6h15. Você bota o pé fora de casa já no ritmo da música que pulsa no seu ipod. Os primeiros metros são vencidos desviando-se de pedestres, gente parada no ponto de ônibus, trabalhadores com pesados carrinhos de mão. Finalmente diante de você, só o calçadão quase livre que se estende pra lá dos arcos da Lapa. Uma única mesa do bar "Só kana" ainda resiste aos primeiros raios da manhã. Três senhoras. Quase desisto da corrida, ao passar por elas e ouvir a mais velha, cabelo acajú, lá pelos sessenta, gritar pro garçom sonolento: - Meu filho, traz a saideira!
Há! Essa é das minhas...
Excelente final-de-semana em Blogsville!
sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012
quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012
Brasilidades
Esses dias li coisas que detesto. Elitismos de classe, de gente que se acha in, bem acima da média dos demais pobres, da “nova classe C”. E se tais privilegiados tem Facebook, e todos tem, lançam logo status com o mote infalível da “orkutização do FB”. Este antes era reduto de gente diferenciada, quase uma Higienópolis ou um Leblon virtual. E é claro, afirma outro, são todos brasileiros os responsáveis. Um terceiro reclama em inglês do calor que faz no Rio, inveja das nevascas européias, onde se pode usar casacos e botas e não quase andar de tanga nestes trópicos do inferno.
Gente que fala mal do Brasil e de sua gente, não como resultado de real capacidade crítica que enxerga as mil deficiências do nosso país, mas fruto de um complexo de vira-lata que olha sempre para além-mar como se o Éden, o jardim paradisíaco, há tanto tempo perdido fosse lá. Pessoas que não saem de seus grandes centros urbanos e os enxergam como o negativo da metrópole idealizada: Nova York, Paris, Londres.
Eu quero um país onde a coisa pública seja tratada com imparcialidade, sem personalismos, uma burocracia estatal eficiente, as condições básicas para que a vida dos cidadãos transcorra em paz, saúde e segurança garantidas de verdade pelo Estado, afinal é sua obrigação.
Mas gosto da malemolência de nossas terras, deste sorriso frouxo da nossa gente, essa coisa de chegar fácil e iniciar uma conversa, os nossos sotaques encantados, nossa cultura solar. Gosto do meu Rio de mares e montanhas em paisagens de tirar o fôlego, de saber que São Paulo está aqui ao lado. Gosto da gente do Nordeste, de conversas em tardes de brisa depois da praia de águas mornas.
Ouço música estrangeira, detesto futebol e não sei sambar. Mas daí a pensar que o Brasil é só um poço de problemas, gente deselegante num forno a mil graus Celsius é muito colonialismo introjetado desses “caboclos querendo ser ingleses”, como diz o bom e velho Cazuza.
Gente que fala mal do Brasil e de sua gente, não como resultado de real capacidade crítica que enxerga as mil deficiências do nosso país, mas fruto de um complexo de vira-lata que olha sempre para além-mar como se o Éden, o jardim paradisíaco, há tanto tempo perdido fosse lá. Pessoas que não saem de seus grandes centros urbanos e os enxergam como o negativo da metrópole idealizada: Nova York, Paris, Londres.
Eu quero um país onde a coisa pública seja tratada com imparcialidade, sem personalismos, uma burocracia estatal eficiente, as condições básicas para que a vida dos cidadãos transcorra em paz, saúde e segurança garantidas de verdade pelo Estado, afinal é sua obrigação.
Mas gosto da malemolência de nossas terras, deste sorriso frouxo da nossa gente, essa coisa de chegar fácil e iniciar uma conversa, os nossos sotaques encantados, nossa cultura solar. Gosto do meu Rio de mares e montanhas em paisagens de tirar o fôlego, de saber que São Paulo está aqui ao lado. Gosto da gente do Nordeste, de conversas em tardes de brisa depois da praia de águas mornas.
Ouço música estrangeira, detesto futebol e não sei sambar. Mas daí a pensar que o Brasil é só um poço de problemas, gente deselegante num forno a mil graus Celsius é muito colonialismo introjetado desses “caboclos querendo ser ingleses”, como diz o bom e velho Cazuza.
terça-feira, 7 de fevereiro de 2012
De tudo o que tenho e do que me falta
Tem frase mais verdadeira na música brasileira do que “Cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é”? Eu por exemplo. Acho um delícia aos 28 anos ter mandado tudo pro alto – tudo mesmo – e reinventado a vida.
Seis anos depois estou muito mais feliz, mais bonito, mais leve. Delícia!
Agora nem de longe, profissionalmente, estou onde desejo. E aí, nos piores dias, olho com invejinha para aqueles que encontraram o que fazer da vida lá pelos vinte e poucos. Aos trinta e quatro devem estar colhendo frutos bons de sua já longa trajetória, ou talvez, estejam mortalmente entediados.
