segunda-feira, 14 de março de 2011

Olha a cabeleira do Zezé

A Gafieira Elite resiste bravamente ao tempo. Não tão famosa quanto a Estudantina, tem, porém, um público fiel entre aqueles que gostam de arrasta-pé de salão. Inaugurada em 1930, fica no segundo andar do prédio que nos tempos do império, pertenceu ao sogro de Duque de Caxias.

A Elite, como em geral todo salão de dança antigo, é um ambiente bastante conservador, cheio de regras. Escândalo atual é a mania das senhoras desacompanhadas pagarem para dançar com jovens que, vindo de aulas de dança, encontraram nas sem par, uma fonte de renda. Os mais tradicionalistas torcem o nariz para a prática, ainda que o contrário, ou seja, dançarinas de aluguel seja comum nas gafieiras desde os anos trinta.

Pode-se imaginar então o apelo do pink money para que um salão tão tradicional se transforme no baile carnavalesco gay mais inusitado do Rio. Durante os dias da folia, só dá homens sem camisa pulando, se esfregando e beijando-se ao som de marchinhas e sambas-enredo.

As condições são precárias, o calor é infernal – ou seja quase todo mundo sem camisa – o chão de madeira range tanto que parece que a qualquer momento vai ceder, providencial que, no primeiro andar, funcione uma funerária. Além disso, o mezanino, escuro nos dias de baile, serve para práticas que deixariam escandalizadas as senhoras mais avançadinhas dos dias normais de gafieira.

O público é composto por uma ampla fauna: gente mais pobre em geral, os turistas que adoram e acham tudo exótico, os melhores cafuçús do Rio e é claro, os apreciadores da espécime macho-rústica.

Para sobreviver a um baile carnavalesco no elite você precisa de algumas habilidades fundamentais:

1) Não ser claustrofóbico, a escada de acesso é apertadíssima.
2) Não ser tímido pra mijar, só há uma latrina e o resto é um imenso mictório conjunto no banheiro.
3) Conseguir distinguir no breu os cafuçú-diliça da gente muito, muito feia que abunda (com trocadilho) no local.
4) Não ficar muito obcecado com substâncias que, porventura, venham a te atingir se você fizer a burrada de estar embaixo do mezanino de madeira.

Enfim, eu, como bom estudante de ciências sociais que sou, fui Terça de carnaval fazer uma experiência antropológica no local e garanto a vocês: se forem usadas todas as habilidades acima descritas, a diversão é garantida.

sexta-feira, 11 de março de 2011

Musiquitcha fófis

Eu adoro versãoes! Quem se lembra desta aqui cantada lá pelos 80 pelo Balão mágico?

Na voz de Tiê ficou uma graça. Curte aí e ótimo finde!

quinta-feira, 10 de março de 2011

Se você curte axé, livros de auto-ajuda ou acredita na força positiva do Universo que conspira a seu favor: Não leia este post

Há uma tristeza sólida, pesada, difícil de carregar que fica como pedra no caminho ou móvel mal posto no canto da sala, há toda hora se tropeça nela. Tristezas assim são dominantes, não são esquecidas, compõem letra, música e performance. Estão lá no vermelho dos olhos, no desânimo da vida, no quente e úmido travesseiro, porto seguro para estes dias.

No entanto, há também um vaporoso pesar que não impede nada, nem esparsas alegrias, risadas genuínas e momentos de real felicidade. Ele parece uma névoa, informe, porém de uma consistência tal que não se dissipa totalmente. Há pessoas que a tem na alma e numa era pré-psicologia tal sentimento dava nome há um dos quatro tipos básicos de temperamento: melancólico.

Melancolia é uma bela palavra. Politicamente incorreta no reino da felicidade compulsória, mas bela. E acho que define bem o que sinto há algum tempo. Cansaço que em sua extremidade mais longínqua, na fronteira que faz com a bruma densa de tudo que é interior, pessoal e incomunicável se faz melancolia.

