Compraremos um casarão abandonado em algum quase subúrbio da cidade. Sei do sinal: uma mangueira na frente, com cipós que se lançam ao chão e ficam por lá, relaxados e distraídos. Há de se fazer algumas reformas: cada cômodo de uma cor, precisaremos urgentemente de piso de madeira que ressoe gostoso, como nas casas felizes de antigamente.
Na sala apenas um sofá para amigos mais velhos e muitas almofadas, para que, ao chegarem, aqueles que vem sintam-se em casa desde o primeiro minuto, porque só os muito queridos entrarão. Haverá uma senha secreta e boba a ser dita no portão e só depois de ouví-la o vira-latas que tomará conta da casa e se chamará Lico, Princesa, Florzinha ou Cão, permitirá a entrada.
Aqueles que vierem serão recebidos pela gargalhada vibrante de S., receberão o brilho dos olhos de Borboleta num chamego todo especial e o meu melhor e mais terno abraço. Poderão deixar de lado as pastas, gravatas, mochilas, as roupas todas e dançaremos nús e completamente fora do ritmo durante a noite inteira. Exatamente as 2h37 pararemos a música, nos sentaremos em roda e cada um contará a história de uma paixão fracassada diante do absoluto silêncio dos demais. Ouviremos então Dolores ou Maysa ou Anthony and the johnsons ou mesmo Adele. Pode-se chorar um pouquinho, Mas logo haverá mais cerveja, outros abraços, diferentes músicas e nos lembraremos que estamos vivos e que isto é, por si só, um imenso privilégio.
Pela manhã acordarei S. e Borboleta com o cheiro inebriante do meu café invencível. Leremos os jornais desconfiando da seriedade de tudo e trocaremos as flores por outras novas, emocionados por a vida ser assim, bela e voraz. A vida consome tudo: o tempo, os planos, as reservas, os bons propósitos só o que fica é a beleza e esta será tudo nesta nossa casa. Duvida? A prova é que ao entardecer sentaremos os três em grandes poltronas, impactados pela maneira como o sol lança os últimos reflexos dourados sobre as cortinas de retalhos multicoloridos.
Beberemos vinho ouvindo Chet Baker e, revigorados, sairemos pelas ruas de mãos dadas sem deixar que percebam se somos um ménage a trois, umas virgens inocentes, velhas futriqueiras ou bando de loucos.
Teremos rasgado nossas identidades, jogado fora nossos CPF’s, feito o enterro ritual de tudo o que se exige de nós para ser alguma coisa e seremos, então, só e absolutamente o que desejarmos, o que a imaginação nos colorir, o que inflar em nós o santo e irriquieto desejo.
Amém.
quinta-feira, 12 de maio de 2011
quarta-feira, 11 de maio de 2011
Fica a dica
O post anterior foi inspirado no filme Strapped, do diretor Joseph Graham de 2010. A ação toda se passa num único prédio que, na descrição de um dos personagens, é o edifício “mais gay da rua mais gay da cidade”. Talvez por isto o michê, papel principal do filme, não consiga deixar o prédio, encontrando sempre clientes pelos corredores. Na lista inumerável destes há o tímido, os porras-loucas, o idoso, o pseudo-hétero homofóbico.
A atmosfera é quase sempre lúgubre, no entanto, é visível o afeto que o diretor tem por aqueles personagens perdidos na noite satisfazendo seus desejos. Há na relação do michê com seus clientes uma espécie de carinho, de cuidado que empresta ao filme certa ternura.
Sem dúvida alguma o grande destaque é o ator que faz o michê, Ben Bonenfant (é também dele a foto no post anterior). Sabe aqueles atores cuja câmera adora? Parece ser o caso. Não há nenhuma cena explícita, o máximo que se revela de Ben é o cofrinho, mas quando ele tira a roupa dançando sensualmente, sorri ou te olha de um jeito entre o malandro e o perdido, dá vontade mesmo de levar pra casa e dar tudo, até a senha do banco se ele te pedir com jeitinho.
Só não gostei mesmo do final (No spoiler!). Mas eu ando mesmo muito chato pra coisinhas felizes.
terça-feira, 10 de maio de 2011
Puto
Os sóis claríssimos sobre o asfalto ainda quente iluminam minha passarela de todas as noites. Se não tenho endereço certo, fico por ali, sentindo o friozinho que, vez por outra, sopra vindo do mar, dois ou três quarteirões ao norte. Gosto de observar as manchas estranhas, borrões metálicos dos néons sobre os carros que passam. Ao lado do meu hidrante, no meio da madrugada, eu estou em casa.
Sei adivinhar o tipo de cara só pela maneira que se aproxima: a quantidade de vezes que passa por mim antes de parar, a velocidade com que abaixa o vidro e faz contato, a música que ecoa lá de dentro.
Gosto de trepar. Até com mulheres, vez por outra. Mas os caras é que me dão tesão de verdade, além de ser um mercado infinito. Muitos chegam tensos, tímidos como se o que fosse ocorrer dali a instantes fosse a coisa mais extraordinária do mundo: pau na boca, no cú, enfim, o óbvio e costumeiro. Eu tenho um jeito especial com estes, converso, os acalmo, ponho a mão em seus ombros o mais rápido que posso, para eles sentirem segurança e sorrio, sempre. O meu melhor sorriso. Há sempre cerveja, ou vinho, até whisky e, então, o álcool faz o resto. Depois de ultrapassada a barreira inicial os fodo com vontade, batendo o saco em suas bundas, mordendo-os na nuca, na pressão exata para que sintam quem manda ali, mas que nunca fiquem marcados e então possam voltar sãos e salvos para suas esposas, namoradas e namorados.
