prévia do clipe de “Give me all your lovin’”.Eu sempre gostei muito da Madonna. No universo efêmero da pop music, as letras mais inteligentes, os clipes poderosos e as provocações mais interssantes eram da loira em questão. Fui aos dois shows aqui no Rio, em 1993 e ano retrasado (?) e até hoje muitas das suas músicas fazem parte da minha playlist de corrida.

De uns anos pra cá, no entanto, eu me pergunto: É o pop um universo exclusivamente menor de idade? Devem seus ídolos, divas bafônicas lá pelos 40-45 cantar sobre amores maduros, aprender um instrumento e parar de rebolar com shorts minúsculos em meio a canhões de luzes nos palcos pelo mundo? A outra saída digna para os ídolos pop seria a morte jovem e trágica?

Uma parte de mim diz que não a ambas possibilidades, puro preconceito meu. Que as mulheres, inclusive as da rara categoria “divas pop”, podem comportar-se da forma que for em qualquer idade. No entanto, será que perseguir a todo custo uma pele de 25 anos, trejeitos de adolescente (que capa é essa do novo single, Madge??) e namorados mancebos, é uma atitude libertária ou uma forma de escravidão aos deus pop da jovialidade?

Não sei não, por melhor que esteje aos 53 anos, ver Madonna num clima de cheerleader, cantando coisas apropriadas à faixa etária das fãs de Miley Cyrus não me parece nada provocante. Um passo em falso da loira e se cruzará a linha do ridículo.

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

The night is young, and the show has just began

O pilar básico do pensamento ocidental, incrustado no mais antigo substrato da filosofia grega, a famosa frase de Parmênides: “O ser é”, caducou. Seu longuíssimo prazo de validade, parece enfim, ter expirado. O ser não é; inventa-se, faz-se.
E não em algum lugar abscôndito da alma, um centro nervoso pessoal e invisível aos olhos de terceiros, na mais profunda interioridade. Não, senhores e senhoras! O ser é performance. Constrói-se em gestos, frases de efeitos suspensas no ar por algo entre a fina ironia no que acaba de ser posto de forma tão calculada e a antecipação do gozo que este movimento provoca em quem a disse. E para isto, meus amigos, é preciso uma platéia.
Quer na imensidão de um grande teatro ou no têt à têt numa esquina, numa mesa de jantar com poucos convivas ou no horário nobre da televisão. Repete-se tanto o papel, aprimora-se mais e mais os trejeitos, se trabalha de forma tão exaustiva as marcas de entonação e a forma de olhar que julgamos ser natural quem somos e fruto de uma espontaneidade que se alimenta, sem filtros, de algo como “a mais pura essência, o ‘eu’”.
De bom grado ou por obrigação, com quase espontaneidade ou real esforço, representamos sempre aos outros, não para enganá-los ou convencê-los, mas para realizar ambas atitudes, no fundo, em relação a nós mesmos.

And the show must go on.

domingo, 4 de dezembro de 2011

Phóton



Não é meu, mas poderia ser...

"Acordar ao seu lado, esse eterno amanhecer por dentro, um sol interno tão aceso, essa alegria gratuita. E existe algo em nós que é tão recíproco, cúmplice e intenso. Dos nossos olhares que dizem tanto sobre tudo, silenciosamente. Um movimento de corpo que é tão ao encontro o tempo todo. Da compreensão e paciência a que nos dedicamos diariamente. E o amor que permeia tanta poesia, e a poesia que se entrega inteira pras palavras que querem dizer do abraço. Seu corpo tão moldado ao meu, natureza líquida de água e jarro. Você me conduzindo à fonte de todas as coisas, lá onde o desejo se origina. E nada míngua com o passar do tempo e mesmo acreditando não ter mais espaço, cresce, flui, se imensa clareando o que era escuro e frio.Cada vez mais e mais eu preciso dizer do amor. Dessa ternura delicada. Cada vez mais o amor sendo a melhor experiência. Cada vez mais eu percebendo que se nada no mundo é definitivo, nossa história eu sei perene. Uma primavera inaugurada a cada dia. E mesmo que nada possa ser eterno, mesmo que o "pra sempre" não exista, eu sei que vou seguir te amando, pelo menos, pelos próximos 99 invernos.

(E se ainda eu não consigo explicar você pra mim, eu simplesmente aceito e agradeço)".

(Marla de Queiroz)

terça-feira, 22 de novembro de 2011

Florence, sua linda!

Ando meio obcecado por Florence Welch. Isto significa longas horas de pesquisa na net em busca de delicinhas raras e que me conseguem arrancar um belo sorriso do rosto. Biografia não me interessa, agora a discografia...

