Tudo na vida é assim: movimento, dinâmica, nada de bom que não traga, em algum momento, de alguma forma seu contrário, e, à exceção do mal absoluto e sempre injustificável que, desponta, tétrico, aqui e ali na história, também as situações ruins tem em seu bojo, algo que pode, se revelar de algum modo construtivo, algo que, mesmo à custa de anos depois, ser integrado de forma real a um sentido construído com esforço, às vezes dor, mas que dá norte à existência.
Eu não acredito em paraísos terrestres nem em infernos intermináveis sobre esta terra. Acho que, em cada situação, se tem um e outro, em medidas variáveis e mutantes e o que nós precisamos decidir em cada momento é o quanto suportamos de cada uma delas.
Bom, este post com ar de auto-ajuda chinfrim, elocubrando teorias com a sagacidade literária de um Paulo Coelho (nunca vou me perdoar por isto) é um disfarce. Uma forma de não dizer o que nem eu mesmo sei, mas que está aqui, eu sinto. Pode-se querer e não querer quase ao mesmo tempo?
Quando é precipitado cortar as situações? Antes de que ponto? Não é covardia deixá-las se esticar até o momento do não mais possível, quando por si só, elas arrebentam? E o mais importante: Como permanecer, de algum modo, fiel a si mesmo, o que quer que isto signifique?
Sabe o que mais? Vou ali tomar um café: bem forte e amargo.
terça-feira, 21 de junho de 2011
sábado, 18 de junho de 2011
Com vista para o mar - Final
Vinte minutos depois, estava na Av. Atlântica. Os prédios enormes, o saguão da portaria tão amplo e dourado. Cobertura. Antes da porta ser aberta, Dalva, pela janelinha do elevador, vê uma Daminana atordoada e de olhos muito vermelhos. Pobre moça! D. Beth, pelo que percebera ao telefone estava impossível e a escolhida da vez, já que Dalva não tinha chegado ainda foi Damiana que morria de medo da patroa. Para ela, saída da pobreza extrema de uma cidade perdida em Alagoas e vindo parar num subúrbio longínquo do Rio de Janeiro, toda aquela gente situada à beira-mar era quase que de outra espécie. Um outro tipo de ser, muito distante do que ela mesma era.
Dalva não. A negra abusada na sua pouca condição financeira, sabia que gente era realmente tudo gato do mesmo balaio, quer coma vieiras cozidas ao vapor com redução de balsâmico, quer feijão com farinha. Às vezes, Dalva conseguia num olhar, preciso e vingativo, “suspender” o efeito no rosto de D. Beth dos milhões de potes com letras em francês do seu banheiro, do cabeleireiro de toda semana, da plástica nas pálpebras, queixo e lipoaspiração. Via então uma mulher bem comum, dessas que se encontram nos ônibus e atravessando os viadutos das estações de trem. Pelo contorno do nariz e as rugas inexistentes, em sua maioria, D. Beth deveria ser bem parecida com Marinalva, uma vizinha sua, lá no morro.
-Ai, que bom que você chegou! Já estava ficando braba hein?! - E balançou o indicador igualzinho como a via fazer com Samy, a poodle cor-de-rosa, que naquele dia de festa tinha ainda horrorosos laços brancos.
Pontualmente atrasadas cerca de meia-hora, começaram a chegar as convidadas. Sempre as mesmas mulheres a ocupar o tempo numa sucessão interminável de chás e almoços, enquanto os maridos empresários, ganhavam muito dinheiro. Muitas loiras, muito mais ainda vestidas de terninho, tailleur. Sempre educadíssimas, comendo as pequenas porções com fome de passarinho. Dalva se divertia imaginando-as chegar em casa e fazer um pratão, não é possível que aquelas comidinhas mirradas em porções mínimas sustentassem alguém de verdade.
Desvencilhando-se um pouco da louça na pia, a “soberana da copa à área de serviço da casa” foi até o quarto de Rodrigo, que como sempre berrou lá de dentro que não queria lanchar. Dalva sentiu, de repente, o coração disparar e um suor frio lhe escorrer pela face. A mesma sensação da manhã com o revólver de Quinzinho na cara lhe percorreu a espinha. Dalva se deu conta, então, do mesmo cheiro, saindo por debaixo da porta do filho da madame. Rodrigo estava fumando.
Numa hora não combinada previamente, mas que surtia um efeito impressionante nas madames, todas foram se retirando, de tal modo que, o cair da tarde encontrou a casa quase vazia. Rodrigo saíra e D. Beth estava com uma terrível dor de cabeça. Na verdade, estava muito chateada pela ausência de Augusta Pires Leal, o que diminuía em muito as chances de ver seu “evento” na coluna social da Hilde.
A única movimentação era dos garçons, já despidos do avental do uniforme preto, para ser moderno, e de Damiana retirando as coisas, as duas sem os solenes e ridículos adereços de cabelo para domésticas de endinheirados.
A luz tão oblíqua e morna, própria daquela hora, causava sombras no imenso salão de tanto mármore e cristais. Dalva achava que o mar fazia questão de ser o único a brilhar em prata, e o sol, nem que fosse por alguns instantes, antes de partir, satisfazia este capricho, deixando para ele o resplandecer final do dia. Ou então era Iemanjá que se vestia com seu manto prateado, mais rico que os anéis e brincos de todas as peruas do mundo.