A melhor coisa numa noite é diversificar. Tem uma hora, depois de quatro, cinco encontros comendo que tudo o que você precisa é de alguém que queira apenas que você o chupe, bote o pau do cara lá na garganta e deixo-o esporrar lá dentro. Cobro muito mais barato e é um alívio no meio da madrugada. Ou senão dar a bunda. Faço isso com uma facilidade tremenda: não importa tamanho, calibre ou o quanto o cara enfia a rola em você, tiro de letra e, quase sempre antes que o cara queira, ele se entrega e goza: chave de cu é isso.
Acho o sexo uma das formas mais completas de carinho. Você quer um abraço? Deixe que eu aperto seu corpo junto ao meu enquanto enfio gostoso na sua bunda. Precisa de atenção, sente-se desvalorizado? Durante trinta, quarenta minutos você será o centro do mundo numa dedicação exclusiva e entrega total: tudo o que você quiser.
Se isto é o melhor que eu posso oferecer aos caras, uma espécie de talento nato, porque não ganhar por isso? As pessoas fazem sexo por tantos motivos: carência, auto-afirmação, estresse, porque não posso fazer por dinheiro? Eu não tenho nenhuma espécie de constrangimento, faço com carinho, com vontade, sou, no momento, tudo aquilo que o outro quer que eu seja, que ele precisa que eu seja, isto não é uma forma de amor? Pra mim é e o dinheiro, também. Ah, faço tudo mesmo, só não beijo na boca, ok? Sei lá, é algo assim... muito íntimo, né?
domingo, 8 de maio de 2011
A fonte
Você se acostuma às paisagens desérticas; com a prática, chega a vislumbrar os diferentes tons de vermelho escalonados em paredões íngremes, encontra a poesia no vento que sibila revolvendo areias, e percebe que, mesmo lá, há um pôr do sol fantástico, vez por outra.
Pelas trilhas percorridas vai se livrando de bugigangas inúteis àquela realidade como o que outrora foram grandes sonhos, agora levados em potes mínimos, também já descartados por aí. A aridez que castiga sua pele em chicotadas ásperas é só o normal desde a algum momento, o coração em febres que nem mornas são, mas inventadas para o momento, para durarem nada, só pra se saber ainda vivo é a sua melhor tática de sobrevivência.
E então o que acontece? Abrigado a uma passageira sombra, suficiente para um frescor momentâneo, sentado o tempo exato para recobrar as energias e feliz, porque na verdade, o deserto agora é a sua casa, o seu habitat, orgulhoso pela desenvoltura com que você se move nele, eis a fonte: límpida, suave, refrescante que renova a vida . O que fazer senão, mãos em concha, se aproximar com gratidão e cuidado da fonte, sentindo, subitamente, toda a sede esquecida, o ardor de séculos na garganta: o primeiro gole.
Que água é esta? Que propriedades contém? De que minerais é feita? Bebe-se mais e mais e as mãos em concha se estendem ininterruptas. Bebe-se uma noite inteira com desejo e de tal forma que parece que não o corpo apenas, mas qualquer coisa de mais íntima pudesse se nutrir dessa água, como se ao contato dela, as camadas todas de pó, pedras e granitos sem fim revelassem o úmido, o vivo que ainda reside em você. Bebe-se com vontade e sempre mais na noite, agora fresca, mas não com sofreguidão como um sedento esturricado e ensandecido bebendo aquilo que acabará por matá-lo. Bebe-se desta fonte à semelhança de vinhos, degusta-se, descobrem-se sutis sabores, se possível fosse, temperos, e isto a noite toda.
Será mero filete? Alguma precipitação passageira, logo evaporada pelas absurdas condições climáticas do deserto, como tantas outras poças efêmeras? Ou apenas se começou a sorver a água da vida? Filete ou aqüífero, não importa, porque, por ora, a água corre, livre e benfazeja e é a prova de que há vida no deserto.
Pelas trilhas percorridas vai se livrando de bugigangas inúteis àquela realidade como o que outrora foram grandes sonhos, agora levados em potes mínimos, também já descartados por aí. A aridez que castiga sua pele em chicotadas ásperas é só o normal desde a algum momento, o coração em febres que nem mornas são, mas inventadas para o momento, para durarem nada, só pra se saber ainda vivo é a sua melhor tática de sobrevivência.
E então o que acontece? Abrigado a uma passageira sombra, suficiente para um frescor momentâneo, sentado o tempo exato para recobrar as energias e feliz, porque na verdade, o deserto agora é a sua casa, o seu habitat, orgulhoso pela desenvoltura com que você se move nele, eis a fonte: límpida, suave, refrescante que renova a vida . O que fazer senão, mãos em concha, se aproximar com gratidão e cuidado da fonte, sentindo, subitamente, toda a sede esquecida, o ardor de séculos na garganta: o primeiro gole.
Que água é esta? Que propriedades contém? De que minerais é feita? Bebe-se mais e mais e as mãos em concha se estendem ininterruptas. Bebe-se uma noite inteira com desejo e de tal forma que parece que não o corpo apenas, mas qualquer coisa de mais íntima pudesse se nutrir dessa água, como se ao contato dela, as camadas todas de pó, pedras e granitos sem fim revelassem o úmido, o vivo que ainda reside em você. Bebe-se com vontade e sempre mais na noite, agora fresca, mas não com sofreguidão como um sedento esturricado e ensandecido bebendo aquilo que acabará por matá-lo. Bebe-se desta fonte à semelhança de vinhos, degusta-se, descobrem-se sutis sabores, se possível fosse, temperos, e isto a noite toda.
Será mero filete? Alguma precipitação passageira, logo evaporada pelas absurdas condições climáticas do deserto, como tantas outras poças efêmeras? Ou apenas se começou a sorver a água da vida? Filete ou aqüífero, não importa, porque, por ora, a água corre, livre e benfazeja e é a prova de que há vida no deserto.
quinta-feira, 5 de maio de 2011
I`m back, babies
O Internet explorer do meu computador adquiriu vida própria e passou a funcionar quando bem entendesse. Percebi de imediato que ele é homofóbico porque não me deixava nunca abrir sites babados e quase nunca inteligente, porque na maioria das vezes, era impossível acessar a amada Blogsville.
