Você se acostuma às paisagens desérticas; com a prática, chega a vislumbrar os diferentes tons de vermelho escalonados em paredões íngremes, encontra a poesia no vento que sibila revolvendo areias, e percebe que, mesmo lá, há um pôr do sol fantástico, vez por outra.
Pelas trilhas percorridas vai se livrando de bugigangas inúteis àquela realidade como o que outrora foram grandes sonhos, agora levados em potes mínimos, também já descartados por aí. A aridez que castiga sua pele em chicotadas ásperas é só o normal desde a algum momento, o coração em febres que nem mornas são, mas inventadas para o momento, para durarem nada, só pra se saber ainda vivo é a sua melhor tática de sobrevivência.
E então o que acontece? Abrigado a uma passageira sombra, suficiente para um frescor momentâneo, sentado o tempo exato para recobrar as energias e feliz, porque na verdade, o deserto agora é a sua casa, o seu habitat, orgulhoso pela desenvoltura com que você se move nele, eis a fonte: límpida, suave, refrescante que renova a vida . O que fazer senão, mãos em concha, se aproximar com gratidão e cuidado da fonte, sentindo, subitamente, toda a sede esquecida, o ardor de séculos na garganta: o primeiro gole.
Que água é esta? Que propriedades contém? De que minerais é feita? Bebe-se mais e mais e as mãos em concha se estendem ininterruptas. Bebe-se uma noite inteira com desejo e de tal forma que parece que não o corpo apenas, mas qualquer coisa de mais íntima pudesse se nutrir dessa água, como se ao contato dela, as camadas todas de pó, pedras e granitos sem fim revelassem o úmido, o vivo que ainda reside em você. Bebe-se com vontade e sempre mais na noite, agora fresca, mas não com sofreguidão como um sedento esturricado e ensandecido bebendo aquilo que acabará por matá-lo. Bebe-se desta fonte à semelhança de vinhos, degusta-se, descobrem-se sutis sabores, se possível fosse, temperos, e isto a noite toda.
Será mero filete? Alguma precipitação passageira, logo evaporada pelas absurdas condições climáticas do deserto, como tantas outras poças efêmeras? Ou apenas se começou a sorver a água da vida? Filete ou aqüífero, não importa, porque, por ora, a água corre, livre e benfazeja e é a prova de que há vida no deserto.
domingo, 8 de maio de 2011
quinta-feira, 5 de maio de 2011
I`m back, babies
O Internet explorer do meu computador adquiriu vida própria e passou a funcionar quando bem entendesse. Percebi de imediato que ele é homofóbico porque não me deixava nunca abrir sites babados e quase nunca inteligente, porque na maioria das vezes, era impossível acessar a amada Blogsville.
No auge do meu desespero pensei em trocar o computador, mas cadê a grana pra isso agora? Roubar o computador do meu pai que tem 2 e mais o Ipad? Entrar de madruga na editora que trabalho surrupiar uma máquina e deixar uma trilha de migalhas de fandangos, do sabor que a secretária sempre come? Optei mesmo por juntar dinheiro de forma honesta, vendendo meu corpo em algum ponto da decadente Praça Tiradentes... até que... tchan na na nan... Baixei o Firefox e todos os meus problemas (quer dizer pelo menos os referentes à internet) se resolveram!
Viva a raposa!! (Sim Foxx é isto mesmo!!)
Logo, logo, apareço nas casas de vocês para uma happy hour.
Bjs querid@s!
No auge do meu desespero pensei em trocar o computador, mas cadê a grana pra isso agora? Roubar o computador do meu pai que tem 2 e mais o Ipad? Entrar de madruga na editora que trabalho surrupiar uma máquina e deixar uma trilha de migalhas de fandangos, do sabor que a secretária sempre come? Optei mesmo por juntar dinheiro de forma honesta, vendendo meu corpo em algum ponto da decadente Praça Tiradentes... até que... tchan na na nan... Baixei o Firefox e todos os meus problemas (quer dizer pelo menos os referentes à internet) se resolveram!
Viva a raposa!! (Sim Foxx é isto mesmo!!)
Logo, logo, apareço nas casas de vocês para uma happy hour.
Bjs querid@s!
sexta-feira, 29 de abril de 2011
quinta-feira, 28 de abril de 2011
Estilhaço-instante
Este é o momento para rasgar o instante.
À minha frente o monitor desdobra-se em mil telas, cada uma pendência de algo a se fazer.
Meio copo d’água e uma xícara de café vazia, borra na qual não se advinha futuro algum.
Mais à esquerda Edu liga, trabalha, suspira: conformado. E à direita, a cidade se move impávida e monótona, bem ao ritmo das Quintas-feiras por volta de 17h15 da tarde.
Vamos rasgar o instante?
Play, música, o amargo do café, o aperto no pau por sobre a calça, a lembrança do derradeiro abraço do último amor.
