quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

Trecho

Virou-se e a partir da janela, desenhada na parede longínqua, no outro extremo do quarto, adivinhou a luz tênue que recortava fantasmagoricamente os poucos móveis do lugar àquela hora. Ao seu lado, o outro se mexeu. Não precisou se virar pra saber que se levantava e ia em direção ao box: Pode usar a toalha azul. Ok. Respondeu o outro. Em sua própria boca sentiu o ácido suor alheio que ainda lhe impregnava os sentidos. Aqui e ali pelos claros em contraste com seus densos pentelhos negros. O pau murcho, caído de lado, exausto. O tempo do membro rijo é tudo o que soube do outro. Seu nome. Você vem sempre aqui? Tenho este DVD lá em casa. E então todo o amor possível entre o erigir-se e o descanso exausto de um pau que, um pouco antes, ofegava em jarros quentes e torpes sua porra branca sobre o peito do outro. A intimidade do que há entra as pernas, o namoro do cú. Era noite quando o outro saiu com um educado e inútil: a gente se fala.

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

Blogsville, lugar real

Os mineiros e o que está em minas, Paulo Braccini, Wanderley e Foxx, já relataram nossa agradável convivência na capital mundial dos bares e pães de queijo durante o Reveillon. Devo aqui confessar uma vaidade: adoro ser citado nos blogs. Sinto-me felicíssimo quanto viro personagem real nestes cantinhos de palavra que adoro ler e comentar.

Paulo Braccini e Wanderlei são um agradável mistério para mim. Tão, já a primeira vista, diferentes um do outro e tão numa sintonia fina. Eu que sempre fico pensando no que se perde, e as vezes me perco de mim mesmo, numa relação e no que se ganha do outro tive a impressão que os dois só vem se encontrando a trinta e seis anos, porque sabem muito bem quem são, o que querem e o que esperar um do outro. Caso típico de “eu quero ser assim quando crescer”.

Foxx é de uma sagacidade incrível. Tem um olhar que desnuda tudo e no qual rapidamente você percebe que ele atingiu o ponto em questão de um assunto, ou até de uma pessoa. Foi um ótimo companheiro e um fofo, se prontificou a me hospedar e me conduzir pela cidade, caso não eu conseguisse entrar em contato com meus amigos de Bel Zonte.

Este sábado temos, no Rio, o nosso terceiro encontro de blogueiros. O primeiro foi um café, ainda tímido e de pouco quorum, na Farme de Amoedo, Ipanema. O segundo foi no meu lugar do coração: a Lapa, com cerveja de garrafa e botequinho GLS-Chinfrim. Meti o pé na jaca. Se o meu, então sabe-se-lá namorado, não tivesse vindo me resgatar acho que nem levantar da cadeira teria sido possível. Agora nos encontraremos na charmosa Rua do Rio num shopping que era uma antiga fábrica. Especialmente por causa do Daniel que se recupera, muito bem, do incidente sofrido. Desta vez, infelizmente não teremos intercâmbios interestaduais, Paulo não poderá vir. Adoramos ele de cara, e o esperamos, assim, como outros tantos queridos em uma bem próxima ocasião.

Borboleta esteve aqui num vôo rápido, mas tão gostoso que a espero ansioso com mais calma e muito mais cerveja, em Abril, junto com S. para bebermos tudo e falarmos muito mal dos homens.

Rafa está vindo pro Rio de férias. E já acertamos uma praia. Oportunidade não vai faltar se continuar este calor senegalês que faz há dias na cidade maravilhosa. Outro que aporta em terras cariocas é o Introspective. Já falamos em um pós-praia qualquer por Ipanema.

2011 promete! E se você é do Rio ou estará por aqui no sábado, anota aí e aparece:

III MEDDIOTEXX

Dia: 15/ 01/2011
Local: Shopping Nova América (tem uma saída do metrô lá dentro)
Horário: 18h

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

Sobre o perigo da combustão espontânea

Ontem eu explodi de maneira exagerada e ridícula com alguém que, só me fez sentir um pouco, algo que detesto: a minha falta de atitude em situações que clamam por uma. Nem dez minutos depois eu percebi que a minha reação firme e auto-defensiva estava completamente deslocada no tempo e no espaço. Atrasada dias, deslocada quilômetros. E então, a raiva de mim mesmo, a vergonha pelo exagero da resposta despropositada, e a constatação que há um irritante delay nas minhas reações tudo aflorou.

E o que eu fiz? Expliquei por alto para a minha vítima o ocorrido, que se tratava de um jorro de palavras há muito fermentadas e nauseadas no meu estômago e que, coitado, fora sobre ele o ocre e terrível jato, como poderia ter sido qualquer outro.

