segunda-feira, 25 de julho de 2011

O circo dos horrores

Eu só quero dizer que eu entendo. Nem todas as peças se encaixam, a felicidade do tudo bem e do “faz sentido” é mesmo rara e efêmera e no cotidiano de tudo, os satisfeitos é que me parecem loucos.

Eu não sei se você era realmente o fenômeno que dizem. Gostava de algumas de suas músicas, mas com dois discos, sem produzir nada há anos, não sei. E me incomodava também a figura grotesca que você virou: seu inimaginável penteado, esses olhos e os tombos. Uma figura caricata de comédia ridícula até no “Pânico na TV”. Incomodava-me porque acho que rir da dor dos outros é sempre uma atitude desesperada para encobrir a própria dor.

Eu achava isso mesmo. Mas descobri que pior do que encobrir a dor, é ter gente que não a sente. E isto é tão pior! Eu entendo os artistas geniais, os loucos insociáveis, os suicidas, os que se perdem nas drogas. Isto de “vida” não é fácil. E se, de algum modo, você foi marcado com uma sensibilidade à flor de tudo, fica ainda mais difícil ainda que também mais belo. Por isto eu não gosto dos que riem da dor, mas gosto menos dos que não a sentem e olham atravessado, fazem um comentário enojadamente moralista e voltam pra suas vidinhas ridículas e previsíveis.
Enfim, eu só quero dizer que te entendo.

terça-feira, 19 de julho de 2011

O sonho

A saída era sinuosa, uma escarpa, a montanha. No entanto, o dia estava claro, eu não estava só, vozes atrás de mim me confirmavam que outros estavam prontos a começar o caminho. Os primeiros metros foram vencidos facilmente, nenhuma dificuldade a mais do que as já esperadas. Pelo contrário, o senso de aventura, o vento no rosto me davam uma sensação boa de desbravador intrépido.

Não sei quando, em nenhum limite visível, a escarpa se fez mais e mais estreita, os desfiladeiros à direita abissais e o paredão de pedra do entorno à esquerda intransponível. O sol continuava a se refletir na pedra em tons entre azuis e cinzas discretos que seriam bonitos de se ver, se o pé, a mão, o corpo todo não sentisse, a despeito da visão do belo colorido, uma crescente aflição. Como se a pedra crescesse em volume e arestas, o caminho inventado por entre impossibilidades se afinasse mais e mais e as vozes humanas, já por isso solidárias em meio a tanta aridez mineral, fossem ecoando cada vez mais fracas.

Um pequeno mirante me fez perceber que a subida tinha chegado ao fim. Ou se fica parado numa imobilidade contagiante que, do formigamento nos pés, rouba o ar dos pulmões, cessa sístoles e diástoles e, um dia, finalmente te sufoca em pedra ou se inventa uma descida tornada possível simplesmente porque se quer assim.

Lá em baixo, construções testemunhavam que outros fizeram o mesmo. Edifícios abandonados, de portões entreabertos e janelas batendo ao vento mostravam que tais corajosos foram poucos e antigos. Eu, parado sob o sol, agora inclemente, a sentir o formigamento pétreo já na ponta dos pés; querendo descobrir uma coragem que brotasse sabe-se lá de que entranhas. Das vísceras ou dos músculos, dos ossos em atrito, de qualquer parte, menos do que via à minha frente: um desfiladeiro impossível. Então, de repente, algo se moveu.

Algo humano passou correndo entre os prédios, sem som, sem barulhos de nada: passos, respiração, grito. Um vulto, cabelos e roupas ao vento. Logo atrás, um imenso urso marrom. Soube então: não apenas a imobilidade férrea como ameaça aos que param; mas a fúria selvagem aos que ousam.

Eu soube, mas, o que senti foi: Há algo humano. E isso basta. Então, comecei a descida.

segunda-feira, 18 de julho de 2011

Solta, soltinha!