Dalva não via conflito nenhum entre seu amor à Nossa Senhora Aparecida e sua admiração por Iemanjá. Para ela, uma era mais quietinha e bondosa, também Dalva se assemelhava à negrinha quando pensava na mãe e nos sobrinhos do interior. Já “a das águas” era mais altiva e não deixava que abusassem de seus domínios era a Dalva dos namorados e das patroas. Talvez mesmo, Iemanjá e Aparecida fossem uma só, em dias calmos e outros de tempestade.
-Vai ficar olhando aí o mar, é? A senhora não é madame não, querida. Olha a vassoura na mão parada.
-Ah, Damiana já to indo, vem ver que espetáculo este fim de dia.
-Eu tô é doida pra ver o fim do serviço e ainda tem um montão de louça na pia.
-Ihh... Você tá parecendo o povo dessa casa que mora em frente a este marzão e nunca pára na janela. Por mim não precisava de nenhum desses quadros caros aí pelas paredes, bastava colocar uma moldura neste janela da sala e tava pendurada a imagem mais linda do mundo.
-Vamô, Dalva. Chegue de conversa.
-Eu acho que D. Beth só mora aqui por que é chique. Se chique fosse morar em Caxias, ou de frente para um paredão de concreto, lá estaria ela, tomando champagne e convidando a Augusta Pires Leal para um “evento” em Xerém – e voltando a impunhar a vassoura ria gostosamente.
Ao se aproximar de casa, já na escuridão da noite, sentiu um medo inédito ao se deparar com a escadinha que levava à porta do seu barraco, graças a Deus não havia ninguém. Recuperando-se ainda das palpitações, a luz acesa lhe provoca um novo susto, a bala atingiu a santinha que, espatifada, a cabeça ainda coroada ao lado da TV, se espalhara em pedaços pelo chão. O oratório e a parede furados à bala eram um estranho elemento na pequena sala cor de amarelo, para dar alegria, lembrou-se Dalva.
Naquela noite colocou o colchão no chão da sala. Da janela do seu quarto via um pedaço ainda existente de mata, bem no alto do morro e muitos barracos vizinhos. Se esticasse a mão poderia mesmo cumprimentar D. Cleyde em sua janela.
Sempre que queria sonhar dormia na sala, debaixo da janela. Não era possível ouvir o barulho do mar, mas o imaginava enquanto as ondas iam e vinham em sua memória. De manhã seria despertada pelo sol e tudo ficaria bem.
Onde estaria, àquela hora, o barquinho?
Dalva não. A negra abusada na sua pouca condição financeira, sabia que gente era realmente tudo gato do mesmo balaio, quer coma vieiras cozidas ao vapor com redução de balsâmico, quer feijão com farinha. Às vezes, Dalva conseguia num olhar, preciso e vingativo, “suspender” o efeito no rosto de D. Beth dos milhões de potes com letras em francês do seu banheiro, do cabeleireiro de toda semana, da plástica nas pálpebras, queixo e lipoaspiração. Via então uma mulher bem comum, dessas que se encontram nos ônibus e atravessando os viadutos das estações de trem. Pelo contorno do nariz e as rugas inexistentes, em sua maioria, D. Beth deveria ser bem parecida com Marinalva, uma vizinha sua, lá no morro.
-Ai, que bom que você chegou! Já estava ficando braba hein?! - E balançou o indicador igualzinho como a via fazer com Samy, a poodle cor-de-rosa, que naquele dia de festa tinha ainda horrorosos laços brancos.
Pontualmente atrasadas cerca de meia-hora, começaram a chegar as convidadas. Sempre as mesmas mulheres a ocupar o tempo numa sucessão interminável de chás e almoços, enquanto os maridos empresários, ganhavam muito dinheiro. Muitas loiras, muito mais ainda vestidas de terninho, tailleur. Sempre educadíssimas, comendo as pequenas porções com fome de passarinho. Dalva se divertia imaginando-as chegar em casa e fazer um pratão, não é possível que aquelas comidinhas mirradas em porções mínimas sustentassem alguém de verdade.
Desvencilhando-se um pouco da louça na pia, a “soberana da copa à área de serviço da casa” foi até o quarto de Rodrigo, que como sempre berrou lá de dentro que não queria lanchar. Dalva sentiu, de repente, o coração disparar e um suor frio lhe escorrer pela face. A mesma sensação da manhã com o revólver de Quinzinho na cara lhe percorreu a espinha. Dalva se deu conta, então, do mesmo cheiro, saindo por debaixo da porta do filho da madame. Rodrigo estava fumando.
Numa hora não combinada previamente, mas que surtia um efeito impressionante nas madames, todas foram se retirando, de tal modo que, o cair da tarde encontrou a casa quase vazia. Rodrigo saíra e D. Beth estava com uma terrível dor de cabeça. Na verdade, estava muito chateada pela ausência de Augusta Pires Leal, o que diminuía em muito as chances de ver seu “evento” na coluna social da Hilde.
A única movimentação era dos garçons, já despidos do avental do uniforme preto, para ser moderno, e de Damiana retirando as coisas, as duas sem os solenes e ridículos adereços de cabelo para domésticas de endinheirados.
