Lendo o post de S eu entendi uma coisa. Sangrar é feio. Ponha um curativo na ferida, disfarce o machucado, deixe-o imperceptível, da cor da pele, sorria mesmo que a fisgada continue.
Compre a margarina do comercial, consuma, porque é isto que as pessoas felizes fazem. Arranje um amor para calar a solidão, interesse-se pela vida alheia para disfarçar a falta de sentido da sua, ouça música para não ser perturbado pelo silêncio inconveniente.
E ria de tudo o que ameace abalar a sua requerida normalidade. Tenha medo dos que se expõem, dos que não tem medo da luz, daqueles que sangram de peito aberto na praça pública. Fugir dos loucos é necessário porque eles nos lembram a nossa própria insanidade.
A loucura do mundo domesticada, dominada e entubada pelas boas maneiras, pela educação e por suas conquista mais recente: o politicamente correto.
Sorria nas fotos, nos bares, sorria sempre. Seja feliz. É o mínimo que se pode fazer. Ponha 250 ml, fique loira, bíceps, tríceps e tanquinho. O último IPad, a melhor viajem, a trepada inesquecível. Tenha, seja, viaje, celebre.
A vida é breve, os homens instáveis e o desejo tão irrealizável em sua plenitude que precisamos reagir ardorosamente a isso, mergulhando num ciclo infindo de sensações, onde uma mal se recolhe em ondas diminutas sobre a pele, outra já se faz sentir em crescente maré: o úmido e quente do desejo, o corpo leve e tonto no brinde, a alegria absurda e fácil da pista.
Sensações: a vida por uma delas. É bom, e mágico, também um pouco triste.
Sensações nos lembram que estamos vivos, mas que isto não seja um disfarce, uma droga, uma forma de esquecer que, afinal, somos todos feito de carne, ossos e sonhos.
E que, por isso, vez por outra, sangrar é absolutamente humano.
terça-feira, 22 de março de 2011
domingo, 20 de março de 2011
Post do fim do dia
A luminosidade que nunca é abundante se faz sombra àquela hora. Tudo parece ser sugado lentamente pela escuridão que se espraia em ondas e submerge todo o até então visível. Se eu posso acompanhar o crepúsculo acho lindo e paro qualquer coisa pra ver o sol descer preguiçoso ao seu esconderijo. Mas, de casa isto é impossível, só o que acontece é a noite invadindo tudo num degradée lúgubre.
Se é Domingo este espetáculo desolador atinge o ápice. Está decretado: Acabou o final-de-semana. Eu, normalmente, acendo as luzes, ligo o som, vou tomar um café com amigos. Mas não hoje. Enquanto a escuridão, dentro e fora, se fazia, não fugi. Postei-me de pé, de frente à janela, sem pensar em nada. Os pés firmes no momento. Os olhos só vendo o desaparecer gradual de tudo, os ouvidos no silêncio. Aceitei. O declinar do dia, a ferrugem dos sonhos, a corrosão do Domingo. Como um tecido que fosse a partir do interior se esgarçando, soltando sua trama, libertando seus fios complexos e unidos em pontas soltas. Buracos. É assim que a escuridão vence o dia. É assim que noite desfaz os sonhos, aqueles que se tem acordado.
E eu não tive medo e nem fiquei triste por ser assim. Aceitei. Porque, de algum modo, o que se desfaz não é tudo. O que se desfaz é o convite à nossa persistência, ao labor, à maturação do dia-a-dia.
Enquanto a escuridão lá fora grassa, permaneço de pé. E se já não vejo os passos dados, lá trás, por força de abismos e me é desconhecido o porvir, sinto que, pelo menos, estou com os pés bem firmes no chão que piso e que este é todo o necessário por agora. Ainda sem as amplidões desejadas, quiçá alcançáveis, e os campos para se correr livremente, tudo o que preciso e tenho no momento é a terra firme bem debaixo dos meus pés.
No escuro eu estou só. Sem um corpo quente junto ao meu num abraço, sem mãos amigas às minhas, mas permaneço ereto, a coluna pronta, a cabeça erguida, mesmo que sinta em meus joelhos, vez por outra, o cansaço dos anos e das despedidas.