O fato é que os freela que eu sempre reputei como provisórios, aquela coisa que você nem gosta tanto, mas que te garante o camembert de cada dia, acabaram se tornando toda minha vida profissional ao longo deste tempo.
O que eu quero mesmo é fazer doutorado, dar aula e fazer pesquisa. Mas o que vai acontecer é que me formarei ano que vem e vou arranjar um emprego no ensino médio, para ter um mínimo de estabilidade financeira - saber daqui a 3 meses o quanto vou receber de $ é um sonho para este freelancer que vos escreve – e aprender francês suficiente para a prova do doutorado.
Tenho muita coisa que amo. Mas, às vezes, o que não tenho fica aqui pesando no peito.
E aí é aquela coisa: Levanta, bate-o-cabelo e dá a volta por cima
Seis anos depois estou muito mais feliz, mais bonito, mais leve. Delícia!
Agora nem de longe, profissionalmente, estou onde desejo. E aí, nos piores dias, olho com invejinha para aqueles que encontraram o que fazer da vida lá pelos vinte e poucos. Aos trinta e quatro devem estar colhendo frutos bons de sua já longa trajetória, ou talvez, estejam mortalmente entediados.
O fato é que os freela que eu sempre reputei como provisórios, aquela coisa que você nem gosta tanto, mas que te garante o camembert de cada dia, acabaram se tornando toda minha vida profissional ao longo deste tempo.
O que eu quero mesmo é fazer doutorado, dar aula e fazer pesquisa. Mas o que vai acontecer é que me formarei ano que vem e vou arranjar um emprego no ensino médio, para ter um mínimo de estabilidade financeira - saber daqui a 3 meses o quanto vou receber de $ é um sonho para este freelancer que vos escreve – e aprender francês suficiente para a prova do doutorado.
Tenho muita coisa que amo. Mas, às vezes, o que não tenho fica aqui pesando no peito.
E aí é aquela coisa: Levanta, bate-o-cabelo e dá a volta por cima
segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012
Quinta. Entre 5 e 6 da tarde
-Por que a gente tem que perder tudo o que ama?
E o olho luziu numa provável lágrima. Eu ali, parado, absorto no instante deste quase choro. Mas o olho se fechou e a boca aberta procurou a minha. Por uma espécie de piedade chinfrim eu correspondi. A língua quente, aquele sabor de gente passando por poros e cantos, a língua com a língua. Sobre nós nenhum deus, nenhum céu, só as pás do ventilador numa sinfonia zumbida, sem vento. O suor empapando o lençol, meu corpo sobre, o dele em mim. Teso, a barba por fazer, seu cabelo negro nublando meus olhos irritados de suor. O corpo magro, a vida pouca, a idade em flor.
Então os derradeiros raios horizontais mal venciam a persiana torta, entravam, a custo no quarto, jogando-se sobre a parede num lento suicídio. O garoto me abraçava como a garantir qualquer coisa, a cabeça incômoda no meu peito, seu pau murcho a roçar minhas pernas vez em quando.
Afasto-o e começo a me vestir. Sem quase ter se mexido, meio submerso na bagunça de lençóis úmidos, seus grandes olhos me perscrutam:
- Me responde.
Camisa posta, olho-o imóvel na cama. A bunda boa e branca, as costas quase infantis, lisas de músculos e trabalhos. Só seu olhar.
- Por que a gente tem que perder tudo o que ama. E isso, é só o começo, garoto.
A porta bate. Detenho-me um instante, nenhum som, só o monótono zumbido de um ventilador inútil.
A lágrima cai em silêncio.
E o olho luziu numa provável lágrima. Eu ali, parado, absorto no instante deste quase choro. Mas o olho se fechou e a boca aberta procurou a minha. Por uma espécie de piedade chinfrim eu correspondi. A língua quente, aquele sabor de gente passando por poros e cantos, a língua com a língua. Sobre nós nenhum deus, nenhum céu, só as pás do ventilador numa sinfonia zumbida, sem vento. O suor empapando o lençol, meu corpo sobre, o dele em mim. Teso, a barba por fazer, seu cabelo negro nublando meus olhos irritados de suor. O corpo magro, a vida pouca, a idade em flor.
Então os derradeiros raios horizontais mal venciam a persiana torta, entravam, a custo no quarto, jogando-se sobre a parede num lento suicídio. O garoto me abraçava como a garantir qualquer coisa, a cabeça incômoda no meu peito, seu pau murcho a roçar minhas pernas vez em quando.