A luz tão oblíqua e morna, própria daquela hora, causava sombras no imenso salão de tanto mármore e cristais. Dalva achava que o mar fazia questão de ser o único a brilhar em prata, e o sol, nem que fosse por alguns instantes, antes de partir, satisfazia este capricho, deixando para ele o resplandecer final do dia. Ou então era Iemanjá que se vestia com seu manto prateado, mais rico que os anéis e brincos de todas as peruas do mundo.
Dalva não via conflito nenhum entre seu amor à Nossa Senhora Aparecida e sua admiração por Iemanjá. Para ela, uma era mais quietinha e bondosa, também Dalva se assemelhava à negrinha quando pensava na mãe e nos sobrinhos do interior. Já “a das águas” era mais altiva e não deixava que abusassem de seus domínios era a Dalva dos namorados e das patroas. Talvez mesmo, Iemanjá e Aparecida fossem uma só, em dias calmos e outros de tempestade.
-Vai ficar olhando aí o mar, é? A senhora não é madame não, querida. Olha a vassoura na mão parada.
-Ah, Damiana já to indo, vem ver que espetáculo este fim de dia.
-Eu tô é doida pra ver o fim do serviço e ainda tem um montão de louça na pia.
-Ihh... Você tá parecendo o povo dessa casa que mora em frente a este marzão e nunca pára na janela. Por mim não precisava de nenhum desses quadros caros aí pelas paredes, bastava colocar uma moldura neste janela da sala e tava pendurada a imagem mais linda do mundo.
-Vamô, Dalva. Chegue de conversa.
-Eu acho que D. Beth só mora aqui por que é chique. Se chique fosse morar em Caxias, ou de frente para um paredão de concreto, lá estaria ela, tomando champagne e convidando a Augusta Pires Leal para um “evento” em Xerém – e voltando a impunhar a vassoura ria gostosamente.
Ao se aproximar de casa, já na escuridão da noite, sentiu um medo inédito ao se deparar com a escadinha que levava à porta do seu barraco, graças a Deus não havia ninguém. Recuperando-se ainda das palpitações, a luz acesa lhe provoca um novo susto, a bala atingiu a santinha que, espatifada, a cabeça ainda coroada ao lado da TV, se espalhara em pedaços pelo chão. O oratório e a parede furados à bala eram um estranho elemento na pequena sala cor de amarelo, para dar alegria, lembrou-se Dalva.
Naquela noite colocou o colchão no chão da sala. Da janela do seu quarto via um pedaço ainda existente de mata, bem no alto do morro e muitos barracos vizinhos. Se esticasse a mão poderia mesmo cumprimentar D. Cleyde em sua janela.
Sempre que queria sonhar dormia na sala, debaixo da janela. Não era possível ouvir o barulho do mar, mas o imaginava enquanto as ondas iam e vinham em sua memória. De manhã seria despertada pelo sol e tudo ficaria bem.
Onde estaria, àquela hora, o barquinho?
sexta-feira, 17 de junho de 2011
Com vista para o mar - II
Depois de perder a conta das figuras estranhas no sofá, Dalva passou a tentar identificar as armas que cuspiam fogo ininterruptamente. Conhecia-as quase todas, só pelo som do disparo, pelo intervalo entre um e outro. Além dos tiros, as pisadas firmes e um número cada vez maior de comandos gritados asperamente, indicavam que Beto Crack e seu bando estavam em apuros.
Dalva não podia negar que o chefe do morro era um moreno atraente. Apesar do corpo esguio de miséria, tinha músculos definidos e um olhar muito firme de quem não pode vacilar um minuto. Olhar de quem sempre espreita algo improvável, mas nem por isso menos perigoso, que conversa vendo fundo nos olhos do outro, mas sem nunca deixar de estar atento ao derredor; além disso, a fama de bom-de-cama, insaciável diziam, e maludo mexia mesmo com Dalva, ela não podia negar. Mas claro que não era louca, nem jovem o suficiente, nem mocinha viciada do asfalto para ir além desse ponto.
Como antes do tiroteio ninguém soltou fogos, a guerra não era contra a polícia, devia ser a facção rival do morro vizinho, agora contíguo à favela. Dalva tinha uma comadre que morava naquela área, chamada pelos jornais de “Faixa de Gaza”, mas que o povo chamava mesmo era de “Faixa de Gases”. Levantando a cabeça por cima do sofá-barricada, riu em meio ao tiroteio: “Pobre é fogo mesmo! Ri até da própria desgraça”.
Pertinho da janela, avistou, de pé, e impassível como sempre, a negrinha. Havia a colocado ali, num oratoriozinho de papel-machê feito pela sobrinha, para que ela pudesse ver o mar. Lembrou-se da outra Nossa Senhora Aparecida, que ficava na cozinha da patroa. Dalva a tinha dado de presente para D. Beth quando foi numa peregrinação ao santuário. A madame adorou, mas como havia já uma Nossa Senhora branca de olho azul na sala, deixou a negrinha nos fundos, talvez para fazer companhia à Dalva e Damiana.
-Dalva, cadê você? Esta Doriana é uma tonta!
-Daminana, D. Beth
-Quê?
-O nome da menina é Damiana
-Ah, pois é... uma tonta. Preciso de você urgente. Você sabe onde colocamos aqueles copos de cristal ?
-Estão no armário da dispensa, na segunda porta.