Florence participou de uma banda que lançou um único CD, em 2007, chamada "Ashok". O som é bem legal e o estranho é ouví-la fazendo quase que só a segunda voz nas músicas. Confere a ótima "New Year's ansiety":



Depois, a ruiva mais delícia da Inglaterra se juntou com Isabella Summers numa banda de dois com nome complicado, "Florrible and Misrabella". Desta época temos "Small hands":



Sem esquecer as versões alternativas às do primeiro álbum:



E o melhor é que Florence fará shows no Brasil: Rio de Janeiro, São Paulo e Floripa, em Janeiro. E o mais legal é ficar sabendo pela própria, no facebook. Pergunta, pergunta se eu vou...

domingo, 20 de novembro de 2011

Conclui-se que...

No post passado, o tema principal, era, sem dúvida alguma, o absurdo mercado imobiliário do Rio de Janeiro, com preços para os quais o céu é o limite. Tinha até imagem mega-ilustrativa sobre o assunto.

Eu pensei que os queridos comentadores iriam tecer considerações sobre as causas de tal desvario imobiliário, deixar testemunhos edificantes de como conseguiram o sonho da casa própria, apresentar uma comparação de preços entre o Rio e a própria cidade, ou, investigar as causas econômicas e sociais do fenômeno.

No entanto, bastou eu escrever “marido” e citar, assim, em passant, que estávamos procurando apê juntos para ser este o assunto que bombou nos comentários. De onde se concluí que:

O POVO DE BLOGSVILLE GOSTA MESMO É DE FOFOCA!!

rsrsr

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

Alugar ou morrer


Uma pesquisa recente mostrou que o custo de vida no Rio de janeiro é um dos mais caros do mundo. Mais caro que Nova York, tanto quanto Paris. E isto, naturalmente, vale para o preço dos imóveis. Qualquer kitinete meia-boca começa, só o aluguel, em R$ 600. E isto, os bem ruinzinhos, e no centro da cidade, claro, zona sul nem pensar.

Eu e marido estamos procurando um quarto e sala realmente habitável no centro, porque onde moro agora, Flamengo, é impossível. Outro dia parecia um milagre anunciado nos classificados: uma rua perto da minha, quarto e sala, por apenas (?) R$ 1.450. Chegamos animados para a visita: uma sala que dava para o pátio interno do prédio e uma cozinha que, na verdade, era um vão no corredor entre a sala e o quarto.

Neste calvário imobiliário, se você acha um apê bom e barato, faz-se a guerra. Corra imediatamente para a imobiliária com a ficha preenchida na mão, os documentos em ordem e reze para o seu fiador ter mais cacife do que o do concorrente. Há anúncios que exigem que o fiador tenha 2 imóveis!

Perder um apê bom e barato nestas circunstâncias só com anos de terapia, uma imensa capacidade de superação e um bom porre, como se fosse um amor que se foi, um parente numa desastrosa curva de estrada.

Mas também não adianta baixar o nível de exigência. Eu, por exemplo, faço questão de uma vista digna (eu disse "digna" não "maravilhosa") e uma sala que caiba amigos reunidos em preguiçosas tardes de Domingo.

No Rio, alugar é para os fortes...

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

O que você quer ouvir de verdade

Fazia muito tempo que um álbum da Marisa Monte não me pegava assim, na primeira distraída escutada. De certa forma para os phynnos e phynnas da música é um álbum quase para se ter vergonha de gostar, um flerte deliberado e delicioso com o brega, cheirando a rádio anos 70 e, por isto mesmo, uma delícia. Tem até forró! Quem diria hein, Senhora Monte?
Mas a música-chiclete para mim é esta aí embaixo:

terça-feira, 15 de novembro de 2011






sexta-feira, 29 de julho de 2011

Pequenas bobagens ou "Falta de inspiração é uó"

Será que este blog morrerá de inanição? Nenhuma vontade e inspiração para escrever.

***
Por acaso, quando meus amigos de Manchester chegaram lá em casa estava tocando Adele. Percebi pela cara de Micky que eles não agüentariam ouvir mais um segundo. Karla me disse que “Someone like you” é a música-chiclete nas rádios inglesas. E eu respondi: “Você reclama porque não conhece o Luan Santana, darling”.

***
Barba voltando e topete cada vez maior, num estilo moderno-desconstrutivista que leva séculos para construir... Mas gostando de sair com meu topetão na rua, algo descolado mode on.

***
Agosto não é nada. Setembro tem: Amigos russos (oba!), Boroboleta e S. lá em casa (SAP: muito amor, cervejas e risadas) e meu aniversário.