No auge do meu desespero pensei em trocar o computador, mas cadê a grana pra isso agora? Roubar o computador do meu pai que tem 2 e mais o Ipad? Entrar de madruga na editora que trabalho surrupiar uma máquina e deixar uma trilha de migalhas de fandangos, do sabor que a secretária sempre come? Optei mesmo por juntar dinheiro de forma honesta, vendendo meu corpo em algum ponto da decadente Praça Tiradentes... até que... tchan na na nan... Baixei o Firefox e todos os meus problemas (quer dizer pelo menos os referentes à internet) se resolveram!
Viva a raposa!! (Sim Foxx é isto mesmo!!)
Logo, logo, apareço nas casas de vocês para uma happy hour.
Bjs querid@s!
No auge do meu desespero pensei em trocar o computador, mas cadê a grana pra isso agora? Roubar o computador do meu pai que tem 2 e mais o Ipad? Entrar de madruga na editora que trabalho surrupiar uma máquina e deixar uma trilha de migalhas de fandangos, do sabor que a secretária sempre come? Optei mesmo por juntar dinheiro de forma honesta, vendendo meu corpo em algum ponto da decadente Praça Tiradentes... até que... tchan na na nan... Baixei o Firefox e todos os meus problemas (quer dizer pelo menos os referentes à internet) se resolveram!
Viva a raposa!! (Sim Foxx é isto mesmo!!)
Logo, logo, apareço nas casas de vocês para uma happy hour.
Bjs querid@s!
sexta-feira, 29 de abril de 2011
quinta-feira, 28 de abril de 2011
Estilhaço-instante
Este é o momento para rasgar o instante.
À minha frente o monitor desdobra-se em mil telas, cada uma pendência de algo a se fazer.
Meio copo d’água e uma xícara de café vazia, borra na qual não se advinha futuro algum.
Mais à esquerda Edu liga, trabalha, suspira: conformado. E à direita, a cidade se move impávida e monótona, bem ao ritmo das Quintas-feiras por volta de 17h15 da tarde.
Vamos rasgar o instante?
Play, música, o amargo do café, o aperto no pau por sobre a calça, a lembrança do derradeiro abraço do último amor.
Vamos estilhaçar o momento inerte em frente desta geringonça devoradora de almas?
Intimidades que se comem junto com o almoço na companhia querida do amigo há horas atrás, amanhã é sexta, há vinho em casa e o último chocolate da páscoa ainda te espera em cima da geladeira.
Sábado beberei com Bia, Domingo será dia de dormir até não poder mais e tenho meia dúzia de pessoas queridas com quem conto pro que der e vier.
Pronto.
Salvo o instante, volto ao trabalho.
À minha frente o monitor desdobra-se em mil telas, cada uma pendência de algo a se fazer.
Meio copo d’água e uma xícara de café vazia, borra na qual não se advinha futuro algum.
Mais à esquerda Edu liga, trabalha, suspira: conformado. E à direita, a cidade se move impávida e monótona, bem ao ritmo das Quintas-feiras por volta de 17h15 da tarde.
Vamos rasgar o instante?
Play, música, o amargo do café, o aperto no pau por sobre a calça, a lembrança do derradeiro abraço do último amor.
Vamos estilhaçar o momento inerte em frente desta geringonça devoradora de almas?
Intimidades que se comem junto com o almoço na companhia querida do amigo há horas atrás, amanhã é sexta, há vinho em casa e o último chocolate da páscoa ainda te espera em cima da geladeira.
Sábado beberei com Bia, Domingo será dia de dormir até não poder mais e tenho meia dúzia de pessoas queridas com quem conto pro que der e vier.
Pronto.
Salvo o instante, volto ao trabalho.
quarta-feira, 27 de abril de 2011
Contracorrente
Fui preparado para o clássico roteiro de filme gay: Um amor incandescente e proibido entre dois machos, os conflitos, um querendo tornar pública a relação e o outro satisfeito com o armário e, claro, um final trágico. Há coisa mais sofrida que filme de biba?
Confesso que os atores serviram como um chamariz a mais. Dentre as miríades de tipos que me despertam o interesse, há um lugar especial para os barbudos, adoro-os. É o caso dos dois no filme. Um ainda é pescador: aquela wibe rústica, torso bronzeado ao sol, corpo trabalhado nas labutas ao mar... aiai.
Contracorrente fica no limiar entre o óbvio, sem fugir muito do esquema previsto e o surpreendente, porque o faz a partir de elementos inusitados. Confesso que o acontecimento que dá o mote à obra me deixou bem irritado quando o entendi, mas depois ele surge como metáfora maravilhosa para os amores no armário.
É um alívio e uma situação muito confortável para milhares de homens e mulheres que curtem o mesmo sexo, manter um estilo de vida socialmente aprovado e domesticar o desejo, deixando-o escondido ou vivê-lo em escapadelas, em hiatos, em breves momentos nos quais se pensa poder suspender sua inserção social, seu papel, sua identidade conquistada diante dos outros e realizar então o interdito desejo às margens, na penumbra esquizofrênica entre o que arde em nós e quem nos permitimos ser.
Não gosto de moralismos, mas acho mesmo que, de uma forma ou de outra, é assumindo em alguma instância o que se é, discreta ou corajosamente, que vai se naturalizando questões como a da homossexualidade. Às vezes para a nossa realização e para que outros encontrem mais espaço e possam respirar mais livremente sendo quem são é preciso mesmo nadar contracorrente.
terça-feira, 26 de abril de 2011
Farmacon
A sua loucura, ela punha-a em potes. Em épocas de tensões hormonais, reuniões de avaliação, prazos de entrega: grandes baldes que se espalhavam pela casa toda, sempre respingando e, por isto, não podia mesmo evitar shots de cachaça às segundas, noites insones com homens que sabia não valer a pena nas quartas. Mas tudo bem, o excesso estava mesmo contido em baldes, panelas e vasilhames por toda a a casa.