- E os vasos para as orquídeas, aqueles cumpridinhos? A florista já está vindo e eu disse que tinha os vasos.
-Olha D. Beth, um quebrou.
-Quebrou?Ai e agora?
-Têm dois, além daquele maiorzinho que a senhora colocou o arranjo de copos-de-leite na semana passada. Tá no móvel da copa, embaixo, na terceira porta.
-Dalva, eu preciso de você. Venha já pra cá. Vou desligar que a Doriana pegou as bandejas erradas! Ai ! Estou te esperando.
Quinze minutos depois, o tiroteio cessou. Dalva ajeitou novamente a cabeleira para sair. Ao abrir a porta deu com Quinzinho, na escada, fumando um baseado.
- Já falei que não quero ninguém fumando esta porcaria na minha porta!
- Colé tia?! Fumando um bagulhinho só para relaxar depois do estresse. Os cara fugiram, mas o caveirudo levou ferro, tá mauzão.
-Não me interessa, vamos, sai!
Quinzinho desocupou o degrau e ia saindo, um pivete, doze, treze anos. Já no último degrau se vira bruscamente e tira um revólver, encosta na cara de Dalva.
-Que isso menino! Pelo amor de Deus!
-Tá pensando o quê tia?! Ninguém me esculacha não. Dô logo dois tiro, leva logo ferro na cara
-Washington, eu conheço sua mãe, te vi na barriga!
-Me viu na barriga, me viu na barriga?! Foda-se !! O Caralho! Não vem tirar onda comigo não. Pede desculpa anda, anda porra!
Balbuciando as desculpas em meio às lágrimas, na dificuldade da boca seca e o cheiro da maconha nauseante, Dalva não pode acreditar quando Quinzinho disparou contra a janela. Sem saber o que fazer, já voltando para casa a fim de verificar o estrago, dá meia-volta e segue adiante. Se voltasse, morreria. Não baleada, mas de desgosto. O abrigo intransponível do seu barraco! Seu refúgio, um lar, apesar da loucura de tudo. A casa feita, pintada, mobiliada com tanto trabalho e sonho, foi violada; em algum lugar havia uma bala.
Dalva não podia negar que o chefe do morro era um moreno atraente. Apesar do corpo esguio de miséria, tinha músculos definidos e um olhar muito firme de quem não pode vacilar um minuto. Olhar de quem sempre espreita algo improvável, mas nem por isso menos perigoso, que conversa vendo fundo nos olhos do outro, mas sem nunca deixar de estar atento ao derredor; além disso, a fama de bom-de-cama, insaciável diziam, e maludo mexia mesmo com Dalva, ela não podia negar. Mas claro que não era louca, nem jovem o suficiente, nem mocinha viciada do asfalto para ir além desse ponto.
Como antes do tiroteio ninguém soltou fogos, a guerra não era contra a polícia, devia ser a facção rival do morro vizinho, agora contíguo à favela. Dalva tinha uma comadre que morava naquela área, chamada pelos jornais de “Faixa de Gaza”, mas que o povo chamava mesmo era de “Faixa de Gases”. Levantando a cabeça por cima do sofá-barricada, riu em meio ao tiroteio: “Pobre é fogo mesmo! Ri até da própria desgraça”.
Pertinho da janela, avistou, de pé, e impassível como sempre, a negrinha. Havia a colocado ali, num oratoriozinho de papel-machê feito pela sobrinha, para que ela pudesse ver o mar. Lembrou-se da outra Nossa Senhora Aparecida, que ficava na cozinha da patroa. Dalva a tinha dado de presente para D. Beth quando foi numa peregrinação ao santuário. A madame adorou, mas como havia já uma Nossa Senhora branca de olho azul na sala, deixou a negrinha nos fundos, talvez para fazer companhia à Dalva e Damiana.
-Dalva, cadê você? Esta Doriana é uma tonta!
-Daminana, D. Beth
-Quê?
-O nome da menina é Damiana
-Ah, pois é... uma tonta. Preciso de você urgente. Você sabe onde colocamos aqueles copos de cristal ?
-Estão no armário da dispensa, na segunda porta.
- E os vasos para as orquídeas, aqueles cumpridinhos? A florista já está vindo e eu disse que tinha os vasos.
-Olha D. Beth, um quebrou.
-Quebrou?Ai e agora?
-Têm dois, além daquele maiorzinho que a senhora colocou o arranjo de copos-de-leite na semana passada. Tá no móvel da copa, embaixo, na terceira porta.
-Dalva, eu preciso de você. Venha já pra cá. Vou desligar que a Doriana pegou as bandejas erradas! Ai ! Estou te esperando.
Quinze minutos depois, o tiroteio cessou. Dalva ajeitou novamente a cabeleira para sair. Ao abrir a porta deu com Quinzinho, na escada, fumando um baseado.
- Já falei que não quero ninguém fumando esta porcaria na minha porta!
- Colé tia?! Fumando um bagulhinho só para relaxar depois do estresse. Os cara fugiram, mas o caveirudo levou ferro, tá mauzão.
-Não me interessa, vamos, sai!
Quinzinho desocupou o degrau e ia saindo, um pivete, doze, treze anos. Já no último degrau se vira bruscamente e tira um revólver, encosta na cara de Dalva.
-Que isso menino! Pelo amor de Deus!
