terça-feira, 12 de abril de 2011

Women in love -



Acabei de assistir o primeiro episódio da nova minissérie da BBC: Women in love. Adaptação para a TV de duas obras de D.H. Lawrence: The rainbow e sua sequência Women in love. Eu já havia lido, há muito tempo atrás, do mesmo autor O amante de Lady Chatterley, obra proibida na Inglaterra durante 32 anos. Foi escrito em 1927 e contava um romance entre uma aristocrática lady e um serviçal (escândalo) onde o desejo feminino é manifesto sem subterfúgios (mais escândalo), em narrativas que, se hoje não chocam nem o mais pudico dos homens, eram devastadoras para a época (ápice do escândalo!).

Pelo que percebi na minissérie, estas duas obras que a inspiram tem a mesma pegada de O amante de Lady Chatterley. Não há pornografia, o que se faz é desvelar o sexo como realidade essencialmente humana e, portanto que deve ser dita, representada, vista. Para além dos esquemas morais, o sexo surge como o abismo no qual o bem e o mal se mostram pontos eqüidistantes no desejo. Força incontrolável é capaz de comunicar o que é mais pessoal ao outro, e por isto se mostra fascinante e perigoso, porque afinal nunca estamos expostos a alguém como no sexo, sendo a nudez física apenas o primeiro dos desvelamentos.

Os personagens principais são duas irmãs: Ursula (Rosamund Pike), uma professora, e Gudrun Brangwen (Rachel Stirling - belíssima!) pintora, e dois amigos Rupert Birkin (Rory Kinnear) pastor, e Gerald Crich (Joseph Mawle) industrial.

Atenção para o texto que é incrível. Há uma cena em que Ursula revela à mãe o real motivo do seu desinteresse pelo noivo que é um dos diálogos mais lindos que vi recentemente. Bom, não quero falar mais para não cometer o sacrilégio imperdoável do spoiler. Mas fica a dica.

Não somos racistas?!

“O número de homicídios de jovens brancos caiu significativamente no período 2002/2008, passando de 6.592 para 4.582, o que representa uma queda de 30% nesses seis anos. Já entre os jovens negros, os homicídios passaram de 11.308 para 12.749, o que representa um incremento de 13%. Com isso, a brecha de mortalidade entre brancos e negros cresceu 43% num breve lapso de tempo. Da mesma forma, se as taxas brancas caíram 23,3% (de 39,3 para 30,2) as taxas negras cresceram 13,2% no período. Com esse diferencial de evolução entre brancos e negros, a brecha histórica de vitimização negra se incentiva drasticamente no quinquênio: Em 2002, morriam proporcionalmente 45,8% mais negros do que brancos. Se esse já é um dado grave, em 2005, esse indicador sobe mais ainda: vai para 77,8%. E, em 2008, o índice atinge 127,6%.”

Ano: 2008
Taxa de homicídio de jovens negros entre 15 e 25 anos: 70,6%
Fonte: WAISELFISZ, Julio Jacobo (coord.). Mapa da violência 2011. Instituto Sangari. Ministério da Justiça. p. 60-65.

Não dá pra diluir a questão racial no Brasil na gritante diferença social entre ricos e pobres. Há uma razão histórica para que a maioria destes últimos serem negros: Uma abolição quase pró-forma, realizada sem nenhuma preocupação de inserção social do contingento liberto de forma digna na sociedade brasileira. Aos negros restou permanecer nas cozinhas, realizando trabalhos braçais.

Ainda hoje se você é pobre, há mais probabilidade de ter uma arma apontada pra sua cabeça, mas se você além de pobre é negro esta possibilidade é 127% maior.