Normalmente, no entanto, pequenos potes de requeijão, de antigos perfumes, de outros tantos conteúdos lhe bastavam. E assim passava por uma mulher independente, culta e que já chegou a orgasmos inúmeras vezes na vida, uma mulher “Cláudia” ou, até mesmo, uma fêmea “Marie Claire”.
Até bem pouco tempo tampava com força cada pote, a fim de evitar qualquer emanação de loucura. Queria prendê-la, negá-la, tampando-a à vácuo. No entanto aqui e ali, o cabelo tão amansado de secador e escova rebelava-se em cacho, misteriosamente a saia comportada se abria em fendas e ela em confraternizações de trabalho e happy hours para networking se via dando mole de forma horrorosamente vulgar para os mais reprováveis tipos. A loucura havia escapado.
Hoje, a carrega em ampolas na bolsa. Quando o trânsito vai mal, abre suavemente o vidrinho e aspira: aumenta o som e balança a cabeça como num derradeiro show de Metal. No meio da reunião, metas a serem atingidas, capital a ser conquistado; para escapar à carranca de tédio absoluto que ameaça se formar, passa um pouquinho de loucura no pulso e a cheira como um perfume; então, enquanto se decifram os balancetes do ano anterior, desce a mão discretamente, apalpa as próprias cochas, vasculha o interior da saia sentindo a suavidade do tecido que roça sua pele em arrepio e chega, em brevíssimas investidas, na fonte úmida de seu prazer.
Ontem bebeu um vidrinho inteiro e, diante das preocupações do chefe sisudo, riu solta e deliberadamente, pegou suas coisas e, antes de bater a porta com estrondo, jogou, como uma bóia a um náufrago, um pote médio de loucura no colo do patrão com o rótulo: Consumir todo. Acredite, você precisa.
Normalmente, no entanto, pequenos potes de requeijão, de antigos perfumes, de outros tantos conteúdos lhe bastavam. E assim passava por uma mulher independente, culta e que já chegou a orgasmos inúmeras vezes na vida, uma mulher “Cláudia” ou, até mesmo, uma fêmea “Marie Claire”.
Até bem pouco tempo tampava com força cada pote, a fim de evitar qualquer emanação de loucura. Queria prendê-la, negá-la, tampando-a à vácuo. No entanto aqui e ali, o cabelo tão amansado de secador e escova rebelava-se em cacho, misteriosamente a saia comportada se abria em fendas e ela em confraternizações de trabalho e happy hours para networking se via dando mole de forma horrorosamente vulgar para os mais reprováveis tipos. A loucura havia escapado.
Hoje, a carrega em ampolas na bolsa. Quando o trânsito vai mal, abre suavemente o vidrinho e aspira: aumenta o som e balança a cabeça como num derradeiro show de Metal. No meio da reunião, metas a serem atingidas, capital a ser conquistado; para escapar à carranca de tédio absoluto que ameaça se formar, passa um pouquinho de loucura no pulso e a cheira como um perfume; então, enquanto se decifram os balancetes do ano anterior, desce a mão discretamente, apalpa as próprias cochas, vasculha o interior da saia sentindo a suavidade do tecido que roça sua pele em arrepio e chega, em brevíssimas investidas, na fonte úmida de seu prazer.
Ontem bebeu um vidrinho inteiro e, diante das preocupações do chefe sisudo, riu solta e deliberadamente, pegou suas coisas e, antes de bater a porta com estrondo, jogou, como uma bóia a um náufrago, um pote médio de loucura no colo do patrão com o rótulo: Consumir todo. Acredite, você precisa.
segunda-feira, 25 de abril de 2011
No currículo escolar
Comecei meu estágio, obrigatório para quem faz licenciatura, atrasado por motivos burocráticos. Hoje o professor corrigiu a prova bimestral e 2 trabalhos que complementaram a nota desta. E qual não foi minha surpresa ao ver que um destes trabalhos era sobre gênero e diversidade sexual.
A primeira questão pedia para citar 2 elementos que definem o sexo de uma pessoa, por exemplo, órgãos genitais e hormônios. A segunda era sobre gênero, definindo-o como a expectativa social a respeito dos sexos em determinada cultura. A última questão: Qual a orientação sexual de uma transexual?
O professor salientou que aceitou tanto quem considerou a orientação da trans antes da operação de mudança de sexo, que segundo ele seria então “homossexual”, quanto após a cirurgia, aí a resposta correta seria “heterossexual”.
Confesso que achei bem esquisita a questão. Mas ver meninos e meninas por volta de dezesseis anos em um colégio estadual discutindo sobre diversidade sexual como matéria de aula renovou minha esperança que, apesar de tanta caretice neste mundo, a gente está definitivamente conquistando espaços e preparando uma sociedade mais plural e colorida sem que se tenha que matar ou morrer tanto por causa disto. E viva o Gay Power!
A primeira questão pedia para citar 2 elementos que definem o sexo de uma pessoa, por exemplo, órgãos genitais e hormônios. A segunda era sobre gênero, definindo-o como a expectativa social a respeito dos sexos em determinada cultura. A última questão: Qual a orientação sexual de uma transexual?
O professor salientou que aceitou tanto quem considerou a orientação da trans antes da operação de mudança de sexo, que segundo ele seria então “homossexual”, quanto após a cirurgia, aí a resposta correta seria “heterossexual”.
Confesso que achei bem esquisita a questão. Mas ver meninos e meninas por volta de dezesseis anos em um colégio estadual discutindo sobre diversidade sexual como matéria de aula renovou minha esperança que, apesar de tanta caretice neste mundo, a gente está definitivamente conquistando espaços e preparando uma sociedade mais plural e colorida sem que se tenha que matar ou morrer tanto por causa disto. E viva o Gay Power!
quarta-feira, 20 de abril de 2011
"Comi uma cenora... tão GRANDE ela era..."