Eu não sei porquê, mas nas gravações ao vivo de Adele eu a achava travada, envergonhada, a música mal havia emitido o último acorde e ela já agradecia um "Thank you" rápido, seco.
Mas não é que a menina está mudada? Neste show do iTunes Festival, Adele conversa com a platéia, lhe declara seu amor, ri à beça e quase chora um par de vezes. Já a sabia simples e talentosíssima, agora, além de tudo, é uma querida também.
Confere aí embaixo. Atenção para as 2 músicas do bis com a platéia cantando com ela, é de emocionar qualquer um. Agradeço de coração ao ex-namorado dela. Nunca um pé-na-bunda rendeu tanta beleza.

Lançando a campanha: "Queremos Adele no Brasil!!"

domingo, 17 de julho de 2011

Para os fortes

Eu queria estar sob o sol, inerte, entregue, como se despejar sobre mim ondas de sua luz e calor fosse o único objetivo do astro-rei em toda sua existência de incontáveis milênios.
Estar olho no olho com um amigo, numa intimidade fresca de fim de tarde, apenas mediada por copos simples de cerveja gelada. E isso em alguma mesinha debaixo de uma amendoeira ordinária que marcasse o ritmo das conversas alheias com farfalhar de folhas entregues à brisa qualquer.
Após o úmido bom do teu beijo, me virar na cama desfeita pelo nosso amor e deixar que teu corpo junto ao meu, teu ressoar quase no sono, me desse a certeza de tudo.

Eu não tomo prozac, não faço uso de antidepressivos. Não tenho medo da dor. Mas quase entendo quem teme a vida. Porque se você não é um completo babaca, e talvez esta seja a opção mais fácil, a reiterada cotidianamente opção por ser um babaca, o fluxo constante de tudo, que é sim belo e inspirador, condição de possibilidade de todas as mudanças, mas também turbulento e inefável, imprevisível em seus movimentos, tudo isto extasia e cansa.

Tudo o que não sei, o que almejo, o que pretendo agora, as coisas que sinto e aquelas que gostaria de experimentar, aquilo que jurei “para sempre”, as que disse “só por hoje” e que no instante seguinte gritam horrorizadas em todas as instâncias do quer sou “Não mais!”; a vida em suas arestas e surpresas, amargos e calafrios. As encruzilhadas do que “poderia ter sido se” e daquilo que precisa ser decidido hoje, sem mais, tudo, subitamente, desperta e grita como uma comichão por todo o meu corpo. A coceira que pinica o ser, desde a superfície dita epiderme até o fluído onipresente e pastoso que alguém, um dia, chamou de “alma”.

E o que se faz com essa vida que pulsa bravia e louca? Eu gosto do fluxo, aprendi que desejar calmarias e estabilidades é construir sobre quimeras. O louco existir pode até se aquietar, esmagado pela solidez robusta das convicções, amuado pela certeza de tudo que desponta infalível das mentes dos pequenos e orgulhosos grãos de nada que somos nós, ela se aquieta, a vida, e deixa que pensemos que, finalmente, descobrimos o segredo de seu movimento. Permite que lhe tracemos margens seguras, digamos com autoridade de animais racionais, de sujeitos controlados e sábios, de crentes em deuses que detém a chave: “Vais até aqui” ou “Não ultrapasses este ponto. Aqui cessa o furor de tuas ondas”. E então, cenas de mares calmos e cândidas espumas brancas a se estender em areias de fim de dias perfeitos. Até que a garganta seca, o peito acelera e irrompe o inaudito.

O “quanto se pode”, “se fez”, os sonhos perdidos flutuam em meio à fúria das águas como destroços inúteis a que basta ao náufrago tocar, como última esperança de salvação com a ponta dos dedos, para desaparecer como inúteis quimeras.

Não nos enganemos: A vida, aquela de verdade, é para os fortes.

terça-feira, 12 de julho de 2011

Serei eu este menino?

Olhando a foto, já não sei se sou eu o menino. Recém saído das águas; vencidos os, apenas, primeiros mergulhos. Desde lá, tenho descido às profundezas e há sempre fôlego novo para voltar, porque sei que é preciso erguer-se a tal altura que já não mais o mar assuste.

Serei eu este menino? Olhos baixos e boca aberta a cantar uma melodia secreta e feliz. A sentir-se tão diferente de tudo que o cerca: as águas, o cachorro, as plantas e mesmo sua mãe ou seu pai que o fotografam.