A celebrada democracia racial brasileira é um mito que serve à uma ideologia: a dos desejosos de perpetuar o status quo.

segunda-feira, 11 de abril de 2011

Semeando em meio à chuva

A questão toda da vida é que ela “deveria ser”, é o “se ela fosse”, o “seu eu pudesse”, porque, na verdade, pura e simplesmente, a vida é. E isto tem uma densidade, um peso, paira no ar sobre todos com sua cor marrom. Como num quarto com paredes que vão se juntando, comprimindo o vão livre, tornando o espaço mais e mais exíguo, vamos crescendo nos tornando alguém, anulando as possibilidades que uma identidade, um emprego, uma inscrição no tempo e no espaço acarreta.

Há dias nos quais este confinamento é palpável: a conta do banco com jeito de fim de mês e nem dia 15 é ainda, caminhos rotineiros, dias cinzas, o mundo povoado de chatos, segunda-feira. E o que se faz com a vida que é?

A gente reclama um pouquinho, bebe pra esquecer, às vezes senta no meio-fio e chora. Mas depois de qualquer uma dessas opções o recomendável mesmo é fazer como eu. Num dia enclausurado, com as mãos grossas da vida sufocantes ao pescoço: tomei banho com meu produto importado que faz espumas milagrosas, descobri um novo som e fiz os caminhos de sempre, mas atento para detectar as rachaduras, as quebras, os hiatos e semear na homogênea rotina um pouco do frescor chamado “Liberdade”, algo de sutil e com cheiro de jasmim-Esperança, tendo o cuidado de aqui e ali não esquecer das sementes de alegria.

Sementes sim, porque, por ora espero germinarem, vê-las florescer em breve, não idealizando o impossível, mas que, um passo após o outro, eu possa colher em sol aquilo que semeei em meio aos ventos e à tempestade.

A vida é assim.
Mas eu ainda acredito na subversão.

domingo, 10 de abril de 2011

A vida em um dia

O que surpreende em “A vida em um dia” não é a extrema diversidade de culturas e tipos de pessoas sobre a terra, é o fato de, apesar disso, sermos todos fundamentalmente humanos. Aproveitei o último dia do festival “É tudo verdade” que estava rolando aqui no Rio e em Sampa para conferir a instigante proposta de Ridley e Tony Scott: voluntários gravariam suas vidas em um dia preciso, 24/07/2010, e a partir deste material se faria um documentário. Mais de 80.000 inscritos em 192 países responderam ao chamado dos produtores em parceria com o Youtube, somando o total de 4.500 horas gravadas.

De meia noite à meia-noite do dia seguinte vemos passar pela tela um monte de gente nas mais variadas situações ao redor do mundo. A única trama são perguntas que foram respondidas por alguns voluntários como o que eles mais amavam, qual era o medo maior deles, entre outras. Tem gente que só aparece escovando o dente, fritando um ovo, mas há alguns personagens mais constantes como o coreano que dá a volta ao mundo numa bicicleta há 9 anos e um menino no Peru que trabalha como engraxate e que ama a Wikipédia. Duas participações brasileiras no documentário. Pés à beira d’água enquanto se ouve a confissão de que o que a menina mais ama é sentir a areia molhada e uma cena engraçadíssima de um pai filmando o parto do filho.

A transição entre as horas é um recorte de hábitos associados àqueles momentos: muitos desjejuns, sonecas de tarde (24/7 foi um sábado), tudo ao som de uma trilha sonora fofa com um certo quê de comercial da mastercard.

Gostei do filme, ajuda a gente a perceber como este mundão é grande e que estamos todos envolvidos na mais bela e difícil batalha, a do dia-a-dia, com suas pequenas glórias, seus momentos de puro regozijo e, vez por outra, muitos motivos para sentar e chorar. Mas prosseguimos, quase sempre, quase todo mundo.

P.S. O blog só voltaria na próxima sexta quando resolvo umas pendengas que tem tirado meus sono, mas blogsville é irresistível!

quarta-feira, 6 de abril de 2011

BLOG INTERDITADO TEMPORARIAMENTE

Motivos de "Força maior" (adoro esta explicação obscura)

Mas eu volto,

Bjão

segunda-feira, 28 de março de 2011

Feliz de quem tem!