Na verdade, teria que ter sido sobre mim. Porque tem horas em que dizer que você vai dormir na sua casa e que o outro passe bem é a atitude mais digna que se pode tomar. Na falta dela, o sapo fica pulando no seu estômago até que desesperado sai por sua boca, na primeira oportunidade que tem.

Depois de tudo, resta confiar na sabedoria agrícola de que é fazendo merda que se aduba a vida, sentar no sofá com uma boa taça de vinho e deixar Nina Simone soprar ao seu ouvido suas mágicas canções.

Parece que deu certo. Hoje é outro dia e, lá fora, o sol brilha indiferente a tudo.

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

Os 7's

Então, O Rodrigo, um dos blogueiros mais naturalmente sofisticados de BlogsVille, me indicou para este "jogo dos sete" aqui. Vindo de um querido como ele não tem como recusar, né não? Ei-lo.

7 COISAS QUE TENHO QUE FAZER ANTES DE MORRER:

1 – Viver um real, sólido e infinito enquanto dure grande amor, com direito a todos os clichês ridículos de comédias românticas.

2 – Ficar um mês em Nova Iorque e tomar vinho em copos de café (tipo starbuck’s) andando por um gelado Central Park.

3 – Conseguir ganhar a vida especializando-me em questões de gênero e diversidade sexual.

4 – Ampliar ainda mais meu espectro de amigos incríveis e absolutamente essenciais.

5 – Mergulhar em profundidade.

6 – Morar, um tempo, fora do Rio, do País.

7 – Experimentar que nenhum esforço foi inútil e que, de uma forma ou de outra, tudo valeu a pena.

7 COISAS QUE MAIS DIGO:

1 – Sério?

2 - ... da porra!

3 – To com uma fome!

4 – Chega logo Sexta-feira!

5 – Bora beber?

6 - ... de cu é rola.

7 – Me passa o sal, por favor.

7 COISAS QUE FAÇO BEM:

1 – Dar aula

2 – Ouvir os amigos

3 – Beijar na boca

4 – Café

5 – Cafuné

6 – Terminar namoros (é sério...)

7 – Escolher trilhas sonoras

7 DEFEITOS MEUS:

1 – Quando quero mesmo... inseguro.

2 – De modo geral, eu acho as pessoas chatas (rs...)

3 – Facilmente irritável

4 – Indeciso muitas vezes

5 – Muito distraído!

6, 7 – Alguém completa a lista aí, mas com jeitinho, ok?

7 COISAS QUE AMO:

1 – Amigos

2 – Música

3 – Dias livres

4 – Pôr-do-sol

5 – Café

6 – “A aprendizagem ou o livro dos prazeres” (Clarice Lipsector)

7 – Liberdade

7 QUALIDADES:

1 – Fidelidade canina aos amigos

2 – Reta intenção

3 – Bom-humor ( a maior parte do tempo...)

4 – Otimismo (ou ingenuidade?)

5 – Paixão ( entenda de forma beem ampla...)

6, 7 – Completa aí, gente!

E as sete vitimas a responderem são:

Dan, do Naipes Flamejantes

Rafa do Cinzeiro Lotado

e todos os demais que quiserem!

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

Muito mais que lagartixa

Lembro de quando era criança e, estupefato, soube que o rabo da lagartixa se regenera depois de cortado.

Hoje, adulto, percebo que a lagartixa é fichinha perto da fibra de que nós, os seres humanos, somos feitos. Nos rasgamos, ferimos, acumulamos uma série imensa e diversificada de contragostos e, no entanto, choramos um pouquinho, praguejamos contra os céus e logo nos pomos a caminhar.

Vale tudo pra isto, marcar datas para recomeços: segundas, inícios de mês, anos-novos; inventar rituais e mandingas infalíveis para deixar o incômodo para trás e sentir-se de fato novo, virgem, limpo para o que ainda virá.

Eu, como todos nós, sou um sobrevivente. E um insistente na vida. Esta capacidade de ir mais além, de não acreditar no fim, de sofrer pacas, mas continuar, tudo isto é o melhor de mim. Não tenho sempre a firmeza emocional que gostaria, minha vida profissional não é o resultado de metas claras e certeiras que tracei a muito, mas isto eu tenho: a coragem de prosseguir, de refazer, de aquentar, de pé, os resultados todos das minhas escolhas e ainda aquilo que de inesperado cai sobre mim.

Num mundo onde a instabilidade é a regra, no jogo de aparências que constitui o real, que nos lembremos a todo instante de que há força em nós, há esta disposição e coragem que nascem sabe-se lá de onde e se, vez por outra, também estas declinam, que as recarreguemos em ombros disponíveis e nos colos afetuosos daqueles que amamos.