Afasto-o e começo a me vestir. Sem quase ter se mexido, meio submerso na bagunça de lençóis úmidos, seus grandes olhos me perscrutam:
- Me responde.
Camisa posta, olho-o imóvel na cama. A bunda boa e branca, as costas quase infantis, lisas de músculos e trabalhos. Só seu olhar.
- Por que a gente tem que perder tudo o que ama. E isso, é só o começo, garoto.
A porta bate. Detenho-me um instante, nenhum som, só o monótono zumbido de um ventilador inútil.
A lágrima cai em silêncio.
sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012
O retrato do artista quando...velho (?)
Vi a pouco a prévia do clipe de “Give me all your lovin’”.Eu sempre gostei muito da Madonna. No universo efêmero da pop music, as letras mais inteligentes, os clipes poderosos e as provocações mais interssantes eram da loira em questão. Fui aos dois shows aqui no Rio, em 1993 e ano retrasado (?) e até hoje muitas das suas músicas fazem parte da minha playlist de corrida.
De uns anos pra cá, no entanto, eu me pergunto: É o pop um universo exclusivamente menor de idade? Devem seus ídolos, divas bafônicas lá pelos 40-45 cantar sobre amores maduros, aprender um instrumento e parar de rebolar com shorts minúsculos em meio a canhões de luzes nos palcos pelo mundo? A outra saída digna para os ídolos pop seria a morte jovem e trágica?
Uma parte de mim diz que não a ambas possibilidades, puro preconceito meu. Que as mulheres, inclusive as da rara categoria “divas pop”, podem comportar-se da forma que for em qualquer idade. No entanto, será que perseguir a todo custo uma pele de 25 anos, trejeitos de adolescente (que capa é essa do novo single, Madge??) e namorados mancebos, é uma atitude libertária ou uma forma de escravidão aos deus pop da jovialidade?
Não sei não, por melhor que esteje aos 53 anos, ver Madonna num clima de cheerleader, cantando coisas apropriadas à faixa etária das fãs de Miley Cyrus não me parece nada provocante. Um passo em falso da loira e se cruzará a linha do ridículo.
quarta-feira, 11 de janeiro de 2012
The night is young, and the show has just began
O pilar básico do pensamento ocidental, incrustado no mais antigo substrato da filosofia grega, a famosa frase de Parmênides: “O ser é”, caducou. Seu longuíssimo prazo de validade, parece enfim, ter expirado. O ser não é; inventa-se, faz-se.
E não em algum lugar abscôndito da alma, um centro nervoso pessoal e invisível aos olhos de terceiros, na mais profunda interioridade. Não, senhores e senhoras! O ser é performance. Constrói-se em gestos, frases de efeitos suspensas no ar por algo entre a fina ironia no que acaba de ser posto de forma tão calculada e a antecipação do gozo que este movimento provoca em quem a disse. E para isto, meus amigos, é preciso uma platéia.
Quer na imensidão de um grande teatro ou no têt à têt numa esquina, numa mesa de jantar com poucos convivas ou no horário nobre da televisão. Repete-se tanto o papel, aprimora-se mais e mais os trejeitos, se trabalha de forma tão exaustiva as marcas de entonação e a forma de olhar que julgamos ser natural quem somos e fruto de uma espontaneidade que se alimenta, sem filtros, de algo como “a mais pura essência, o ‘eu’”.
De bom grado ou por obrigação, com quase espontaneidade ou real esforço, representamos sempre aos outros, não para enganá-los ou convencê-los, mas para realizar ambas atitudes, no fundo, em relação a nós mesmos.
And the show must go on.
E não em algum lugar abscôndito da alma, um centro nervoso pessoal e invisível aos olhos de terceiros, na mais profunda interioridade. Não, senhores e senhoras! O ser é performance. Constrói-se em gestos, frases de efeitos suspensas no ar por algo entre a fina ironia no que acaba de ser posto de forma tão calculada e a antecipação do gozo que este movimento provoca em quem a disse. E para isto, meus amigos, é preciso uma platéia.
Quer na imensidão de um grande teatro ou no têt à têt numa esquina, numa mesa de jantar com poucos convivas ou no horário nobre da televisão. Repete-se tanto o papel, aprimora-se mais e mais os trejeitos, se trabalha de forma tão exaustiva as marcas de entonação e a forma de olhar que julgamos ser natural quem somos e fruto de uma espontaneidade que se alimenta, sem filtros, de algo como “a mais pura essência, o ‘eu’”.
De bom grado ou por obrigação, com quase espontaneidade ou real esforço, representamos sempre aos outros, não para enganá-los ou convencê-los, mas para realizar ambas atitudes, no fundo, em relação a nós mesmos.
And the show must go on.
domingo, 4 de dezembro de 2011
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