Devo ser eu este menino. Mãos em possível dança, captadas no passadiço instante de um ligeiro mover-se. Minha vida em instantâneos que, sem nem que eu o saiba, revelam algo de mim: a solidão de uma praia estrangeira, o conforto de águas calmas, a já citada melodia e dança inexistentes e a alegre companhia vira-lata de um cão qualquer.

Sou eu este menino. Passo pela vida desejando calmarias e insisto em salvar-me nelas em meio às tempestades. Canto belezas inexistentes em meio a dias difíceis e imagino danças voláteis onde a rigidez morta a tudo toma. Eu e meus fieis escudeiros, os vira-latas de todo o mundo, de cada dia.

Sim, sou eu este menino.

PQP! ou Um dia de Lobo

Até alguns momentos atrás eu achava que os cataclismas, pestes e bugs que aconteciam com o Lobo eram uma espécie de recurso estilístico para acentuar dramaticamente os pequenos males do cotidiano. Eu achava.

Como só trabalho à tarde hoje, resolvi fazer um almocinho caseiro. Um arroz quase-risoto com molho de tomate, açafrão e pimenta rosa. E um apetitoso rocambole de carne recheado com queijo e presunto. Tudo quase pronto, o delicioso cheiro do assado já a perfumar o ambiente e BUM! O pirex explode dentro do forno e me obriga a jogar fora a atração principal do almoço.

Limpo tudo mais ou menos e, um pouco atrasado, resolvo descontar minha frustração no lanche mais junk do MacDonald’s. É claro que tive que esperar um tempo enorme considerando que aquilo se propõe a ser FAST food e quando, finalmente, seguro de minha bandeja, dou meia-volta pra me dirigir à uma mesa, a lambisgóia do meu lado resolve se espreguiçar. Resultado: Um banho, não: uma tsunami de Coca-cola.
A vontade era largar tudo, sentar no chão e em meio a Big-mac’s e batatas fritas, chorar. Mas tive que voltar pra casa e, é claro, cheguei atrasado ao trabalho.

Espero que meu bad meal day tenha se restringido ao almoço, de qualquer modo, não custa jejuar hoje o resto do dia, não é mesmo?.

Como terminar este post senão com um

Aúúúúúúúúúúú.........

quarta-feira, 6 de julho de 2011

O mundo inteiro, logo ali

Eu pensei que o Couchsurfing fosse apenas uma forma mais barata de viajar, mas ele pode ser muito mais que isso. O projeto se propõe a ser uma rede mundial de suporte, de fraternidade para viajantes. Você pode procurar um sofá amigo no Camboja por três dias, hospedar um braisleiro desejoso de conhecer a sua cidade ou se dispor a tomar um café e mostrar seus lugares favoritos para alguém em férias no seu canto do mundo.

Em seis dias eu: fui a um sarau literário com uma baiana, participei de um encontro dos couchsurfers no Rio com gente do mundo inteiro e cerveja a R$ 2, fiz amizade com um chileno que se mudou a pouco para cá e quase não sabe português e hospedei por três dias um casal de Moscou.

Toda quinta há um encontro para reunir a galera que ou é ou que está no Rio. Bati papo com um cambojano, uma belga que fala português com sotaque baiano, e vários argentinos em visita à cidade: o mundo todo no meu quintal.

A experiência mais legal foi ter hospedado o casal de Moscou quer dizer, o cara é brasileiro, de Goiânia, mora lá há quatro anos e namora Kristina, esta sim, uma autêntica russa. Fomos à praia em Ipanema, vimos o sol se pôr fenomenal em Copa, bebemos na Lapa e zanzamos com caipirinhas o sábado quase inteiro pela feira do Lavradio. Gente finíssima! Eu aprendi a dizer спасибо (espassiba/ obrigado), e мастурбация (masturbaviriot/ masturbação)... rs ah! e ganhei uma autêntica Матрьона (matrioska), aquelas bonecas russas tradicinais, que vem uma dentro da outra.

No entanto, o mais legal de tudo, foi treinar um olhar novo, olhar estrangeiro sobre paisagens tão cotidianas e a sensação de que o mundo inteiro é logo ali depois da esquina.