Eu permaneço no escuro como só um homem pode fazer. Consciente de si, sabedor da noite, mas ainda com um coração em fogo, basta que se soprem as cinzas.
Se é Domingo este espetáculo desolador atinge o ápice. Está decretado: Acabou o final-de-semana. Eu, normalmente, acendo as luzes, ligo o som, vou tomar um café com amigos. Mas não hoje. Enquanto a escuridão, dentro e fora, se fazia, não fugi. Postei-me de pé, de frente à janela, sem pensar em nada. Os pés firmes no momento. Os olhos só vendo o desaparecer gradual de tudo, os ouvidos no silêncio. Aceitei. O declinar do dia, a ferrugem dos sonhos, a corrosão do Domingo. Como um tecido que fosse a partir do interior se esgarçando, soltando sua trama, libertando seus fios complexos e unidos em pontas soltas. Buracos. É assim que a escuridão vence o dia. É assim que noite desfaz os sonhos, aqueles que se tem acordado.
E eu não tive medo e nem fiquei triste por ser assim. Aceitei. Porque, de algum modo, o que se desfaz não é tudo. O que se desfaz é o convite à nossa persistência, ao labor, à maturação do dia-a-dia.
Enquanto a escuridão lá fora grassa, permaneço de pé. E se já não vejo os passos dados, lá trás, por força de abismos e me é desconhecido o porvir, sinto que, pelo menos, estou com os pés bem firmes no chão que piso e que este é todo o necessário por agora. Ainda sem as amplidões desejadas, quiçá alcançáveis, e os campos para se correr livremente, tudo o que preciso e tenho no momento é a terra firme bem debaixo dos meus pés.
No escuro eu estou só. Sem um corpo quente junto ao meu num abraço, sem mãos amigas às minhas, mas permaneço ereto, a coluna pronta, a cabeça erguida, mesmo que sinta em meus joelhos, vez por outra, o cansaço dos anos e das despedidas.
Eu permaneço no escuro como só um homem pode fazer. Consciente de si, sabedor da noite, mas ainda com um coração em fogo, basta que se soprem as cinzas.
quarta-feira, 16 de março de 2011
Still love the Nightlife!
Ainda tenho em mim a incrível sensação de liberdade. Enquanto tremia lá fora e me encolhia, amedrontado, na pequena fila de espera, tudo me parecia muito estranho. No entanto, ao abrir a porta do bar, vi vários casais se beijando. Ali, à meia-luz, sem vergonha ou temor. E eu que demorei anos para me aceitar, entre tanto sofrimento, entrei naquele lugar como sendo uma espécie de santuário do livre desejo, do amor que não se envergonha, da celebração de algo que antes parecia uma espécie de castigo. Lembro que a música seguinte foi Express Yourself: Madonna! Pronto, eu estava em casa.
Voltei ao The Copa quase toda a semana durante seis meses. Ia pra me acabar de dançar ao som das baladas pop’s, pra beijar na boca descompromissadamente e conhecer as figuras que parecem só existir na night, virando pó aos primeiros raios da manhã. Há pessoas que não podem ter uma vida normal sendo o que são na night. E eu amava tudo aquilo.
Com o passar do tempo, as extravagâncias parecem ser todas conhecidas e as caras se repetem. Pra quem não curte música eletrônica em nenhuma de suas vertentes como eu, as opções são ridiculamente restritas. Mas, ainda hoje, quando quero me sentir de forma absolutamente livre para além das possibilidades costumeiras de liberdade, saio pra dançar. Ainda é numa pista de dança, e ainda ao som da Pop Music que eu me acabo e volto pra casa, de manhã, podre de cansado, suado e levemente bêbado, mas imensamente feliz. Pensando nisso pro Sábado...
Voltei ao The Copa quase toda a semana durante seis meses. Ia pra me acabar de dançar ao som das baladas pop’s, pra beijar na boca descompromissadamente e conhecer as figuras que parecem só existir na night, virando pó aos primeiros raios da manhã. Há pessoas que não podem ter uma vida normal sendo o que são na night. E eu amava tudo aquilo.