-Tá pensando o quê tia?! Ninguém me esculacha não. Dô logo dois tiro, leva logo ferro na cara
-Washington, eu conheço sua mãe, te vi na barriga!
-Me viu na barriga, me viu na barriga?! Foda-se !! O Caralho! Não vem tirar onda comigo não. Pede desculpa anda, anda porra!
Balbuciando as desculpas em meio às lágrimas, na dificuldade da boca seca e o cheiro da maconha nauseante, Dalva não pode acreditar quando Quinzinho disparou contra a janela. Sem saber o que fazer, já voltando para casa a fim de verificar o estrago, dá meia-volta e segue adiante. Se voltasse, morreria. Não baleada, mas de desgosto. O abrigo intransponível do seu barraco! Seu refúgio, um lar, apesar da loucura de tudo. A casa feita, pintada, mobiliada com tanto trabalho e sonho, foi violada; em algum lugar havia uma bala.
quinta-feira, 16 de junho de 2011
Com vista para o mar - I
A claridade espalhada entre as nuvens, que cobriam boa parte do pedaço de céu visto pela janela, estava diferente aquela manhã, como que emaranhada, contida pelo ainda nublado firmamento; não tinha a mesma força e onipresença de todos os outros dias de verão. Quase na divisa entre o céu e o mar, um barco – de pescador? – seguia tranqüilo. Dalva se lembrou de uma música antiga sobre um barquinho que ia, ia, enquanto findava a tarde.
Mas já que o dia estava apenas começando e prometia ser bem agitado, a mulata gostosa, corpo esculpido por muita escadaria e tanque, dá uma última ajeitada na cabeleira, em novo penteado afro, pega a bolsa, e quase já à porta, ouve os passos apressados sobre sua cabeça. Pronto, era só o que faltava.
Não se passam dois minutos e a origem dos passos suspeitos é confirmada pelo pipocar das metralhadoras: os “hómi” estão em guerra. Há muito que a laje feita no dia da Padroeira por todos os vizinhos e pelo Tião, o então namorado, lhe dava mais problemas que alegria. Fez dela um amplo salão com um banheiro, fogão e geladeira.
No ano-novo, alugava o espaço para os turistas que pagavam uma baba pelo melhor lugar do morro para assistir aos fogos. Caso fosse um grupo muito grande, Dalva alugava também o andar de baixo e passava o ano na casa da prima, em Inhaúma, achava a coisa mais repetida esses fogos. O problema é que sempre que tinha confusão no morro, em todos os outros dias do ano que ia se gastando, os bandidos dominavam o terraço. De lá podiam ver com facilidade as duas principais entradas da favela, as únicas por onde, até certo ponto, subia carro ou o caveirão da polícia.
- Oi Damiana, sou eu, Dalva. Me chama a madame aí. – Não agüentava Damiana tentando disfarçar o sotaque nordestino “Résidência dos Magalhães e Silva”.
Ela mesma, quando atendia ao telefone, empostava a voz, quase como se fosse uma governanta loira dizendo “alô” em alguma residência importante na Escandinávia.
- Como não vem, Dalva?!
- Dona Beth, tá tendo tiroteio aqui no morro.
-De novo?! Ah... faz um esforçinho Você sabe como este evento é importante para mim... E não confio nesta menina a Dami..., como é mesmo?
-Damiana, D. Beth. A senhora não faz sempre esses lanches – e podia imaginar a cara da patroa ao transformar seu “evento” num “lanchinho”.
-Mas hoje é especial. Olha a Suzy Marcondez, a Lôlô Braga, até a Augusta Pires Leal já confirmaram! Não, não! Você tem que vir
- D. Beth, além da Damiana não tem o “Bufe”?
-Claro! O buffet do maravilhoso Ed Clark. Mas preciso de alguém comandando o resto. E você sabe querida, aqui em casa da copa até a área de serviço, ohh, você é soberana!
“Ah perua fingida. Vô lembrar disso na hora do salário de fome que a senhora me paga!” - ...
- Olha!! A senhora tá ouvindo ?! É tiro na minha laje!
-Ai!! Dalva, Você ouviu? A campainha tocou. É o Buffet. Vou desligar. Espero você daqui a vinte minutos hein. Desce com cuidado.
Já agachada atrás do sofá, contando os inúmeros desenhos indecifráveis que compunham a estampa gasta, Dalva repetia como quem mal consegue engolir: “Desce com cuidado”. Perua filha de uma puta!
Mas já que o dia estava apenas começando e prometia ser bem agitado, a mulata gostosa, corpo esculpido por muita escadaria e tanque, dá uma última ajeitada na cabeleira, em novo penteado afro, pega a bolsa, e quase já à porta, ouve os passos apressados sobre sua cabeça. Pronto, era só o que faltava.
Não se passam dois minutos e a origem dos passos suspeitos é confirmada pelo pipocar das metralhadoras: os “hómi” estão em guerra. Há muito que a laje feita no dia da Padroeira por todos os vizinhos e pelo Tião, o então namorado, lhe dava mais problemas que alegria. Fez dela um amplo salão com um banheiro, fogão e geladeira.