***
A melhor decisão que tomei: parar de pensar tanto. Pros cerebrais como eu a mente está cheia de cadafalsos e cantos escuros onde se perde o desejo, se estrangulam afetos.

***
Terá sido este o último post????

Um fim de semana incrível para todos os habitantes de Blogsville!!

segunda-feira, 25 de julho de 2011

O circo dos horrores

Eu só quero dizer que eu entendo. Nem todas as peças se encaixam, a felicidade do tudo bem e do “faz sentido” é mesmo rara e efêmera e no cotidiano de tudo, os satisfeitos é que me parecem loucos.

Eu não sei se você era realmente o fenômeno que dizem. Gostava de algumas de suas músicas, mas com dois discos, sem produzir nada há anos, não sei. E me incomodava também a figura grotesca que você virou: seu inimaginável penteado, esses olhos e os tombos. Uma figura caricata de comédia ridícula até no “Pânico na TV”. Incomodava-me porque acho que rir da dor dos outros é sempre uma atitude desesperada para encobrir a própria dor.

Eu achava isso mesmo. Mas descobri que pior do que encobrir a dor, é ter gente que não a sente. E isto é tão pior! Eu entendo os artistas geniais, os loucos insociáveis, os suicidas, os que se perdem nas drogas. Isto de “vida” não é fácil. E se, de algum modo, você foi marcado com uma sensibilidade à flor de tudo, fica ainda mais difícil ainda que também mais belo. Por isto eu não gosto dos que riem da dor, mas gosto menos dos que não a sentem e olham atravessado, fazem um comentário enojadamente moralista e voltam pra suas vidinhas ridículas e previsíveis.
Enfim, eu só quero dizer que te entendo.

terça-feira, 19 de julho de 2011

O sonho

A saída era sinuosa, uma escarpa, a montanha. No entanto, o dia estava claro, eu não estava só, vozes atrás de mim me confirmavam que outros estavam prontos a começar o caminho. Os primeiros metros foram vencidos facilmente, nenhuma dificuldade a mais do que as já esperadas. Pelo contrário, o senso de aventura, o vento no rosto me davam uma sensação boa de desbravador intrépido.

Não sei quando, em nenhum limite visível, a escarpa se fez mais e mais estreita, os desfiladeiros à direita abissais e o paredão de pedra do entorno à esquerda intransponível. O sol continuava a se refletir na pedra em tons entre azuis e cinzas discretos que seriam bonitos de se ver, se o pé, a mão, o corpo todo não sentisse, a despeito da visão do belo colorido, uma crescente aflição. Como se a pedra crescesse em volume e arestas, o caminho inventado por entre impossibilidades se afinasse mais e mais e as vozes humanas, já por isso solidárias em meio a tanta aridez mineral, fossem ecoando cada vez mais fracas.

Um pequeno mirante me fez perceber que a subida tinha chegado ao fim. Ou se fica parado numa imobilidade contagiante que, do formigamento nos pés, rouba o ar dos pulmões, cessa sístoles e diástoles e, um dia, finalmente te sufoca em pedra ou se inventa uma descida tornada possível simplesmente porque se quer assim.

Lá em baixo, construções testemunhavam que outros fizeram o mesmo. Edifícios abandonados, de portões entreabertos e janelas batendo ao vento mostravam que tais corajosos foram poucos e antigos. Eu, parado sob o sol, agora inclemente, a sentir o formigamento pétreo já na ponta dos pés; querendo descobrir uma coragem que brotasse sabe-se lá de que entranhas. Das vísceras ou dos músculos, dos ossos em atrito, de qualquer parte, menos do que via à minha frente: um desfiladeiro impossível. Então, de repente, algo se moveu.

Algo humano passou correndo entre os prédios, sem som, sem barulhos de nada: passos, respiração, grito. Um vulto, cabelos e roupas ao vento. Logo atrás, um imenso urso marrom. Soube então: não apenas a imobilidade férrea como ameaça aos que param; mas a fúria selvagem aos que ousam.

Eu soube, mas, o que senti foi: Há algo humano. E isso basta. Então, comecei a descida.

segunda-feira, 18 de julho de 2011

Solta, soltinha!

Eu não sei porquê, mas nas gravações ao vivo de Adele eu a achava travada, envergonhada, a música mal havia emitido o último acorde e ela já agradecia um "Thank you" rápido, seco.
Mas não é que a menina está mudada? Neste show do iTunes Festival, Adele conversa com a platéia, lhe declara seu amor, ri à beça e quase chora um par de vezes. Já a sabia simples e talentosíssima, agora, além de tudo, é uma querida também.
Confere aí embaixo. Atenção para as 2 músicas do bis com a platéia cantando com ela, é de emocionar qualquer um. Agradeço de coração ao ex-namorado dela. Nunca um pé-na-bunda rendeu tanta beleza.