Querid@s, irmanados por este hino pornô-soft de Páscoa desejo a todos:
Ótima Páscoa
Excelente Feriado
Até semana que vem!!
Ótima Páscoa
Excelente Feriado
Até semana que vem!!
terça-feira, 19 de abril de 2011
Se acaso você chegasse
Eu já quis você em meus braços em tardes de domingo embaladas com sol, cerveja e amigos quando, aqui e ali, riríamos bobos de coisas que só nós saberíamos.
Já te quis como o ombro que não falta, o abraço que aquece e as mãos sempre dadas no cinema.
Quis te levar em almoços de família, em churrascos de colegas, te desejei expor em públicas manifestações, porque nosso amor seria motivo suficiente para desafiar todas as nossas próprias covardias, pelo menos, as mais complacentes com a caretice absurda do mundo.
Eu também já te quis apenas esta noite, enquanto a música está alta e a bebida faz efeito. Te desejei em fogos breves, na exata duração da tua boca em minha nuca, meu peso sobre o teu, enquanto minha sede não se encontrasse satisfeita em teu corpo másculo, no teu pau rijo.
Eu te amei de longe e no mais perto, para sempre e só por um instante ao saber de tuas belezas e medos mais sutis e sem nem ouvir teu nome.
E agora?
Falta-me disposição para me encantar contigo. Em cinco minutos de conversa me vêem trezentas opções melhores para se fazer àquela hora do que estar em teus braços.
Tudo que te interessa me parece já visto: teus sussurros são ecos de tantos outros, tuas percepções de mundo, compradas em bancas de jornal em qualquer esquina.
Teu amor reciclado me dá ânsias de vômito e tuas promessas e declarações se desfazem no ar, são um sopro, duram a medida exata da mesma voz que as pronunciou e depois, o vazio.
O que fazer num mundo de desertos? Pegar o que é seu, pôr ao ombro seu fardo e continuar caminhando. Estender o abraço aos amigos, perfurar com dificuldade e obstinação seu próprio poço e beber da sua água, satisfazendo-se, dando-a aos outros, saciando sedes, mas sem dar-se.
Até que você apareça, até que surjas tu que me capte num sorriso e vença meu olhar experiente de tudo já ter visto, com um brilho novo.
Até que as palavras se calem, as lógicas sejam vencidas e, num gesto absolutamente consciente e livre, eu abra a minha porta e, sereno, diga: Sê bem-vindo.
Por ora, meu ceticismo pergunta: Acaso você existe?
Já te quis como o ombro que não falta, o abraço que aquece e as mãos sempre dadas no cinema.
Quis te levar em almoços de família, em churrascos de colegas, te desejei expor em públicas manifestações, porque nosso amor seria motivo suficiente para desafiar todas as nossas próprias covardias, pelo menos, as mais complacentes com a caretice absurda do mundo.
Eu também já te quis apenas esta noite, enquanto a música está alta e a bebida faz efeito. Te desejei em fogos breves, na exata duração da tua boca em minha nuca, meu peso sobre o teu, enquanto minha sede não se encontrasse satisfeita em teu corpo másculo, no teu pau rijo.
Eu te amei de longe e no mais perto, para sempre e só por um instante ao saber de tuas belezas e medos mais sutis e sem nem ouvir teu nome.
E agora?
Falta-me disposição para me encantar contigo. Em cinco minutos de conversa me vêem trezentas opções melhores para se fazer àquela hora do que estar em teus braços.
Tudo que te interessa me parece já visto: teus sussurros são ecos de tantos outros, tuas percepções de mundo, compradas em bancas de jornal em qualquer esquina.
Teu amor reciclado me dá ânsias de vômito e tuas promessas e declarações se desfazem no ar, são um sopro, duram a medida exata da mesma voz que as pronunciou e depois, o vazio.
O que fazer num mundo de desertos? Pegar o que é seu, pôr ao ombro seu fardo e continuar caminhando. Estender o abraço aos amigos, perfurar com dificuldade e obstinação seu próprio poço e beber da sua água, satisfazendo-se, dando-a aos outros, saciando sedes, mas sem dar-se.
Até que você apareça, até que surjas tu que me capte num sorriso e vença meu olhar experiente de tudo já ter visto, com um brilho novo.
Até que as palavras se calem, as lógicas sejam vencidas e, num gesto absolutamente consciente e livre, eu abra a minha porta e, sereno, diga: Sê bem-vindo.
Por ora, meu ceticismo pergunta: Acaso você existe?
quinta-feira, 14 de abril de 2011
Viciado
A primeira vez que a ouvi foi no blog do Dan. Na ocasião eu simplesmente "gostei", ou seja, nada que despertasse a minha ânsia de procurar na wikipédia sobre, conferir a discografia, baixar as músicas, como faço quando adoro.
Mas então houve o Brit Awards e Adele fez uma das apresentações mais tocantes que já vi. Sem saltitar no palco, se vestir de chã de dentro e patinho ou ter um ventilador constantemente diante da cabeleira, a jovem de apenas 22 anos(!) mostrou-se do porte de uma diva: voz, e que voz, e interpretação eletrizante.
Aí sim, quis saber tudo, baixei os dois CD`s da moça (19 e 21) e ouço quase todo dia, algumas músicas, como a da apresentação no Brit Awards, mais de uma vez... vício é assim.
Confere aí embaixo. É ou náo uma diva?
Mas então houve o Brit Awards e Adele fez uma das apresentações mais tocantes que já vi. Sem saltitar no palco, se vestir de chã de dentro e patinho ou ter um ventilador constantemente diante da cabeleira, a jovem de apenas 22 anos(!) mostrou-se do porte de uma diva: voz, e que voz, e interpretação eletrizante.