Com o passar do tempo, as extravagâncias parecem ser todas conhecidas e as caras se repetem. Pra quem não curte música eletrônica em nenhuma de suas vertentes como eu, as opções são ridiculamente restritas. Mas, ainda hoje, quando quero me sentir de forma absolutamente livre para além das possibilidades costumeiras de liberdade, saio pra dançar. Ainda é numa pista de dança, e ainda ao som da Pop Music que eu me acabo e volto pra casa, de manhã, podre de cansado, suado e levemente bêbado, mas imensamente feliz. Pensando nisso pro Sábado...
segunda-feira, 14 de março de 2011
Olha a cabeleira do Zezé
A Gafieira Elite resiste bravamente ao tempo. Não tão famosa quanto a Estudantina, tem, porém, um público fiel entre aqueles que gostam de arrasta-pé de salão. Inaugurada em 1930, fica no segundo andar do prédio que nos tempos do império, pertenceu ao sogro de Duque de Caxias.
A Elite, como em geral todo salão de dança antigo, é um ambiente bastante conservador, cheio de regras. Escândalo atual é a mania das senhoras desacompanhadas pagarem para dançar com jovens que, vindo de aulas de dança, encontraram nas sem par, uma fonte de renda. Os mais tradicionalistas torcem o nariz para a prática, ainda que o contrário, ou seja, dançarinas de aluguel seja comum nas gafieiras desde os anos trinta.
Pode-se imaginar então o apelo do pink money para que um salão tão tradicional se transforme no baile carnavalesco gay mais inusitado do Rio. Durante os dias da folia, só dá homens sem camisa pulando, se esfregando e beijando-se ao som de marchinhas e sambas-enredo.
As condições são precárias, o calor é infernal – ou seja quase todo mundo sem camisa – o chão de madeira range tanto que parece que a qualquer momento vai ceder, providencial que, no primeiro andar, funcione uma funerária. Além disso, o mezanino, escuro nos dias de baile, serve para práticas que deixariam escandalizadas as senhoras mais avançadinhas dos dias normais de gafieira.
O público é composto por uma ampla fauna: gente mais pobre em geral, os turistas que adoram e acham tudo exótico, os melhores cafuçús do Rio e é claro, os apreciadores da espécime macho-rústica.
Para sobreviver a um baile carnavalesco no elite você precisa de algumas habilidades fundamentais:
1) Não ser claustrofóbico, a escada de acesso é apertadíssima.
2) Não ser tímido pra mijar, só há uma latrina e o resto é um imenso mictório conjunto no banheiro.
3) Conseguir distinguir no breu os cafuçú-diliça da gente muito, muito feia que abunda (com trocadilho) no local.
4) Não ficar muito obcecado com substâncias que, porventura, venham a te atingir se você fizer a burrada de estar embaixo do mezanino de madeira.
Enfim, eu, como bom estudante de ciências sociais que sou, fui Terça de carnaval fazer uma experiência antropológica no local e garanto a vocês: se forem usadas todas as habilidades acima descritas, a diversão é garantida.
A Elite, como em geral todo salão de dança antigo, é um ambiente bastante conservador, cheio de regras. Escândalo atual é a mania das senhoras desacompanhadas pagarem para dançar com jovens que, vindo de aulas de dança, encontraram nas sem par, uma fonte de renda. Os mais tradicionalistas torcem o nariz para a prática, ainda que o contrário, ou seja, dançarinas de aluguel seja comum nas gafieiras desde os anos trinta.
Pode-se imaginar então o apelo do pink money para que um salão tão tradicional se transforme no baile carnavalesco gay mais inusitado do Rio. Durante os dias da folia, só dá homens sem camisa pulando, se esfregando e beijando-se ao som de marchinhas e sambas-enredo.
As condições são precárias, o calor é infernal – ou seja quase todo mundo sem camisa – o chão de madeira range tanto que parece que a qualquer momento vai ceder, providencial que, no primeiro andar, funcione uma funerária. Além disso, o mezanino, escuro nos dias de baile, serve para práticas que deixariam escandalizadas as senhoras mais avançadinhas dos dias normais de gafieira.