Vamos estilhaçar o momento inerte em frente desta geringonça devoradora de almas?
Intimidades que se comem junto com o almoço na companhia querida do amigo há horas atrás, amanhã é sexta, há vinho em casa e o último chocolate da páscoa ainda te espera em cima da geladeira.
Sábado beberei com Bia, Domingo será dia de dormir até não poder mais e tenho meia dúzia de pessoas queridas com quem conto pro que der e vier.
Pronto.
Salvo o instante, volto ao trabalho.
À minha frente o monitor desdobra-se em mil telas, cada uma pendência de algo a se fazer.
Meio copo d’água e uma xícara de café vazia, borra na qual não se advinha futuro algum.
Mais à esquerda Edu liga, trabalha, suspira: conformado. E à direita, a cidade se move impávida e monótona, bem ao ritmo das Quintas-feiras por volta de 17h15 da tarde.
Vamos rasgar o instante?
Play, música, o amargo do café, o aperto no pau por sobre a calça, a lembrança do derradeiro abraço do último amor.
Vamos estilhaçar o momento inerte em frente desta geringonça devoradora de almas?
Intimidades que se comem junto com o almoço na companhia querida do amigo há horas atrás, amanhã é sexta, há vinho em casa e o último chocolate da páscoa ainda te espera em cima da geladeira.
Sábado beberei com Bia, Domingo será dia de dormir até não poder mais e tenho meia dúzia de pessoas queridas com quem conto pro que der e vier.
Pronto.
Salvo o instante, volto ao trabalho.
quarta-feira, 27 de abril de 2011
Contracorrente
Fui preparado para o clássico roteiro de filme gay: Um amor incandescente e proibido entre dois machos, os conflitos, um querendo tornar pública a relação e o outro satisfeito com o armário e, claro, um final trágico. Há coisa mais sofrida que filme de biba?
Confesso que os atores serviram como um chamariz a mais. Dentre as miríades de tipos que me despertam o interesse, há um lugar especial para os barbudos, adoro-os. É o caso dos dois no filme. Um ainda é pescador: aquela wibe rústica, torso bronzeado ao sol, corpo trabalhado nas labutas ao mar... aiai.
Contracorrente fica no limiar entre o óbvio, sem fugir muito do esquema previsto e o surpreendente, porque o faz a partir de elementos inusitados. Confesso que o acontecimento que dá o mote à obra me deixou bem irritado quando o entendi, mas depois ele surge como metáfora maravilhosa para os amores no armário.
É um alívio e uma situação muito confortável para milhares de homens e mulheres que curtem o mesmo sexo, manter um estilo de vida socialmente aprovado e domesticar o desejo, deixando-o escondido ou vivê-lo em escapadelas, em hiatos, em breves momentos nos quais se pensa poder suspender sua inserção social, seu papel, sua identidade conquistada diante dos outros e realizar então o interdito desejo às margens, na penumbra esquizofrênica entre o que arde em nós e quem nos permitimos ser.
Não gosto de moralismos, mas acho mesmo que, de uma forma ou de outra, é assumindo em alguma instância o que se é, discreta ou corajosamente, que vai se naturalizando questões como a da homossexualidade. Às vezes para a nossa realização e para que outros encontrem mais espaço e possam respirar mais livremente sendo quem são é preciso mesmo nadar contracorrente.
terça-feira, 26 de abril de 2011
Farmacon
A sua loucura, ela punha-a em potes. Em épocas de tensões hormonais, reuniões de avaliação, prazos de entrega: grandes baldes que se espalhavam pela casa toda, sempre respingando e, por isto, não podia mesmo evitar shots de cachaça às segundas, noites insones com homens que sabia não valer a pena nas quartas. Mas tudo bem, o excesso estava mesmo contido em baldes, panelas e vasilhames por toda a a casa.
Normalmente, no entanto, pequenos potes de requeijão, de antigos perfumes, de outros tantos conteúdos lhe bastavam. E assim passava por uma mulher independente, culta e que já chegou a orgasmos inúmeras vezes na vida, uma mulher “Cláudia” ou, até mesmo, uma fêmea “Marie Claire”.
Até bem pouco tempo tampava com força cada pote, a fim de evitar qualquer emanação de loucura. Queria prendê-la, negá-la, tampando-a à vácuo. No entanto aqui e ali, o cabelo tão amansado de secador e escova rebelava-se em cacho, misteriosamente a saia comportada se abria em fendas e ela em confraternizações de trabalho e happy hours para networking se via dando mole de forma horrorosamente vulgar para os mais reprováveis tipos. A loucura havia escapado.