Aí sim, quis saber tudo, baixei os dois CD`s da moça (19 e 21) e ouço quase todo dia, algumas músicas, como a da apresentação no Brit Awards, mais de uma vez... vício é assim.
Confere aí embaixo. É ou náo uma diva?
quarta-feira, 13 de abril de 2011
"Quando Setembro chegar" ou "À tarde, com Borboleta"
Sair deste escritório, romper o ensurdecedor barulho dos carros, da britadeira na esquina, esquecer o zumbido constante das pequenas preocupações dos transeuntes. Arregaçar mangas, expulsar a gravata e num rodopio olímpico ver os sapatos pendurados em qualquer fio de alta-tensão.
Quero te encontrar na praia. Deve ser à hora precisa: 17h45. Porque assim falaremos sobre o obscuro dos dias, o pesado da alma, o quanto é preciso ser forte a cada instante e matar um leão a cada três horas neste mundo louco, até que, surpreendidos pela luz rósea, olharemos o Dois Irmãos e, diante do sol, que se vai num último êxtase espalhando sua luminosidade difusa sobre a areia branca, entenderemos que tudo na vida se põe. E que enquanto estamos vivos e de pé não se pode negligenciar o milagre.
Deixaremos lentamente a praia junto à caravana de crianças saltitantes e pais cansados e procuraremos o bar mais simples, com mesas de alumínio, balcão velho, azulejos azuis e cerveja gelada. Do centro do mundo onde estamos, abriremos uma, duas, mais garrafas e ouvindo a noite começar ao redor, fixar-me-ei em teus olhos risonhos que são uma celebração.
Quero te encontrar na praia. Deve ser à hora precisa: 17h45. Porque assim falaremos sobre o obscuro dos dias, o pesado da alma, o quanto é preciso ser forte a cada instante e matar um leão a cada três horas neste mundo louco, até que, surpreendidos pela luz rósea, olharemos o Dois Irmãos e, diante do sol, que se vai num último êxtase espalhando sua luminosidade difusa sobre a areia branca, entenderemos que tudo na vida se põe. E que enquanto estamos vivos e de pé não se pode negligenciar o milagre.
Deixaremos lentamente a praia junto à caravana de crianças saltitantes e pais cansados e procuraremos o bar mais simples, com mesas de alumínio, balcão velho, azulejos azuis e cerveja gelada. Do centro do mundo onde estamos, abriremos uma, duas, mais garrafas e ouvindo a noite começar ao redor, fixar-me-ei em teus olhos risonhos que são uma celebração.
terça-feira, 12 de abril de 2011
Women in love -
Acabei de assistir o primeiro episódio da nova minissérie da BBC: Women in love. Adaptação para a TV de duas obras de D.H. Lawrence: The rainbow e sua sequência Women in love. Eu já havia lido, há muito tempo atrás, do mesmo autor O amante de Lady Chatterley, obra proibida na Inglaterra durante 32 anos. Foi escrito em 1927 e contava um romance entre uma aristocrática lady e um serviçal (escândalo) onde o desejo feminino é manifesto sem subterfúgios (mais escândalo), em narrativas que, se hoje não chocam nem o mais pudico dos homens, eram devastadoras para a época (ápice do escândalo!).
Pelo que percebi na minissérie, estas duas obras que a inspiram tem a mesma pegada de O amante de Lady Chatterley. Não há pornografia, o que se faz é desvelar o sexo como realidade essencialmente humana e, portanto que deve ser dita, representada, vista. Para além dos esquemas morais, o sexo surge como o abismo no qual o bem e o mal se mostram pontos eqüidistantes no desejo. Força incontrolável é capaz de comunicar o que é mais pessoal ao outro, e por isto se mostra fascinante e perigoso, porque afinal nunca estamos expostos a alguém como no sexo, sendo a nudez física apenas o primeiro dos desvelamentos.
Os personagens principais são duas irmãs: Ursula (Rosamund Pike), uma professora, e Gudrun Brangwen (Rachel Stirling - belíssima!) pintora, e dois amigos Rupert Birkin (Rory Kinnear) pastor, e Gerald Crich (Joseph Mawle) industrial.
Atenção para o texto que é incrível. Há uma cena em que Ursula revela à mãe o real motivo do seu desinteresse pelo noivo que é um dos diálogos mais lindos que vi recentemente. Bom, não quero falar mais para não cometer o sacrilégio imperdoável do spoiler. Mas fica a dica.
Não somos racistas?!
“O número de homicídios de jovens brancos caiu significativamente no período 2002/2008, passando de 6.592 para 4.582, o que representa uma queda de 30% nesses seis anos. Já entre os jovens negros, os homicídios passaram de 11.308 para 12.749, o que representa um incremento de 13%. Com isso, a brecha de mortalidade entre brancos e negros cresceu 43% num breve lapso de tempo. Da mesma forma, se as taxas brancas caíram 23,3% (de 39,3 para 30,2) as taxas negras cresceram 13,2% no período. Com esse diferencial de evolução entre brancos e negros, a brecha histórica de vitimização negra se incentiva drasticamente no quinquênio: Em 2002, morriam proporcionalmente 45,8% mais negros do que brancos. Se esse já é um dado grave, em 2005, esse indicador sobe mais ainda: vai para 77,8%. E, em 2008, o índice atinge 127,6%.”
Ano: 2008
Taxa de homicídio de jovens negros entre 15 e 25 anos: 70,6%
Fonte: WAISELFISZ, Julio Jacobo (coord.). Mapa da violência 2011. Instituto Sangari. Ministério da Justiça. p. 60-65.
Não dá pra diluir a questão racial no Brasil na gritante diferença social entre ricos e pobres. Há uma razão histórica para que a maioria destes últimos serem negros: Uma abolição quase pró-forma, realizada sem nenhuma preocupação de inserção social do contingento liberto de forma digna na sociedade brasileira. Aos negros restou permanecer nas cozinhas, realizando trabalhos braçais.