O público é composto por uma ampla fauna: gente mais pobre em geral, os turistas que adoram e acham tudo exótico, os melhores cafuçús do Rio e é claro, os apreciadores da espécime macho-rústica.
Para sobreviver a um baile carnavalesco no elite você precisa de algumas habilidades fundamentais:
1) Não ser claustrofóbico, a escada de acesso é apertadíssima.
2) Não ser tímido pra mijar, só há uma latrina e o resto é um imenso mictório conjunto no banheiro.
3) Conseguir distinguir no breu os cafuçú-diliça da gente muito, muito feia que abunda (com trocadilho) no local.
4) Não ficar muito obcecado com substâncias que, porventura, venham a te atingir se você fizer a burrada de estar embaixo do mezanino de madeira.
Enfim, eu, como bom estudante de ciências sociais que sou, fui Terça de carnaval fazer uma experiência antropológica no local e garanto a vocês: se forem usadas todas as habilidades acima descritas, a diversão é garantida.
sexta-feira, 11 de março de 2011
Musiquitcha fófis
Eu adoro versãoes! Quem se lembra desta aqui cantada lá pelos 80 pelo Balão mágico?
Na voz de Tiê ficou uma graça. Curte aí e ótimo finde!
Na voz de Tiê ficou uma graça. Curte aí e ótimo finde!
quinta-feira, 10 de março de 2011
Se você curte axé, livros de auto-ajuda ou acredita na força positiva do Universo que conspira a seu favor: Não leia este post
Há uma tristeza sólida, pesada, difícil de carregar que fica como pedra no caminho ou móvel mal posto no canto da sala, há toda hora se tropeça nela. Tristezas assim são dominantes, não são esquecidas, compõem letra, música e performance. Estão lá no vermelho dos olhos, no desânimo da vida, no quente e úmido travesseiro, porto seguro para estes dias.
No entanto, há também um vaporoso pesar que não impede nada, nem esparsas alegrias, risadas genuínas e momentos de real felicidade. Ele parece uma névoa, informe, porém de uma consistência tal que não se dissipa totalmente. Há pessoas que a tem na alma e numa era pré-psicologia tal sentimento dava nome há um dos quatro tipos básicos de temperamento: melancólico.
Melancolia é uma bela palavra. Politicamente incorreta no reino da felicidade compulsória, mas bela. E acho que define bem o que sinto há algum tempo. Cansaço que em sua extremidade mais longínqua, na fronteira que faz com a bruma densa de tudo que é interior, pessoal e incomunicável se faz melancolia.
Eu sei exatamente o porquê. Há exatamente cinco anos eu rompi com a minha vida e inventei uma radicalmente nova. E a verdade é que não estou onde quero. Os então novos sonhos desmoronaram como construções mal-feitas à beira de praias ridículas e a sensação de que o mundo de alguma forma me queria, abrindo seus braços para mim revelou-se, tão somente, um messianismo barato.
Eu sei o que eu quero. E estou no caminho. Mas, às vezes e cada vez mais repetidamente ele me parece longo, árduo e as pausas, em meio a risos, abraços de amigos e beijos ardorosos de amores breves porque sutis, se esgotam sempre insuficientes.
No reino da felicidade compulsória, no carnaval constante da vida os meus dias estão nublados, a minha Quarta é de cinzas e isto sem dor ou espasmos só esta coisa muda em meu peito, a névoa que a rodeia e a vontade de finalmente colher o que há tanto tempo planto. Mas quem manda nos ritmos da terra? Qual a lógica nos devaneios da história?
Eu respondo: Nenhuma. E o que fazer?
Continuar. Sim, há de se continuar
No entanto, há também um vaporoso pesar que não impede nada, nem esparsas alegrias, risadas genuínas e momentos de real felicidade. Ele parece uma névoa, informe, porém de uma consistência tal que não se dissipa totalmente. Há pessoas que a tem na alma e numa era pré-psicologia tal sentimento dava nome há um dos quatro tipos básicos de temperamento: melancólico.
Melancolia é uma bela palavra. Politicamente incorreta no reino da felicidade compulsória, mas bela. E acho que define bem o que sinto há algum tempo. Cansaço que em sua extremidade mais longínqua, na fronteira que faz com a bruma densa de tudo que é interior, pessoal e incomunicável se faz melancolia.