Eu sei exatamente o porquê. Há exatamente cinco anos eu rompi com a minha vida e inventei uma radicalmente nova. E a verdade é que não estou onde quero. Os então novos sonhos desmoronaram como construções mal-feitas à beira de praias ridículas e a sensação de que o mundo de alguma forma me queria, abrindo seus braços para mim revelou-se, tão somente, um messianismo barato.

Eu sei o que eu quero. E estou no caminho. Mas, às vezes e cada vez mais repetidamente ele me parece longo, árduo e as pausas, em meio a risos, abraços de amigos e beijos ardorosos de amores breves porque sutis, se esgotam sempre insuficientes.

No reino da felicidade compulsória, no carnaval constante da vida os meus dias estão nublados, a minha Quarta é de cinzas e isto sem dor ou espasmos só esta coisa muda em meu peito, a névoa que a rodeia e a vontade de finalmente colher o que há tanto tempo planto. Mas quem manda nos ritmos da terra? Qual a lógica nos devaneios da história?

Eu respondo: Nenhuma. E o que fazer?
Continuar. Sim, há de se continuar

quarta-feira, 2 de março de 2011

Bem-vinda

Vez por outra desperta uma coisa aqui dentro de mim que pula.

Ela, tão impulsiva há de ser feminina, fica tentando escapar, sufocada demais pela rotina, presa às obrigações, escrava de impossibilidades: financeiras, psicológicas, e todas as finitudes próprias de ser alguém situado num único ponto geográfico, num breve instante da história.

Quando ela escapa aos laços, me vejo em outras cidades, em novas paragens, e o mundo inteiro torna-se meu destino. A danada me dá vontade de novas gentes, outros papos, e me faz acreditar contra toda experiência reafirmada que gente é bom demais, é feita, mesmo, pra brilhar.

Altiva, crescente, forma o arco de tensão que, de onde eu estou, me projeta pra além, me faz querer ir mais longe, me faz sentir o sabor doce do momento de forma apenas fugidia, porque é o porvir que interessa.

Ela precisa ser aplacada por outras instâncias em mim. Apaziguada amorosa e ardorosamente, para repousar em paz e me permitir conduzir a vida, de novo, de forma sensata, sem esta fome das coisas, esta ânsia de tudo e de mais.

Mas que não durma muito, que não se perca, porque reconheço que o que realizei com a marca do “realmente vivido”, ainda que as consequências não tenham sido sempre agradáveis, foi graças a ela.

Há uma sede em mim. Hoje, ela não me assusta, nem me constrange.
Apenas me sento junto a ela e lhe sussurro ao ouvido: Sê bem-vinda.

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Macho vintage

Se alguém quer entender do que é feito um macho tradicional, aquele que coça o saco, discute horas sobre futebol e quase desloca a retina ao passar uma gostosa, precisa ir a um boteco. É claro que não estou falando desses bares arrumadinhos, de origem paulista, que plagiaram a gloriosa alcunha. O sítio antropológico mais propício para a observação da espécime macho-alfa é aquele constituído por um balcão, um banheiro fétido e mais nada.

Ali na calçada em frente, os homens vêm e vão ao ritmo das garrafas que se esvaziam, com suas camisas abertas e piadas grosseiras, atrapalhando a vida de quem só quer fazer uso do seu sagrado direito de ir e vir. Falo com conhecimento de causa porque há um exemplar típico destes botecos na minha rua. Volta e meio quase esbarro com um cliente, o que seria uma pena, pois nenhum deles me interessa, a não ser o macho vintage.

Ele está quase todo dia ali, abriu um escritório de administração de condomínios literalmente do lado do bar. Uma única vez trocamos duas palavras sobre os malefícios da cerveja choca. O macho vintage é só um pouco mais baixo do que eu, cabelo de um preto tão intenso quanto o dos grandes olhos que se apertam para mirar as que passam. O ângulo entre os olhos quase cerrados e a boca que se abre num sussurro a comentar a beldade que se vai, forma a cara de safado mais gostosa que já vi.