Ainda hoje se você é pobre, há mais probabilidade de ter uma arma apontada pra sua cabeça, mas se você além de pobre é negro esta possibilidade é 127% maior.
A celebrada democracia racial brasileira é um mito que serve à uma ideologia: a dos desejosos de perpetuar o status quo.
Ano: 2008
Taxa de homicídio de jovens negros entre 15 e 25 anos: 70,6%
Fonte: WAISELFISZ, Julio Jacobo (coord.). Mapa da violência 2011. Instituto Sangari. Ministério da Justiça. p. 60-65.
Não dá pra diluir a questão racial no Brasil na gritante diferença social entre ricos e pobres. Há uma razão histórica para que a maioria destes últimos serem negros: Uma abolição quase pró-forma, realizada sem nenhuma preocupação de inserção social do contingento liberto de forma digna na sociedade brasileira. Aos negros restou permanecer nas cozinhas, realizando trabalhos braçais.
Ainda hoje se você é pobre, há mais probabilidade de ter uma arma apontada pra sua cabeça, mas se você além de pobre é negro esta possibilidade é 127% maior.
A celebrada democracia racial brasileira é um mito que serve à uma ideologia: a dos desejosos de perpetuar o status quo.
segunda-feira, 11 de abril de 2011
Semeando em meio à chuva
A questão toda da vida é que ela “deveria ser”, é o “se ela fosse”, o “seu eu pudesse”, porque, na verdade, pura e simplesmente, a vida é. E isto tem uma densidade, um peso, paira no ar sobre todos com sua cor marrom. Como num quarto com paredes que vão se juntando, comprimindo o vão livre, tornando o espaço mais e mais exíguo, vamos crescendo nos tornando alguém, anulando as possibilidades que uma identidade, um emprego, uma inscrição no tempo e no espaço acarreta.
Há dias nos quais este confinamento é palpável: a conta do banco com jeito de fim de mês e nem dia 15 é ainda, caminhos rotineiros, dias cinzas, o mundo povoado de chatos, segunda-feira. E o que se faz com a vida que é?
A gente reclama um pouquinho, bebe pra esquecer, às vezes senta no meio-fio e chora. Mas depois de qualquer uma dessas opções o recomendável mesmo é fazer como eu. Num dia enclausurado, com as mãos grossas da vida sufocantes ao pescoço: tomei banho com meu produto importado que faz espumas milagrosas, descobri um novo som e fiz os caminhos de sempre, mas atento para detectar as rachaduras, as quebras, os hiatos e semear na homogênea rotina um pouco do frescor chamado “Liberdade”, algo de sutil e com cheiro de jasmim-Esperança, tendo o cuidado de aqui e ali não esquecer das sementes de alegria.
Sementes sim, porque, por ora espero germinarem, vê-las florescer em breve, não idealizando o impossível, mas que, um passo após o outro, eu possa colher em sol aquilo que semeei em meio aos ventos e à tempestade.
A vida é assim.
Mas eu ainda acredito na subversão.
Há dias nos quais este confinamento é palpável: a conta do banco com jeito de fim de mês e nem dia 15 é ainda, caminhos rotineiros, dias cinzas, o mundo povoado de chatos, segunda-feira. E o que se faz com a vida que é?
A gente reclama um pouquinho, bebe pra esquecer, às vezes senta no meio-fio e chora. Mas depois de qualquer uma dessas opções o recomendável mesmo é fazer como eu. Num dia enclausurado, com as mãos grossas da vida sufocantes ao pescoço: tomei banho com meu produto importado que faz espumas milagrosas, descobri um novo som e fiz os caminhos de sempre, mas atento para detectar as rachaduras, as quebras, os hiatos e semear na homogênea rotina um pouco do frescor chamado “Liberdade”, algo de sutil e com cheiro de jasmim-Esperança, tendo o cuidado de aqui e ali não esquecer das sementes de alegria.
Sementes sim, porque, por ora espero germinarem, vê-las florescer em breve, não idealizando o impossível, mas que, um passo após o outro, eu possa colher em sol aquilo que semeei em meio aos ventos e à tempestade.
A vida é assim.
Mas eu ainda acredito na subversão.
domingo, 10 de abril de 2011
A vida em um dia
O que surpreende em “A vida em um dia” não é a extrema diversidade de culturas e tipos de pessoas sobre a terra, é o fato de, apesar disso, sermos todos fundamentalmente humanos. Aproveitei o último dia do festival “É tudo verdade” que estava rolando aqui no Rio e em Sampa para conferir a instigante proposta de Ridley e Tony Scott: voluntários gravariam suas vidas em um dia preciso, 24/07/2010, e a partir deste material se faria um documentário. Mais de 80.000 inscritos em 192 países responderam ao chamado dos produtores em parceria com o Youtube, somando o total de 4.500 horas gravadas.
De meia noite à meia-noite do dia seguinte vemos passar pela tela um monte de gente nas mais variadas situações ao redor do mundo. A única trama são perguntas que foram respondidas por alguns voluntários como o que eles mais amavam, qual era o medo maior deles, entre outras. Tem gente que só aparece escovando o dente, fritando um ovo, mas há alguns personagens mais constantes como o coreano que dá a volta ao mundo numa bicicleta há 9 anos e um menino no Peru que trabalha como engraxate e que ama a Wikipédia. Duas participações brasileiras no documentário. Pés à beira d’água enquanto se ouve a confissão de que o que a menina mais ama é sentir a areia molhada e uma cena engraçadíssima de um pai filmando o parto do filho.
A transição entre as horas é um recorte de hábitos associados àqueles momentos: muitos desjejuns, sonecas de tarde (24/7 foi um sábado), tudo ao som de uma trilha sonora fofa com um certo quê de comercial da mastercard.