No ano-novo, alugava o espaço para os turistas que pagavam uma baba pelo melhor lugar do morro para assistir aos fogos. Caso fosse um grupo muito grande, Dalva alugava também o andar de baixo e passava o ano na casa da prima, em Inhaúma, achava a coisa mais repetida esses fogos. O problema é que sempre que tinha confusão no morro, em todos os outros dias do ano que ia se gastando, os bandidos dominavam o terraço. De lá podiam ver com facilidade as duas principais entradas da favela, as únicas por onde, até certo ponto, subia carro ou o caveirão da polícia.
- Oi Damiana, sou eu, Dalva. Me chama a madame aí. – Não agüentava Damiana tentando disfarçar o sotaque nordestino “Résidência dos Magalhães e Silva”.
Ela mesma, quando atendia ao telefone, empostava a voz, quase como se fosse uma governanta loira dizendo “alô” em alguma residência importante na Escandinávia.
- Como não vem, Dalva?!
- Dona Beth, tá tendo tiroteio aqui no morro.
-De novo?! Ah... faz um esforçinho Você sabe como este evento é importante para mim... E não confio nesta menina a Dami..., como é mesmo?
-Damiana, D. Beth. A senhora não faz sempre esses lanches – e podia imaginar a cara da patroa ao transformar seu “evento” num “lanchinho”.
-Mas hoje é especial. Olha a Suzy Marcondez, a Lôlô Braga, até a Augusta Pires Leal já confirmaram! Não, não! Você tem que vir
- D. Beth, além da Damiana não tem o “Bufe”?
-Claro! O buffet do maravilhoso Ed Clark. Mas preciso de alguém comandando o resto. E você sabe querida, aqui em casa da copa até a área de serviço, ohh, você é soberana!
“Ah perua fingida. Vô lembrar disso na hora do salário de fome que a senhora me paga!” - ...
- Olha!! A senhora tá ouvindo ?! É tiro na minha laje!
-Ai!! Dalva, Você ouviu? A campainha tocou. É o Buffet. Vou desligar. Espero você daqui a vinte minutos hein. Desce com cuidado.
Já agachada atrás do sofá, contando os inúmeros desenhos indecifráveis que compunham a estampa gasta, Dalva repetia como quem mal consegue engolir: “Desce com cuidado”. Perua filha de uma puta!
terça-feira, 14 de junho de 2011
Desabafo ou Eu menti no post anterior
Eu disse que gostava de gente. E isto é mesmo quase uma mentira. Quer dizer, é claro que eu gosto de alguns, mas estes são a exceção, e é cada vez mais difícil fazer parte do reino dos meus consagrados, daqueles amados acima de tudo e de todos.
Antes eu era muito sociável, era sempre aquele que me movia bem em todos os grupos, querido em todas as panelas, por todos os tipos. Talvez por uma absoluta necessidade de me encaixar. Ah, mas tem coisa mais irritante do que gente? (rs)
Acho um saco os metidos, por exemplo. Há uma sofisticação natural, uma elegância real, o bom-gosto que se exala da pele da pessoa. Não é desse que falo. O metido precisa a todo instante de mil provas de que estáin. Precisa provar sua inteligência, seu apurado senso estético, a exclusividade de suas escolhas para sentir-se minimamente confortável consigo mesmo, formar uma identidade própria, quanto mais esta se distanciar da massa ignara, melhor.
E os gays? Aff... Quando que, de contra-cultura, experimentalismo, contestação, a gente virou estas bilús chatas, saradinhas, propagandas ambulantes de grifes e cobaia preferencial de tratamentos estéticos mil? Ahhh.. que sono!
Ai e os religiosos? Infelizmente eu conto nos dedos das mãos, nem precisa contar com os dos pés, gente que eu conheço para quem a religião faz bem, que torna a pessoa mais autônoma, com um olhar generoso pra vida e pros outros. Que dificuldade com o diferente, seja de que diferença for! Tudo bem que se queira viver na coleira, porque apesar de prender o tal artefato dá segurança, mas impô-la aos outros?
Lobão feelings: “Cansado de tanta caretice, tanta babaquice, dessa eterna falta do que falar”
Eu não gosto de gente.
Só de gente que vale a pena e esses são poucos!
Ui... Desabafei... rsrs
Antes eu era muito sociável, era sempre aquele que me movia bem em todos os grupos, querido em todas as panelas, por todos os tipos. Talvez por uma absoluta necessidade de me encaixar. Ah, mas tem coisa mais irritante do que gente? (rs)
Acho um saco os metidos, por exemplo. Há uma sofisticação natural, uma elegância real, o bom-gosto que se exala da pele da pessoa. Não é desse que falo. O metido precisa a todo instante de mil provas de que está
E os gays? Aff... Quando que, de contra-cultura, experimentalismo, contestação, a gente virou estas bilús chatas, saradinhas, propagandas ambulantes de grifes e cobaia preferencial de tratamentos estéticos mil? Ahhh.. que sono!
Ai e os religiosos? Infelizmente eu conto nos dedos das mãos, nem precisa contar com os dos pés, gente que eu conheço para quem a religião faz bem, que torna a pessoa mais autônoma, com um olhar generoso pra vida e pros outros. Que dificuldade com o diferente, seja de que diferença for! Tudo bem que se queira viver na coleira, porque apesar de prender o tal artefato dá segurança, mas impô-la aos outros?
Lobão feelings: “Cansado de tanta caretice, tanta babaquice, dessa eterna falta do que falar”
Eu não gosto de gente.
Só de gente que vale a pena e esses são poucos!