Acordei leso como sempre. Eu realmente preciso de uns quarenta e cinco minutos para deixar a zona cinzenta e amorfa do pós-sono e entrar, de verdade, no mundo dos vivos. Ainda confuso, enquanto a água era sorvida em goles imensos e despertava, gelada, minha garganta, ouvi o bip de mensagem do celular. A primeira era do carinha com quem dei uns amassos na noite anterior e a segunda da amiga C. me pedindo para ligar assim que pudesse para ela. Resumo da história: O peguete de um grande amigo havia tido um surto psicótico no sábado à noite e estava na emergência do hospital psiquiátrico Pinel. Meu amigo estava lá a noite inteira e foi pra lá que me dirigi, depois de um rápido e assustado banho.

Ficamos horas ali, eu o amigo R. e as amigas C e J. esperando o pai do rapaz chegar ao Rio. Não saía da minha cabeça a angústia que ele deveria estar sentindo. Primeiro a ligação do filho se despedindo, dizendo que ia se matar, depois outra ligação do meu amigo dizendo que o filho fora internado, a espera até ser possível pegar um ônibus numa viagem de quatro horas até São Paulo e a ponte área para cá. Se não fosse o meu amigo, o pior poderia ter acontecido ao rapaz.

Quando eu cheguei num domingo ensolarado ao hospital, vários internos estavam no pátio, alguns visivelmente fora da realidade, outros acabrunhados, todos em seus uniformes brancos ou azuis. Atrás daqueles muros, um outro mundo e foi com uma emoção boa que encontrei C. e J. As meninas que estão onde os amigos precisam, na hora em que eles mais necessitam. R. estava visivelmente cansado, abatido e meu desejo era, num abraço apertado, lhe mostrar o quanto estava ali por ele, pra ele. Ao final tudo se resolveu da forma que era possível. Almoçamos exaustos num shopping ali perto e ainda fomos para a casa das meninas tomar umas cervejas porque merecíamos, porque estamos vivos e, sobretudo, porque temos uns aos outros pra toda e qualquer hora, na alegria e na tristeza, na saúde e na doença. Quando o universo joga aleatoriamente seus dados, em meio à instabilidade reinante e à loucura do mundo, feliz de quem tem o abraço seguro de um amigo.

quinta-feira, 24 de março de 2011

Fragmentos esparsos

Tenho estado tranqüilo estes dias. Com uma sensação boa de que se tudo se move à minha volta numa dança insana, eu vou aprendendo a bailar no meu próprio ritmo.
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Desejo o diferente, a noite, o inusitado. Como preciso disto para depois voltar às rotinas e considerá-las benditas.
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Que meu coração vença os medos que o transformam em terra inóspita. Terreno baldio com cerca de arame farpado e daninhas em todo o canto. Quero uma reforma agrária: um lote para os amigos de sempre, outro para aqueles que vierem, um espacinho para os amores que se foram e latifúndios para se constituir os próximos. Mas tudo com cheiro de casa: bolo no forno, risada na sala e mão-cafuné sobre os cabelos.
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Hoje, às 16h19 me deu vontade do amor. De pertencer a alguém e deixar que ele repouse suas alegrias e angústias tranqüilamente em meu peito. Aquela sensação única de que tudo parece igual, mas inexplicavelmente está melhor só porque existimos juntos.
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A verdade é que, lendo o post do Rodrigo eu descobri: Eu não sei Romance.
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Outono. Quinta. Lá fora brilha um sol quase de verão. Aqui há um frio condicionado. As pessoas passam, carros param ao sinal vermelho. As árvores permanecem imóveis. Como nada disso fala de nós? Da nossa ânsia, nossa vontade, do rio caudaloso que é a vida íntima de cada pessoa que, perguntada, responde sempre: Tudo bem.
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De uma maneira ou de outra, eu fiz sempre só o que quis.