Gostei do filme, ajuda a gente a perceber como este mundão é grande e que estamos todos envolvidos na mais bela e difícil batalha, a do dia-a-dia, com suas pequenas glórias, seus momentos de puro regozijo e, vez por outra, muitos motivos para sentar e chorar. Mas prosseguimos, quase sempre, quase todo mundo.
P.S. O blog só voltaria na próxima sexta quando resolvo umas pendengas que tem tirado meus sono, mas blogsville é irresistível!
De meia noite à meia-noite do dia seguinte vemos passar pela tela um monte de gente nas mais variadas situações ao redor do mundo. A única trama são perguntas que foram respondidas por alguns voluntários como o que eles mais amavam, qual era o medo maior deles, entre outras. Tem gente que só aparece escovando o dente, fritando um ovo, mas há alguns personagens mais constantes como o coreano que dá a volta ao mundo numa bicicleta há 9 anos e um menino no Peru que trabalha como engraxate e que ama a Wikipédia. Duas participações brasileiras no documentário. Pés à beira d’água enquanto se ouve a confissão de que o que a menina mais ama é sentir a areia molhada e uma cena engraçadíssima de um pai filmando o parto do filho.
A transição entre as horas é um recorte de hábitos associados àqueles momentos: muitos desjejuns, sonecas de tarde (24/7 foi um sábado), tudo ao som de uma trilha sonora fofa com um certo quê de comercial da mastercard.
Gostei do filme, ajuda a gente a perceber como este mundão é grande e que estamos todos envolvidos na mais bela e difícil batalha, a do dia-a-dia, com suas pequenas glórias, seus momentos de puro regozijo e, vez por outra, muitos motivos para sentar e chorar. Mas prosseguimos, quase sempre, quase todo mundo.
P.S. O blog só voltaria na próxima sexta quando resolvo umas pendengas que tem tirado meus sono, mas blogsville é irresistível!
quarta-feira, 6 de abril de 2011
BLOG INTERDITADO TEMPORARIAMENTE
Motivos de "Força maior" (adoro esta explicação obscura)
Mas eu volto,
Bjão
Mas eu volto,
Bjão
segunda-feira, 28 de março de 2011
Feliz de quem tem!
Acordei leso como sempre. Eu realmente preciso de uns quarenta e cinco minutos para deixar a zona cinzenta e amorfa do pós-sono e entrar, de verdade, no mundo dos vivos. Ainda confuso, enquanto a água era sorvida em goles imensos e despertava, gelada, minha garganta, ouvi o bip de mensagem do celular. A primeira era do carinha com quem dei uns amassos na noite anterior e a segunda da amiga C. me pedindo para ligar assim que pudesse para ela. Resumo da história: O peguete de um grande amigo havia tido um surto psicótico no sábado à noite e estava na emergência do hospital psiquiátrico Pinel. Meu amigo estava lá a noite inteira e foi pra lá que me dirigi, depois de um rápido e assustado banho.
Ficamos horas ali, eu o amigo R. e as amigas C e J. esperando o pai do rapaz chegar ao Rio. Não saía da minha cabeça a angústia que ele deveria estar sentindo. Primeiro a ligação do filho se despedindo, dizendo que ia se matar, depois outra ligação do meu amigo dizendo que o filho fora internado, a espera até ser possível pegar um ônibus numa viagem de quatro horas até São Paulo e a ponte área para cá. Se não fosse o meu amigo, o pior poderia ter acontecido ao rapaz.
Quando eu cheguei num domingo ensolarado ao hospital, vários internos estavam no pátio, alguns visivelmente fora da realidade, outros acabrunhados, todos em seus uniformes brancos ou azuis. Atrás daqueles muros, um outro mundo e foi com uma emoção boa que encontrei C. e J. As meninas que estão onde os amigos precisam, na hora em que eles mais necessitam. R. estava visivelmente cansado, abatido e meu desejo era, num abraço apertado, lhe mostrar o quanto estava ali por ele, pra ele. Ao final tudo se resolveu da forma que era possível. Almoçamos exaustos num shopping ali perto e ainda fomos para a casa das meninas tomar umas cervejas porque merecíamos, porque estamos vivos e, sobretudo, porque temos uns aos outros pra toda e qualquer hora, na alegria e na tristeza, na saúde e na doença. Quando o universo joga aleatoriamente seus dados, em meio à instabilidade reinante e à loucura do mundo, feliz de quem tem o abraço seguro de um amigo.
Ficamos horas ali, eu o amigo R. e as amigas C e J. esperando o pai do rapaz chegar ao Rio. Não saía da minha cabeça a angústia que ele deveria estar sentindo. Primeiro a ligação do filho se despedindo, dizendo que ia se matar, depois outra ligação do meu amigo dizendo que o filho fora internado, a espera até ser possível pegar um ônibus numa viagem de quatro horas até São Paulo e a ponte área para cá. Se não fosse o meu amigo, o pior poderia ter acontecido ao rapaz.
Quando eu cheguei num domingo ensolarado ao hospital, vários internos estavam no pátio, alguns visivelmente fora da realidade, outros acabrunhados, todos em seus uniformes brancos ou azuis. Atrás daqueles muros, um outro mundo e foi com uma emoção boa que encontrei C. e J. As meninas que estão onde os amigos precisam, na hora em que eles mais necessitam. R. estava visivelmente cansado, abatido e meu desejo era, num abraço apertado, lhe mostrar o quanto estava ali por ele, pra ele. Ao final tudo se resolveu da forma que era possível. Almoçamos exaustos num shopping ali perto e ainda fomos para a casa das meninas tomar umas cervejas porque merecíamos, porque estamos vivos e, sobretudo, porque temos uns aos outros pra toda e qualquer hora, na alegria e na tristeza, na saúde e na doença. Quando o universo joga aleatoriamente seus dados, em meio à instabilidade reinante e à loucura do mundo, feliz de quem tem o abraço seguro de um amigo.
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