Pra coroar a representação clássica do malandro-macho carioca há um bigodinho que, em qualquer gay seria uma reivindicação de “olha como eu sou moderno”, mas nele só faz atualizar gerações de malandros, hordas de homens viris, tornando-o a encarnação irresistível e certeira do homem que sabe fazer uso do que a natureza lhe deu: um bom pau no meio das pernas.

É claro que isto eu só imagino, pressinto ou desejo, enquanto no ordinário dos dias, nas sucessivas chegadas e saídas, olho-o rápido, num relance e, quase sem ar, sigo o meu caminho.

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

Piriguete: Dando uns perdidos

Eu já havia revelado bombasticamente aqui no blog que preciso, mensalmente, retocar o que a natureza não fez perfeito: pêlos, pêlos, muitos deles em lugares desnecessários. Minha fiel esteticista, Eliane, é incrível, mudou a minha vida, e sumiu misteriosamente há quase uma semana.

Eu, que já estava virando lobisomem, e nem sei se era lua cheia, resolvi apelar para qualquer uma que pudesse puxar impiedosamente a cera quente da minha pele levando junto os indesejáveis pêlos. Desta forma conheci Helena: jovem, paraense, loira à força.

Entre um “ai” e outro conversamos. Acabei dizendo que moro sozinho. Ela arranca com mais força a cera da minha orelha: -Eu também! Mais alguns puxões aqui e acolá, ela fala sobre namoro, diz que está noiva, mas emenda rapidamente:
- Eu, de vez em quando, dou uns perdidos no meu noivo, sabe? Ninguém é de ferro, né?

Solto um sorrisinho sem graça e brinco que estou solteiro porque namorar dá muito trabalho. Ela emenda: - Eu sou mulher, mas reconheço que a gente é fogo. Quer dizer que tá sem namorada? E joga, num gesto tão fake quanto possível, o cabelo loiro-milho pra trás.

-Na verdade quando eu namoro, eu tenho namorado.
-Ahh... jura? (cara de quem não vai comer doce na sobremesa) Poxa! Você nem parece.

E arrancou com tanta força a cera do menu nariz que pensei que o havia perdido... para sempre.

domingo, 20 de fevereiro de 2011

Amigos e “amigos”

A coisa mais sagrada do mundo inteiro para mim é a amizade. A relação mais espontânea, desinteressada, generosa porque não exclusivista é ela. Sem amigos e música a vida seria oca.

Amigos têm a liberdade de ir e vir, de permanecerem próximos ou orbitarem em grandes distâncias, de provocar a mesma alegria no encontro cotidiano ou na rara e breve conciliação de agendas.

Dos amigos me alimento e vivo. Eu como seu amor, bebo suas risadas em tardes despretensiosas, me reconheço em seus abraços e fico sempre mais bonito quando retratado em seus olhos.

Entre amigos o amor se expande e se recolhe, se torna magnânimo e forte, íntimo e sutil, ao ritmo das bobagens gargalhadas em alto e bom som ou das delicadezas e dores quase ao pé do ouvido. Entre amigos o amor circula livre, denso, quase palpável e todos ficamos mais belos.

E o “amigo”? Bem, ele é aquele que não merece esta linha que digito. Não se alegra com a sua alegria, nem se orgulha com sua força, não se congratula com seus trabalhos e esforços. Permanece próximo, mas à espreita, só para, no momento de um fracasso qualquer, regozijar-se até sentir um frêmito por dentro e ter ocasião de se auto-desculpar pela própria mediocridade e lapso de vida.

Aos amigos tudo.
Ao outro: Please, get a life!

P.S. Tem um monte de gente para eu retribuir a bem-vinda visita aqui, eu chego lá, ok? Ótima semana!