Eu sei exatamente o porquê. Há exatamente cinco anos eu rompi com a minha vida e inventei uma radicalmente nova. E a verdade é que não estou onde quero. Os então novos sonhos desmoronaram como construções mal-feitas à beira de praias ridículas e a sensação de que o mundo de alguma forma me queria, abrindo seus braços para mim revelou-se, tão somente, um messianismo barato.
Eu sei o que eu quero. E estou no caminho. Mas, às vezes e cada vez mais repetidamente ele me parece longo, árduo e as pausas, em meio a risos, abraços de amigos e beijos ardorosos de amores breves porque sutis, se esgotam sempre insuficientes.
No reino da felicidade compulsória, no carnaval constante da vida os meus dias estão nublados, a minha Quarta é de cinzas e isto sem dor ou espasmos só esta coisa muda em meu peito, a névoa que a rodeia e a vontade de finalmente colher o que há tanto tempo planto. Mas quem manda nos ritmos da terra? Qual a lógica nos devaneios da história?
Eu respondo: Nenhuma. E o que fazer?
Continuar. Sim, há de se continuar
quarta-feira, 2 de março de 2011
Bem-vinda
Vez por outra desperta uma coisa aqui dentro de mim que pula.
Ela, tão impulsiva há de ser feminina, fica tentando escapar, sufocada demais pela rotina, presa às obrigações, escrava de impossibilidades: financeiras, psicológicas, e todas as finitudes próprias de ser alguém situado num único ponto geográfico, num breve instante da história.
Quando ela escapa aos laços, me vejo em outras cidades, em novas paragens, e o mundo inteiro torna-se meu destino. A danada me dá vontade de novas gentes, outros papos, e me faz acreditar contra toda experiência reafirmada que gente é bom demais, é feita, mesmo, pra brilhar.
Altiva, crescente, forma o arco de tensão que, de onde eu estou, me projeta pra além, me faz querer ir mais longe, me faz sentir o sabor doce do momento de forma apenas fugidia, porque é o porvir que interessa.
Ela precisa ser aplacada por outras instâncias em mim. Apaziguada amorosa e ardorosamente, para repousar em paz e me permitir conduzir a vida, de novo, de forma sensata, sem esta fome das coisas, esta ânsia de tudo e de mais.
Mas que não durma muito, que não se perca, porque reconheço que o que realizei com a marca do “realmente vivido”, ainda que as consequências não tenham sido sempre agradáveis, foi graças a ela.
Há uma sede em mim. Hoje, ela não me assusta, nem me constrange.
Apenas me sento junto a ela e lhe sussurro ao ouvido: Sê bem-vinda.
Ela, tão impulsiva há de ser feminina, fica tentando escapar, sufocada demais pela rotina, presa às obrigações, escrava de impossibilidades: financeiras, psicológicas, e todas as finitudes próprias de ser alguém situado num único ponto geográfico, num breve instante da história.
Quando ela escapa aos laços, me vejo em outras cidades, em novas paragens, e o mundo inteiro torna-se meu destino. A danada me dá vontade de novas gentes, outros papos, e me faz acreditar contra toda experiência reafirmada que gente é bom demais, é feita, mesmo, pra brilhar.
Altiva, crescente, forma o arco de tensão que, de onde eu estou, me projeta pra além, me faz querer ir mais longe, me faz sentir o sabor doce do momento de forma apenas fugidia, porque é o porvir que interessa.
Ela precisa ser aplacada por outras instâncias em mim. Apaziguada amorosa e ardorosamente, para repousar em paz e me permitir conduzir a vida, de novo, de forma sensata, sem esta fome das coisas, esta ânsia de tudo e de mais.
Mas que não durma muito, que não se perca, porque reconheço que o que realizei com a marca do “realmente vivido”, ainda que as consequências não tenham sido sempre agradáveis, foi graças a ela.
Há uma sede em mim. Hoje, ela não me assusta, nem me constrange.
Apenas me sento junto a ela e lhe sussurro ao ouvido: Sê bem-vinda.
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