Ui... Desabafei... rsrs
segunda-feira, 13 de junho de 2011
Manhã preguiçosa
A greve dos professores da rede estadual me liberou do estágio hoje. Nada de acordar as seis da matina. Tempo pra fazer o café do namorado e manhã livre. Arrumo um pouquinho a casa, faço mais uma garrafa de café e sabe o que "encontro"? Um baú cheio de meus textos: coisas curtas para o blog, contos, outros contos ainda maiores, coisas inacabadas, páginas revisadas e em estado bruto.
Este brevíssimo aí em baixo foi uma das primeiras coisas que postei no blog. E tem tanta coisa mais! Ah, se eu pudesse, se meu dinheiro desse, eu queria ser mesmo era escritor.
"Prezada A.
Ontem, enquanto o estrondo da porta batida ainda ecoava pelas paredes brancas e nuas do apartamento, tive o impulso de correr atrás de você. Mas não fiz. Descer os dois lances de escada, ofegante, tonto, com a sua última e certeira frase a girar em mim como num looping interminável, e ir procurar-te assim, não nos faria bem. Pensei que hoje, talvez te achasse no metrô, estação Carioca, de blusa azul e cabelo num corte que ficaria esquisito para o seu rosto, como da primeira vez. Ou em qualquer outro lugar que nesses quatro anos freqüentamos religiosamente. Mas também decidi não ir.
Estou aqui, sentado à mesa posta para dois, esperando o empadão de que tanto gostas assar e acompanhado só pela flor que detestastes, mesmo com o meu argumento invencível à época: “é de plástico, não morre.”.
Resolvi escrever-te. Não mandar um email que é coisa muito comercial e moderna, como somos ambos. Mas mandar-te minhas palavras, nossos momentos, com a minha letra. Eu mesmo numa caligrafia, impresso num papel de carta. Nem sabia que ainda existiam, desci agora a pouco e comprei um bloco. Mas escreverei esta única carta, talvez numa única folha. A verdade é que não sei se quero que voltes. Ontem quando a porta bateu era tudo o que eu mais queria na vida, que voltasses, arrependida, carinhosa, humilhada e depois de uma trepada nervosa e rápida instalar-se-ia novamente o cotidiano das coisas, aquele tão próprio de nós dois. Mas ter passado a noite só, iluminado porcamente pelo Néon do bar aqui em frente, já que a porra da persiana emperrou mais uma vez, me fez pensar.
Por que nos agarramos um ao outro de forma tão desesperada e inútil? Pelas ilhas de descanso aos Domingos à tarde quando todas as ofensas, injúrias e mesquinharias já foram ditas ao longo da semana? Vale a pena morrer de sede de ti para saciar-me em oásis repentinos e breves quando a tua amargura adormece e o meu cinismo e cansaço de tudo se distrai?
Não sei se reflexões etílicas, a meia garrafa de um uísque vagabundo, feitas ao ritmo de uma música incompreensível qualquer vinda da rua, mas suficientemente ruim para ser percebida logo como tal, são confiáveis. Mas a questão é que, quando tudo começou a perder seu aspecto soturno, porque sempre me parece que a noite nunca vai acabar, e eu vi as primeiras claridades, pensei que, de fato, nós precisamos um do outro, mas não ficaremos juntos.
É injusto precisar desesperadamente de alguém só para confirmar o quanto a vida pode ser sem sentido e o quanto estamos certos em não nutrir mais nenhum sonho. Você me recorda a todo instante, não pelo que diz ou faz, mas por ser isso que você é, que não vale a pena mesmo muita expectativa, que o melhor é se acostumar, viver uma vida em horário comercial, pedir uma comida qualquer por delivery, e se emputecer com as atendentes de telemarketing ao telefone.
No entanto, caramba, o sol nasceu de uma forma tão absurda e original esta manhã que me fez pensar que algo novo pode estar prestes a irromper. Não é que não te queira mais, mas acho que não podemos fazer isso um com o outro. Vou tomar um banho, sair, ver o mar. Se esta carta chegar até você, amanhã ou depois - estás na casa da tua mãe, né? – te peço, por favor, não voltes.
Com Carinho, N.
Este brevíssimo aí em baixo foi uma das primeiras coisas que postei no blog. E tem tanta coisa mais! Ah, se eu pudesse, se meu dinheiro desse, eu queria ser mesmo era escritor.
"Prezada A.
Ontem, enquanto o estrondo da porta batida ainda ecoava pelas paredes brancas e nuas do apartamento, tive o impulso de correr atrás de você. Mas não fiz. Descer os dois lances de escada, ofegante, tonto, com a sua última e certeira frase a girar em mim como num looping interminável, e ir procurar-te assim, não nos faria bem. Pensei que hoje, talvez te achasse no metrô, estação Carioca, de blusa azul e cabelo num corte que ficaria esquisito para o seu rosto, como da primeira vez. Ou em qualquer outro lugar que nesses quatro anos freqüentamos religiosamente. Mas também decidi não ir.
Estou aqui, sentado à mesa posta para dois, esperando o empadão de que tanto gostas assar e acompanhado só pela flor que detestastes, mesmo com o meu argumento invencível à época: “é de plástico, não morre.”.