Que venha 2011!

quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

Declaração universal de todos os direitos

Eu já beijei todas as bocas, conheço o gosto, o traquejo, as maneiras das línguas. Antecipo as palavras que serão sussurradas aos ouvidos, adivinho sem dúvida ou surpresa os pequenos gestos ensaiados de encantamento.

Por isto o desejo não é mais aguilhão, frêmito, o imponderável que rasga a banalidade dos dias e emerge quando quer. O desejo é a mercadoria exposta nas prateleiras, é o contido nos rótulos do supermercado, se consegue ainda mais barato nas bancas dos camelôs. O desejo é só uma lembrancinha, não repara. Uma palavra entre outras duas no dicionário, substantivo masculino.

Afeto. Amigos à mesa de bar. Telefone: Você está bem? Beijo na boca, corpos ardendo e abraço apertado. Mão bagunçando o cabelo. O nome. Meu nome. Seu nome.

É o afeto que vê o outro. Mira lá dentro dos olhos e compreende tudo o que não se precisa explicar.

Declaração universal de todos os direitos: Há de se ter e se dar afeto. Perto ou longe, hoje ou para sempre. O que importa é que seja em todo agora possível.

P.S. Querid@s, agora só em 2011! Um ano maravilhoso pra todos nós.

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

Madá, ô Madá, ô Madalelelelena...

Dona Madalena nasceu em 1916, numa vila próxima à cidade do Porto em Portugal. Da mesma forma que tenho dificuldade em processar a informação de que há pessoas no mundo que nasceram depois de 1990, muito estranho isso, também não consigo entender como, por exemplo, quando estourou a segunda guerra mundial que é uma das várias coisas que a gente vê em livros e filmes sobre o passado, D. Madalena na ocasião já estivesse na flor de seus 23 anos.

Quem a vê, respeitável senhora de cabelos pintados à castanho, de uns anos pra cá com uma elegante bengala, e, depois de décadas de Brasil, ainda um forte sotaque lusitano, não imagina as peripécias de Madá. Não só a beira do fogão, de onde, Domingo ao cair da tarde surgiam deliciosos pastéis de queijo, nem da incansável colher cheia de comida que, à menor distração dos pobres netos, punha mais um bocado no prato. Afinal, tudo isto são coisas de avó.

Descobriu-se recentemente, e isto é uma daqueles segredos que pairam constrangedores e silenciosos sobre as ceias de natal, sendo sussurrados em conversas esporádicas na cozinha, que D. Madalena, cansada de esperar pela decisão de ser desposada pelo Senhor Augusto, resolver meter o pé na porta e apelar para a velha tática portuguesa do “ou vai, ou racha, ora pois”. E sendo assim, engravidou antes de noivar, em 1946. Seria perdoada pelos anais da história, um caso clássico de baby boom pós-guerra, deve ter premeditado a auspiciosa e, até então, senhorita. Deus certo, Seu Augusto, português e boêmio inveterado, casou.

Perdi meus dois avôs com pouco tempo entre um e outro. D. Elvira ficou arrasada, teve depressão e veio morar conosco. D. Madalena pintou as unhas de vermelho, mudos os móveis da\sala e queria saber de todos, na missa de sétimo dia, o que acharam da blusa nova que tinha comprado para a ocasião. Tem gente que pára, tem gente que olha pra frente e vai como pode.

No último Natal, D. Madalena decidiu que vai comprar um Ipad. Ficou encantada com o aplicativo do gatinho que repete o que se fala e pode ser alimentado com leite da Apple. Eu olhava pra ela e pensava o que esta mulher já não viu surgir ao longo da sua vida! E ela ali, no sofá, girando o Ipad e rindo de se engasgar com o gatinho virtual.

Sábia que só, vai ao seu jeito, driblando o inexorável tempo. Marca eventos depois dos quais até pode, feliz, partir dessa pra melhor. Primeiro era a minha consagração na vida religiosa, depois, uma semana antes desta, o casório da minha irmã, agora o primeiro bisneto.

D. Madalena me olha desconfiada e pergunta se, agora que não sou mais religioso, não vou casar. Ela é a única pessoa no mundo inteiro para quem eu não faço questão nenhuma de sair do armário, vovós nonagenárias definitivamente não precisam saber de tudo.

Meu único bom propósito para o ano que se avizinha é visitar mais D. Madalena, afinal, sabe-se lá até quando a velhinha vai conseguir passar a perna no carrancudo Sr. Tempo.