Hoje, a carrega em ampolas na bolsa. Quando o trânsito vai mal, abre suavemente o vidrinho e aspira: aumenta o som e balança a cabeça como num derradeiro show de Metal. No meio da reunião, metas a serem atingidas, capital a ser conquistado; para escapar à carranca de tédio absoluto que ameaça se formar, passa um pouquinho de loucura no pulso e a cheira como um perfume; então, enquanto se decifram os balancetes do ano anterior, desce a mão discretamente, apalpa as próprias cochas, vasculha o interior da saia sentindo a suavidade do tecido que roça sua pele em arrepio e chega, em brevíssimas investidas, na fonte úmida de seu prazer.
Ontem bebeu um vidrinho inteiro e, diante das preocupações do chefe sisudo, riu solta e deliberadamente, pegou suas coisas e, antes de bater a porta com estrondo, jogou, como uma bóia a um náufrago, um pote médio de loucura no colo do patrão com o rótulo: Consumir todo. Acredite, você precisa.
Normalmente, no entanto, pequenos potes de requeijão, de antigos perfumes, de outros tantos conteúdos lhe bastavam. E assim passava por uma mulher independente, culta e que já chegou a orgasmos inúmeras vezes na vida, uma mulher “Cláudia” ou, até mesmo, uma fêmea “Marie Claire”.
Até bem pouco tempo tampava com força cada pote, a fim de evitar qualquer emanação de loucura. Queria prendê-la, negá-la, tampando-a à vácuo. No entanto aqui e ali, o cabelo tão amansado de secador e escova rebelava-se em cacho, misteriosamente a saia comportada se abria em fendas e ela em confraternizações de trabalho e happy hours para networking se via dando mole de forma horrorosamente vulgar para os mais reprováveis tipos. A loucura havia escapado.
Hoje, a carrega em ampolas na bolsa. Quando o trânsito vai mal, abre suavemente o vidrinho e aspira: aumenta o som e balança a cabeça como num derradeiro show de Metal. No meio da reunião, metas a serem atingidas, capital a ser conquistado; para escapar à carranca de tédio absoluto que ameaça se formar, passa um pouquinho de loucura no pulso e a cheira como um perfume; então, enquanto se decifram os balancetes do ano anterior, desce a mão discretamente, apalpa as próprias cochas, vasculha o interior da saia sentindo a suavidade do tecido que roça sua pele em arrepio e chega, em brevíssimas investidas, na fonte úmida de seu prazer.
Ontem bebeu um vidrinho inteiro e, diante das preocupações do chefe sisudo, riu solta e deliberadamente, pegou suas coisas e, antes de bater a porta com estrondo, jogou, como uma bóia a um náufrago, um pote médio de loucura no colo do patrão com o rótulo: Consumir todo. Acredite, você precisa.
segunda-feira, 25 de abril de 2011
No currículo escolar
Comecei meu estágio, obrigatório para quem faz licenciatura, atrasado por motivos burocráticos. Hoje o professor corrigiu a prova bimestral e 2 trabalhos que complementaram a nota desta. E qual não foi minha surpresa ao ver que um destes trabalhos era sobre gênero e diversidade sexual.
A primeira questão pedia para citar 2 elementos que definem o sexo de uma pessoa, por exemplo, órgãos genitais e hormônios. A segunda era sobre gênero, definindo-o como a expectativa social a respeito dos sexos em determinada cultura. A última questão: Qual a orientação sexual de uma transexual?
O professor salientou que aceitou tanto quem considerou a orientação da trans antes da operação de mudança de sexo, que segundo ele seria então “homossexual”, quanto após a cirurgia, aí a resposta correta seria “heterossexual”.
Confesso que achei bem esquisita a questão. Mas ver meninos e meninas por volta de dezesseis anos em um colégio estadual discutindo sobre diversidade sexual como matéria de aula renovou minha esperança que, apesar de tanta caretice neste mundo, a gente está definitivamente conquistando espaços e preparando uma sociedade mais plural e colorida sem que se tenha que matar ou morrer tanto por causa disto. E viva o Gay Power!
A primeira questão pedia para citar 2 elementos que definem o sexo de uma pessoa, por exemplo, órgãos genitais e hormônios. A segunda era sobre gênero, definindo-o como a expectativa social a respeito dos sexos em determinada cultura. A última questão: Qual a orientação sexual de uma transexual?
O professor salientou que aceitou tanto quem considerou a orientação da trans antes da operação de mudança de sexo, que segundo ele seria então “homossexual”, quanto após a cirurgia, aí a resposta correta seria “heterossexual”.
Confesso que achei bem esquisita a questão. Mas ver meninos e meninas por volta de dezesseis anos em um colégio estadual discutindo sobre diversidade sexual como matéria de aula renovou minha esperança que, apesar de tanta caretice neste mundo, a gente está definitivamente conquistando espaços e preparando uma sociedade mais plural e colorida sem que se tenha que matar ou morrer tanto por causa disto. E viva o Gay Power!
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