Resolvi escrever-te. Não mandar um email que é coisa muito comercial e moderna, como somos ambos. Mas mandar-te minhas palavras, nossos momentos, com a minha letra. Eu mesmo numa caligrafia, impresso num papel de carta. Nem sabia que ainda existiam, desci agora a pouco e comprei um bloco. Mas escreverei esta única carta, talvez numa única folha. A verdade é que não sei se quero que voltes. Ontem quando a porta bateu era tudo o que eu mais queria na vida, que voltasses, arrependida, carinhosa, humilhada e depois de uma trepada nervosa e rápida instalar-se-ia novamente o cotidiano das coisas, aquele tão próprio de nós dois. Mas ter passado a noite só, iluminado porcamente pelo Néon do bar aqui em frente, já que a porra da persiana emperrou mais uma vez, me fez pensar.
Por que nos agarramos um ao outro de forma tão desesperada e inútil? Pelas ilhas de descanso aos Domingos à tarde quando todas as ofensas, injúrias e mesquinharias já foram ditas ao longo da semana? Vale a pena morrer de sede de ti para saciar-me em oásis repentinos e breves quando a tua amargura adormece e o meu cinismo e cansaço de tudo se distrai?
Não sei se reflexões etílicas, a meia garrafa de um uísque vagabundo, feitas ao ritmo de uma música incompreensível qualquer vinda da rua, mas suficientemente ruim para ser percebida logo como tal, são confiáveis. Mas a questão é que, quando tudo começou a perder seu aspecto soturno, porque sempre me parece que a noite nunca vai acabar, e eu vi as primeiras claridades, pensei que, de fato, nós precisamos um do outro, mas não ficaremos juntos.
É injusto precisar desesperadamente de alguém só para confirmar o quanto a vida pode ser sem sentido e o quanto estamos certos em não nutrir mais nenhum sonho. Você me recorda a todo instante, não pelo que diz ou faz, mas por ser isso que você é, que não vale a pena mesmo muita expectativa, que o melhor é se acostumar, viver uma vida em horário comercial, pedir uma comida qualquer por delivery, e se emputecer com as atendentes de telemarketing ao telefone.
No entanto, caramba, o sol nasceu de uma forma tão absurda e original esta manhã que me fez pensar que algo novo pode estar prestes a irromper. Não é que não te queira mais, mas acho que não podemos fazer isso um com o outro. Vou tomar um banho, sair, ver o mar. Se esta carta chegar até você, amanhã ou depois - estás na casa da tua mãe, né? – te peço, por favor, não voltes.
Com Carinho, N.
sexta-feira, 10 de junho de 2011
Vontade de
Este blog nunca ficou tanto tempo parado. Eu, simplesmente, não sabia o que escrever. Faltava-me assunto, vontade, inspiração, tudo. Resolvendo mil coisas, pondo-me todo nos afazeres externos, me era impossível certo recolhimento que precede a escrita. Como quando o míope sem óculos precisa comprinir o olho para achar o foco e enxergar, há um movimento tênue mas absolutamente necessário para que eu veja, sinta e, então, escreva.
Mas hoje me deu vontade. De não versar sobre nada, só escrever. Porque fazê-lo é de certa forma, como já dizia Clarice, uma espécie de salvação (é de Clarice mesmo?). A vida é imprevisível, louca, insuperável, forças aleatórias a criar e destruir pobres seres conscientes ou não. Mas quando escrevo: “sol”, “café”, “vida”, “morte” sou eu que dou o tom, a tessitura, dou, de certa forma, uma existência a todas essas coisas. Filtro, alinho, ponho em sobretons o caráter espetacular e mágico de se estar vivo, que, normalmente, se perde em cada esquina, se esvai anonimamente a cada distração que surge.
Eu leio e escrevo no fundo porque gosto de gente. E quer você escreva poesia abstrata à décima potência, contos e novelas ou o que comeu no café da manhã é você que está ali. O que se mostra, então, é esta articulação nervosa e viva entre o que se sabe, se aprendeu na escola, nas gramáticas e o que só se intui, advinha, pressente e que nomes bobos como emoção, afeto, imaginação não conseguem dizer o que é. Eu só confio em gente que lê; se escreve então, tem meu coração e minha alma.
I`m backy, buddies!
Mas hoje me deu vontade. De não versar sobre nada, só escrever. Porque fazê-lo é de certa forma, como já dizia Clarice, uma espécie de salvação (é de Clarice mesmo?). A vida é imprevisível, louca, insuperável, forças aleatórias a criar e destruir pobres seres conscientes ou não. Mas quando escrevo: “sol”, “café”, “vida”, “morte” sou eu que dou o tom, a tessitura, dou, de certa forma, uma existência a todas essas coisas. Filtro, alinho, ponho em sobretons o caráter espetacular e mágico de se estar vivo, que, normalmente, se perde em cada esquina, se esvai anonimamente a cada distração que surge.
Eu leio e escrevo no fundo porque gosto de gente. E quer você escreva poesia abstrata à décima potência, contos e novelas ou o que comeu no café da manhã é você que está ali. O que se mostra, então, é esta articulação nervosa e viva entre o que se sabe, se aprendeu na escola, nas gramáticas e o que só se intui, advinha, pressente e que nomes bobos como emoção, afeto, imaginação não conseguem dizer o que é. Eu só confio em gente que lê; se escreve então, tem meu coração e minha alma.
I`m backy, buddies!
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