Lançando a campanha: "Queremos Adele no Brasil!!"

domingo, 17 de julho de 2011

Para os fortes

Eu queria estar sob o sol, inerte, entregue, como se despejar sobre mim ondas de sua luz e calor fosse o único objetivo do astro-rei em toda sua existência de incontáveis milênios.
Estar olho no olho com um amigo, numa intimidade fresca de fim de tarde, apenas mediada por copos simples de cerveja gelada. E isso em alguma mesinha debaixo de uma amendoeira ordinária que marcasse o ritmo das conversas alheias com farfalhar de folhas entregues à brisa qualquer.
Após o úmido bom do teu beijo, me virar na cama desfeita pelo nosso amor e deixar que teu corpo junto ao meu, teu ressoar quase no sono, me desse a certeza de tudo.

Eu não tomo prozac, não faço uso de antidepressivos. Não tenho medo da dor. Mas quase entendo quem teme a vida. Porque se você não é um completo babaca, e talvez esta seja a opção mais fácil, a reiterada cotidianamente opção por ser um babaca, o fluxo constante de tudo, que é sim belo e inspirador, condição de possibilidade de todas as mudanças, mas também turbulento e inefável, imprevisível em seus movimentos, tudo isto extasia e cansa.

Tudo o que não sei, o que almejo, o que pretendo agora, as coisas que sinto e aquelas que gostaria de experimentar, aquilo que jurei “para sempre”, as que disse “só por hoje” e que no instante seguinte gritam horrorizadas em todas as instâncias do quer sou “Não mais!”; a vida em suas arestas e surpresas, amargos e calafrios. As encruzilhadas do que “poderia ter sido se” e daquilo que precisa ser decidido hoje, sem mais, tudo, subitamente, desperta e grita como uma comichão por todo o meu corpo. A coceira que pinica o ser, desde a superfície dita epiderme até o fluído onipresente e pastoso que alguém, um dia, chamou de “alma”.

E o que se faz com essa vida que pulsa bravia e louca? Eu gosto do fluxo, aprendi que desejar calmarias e estabilidades é construir sobre quimeras. O louco existir pode até se aquietar, esmagado pela solidez robusta das convicções, amuado pela certeza de tudo que desponta infalível das mentes dos pequenos e orgulhosos grãos de nada que somos nós, ela se aquieta, a vida, e deixa que pensemos que, finalmente, descobrimos o segredo de seu movimento. Permite que lhe tracemos margens seguras, digamos com autoridade de animais racionais, de sujeitos controlados e sábios, de crentes em deuses que detém a chave: “Vais até aqui” ou “Não ultrapasses este ponto. Aqui cessa o furor de tuas ondas”. E então, cenas de mares calmos e cândidas espumas brancas a se estender em areias de fim de dias perfeitos. Até que a garganta seca, o peito acelera e irrompe o inaudito.

O “quanto se pode”, “se fez”, os sonhos perdidos flutuam em meio à fúria das águas como destroços inúteis a que basta ao náufrago tocar, como última esperança de salvação com a ponta dos dedos, para desaparecer como inúteis quimeras.

Não nos enganemos: A vida, aquela de verdade, é para os fortes.

terça-feira, 12 de julho de 2011

Serei eu este menino?

Olhando a foto, já não sei se sou eu o menino. Recém saído das águas; vencidos os, apenas, primeiros mergulhos. Desde lá, tenho descido às profundezas e há sempre fôlego novo para voltar, porque sei que é preciso erguer-se a tal altura que já não mais o mar assuste.

Serei eu este menino? Olhos baixos e boca aberta a cantar uma melodia secreta e feliz. A sentir-se tão diferente de tudo que o cerca: as águas, o cachorro, as plantas e mesmo sua mãe ou seu pai que o fotografam.

Devo ser eu este menino. Mãos em possível dança, captadas no passadiço instante de um ligeiro mover-se. Minha vida em instantâneos que, sem nem que eu o saiba, revelam algo de mim: a solidão de uma praia estrangeira, o conforto de águas calmas, a já citada melodia e dança inexistentes e a alegre companhia vira-lata de um cão qualquer.

Sou eu este menino. Passo pela vida desejando calmarias e insisto em salvar-me nelas em meio às tempestades. Canto belezas inexistentes em meio a dias difíceis e imagino danças voláteis onde a rigidez morta a tudo toma. Eu e meus fieis escudeiros, os vira-latas de todo o mundo, de cada dia.

Sim, sou eu este menino.